Artigo publicado originalmente em 2001

A Nova Geração, capitaneada por Jean-Luc Picard, já tinha feito um estrondoso sucesso na TV, indo onde Jornada nas Estrelas jamais esteve e colocando um grande sorriso nos lábios do público, dos administradores e da equipe de produção da Paramount Pictures. Ela criou uma legião de fãs que viam a Série Clássica, mas não eram muito chegados à estética dos anos 60, ou ainda que passaram a ver Jornada nas Estrelasnos anos 80 justamente com a Enterprise na versão do século 24. Isto fez com que desde a metade da produção do seriado, se pensasse na realização de uma longa metragem. Rick Berman já estava no comando desde os últimos anos de vida de Gene Roddenberry, então, reuniu Ronald Moore e Brannon Braga, dois dos melhores roteiristas da história da Nova Geração para bolar o roteiro.

Inicialmente,  “All Good Things…”, o último episódio que foi ao ar, seria a história do filme, mas, como se sabe, ele encerrou a vida televisiva do seriado e outra proposta foi adotada. Esta proposta era fazer um filme só com o elenco da Nova Geração, mas, devido ao sucesso de “Jornada nas Estrelas VI: a Terra Desconhecida”resolveu-se juntar as duas tripulações da Enterprise, deixando claro que não seria uma continuação dos filmes anteriores, onde o elenco clássico atuaria como convidado. Mas Leonard Nimoy, DeForest Kelley e George Takei não concordaram e Nichelle Nichols saiu fora. Eles teriam participação pequena, o que não valeria a pena. Nimoy foi convidado para dirigir, mas recusou porque não poderia mexer substancialmente no roteiro.

A escolha da direção recaiu sobre David Carson, um  bem-sucedido diretor dos episódios da Nova Geração. Porém, Willian Shatner não se opôs e concordou em vestir mais uma vez o uniforme vermelho do capitão Kirk, no que foi acompanhado por Walter Koenig e  James Doohan. Shatner disse que não se importaria se a idéia de matar o capitão Kirk fosse levada à diante, embora estivesse muito grato ao papel que lhe deu o maior sucesso e rendimento na sua carreira de ator. De fato, ele estava envolvido com outros projetos, como a criação da saga “Tek War”. Assim, se reuniu periodicamente com Berman, Moore e Braga para tratar dos detalhes da trama num clima bastante favorável com a produção e o elenco, que o tratou com muito respeito e carinho.

De todos os atores, Patrick Stewart teve mais aproximação com ele, por causa das cenas entre Picard e Kirk, em boa parte do tempo gravadas no lombo de um cavalo e uma égua. Como tem bastante experiência com estes animais, Shatner deu boas dicas a Stewart para que se sentisse mais à vontade com eles. E, é claro, fez questão de que a sua égua de estimação, Great Belles of Fire, participasse, facilitando a gravação e a vida do diretor.

Stewart afirmou que se sentiu bastante gratificado por trabalhar de maneira bem entrosada com Shatner e Malcolm McDowell, que interpretou o vilão Dr. Soran, o assassino de Kirk. Stewart ressaltou a boa química entre eles, responsável pelo bom resultado dramático no planeta Veridian III. McDowell amou interpretar seu personagem de tal forma que até hoje anda por aí com o cabelo claro e curto e cara de meio demente.

O resultado do filme foi considerado muito bom pelos produtores, mas houve uma modificação de última hora, pois o público-teste não gostou de ver Kirk morrer com um disparo do feiser de Soran. As cenas foram refeitas e o resultado foi o que se viu nas telas, com Kirk despencando da plataforma onde lutava contra o seu algoz. Picard tenta socorrê-lo, mas o golpe foi fatal. As últimas palavras de Kirk expressam o sentimento de satisfação e espanto com o que haveria de acontecer… Na verdade, esta foi a segunda morte (?) de Kirk, já que a primeira foi na Enterprise-B há quase oito décadas atrás, tentando salvar uma nave cheia de El-aurianos, inclusive Guinan e o dr. Soran, da destruição de uma descarga de energia da singularidade Nexus: um lugar onde o tempo e o espaço são relativos e os sonhos viram realidade.

Como o capitão da nave, John Harriman, é um perfeito banana, e a Frota Estelar tinha deixado a nave recém-construída ainda incompleta, Kirk se oferece para resolver o problema com a ajuda de seus escudeiros Chekov e Scott, também chamados para serem homenageados no lançamento da nova versão da nave mais famosa da Federação. Estas cenas têm a participação de Demora Sulu, filha do ex-piloto da nave original, e de um tenente negro, interpretado por Tim Russ, o Tuvok de Voyager. Mas a trama só começa a fazer maior sentido com a tripulação da Enterprise-D, reunida setenta e cinco anos depois no “holodeck” na cerimônia de promoção de Worf ao posto de tenente-comandante a bordo do navio HMS Enterprise.

