DS9 1×18: Duet

Aamin Marritza em Duet

Primeiro grande clássico de Deep Space Nine

Sinopse

Data estelar: 46925.1 

O passageiro de um cargueiro recém-chegado solicita atendimento médico para uma doença chamada síndrome de Kalla-Nohra. Kira imagina que ele seja uma das vítimas bajorianas de um acidente de mineração no campo de trabalhos forçados de Gallitep, estabelecido em Bajor durante a ocupação cardassiana. Mas, quando ela chega à enfermaria, se choca ao ver que o paciente é cardassiano.

Ele se identifica como Aamin Marritza, e ela o quer detido, mas os registros não o acusam de qualquer crime de guerra. Kira alega que a única forma de ele ter contraído a doença seria por ter participado dos horrores de Gallitep. Sisko interroga Marritza, que nega ter estado no campo de concentração e alega ter uma doença parecida, Síndrome de Pottrik, que usa o mesmo medicamento. O exame de Bashir, contudo, confirma que é de fato Kalla-Nohra.

Aamin Marritza sendo examinado pelo Doutor Bashir

Instigado por Kira, Kaval, ministro de estado bajoriano, quer julgar Marritza por crimes de guerra. Sisko ainda não está convencido de que deve deter o homem, que nada fez de errado, e coloca Odo no comando da investigação, mas Kira insiste em liderar o esforço, e ele acaba cedendo. Kira interroga Marritza, que admite ter servido no campo de trabalhos forçados como arquivista, mas sem qualquer conexão com as atrocidades cometidas por gul Darhe’el, o açougueiro de Gallitep.

Ao saber do incidente, gul Dukat entra em contato com Sisko para solicitar a imediata soltura do cidadão cardassiano detido. Kira, por sua vez, está questionando sua própria motivação: ela quer justiça ou vingança? Sisko confirma que a história de Marritza, de que ele era um arquivista, bate com os dados nos Arquivos Centrais Bajorianos. Neles, também consta a única imagem conhecida de Marritza em Gallitep. A análise, contudo, sugere que o homem identificado com Marritza na foto em nada se parece com o detido, que por sua vez é a cara de gul Darhe’el — alguém que todos presumiam estar morto.

Sisko interrogando Marritza

Kira confronta o homem detido com essas novas informações e ele admite ser Darhe’el e manifesta zero arrependimento pelos massacres cometidos e zombando das ações dela como parte da resistência bajoriana. Ao contar isso a Odo, o comissário estranha que alguém como Darhe’el tivesse conhecimento de membros de uma pequena célula de resistência. Ele manifesta sua desconfiança, e questiona Dukat, que volta a repetir que Darhe’el está morto.

Kira então torna a interrogar Darhe’el, que mais uma vez é extremamente rude e sanguinário em seus depoimentos. Odo então chega com novas informações: ele e Bashir puderam determinar que aquele homem queria ser detido e veio à estação para isso. Arquivos cardassianos indicam que Darhe’el não estava em Gallitep durante o acidente que causou todos os casos conhecidos de síndrome de Kalla-Nohra. Mais que isso, Bashir descobriu que o homem detido passou por procedimentos para mudar sua aparência por meio de cirurgia — ele foi transformado para se parecer com Darhe’el.

Kira na sala do Odo após conversar com Marritza

Kira volta a confrontá-lo e ele finalmente cai em si, admitindo ser Marritza, um cardassiano horrorizado pelo que ocorria em Gallitep. Corroído pelo remorso, ele decidiu se passar por Darhe’el e ser julgado pelos bajorianos para dar alguma medida de justiça e obrigar Cardássia a se desculpar e se redimir do terror que promovera em Bajor. Kira decide então deixá-lo partir, admitindo que ele não era culpado. Quando os dois caminham pelo promenade, um bajoriano esfaqueia Marritza pelas costas. Ao ser questionado sobre o motivo, ele diz: “Era um cardassiano. É razão suficiente.” Ao que Kira é obrigada a admitir: “Não, não é.”

Comentários

Faltando apenas mais um episódio para fechar a primeira temporada, recaiu sobre “Duet” o peso de ter que ser um episódio de baixo orçamento, o famoso bottle show. Mas baixo orçamento não necessariamente significa um episódio fraco ou ruim. Muito pelo contrário. Deep Space Nine produziu aqui o seu primeiro grande clássico. Um daqueles episódios que será lembrado para sempre e constará em praticamente todas as listas de melhores episódios da série. Ouso dizer, que mais do que isso, é o melhor episódio não só de Deep Space Nine, mas também de todas as Jornadas.

