Episódios de hoje…
“Civilization” (“Civilização”; ENT 1×9, 2001)
Onde assistir: Paramount+
“Dear Doctor” (“Caro Doutor”; ENT 1×13, 2002)
Onde assistir: Paramount+
“A Private Little War” (“Uma Guerra Particular”; TOS 2×19, 1968)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“Pen Pals” (“Correspondentes”; TNG 2×15, 1989)
Onde assistir: PlutoTV*
“Who Watches the Watchers” (“Quem Observa os Observadores”; TNG 3×4, 1989)
Onde assistir: PlutoTV*
“First Contact” (“Contatos Imediatos”; TNG 4×15, 1991)
Onde assistir: PlutoTV*
* Somente dublado
Naves espaciais supertecnológicas viajando por uma galáxia cheia de povos em diversas fases de desenvolvimento poderiam facilmente ter se tornado uma força invasora colonialista, impondo seu modo de vida a sociedades menos avançadas. Mas não era esse o futuro a ser retratado em Star Trek.
A criação da Primeira Diretriz foi uma excelente sacada para explicar por que esse universo não é centrado em um império autoritário, e sim numa utópica união de planetas. A autodeterminação dos povos é um princípio do direito internacional estabelecido desde a formação da Organização das Nações Unidas na década de 1940. A primeira diretriz das séries de Gene Roddenberry traz a essência desse conceito aplicada ao encontro com civilizações em outros mundos.
Basicamente, a Primeira Diretriz é um princípio de não intervenção, e ela tem graus de aplicação. O mais severo é para civilizações que ainda não alcançaram as viagens espaciais em velocidade de dobra. Nesse caso, oficiais da Frota Estelar não podem revelar que são de outro mundo, muito menos que viajam pelo espaço nem qual é sua missão. Quando as civilizações já são avançadas tecnologicamente, é preciso respeitar as leis locais e não tomar partido em conflitos de que eles façam parte.
As histórias que falam sobre a primeira diretriz envolvem os dilemas éticos de sua aplicação. Como não se deixar levar pela compaixão quando se recebe um pedido de ajuda que, segundo as regras, não pode ser atendido? E como evitar mudar o destino de todo um povo ao contaminá-lo com informações que podem mudar o curso de seu desenvolvimento?
A série Enterprise é a que se passa numa época mais próxima do nosso presente, na qual não existia nem Primeira Diretriz, nem Federação. Mas as histórias deixam evidente a falta que esse conceito faz. No episódio “Civilization” (“Civilização”; ENT 1×9, 2001), a tripulação está animada ao encontrar um planeta habitado por milhões de seres em estágio pré-industrial. Logo de início percebemos que a vulcana T’Pol não está tão entusiasmada e recomenda que se evite contato com o planeta até que seu povo adquira dobra espacial, assim como os vulcanos fizeram com os terráqueos quase cem anos antes daquele momento. Os vulcanos já têm um princípio de não interferência e ela acha prudente que a Frota adote isso também. Mas a tripulação do capitão Archer age como se o planeta fosse um museu onde eles poderiam brincar de viver no passado e resolvem descer assim mesmo, disfarçados como os nativos.

Hoshi tem sua aparência alterada para parecer uma akaali em “Civilization”.
Eles logo notam que há sinais da presença de um reator avançado demais para estar ali e que os habitantes, os akaali, estão com sinais de uma doença. É interessante notar que o episódio coloca os humanos no papel de ETs, aterrissando em fazendas para evitar detecção e considerando raptar um morador local para fazer exames e determinar a causa da contaminação, ideia que T’Pol pede que descartem, lembrando que na Terra havia muita gente traumatizada por conta de abduções alienígenas.
Archer descobre que uma raça de reptilianos está no planeta, também disfarçados, para extrair um composto usado na fabricação de explosivos. Essa atividade também é a responsável pela doença que se espalha pelo planeta.
Os poucos cuidados tomados nessa missão em relação à contaminação cultural são todos devidos aos avisos de T’Pol. Quando Archer consegue espantar os reptilianos, ele deixa um suprimento de remédios para que sua aliada local, uma apotecária de quem ele fica bem próximo, consiga curar a todos. Não há discussão sobre se aquilo deve ou não ser feito nem um controle de danos mais rigoroso. Fica a impressão de que esse tipo de cuidado não faria parte das preocupações de um capitão.