No meio da maior animação, Picard recebe a mensagem de que seus irmão e sobrinho morreram num incêndio na vinícola da família em Labarre, França… O capitão fica transtornado pela perda dos seus e, como se isso não bastasse, um ataque a um observatório da Federação pelos romulanos faz a nave rumar para investigar o local. Lá está o dr. Soran tentando realizar a obsessão de muitos de sua espécie para reverter ao tempo onde a sua família ainda existia, tentando alcançar a trajetória da próxima onda Nexus. O dr. Soran resiste a abandonar o local e detém o grupo avançado em que estão Data e La Forge, sendo capaz de dominá-los, porque Data sentiu medo em razão de estar usando experimentalmente o seu “chip” emocional.  La Forge é preso e torturado pelo cientista para que revele o código dos escudos da Enterprise, a fim de ser destruída pelas irmãs Duras, Lursa e B’Tor, inimigas da família de Worf e da facção Klingon apoiada por Picard tempos atrás. Elas eram responsáveis pela maquinação de uma estratégia de uso do “trilitium” para fazer uma arma que lhes ajudasse a enfrentar o Império Klingon e a Federação, com a ajuda dos Romulanos.

Através do visor de La Forge, elas conseguiram descobrir o código dos escudos e disparar contra a Enterprise, derrubando-a. Picard até que entende a dor do dr. Soran, porque ele mesmo teve perdas significativas ao longo do tempo (“a chama em que nós somos consumidos”). Ele está na superfície do planeta tentando detê-lo, seu intento falha e ele é tragado para dentro do Nexus, mas é lá que reencontra Guinan e conhece pessoalmente Kirk, ocupado com afazeres domésticos como seu amor de juventude, Antonia, seu cachorro Butler e seus cavalos.

Picard convence Kirk a “fazer a diferença”, saindo do Nexus para salvar a galáxia mais uma vez. O herói da Série Clássica resolve ajudar o herói da Nova Geração, mas acaba morrendo no final. A cena de Picard enterrando o corpo de Kirk na superfície do planeta é paradigmática: a partir de agora, é a turma da Nova Geração a responsável exclusiva por levar a saga da Enterprise adiante. Como o cinema tem uma abrangência maior do que a TV em todo o mundo, era a hora de deixar claro a todo o público (“trekker” ou não) que a passagem do bastão fora feita oficialmente, apesar de que, em Jornada, sempre há possibilidades…

De um modo geral parece que esta passagem não seria muito necessária. Melhor seria ter deixado a Série Clássica lá com a sua despedida do filme anterior e filmar uma aventura só da Nova Geração. Outra decisão equivocada para alguns, foi o encontro dos dois capitães trotando cavalos em vez de estarem na ponte de comando. Dizem que esta foi uma puxada de saco de Shatner pela produção, e que nosso galã interpretou mais a si mesmo do que Kirk neste filme. Outros ficaram insatisfeitos com a possibilidade de uma velha ave de rapina Klingon detonar com um disparo fatal a nau capitânia da Federação, e, ainda por cima, perder o controle dos estabilizadores caindo chapada no chão. Talvez seja porque isso contribui para que nós, os colecionadores de miniaturas, compremos sempre novos modelos da nossa querida Enterprise,aumentando o faturamento do estúdio. Houve quem reclamasse também do ritmo rápido das cenas, confundindo a audiência não aficcionada. Afinal de contas, só o amor e a dedicação dos fãs são insuficiente para sustentar o bom desempenho nas bilheterias durante muito tempo.

Como não poderia deixar de ser, o espaço dos atores da Nova Geração ficou muito reduzido, mesmo com um pouco mais de participação de Data e La Forge. A dra. Crusher caiu na água, fez pouco mais do que ficar aborrecida e alguns exames. Deanna Troi ofereceu o ombro para Picard chorar e ajudou a arrasar com a nave na sua queda. Riker não fez mais do que tentar resistir às Klingons e lamentar a destruição da  cadeira de comando. Guinan até que teve um pouco mais de presença por conta da trama desenvolvida (mas a atriz Whoopi Goldberg sequer foi posta nos créditos). Worf andou pela prancha e resmungou o tempo todo de tudo o que aconteceu e só.

De todo modo, as coisas saíram a contento de muitos, com cem milhões de bilheteria. Isto fez Rick Berman comandar o projeto de realização de um novo longa-metragem protagonizado por Picard e sua turma.