Title Card Deep Space Nine Duet

Como o próprio nome do episódio diz, ele é um dueto entre personagens, o que nos remete a um roteiro extremamente bem escrito, com diálogos afiados, desafiadores, e que ficaram para sempre na memória de quem assistiu. Ou você vai negar que cada vez que ouve Marritza dizendo a Kira que o que ela chama de genocídio ele chama de um dia de trabalho, não é como se tivesse levado um soco no estômago? E esse é apenas um de muitos exemplos de diálogo entre os dois. O roteiro também traz elementos importantes para a história entre Bajor e Cardássia, as consequências da Ocupação, o peso que isso teve nos bajorianos, e em especial na major Kira Nerys. Esse único episódio desenvolve a personagem de forma gigantesca e a coloca como uma das personagens melhor desenvolvida do universo de Jornada nas Estrelas, se não a melhor. Diversos personagens de Jornada não tiveram o desenvolvimento em toda a série da qual fizeram parte, que Kira teve nesse único episódio. O roteiro ainda se beneficia de ter apenas uma história, não tendo que alternar entre os assuntos diferentes, especialmente considerando que histórias B e C de DS9 tinham a tendência de caírem para o lado cômico, o que não combinaria em nada com a seriedade da história A aqui apresentada. E tudo isso devemos ao roteiro de Peter Allan Fields, que fez parte da sala de roteiristas até o final da segunda temporada. Suas histórias e roteiros deixam lembrança e é uma pena que ele não tenha permanecido por mais tempo.

Não só isso, mas grande parte do sucesso desse dueto também se deve a atuação primorosa dos dois atores. Nana Visitor como Kira Nerys, e o convidado especial, Harris Yulin, como Aamin Marritza estão simplesmente fantásticos. Yulin nunca tinha trabalhado em Jornada nas Estrelas, e, portanto, não era familiarizado com o universo, e se isso por si só não fosse suficiente, ele ainda faz um alienígena em que a sua face é toda coberta por borracha. Não é qualquer ator que pode entregar o que ele entregou dada essas condições.

Aamin Marritza em Duet

A estreia de James L. Conway na direção de Deep Space Nine também é um grande acontecimento. E em se tratando de um episódio onde a direção de elenco é tão necessária e com tantos diálogos e monólogos, ele não desapontou. Pena ele ter dirigido apenas 7 episódios em DS9, todos excelentes.

A ideia inicial, trazida por duas estagiárias da série, era o que aconteceria se você tivesse que defender o seu pior inimigo e o que você faria se você fosse responsável pela vida dele? O roteiro também foi inspirado pela peça Um Homem na Caixa de Vidro de Robert Shaw. Que por sua vez é baseado no julgamento de Adolf Eichmann, um oficial alemão que escapou do julgamento de Nuremberg, mas foi capturado e levado à Israel pelo Mossad para ser julgado.

Eichmann era um burocrata, responsável por organizar o envio de judeus aos campos de concentração. Em seu julgamento ele se declara inocente, dizendo que estava apenas cumprindo ordens, e ainda por cima se gabava de fazer um excelente trabalho, sendo muito organizado e não cometendo erros. Qualquer semelhança com o que Marritza se diz ser no início não é mera coincidência. Marritza se declara ser um excelente arquivista e tem orgulho de nunca ter perdido um único arquivo sequer. O episódio corria o risco de se tornar mais uma história sobre tribunal, e que inclusive já tinha sido abordado mais cedo nessa primeira temporada em “Dax”. O pulo do gato vem com a ideia do Ira Behr de colocar Marritza como uma pessoa que não é exatamente quem ela diz ser, mas fazendo o que faz por razões nobres. E é aí que a história se torna interessante. Ao contrário de Eichmann que se diz inocente até o final do julgamento, não querendo admitir a sua culpa, Marritza cria toda uma história, primeiro se dizendo inocente, depois se dizendo ser Gul Darhe’el para que ele seja julgado e condenado. Apesar dele não ser diretamente culpado pelas atrocidades cometidas pelos cardassianos, ele ainda assim se acha culpado. Todos ele são, diz o cardassiano. Marritza acredita que a única maneira de Cardássia sobreviver é ser julgada pelos seus crimes durante a Ocupação e admitir a sua culpa perante Bajor. Esse episódio se torna ainda mais incrível quando olhamos para o final da série e vemos como Marritza estava certo sobre isso.