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Alguns episódios mais tarde, chegamos a “Dear Doctor” (“Caro Doutor”; ENT 1×13, 2002). Aqui enfim vemos Archer ponderar seriamente sobre até onde se deve interferir no desenvolvimento de um outro mundo. A Enterprise encontra um planeta onde duas espécies humanoides se desenvolveram em paralelo, em vez de uma só. A raça mais avançada intelectualmente, os valakianos, construiu uma civilização bem tecnológica, ainda que não tenha velocidade de dobra, mas está sofrendo com uma doença muito grave e que eles não conseguem tratar. O outro povo, menk, acaba sendo subalterno a eles e colocado para realizar trabalhos braçais, mas nenhum deles tem sinais de contaminação. O dr. Phlox percebe que o mal que acomete os valakians é, na verdade, genético e parece ser resultado da evolução da espécie, infelizmente condenada à extinção.
Daí vem o dilema: os valakianos pedem a Archer acesso à tecnologia de dobra, para poderem buscar outros povos que, talvez, poderiam lhes dar a cura. Phlox pondera que enquanto os valakianos estão em um beco sem saída do ponto de vista evolutivo, os menk estão em ascensão e podem passar a dominar o planeta em alguns milhares de anos, se tiverem a oportunidade. Archer se revolta com a ideia de não ajudar os valakians. Mas Phlox rebate: e se alienígenas tivessem dado um empurrão genético aos neandertais em detrimento do Homo sapiens milhares de anos atrás? A vida na Terra poderia ter sido radicalmente diferente. Archer não conta com a Primeira Diretriz para orientar o que ele deve fazer. “Até termos um tipo de diretriz, todos os dias eu vou ter de me lembrar que não estamos aqui para fazer o papel de Deus”, conclui, contrariado.

Archer deprimido após conversar com Phlox (ao fundo) em “Dear Doctor”.
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Mal sabia ele que, mesmo com a primeira diretriz já bem estabelecida, o risco de ser confundido com Deus continuaria. Foi o que aconteceu com o capitão Picard em “Who Watches the Watchers” (“Quem Observa os Observadores”; TNG 3×4, 1989), um dos melhores episódios a explorar a questão da contaminação cultural.
A Enterprise é chamada para ajudar um grupo de antropólogos da Federação que observavam, ocultos por uma parede de pedra holográfica, uma civilização primitiva similar aos vulcanos da antiguidade. Os equipamentos deles falham e eles acabam sendo expostos a dois moradores de uma vila próxima. Pior, um deles, Liko, toma um choque dos aparelhos e sofre uma queda. Como ele já havia visto o observatório dos cientistas, a dra. Crusher rapidamente o leva para a Enterprise. Liko é tratado e devolvido ao planeta Mintaka III depois de ter sua memória recente apagada. Ao menos a médica havia tentado fazer isso, mas infelizmente não funcionou. Ele conta à sua filha sobre a experiência na nave, dizendo que ele foi curado por seres superiores a serviço “d’O Picard”, como se o capitão fosse uma entidade sobrenatural.
Como um dos cientistas ainda está perdido e ferido no planeta, a conselheira Troi e o comandante Riker são disfarçados cirurgicamente de mintakans para procurá-lo. E aí eles entendem qual foi o tamanho do estrago. A vila inteira já está sabendo da história mágica do “deus” Picard e, pior, Liko começa a tomar atitudes questionáveis para agradar à entidade. Os locais acham o cientista ferido e o prendem porque seria o que “O Picard” gostaria.
Nada parece dissuadir Liko e seus colegas de que os deuses antigos estão de volta. A cultura de Mintaka III estava se encaminhando para a valorização da ciência, e há muito tempo seus habitantes haviam deixado de cultuar entidades. Além de serem fisicamente similares aos vulcanos, os mintakans também davam cada vez mais importância ao pensamento lógico. Mas a aparição dos cientistas da federação colocou tudo isso em xeque.
Sem outra saída, Picard transporta a líder da vila a bordo da nave. Ele mostra que a suposta magia divina é, na verdade, tecnologia. Mas ela só se convence quando vê uma das cientistas que estavam em Mintaka, muito ferida, morrer na enfermaria. Só então ela entende que o povo “d’O Picard” também tem suas limitações e é tão mortal quanto ela. De volta à superfície, uma demonstração similar é necessária para convencer Liko de que Picard não é um deus. Ele atira uma flecha e o capitão sangra. Picard acaba tendo que explicar o contexto todo ao povo de Mintaka: sobre o laboratório de observação, a Federação, a primeira diretriz, tudo. E eles parecem compreender bem, mostrando que mesmo povos primitivos podem ter maturidade para entrar em contato com civilizações mais avançadas sem se prejudicar tanto. Será que a Primeira Diretriz não corre o risco de subestimar outros povos? O avanço tecnológico inferior ao da Federação não necessariamente quer dizer imaturidade em outros aspectos.