Kira interrogando Marritza

Kira tem papel fundamental para a história de Marritza funcionar. Primeiro ele mente sobre ter a doença de kalla-nohra, e depois que é rapidamente descoberto, ele tem que admitir que trabalhou em Gallitep, mas afirma ser um arquivista, que não tem culpa de nada, e que nenhuma atrocidade era cometida ali. Claro que Kira não acredita nele, ainda mais após ter sido pego na primeira mentira. E como ele mesmo diz à Kira, ela quer que ele seja culpado. Marritza sabe o quanto os bajorianos odeiam os cardassianos, não importa a circunstância. Ele conta com o ódio da Kira para que quando eles descobrem a foto de Gallitep e que Marritza na realidade seria Gul Darhe’el ela não teria dúvida em mover montanhas para que ele fosse condenado.

Marritza não contava com Odo, observando tudo, e a sua relação próxima tanto com Kira quanto com Gul Dukat, que no fim possibilita que eles descubram a verdade por trás das mentiras de Marritza. Embora Dukat apareça somente por chamada de vídeos, é interessante como a sua presença é poderosa. E ainda estabelece que Odo e Dukat tem uma relação anterior a chegada da Federação. Relação essa que veremos como realmente começou no fantástico episódio da segunda temporada, “Necessary Evil” (Coincidência ou não, episódio também escrito por Peter Allan Fields e dirigido por James L. Conway).

Sisko falando com Dukat sobre Marritza

Marritza não contava também com a influência que Sisko e a Federação vem tendo sobre Kira. Se num primeiro momento ela manda prender Marritza pelo simples motivo de ser um cardassianos que esteve em Gallitep, num segundo momento ela teve que prometer a Sisko que iria até o final para descobrir a verdade quanto a Marritza, e só mandá-lo para julgamento se ele realmente fosse responsável por algum crime. A cena em que Kira pede que Sisko a deixe investigar o caso é extremamente poderosa e mostra como Kira mudou desde que ela e Sisko se encontraram pela primeira vez. Existe aqui uma cumplicidade, respeito mútuo e confiança entre o comandante e sua primeira oficial que vem sendo muito bem forjado ao longo dessa primeira temporada e que continuará ao longo dos próximos 4 episódios. Ao longo da sua jornada pelo episódio, Kira tem que encarar o fato de que nem todos os cardassianos são culpados pela Ocupação, e julgar e matar um inocente não vai trazer paz de espírito nem justiça. A cena da Kira com a Jadzia, com essa dando conselhos para a major é outra também digna da mais alta nota. Kira começa a questionar tudo que acreditou ser a verdade absoluta. Mas antes que ela consiga chegar nesse ponto, Kira tem que enfrentar difíceis embates com Marritza, que tenta de todas as formas tirar Kira do sério. Num determinado momento Kira sai da área das celas e se senta no escritório do Odo completamente sem forças e abismada por tudo o que ouviu do cardassiano. Muito embora nunca tenha sido dito em tela, é bem possível supor que Kira nunca teve uma conversa com um cardassianos nesse nível. Durante a Ocupação ela não teria vivido para lembrar de uma conversa dessa, e após a retirada dos cardassianos até agora, os encontros mostrados em tela entre Kira e cardassianos foram esporádicos e específicos para outros fins.

No fim, a farsa de Marritza é descoberta e Kira encara o fato de que nem todo cardassiano é culpado. E esse em especial trazia a esperança de que Cardássia poderia se redimir. A mudança de tom de Kira ao falar com Marritza no final dizendo que ele está livre é impressionante. De certa forma e apesar de tudo o que foi dito antes, Kira demonstra uma certa doçura perante Marritza ao compreender a grandiosidade do ato do cardassiano. Infelizmente, para Kira e para os próprios cardassianos e bajorianos, Marritza é morto ao final. Ele vivo seria uma grande pedra no sapato do governo cardassiano, que não poderia ignorar o que Marritza tinha a dizer. A ironia é que Marritza acaba sendo morto por um bajoriano que não consegue enxergar a grandiosidade do que Marritza estava tentando fazer. Essa escolha de roteiro não foi à toa, e a cena final, com Marritza morto no chão, com a cabeça no colo de Kira é o que hoje chamamos de absolute cinema. Inclusive Peter Allan Fields agradeceu James L. Conway por ter filmado exatamente como ele descreveu no roteiro. Interessante apontar que esse encontro aqui entre Kira e Marritza certamente moldará o modo como será apresentada a relação entre Kira e Tekeny Ghemor, visto em “Second Skin”, da terceira temporada e “Ties of Blood And Water”, da quinta temporada.