Picard ainda se recupera da flechada dada por Liko em “Who Watches the Watchers”.
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E, por outro lado, uma sociedade tecnicamente mais avançada pode ser virada de ponta cabeça por conta de um primeiro contato. No episódio “First Contact” (“Contatos Imediatos”; TNG, 4×15, 1991), Riker é enviado, sob disfarce, a Malcoria, um planeta que está prestes a atingir a dobra especial. Por isso, eles já estavam sendo observados bem de perto pela Federação, que havia colocado alguns oficiais ocultos no planeta, além do próprio comandante. Mas Riker acaba se ferindo e sendo levado a um hospital. Os médicos percebem que ele tem outra anatomia por debaixo das alterações cosméticas feitas para que ele se parecesse com os moradores locais. Os rumores de uma presença alienígena começam a causar pânico no hospital.
Já se percebe que existem duas posições em conflito no planeta: Mirasta, a cientista que lidera o projeto do motor de dobra em Malcoria, é contactada pelo capitão Picard, ouve a explicação e entende o objetivo da Federação ao estar presente no planeta de forma oculta. Por outro lado, os líderes políticos entram em paranoia ao saber disso, com medo de que a vigilância alienígena tivesse motivos menos nobres do que um primeiro contato pacífico. Pior, eles temem que os habitantes do planeta entrem em parafuso ao saberem não só que existem alienígenas, mas que eles seriam mais avançados. É uma ameaça existencial ao modo de vida malcoriano. Um dos dirigentes chega a se atirar com um phaser para tentar incriminar Riker. A conclusão dos líderes do planeta é dar um passo atrás. Nós, vendo tudo isso pelo ponto de vista dos protagonistas da Federação, ficamos frustrados com os governantes de Malcoria. Parece uma insanidade recusar o progresso. Mas a própria celeuma causada pela presença extramalcoriana no planeta deixa claro que eles não estão prontos para se juntar a uma comunidade interplanetária.

Médica em Malcoria se assusta com os dedos “diferentes” de Riker em “First Contact”.
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Ao menos eles tiveram escolha, diferentemente dos habitantes do planeta Neural. Os perigos da intervenção externa em uma civilização dividida também é o tema de um dos episódios da série original a tratar da Primeira Diretriz: “A Private Little War” (“Uma Guerra Particular”; TOS 2×19, 1968). No episódio, o capitão Kirk e sua equipe visitam Neural que, até onde sabiam, era primitivo e pacífico. Mas eles se surpreendem ao ver que uma parte dos habitantes estava usando armas de fogo – e Spock leva um tiro já no início na história. Para piorar, uma nave klingon se aproxima.
Kirk e McCoy se disfarçam como nativos para voltar ao planeta e investigar a origem do armamento de fogo. Eles repetem por diversas vezes entre si que, por ordens da Frota, não devem interferir com o desenvolvimento daquela sociedade. Mas ainda há muitas incongruências na abordagem da primeira diretriz em relação ao que é estabelecido pelo próprio episódio e nas séries de décadas mais tarde. Kirk já havia passado uma temporada no planeta anos antes e revelado sua identidade a um habitante local, Tyree, que agora lidera a tribo desarmada (todos de perucas loiras bem volumosas). Só esse contato já seria uma violação das regras, ainda que o aldeão tenha prometido guardar segredo. Kirk e McCoy descem ao planeta com phasers e o médico até usa a arma para aquecer pedras enquanto o capitão se recupera de uma mordidinha de mugato (aquele gorilão com chifre). Com certeza faltou cuidado a McCoy, que se deixa observar por Nona, esposa de Tyree, uma espécie de bruxa cheia de ambição.

Tyree e sua mulher, a feiticeira Nona, em “A Private Little War”.
A fogosa Nona exige que os oficiais da Frota armem seu marido contra a facção rival que havia obtido armas de fogo. Kirk e Nona têm um intenso debate sobre a questão da intervenção. Para ela, a ajuda da Frota é questão de vida ou morte, já que os inimigos de sua tribo estão em vantagem. Já Kirk pondera que no passado, na Terra, as armas se desenvolveram mais rápido do que a consciência do povo, e os humanos quase se aniquilaram. Por isso, diz ele, foram criadas as regras de não intervenção que ele está seguindo. Nona não se convence, e ainda resta a Kirk a dúvida sobre como um povo ainda tão primitivo poderia ter obtido espingardas.
Logo eles descobrem que os culpados são os klingons. Eles estão ensinando a tribo dos morenos do planeta a fabricar armas de fogo e estimulando-os a adotar uma cultura de violência para futuramente integrarem o império klingon. Kirk decide, então, fornecer armas equivalentes ao lado liderado por Tyree. McCoy se opõe com veemência, mas o capitão defende sua decisão. “Um equilíbrio de poder”, diz Kirk. O médico lembra que o conflito pode escalar, com cada lado recebendo armas cada vez mais poderosas. Seria uma guerra por procuração entre humanos e klingons, como tantas vezes já vimos na vida real entre as superpotências, e como estava ocorrendo na década de 1960 no Vietnã. E é o que ocorreria em Neural. Kirk pede ao engenheiro Scotty que reproduza cem pederneiras, “cem serpentes para o jardim do éden”, diz o capitão, decretando o destino violento para o antes pacífico planeta.
Claro que os klingons foram os culpados pela contaminação cultural inicial, mas isso justificaria a mão pesada de Kirk no conflito? E como justificar deixar uma tribo ser aniquilada por outra sem chances de defesa? A Primeira Diretriz não tem uma resposta para isso.
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A regra acabaria quebrada, mais uma vez, por conta de um singelo pedido de socorro. Em “Pen Pals” (“Correspondentes”; TNG 2×15, 1989), a Enterprise está passando por um sistema planetário com instabilidades sísmicas graves. Sem o conhecimento do capitão, o comandante Data capta uma transmissão de rádio feita por uma criança que pergunta: “Tem alguém aí?”. O androide responde.
Quando o capitão Picard descobre essa correspondência entre Data e a criança, cujo planeta está sendo sacudido por terremotos fortíssimos que podem matar todos os seus habitantes, ele reúne sua equipe sênior, o que leva a um debate tenso sobre a aplicação da Primeira Diretriz. Para a dra. Pulaski, não há dúvidas: é imperativo ajudar os moradores de Drema IV. Os outros ponderam: e se a destruição for o destino do planeta, parte do “plano cósmico”? A conselheira Troi rebate: o fato de a Enterprise estar ali também pode ser parte desse destino. Picard dá a cartada: então no caso de um desastre natural, deve-se intervir? De uma epidemia? Mas e se a ameaça for uma guerra? Aí fica mais difícil ter tanta certeza. A primeira diretriz não protege somente os habitantes de outros planetas contra intervenções indevidas, mas também os oficiais da Frota de suas próprias emoções. Ele ordena que as conversas com a menina sejam encerradas de imediato.
Mas quando o capitão escuta a voz da pequena Sarjenka chamando pelo comandante, seu coração derrete. A pequena com dedos longos e cabelo de roqueira dos anos 80 reclama dos tremores e pede desesperada uma resposta de Data. A decisão está tomada.

A pequena Sarjenka com seu amigo Data em “Pen Pals”.
Data acaba tendo de descer ao planeta para evitar que a menina seja pega pelos tremores e a leva para a nave. A contaminação cultural só piora, para a aflição crescente de Picard. Mas a dra. Pulaski dá um jeito de apagar a memória recente da criança para que ela não se recorde da visita à Enterprise. Data a leva ainda adormecida de volta para o planeta, já menos estremecido depois que Picard e sua equipe deram um jeito de estabilizar a atividade sísmica por ali e salvar milhões de pessoas. Mas o androide deixa uma pedrinha musical que Sarjenka havia visto na nave como lembrança, numa atitude sentimental bem contraditória a todo o esforço de minimizar a violação da primeira diretriz e também à teórica impossibilidade de Data sentir emoções.
No dilema entre a compaixão e a regra, a compaixão venceu.
Gostaria de dedicar este texto à memória de Alice Maria Chieregati, que foi minha professora de biologia na década de 1990 e faleceu nesta semana. Alice era uma professora especial para mim e incontáveis alunos e foi uma grande influência trekker. Foi pelas mãos dela que consegui assistir a “The Best of Both Worlds” e tantos outros episódios que ela me emprestou em VHS. Muito obrigada por tudo, professora Alice.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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