Kira pedindo a Sisko para ela investigar Marritza

Vale destacar que “Duet” apresenta a característica dos cardassianos de gostarem de fazer longos monólogos, em especial Dukat, que segundo Sisko, é apaixonado pela sua própria voz. Nesse episódio temos também a primeira vez que a célula de resistência Shakaar, da qual Kira fez parte desde criança, é citada. Os episódios na sequência, tanto o último da primeira temporada, quanto os três primeiros da segunda temporada marcam uma tendência da série de focar em assuntos sobre a política e a religião de Bajor. Infelizmente não durou muito, pois o Estúdio não queria que esses assuntos fossem tratados, dado que não estavam entre os mais populares da série de acordo com os índices de audiência.

Os acontecimentos desse episódio vão reverberar até o final da série, e fazem de “Duet” um episódio incrível, extremamente inspirado, um dos grandes clássicos da história de Jornada nas Estrelas e que é sempre bom voltar e rever. Além de tornar Kira como a personagem mais poderosa e bem desenvolvida de todas as Jornadas.

Avaliação

Citações

“You can never undo what I’ve accomplished, the dead will still be dead”
(Você nunca poderá desfazer o que eu realizei, os mortos continuarão mortos.”)
Marritza

“This Bajoran obsession with alleged Cardassian improprieties during the occupation is really quite distasteful.”
“I suppose if you’re Bajoran, so was the Occupation.”
(Essa obsessão bajorana com supostas impropriedades cardassianas durante a ocupação é realmente muito desagradável.)
(Suponho que se você é bajorano, a ocupação também foi.)
Dukat e Sisko

“If your lies are going to this transparent, this is going to be a very short interrogation.”
“Then I’ll try to make my lies more opaque.”
(Se suas mentiras irão ser assim tão transparentes, este vai ser um curto interrogatório.)
(Neste caso, tentarei fazer minhas mentiras mais opacas.)
Kira e Marritza

“Nothing justifies genocide!”
(Nada justifica o genocídio!)
Kira

Trivia

  • O episódio teve o título provisório de “The Higher Law”.
  • Este foi um dos episódios mais baratos da temporada.
  • Este é um dos poucos episódios da série sem uma trama B.
  • A ideia original para este episódio foi baseado na ideia de alguém ter que defender seu pior inimigo.
  • O roteiro deste episódio foi inspirado na peça de teatro, The Man in the Glass Booth, de Robert Shaw, que conta a história de um judeu acusado de ser um criminoso de guerra nazista. Coincidentemente, Leonard Nimoy havia estrelado a peça anos antes
  • A revista Cinefantastique elegeu “Duet” como o melhor episódio de Deep Space Nine
  • Ira Behr ficou muito orgulhoso do episódio. Ele disse: “Estou muito, muito orgulhoso deste episódio. Não no sentido de que é um episódio para toda a humanidade, mas que foi um episódio divertido de trabalhar. Você tinha um personagem que era maior que a vida e se deleitava com sua maldade. Foi simplesmente uma explosão. Foi muito divertido escrever, mas era o fim da temporada, e estávamos todos muito cansados, então nem Peter (Peter Allan Fields, roterista do episódio) nem eu estávamos muito felizes fazendo isso. Trabalhamos muito bem juntos, e o episódio poderia ter, literalmente, durado mais meia hora se eles nos tivessem deixado.”
  • Michael Piller considerou este o melhor episódio da primeira temporada da série.

Ficha Técnica

História de Lisa Rich & Jeanne Carrigan-Fauci
Roteiro de Peter Allan Fields
Direção de James L. Conway

Exibido em 13 de junho de 1993

Título em português: “Dueto”

Elenco

Avery Brooks como Benjamin Lafayette Sisko
René Auberjonois como Odo
Nana Visitor como Kira Nerys
Colm Meaney como Miles Edward O’Brien
Siddig El Fadil como Julian Subatoi Bashir
Armin Shimerman como Quark
Terry Farrell como Jadzia Dax

Elenco convidado

Marc Alaimo como Gul Dukat
Robin Cristopher como alferes Neela
Norman Large como “o capitão”
Tony Rizzoli como Kainon
Ted Sorel como Kaval
Harris Yulin como Aamin Marritza

Balde do Odo

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