DSC 1×10: Despite Yourself

Uma volta emocionante e dramática ao universo do Espelho 

Sinopse

A Discovery está cercada por detritos de uma batalha espacial, perdida próximo ao sistema de Orgânia, quando encontra uma nave vulcana. Ela ameaça atirar contra a nave, mas é alvejada por outra nave federada, a Cooper.

Saru, com uma análise de assinatura quântica, confirma que as naves, os detritos e tudo mais parecem ser incompatíveis com a assinatura padrão encontrada no universo deles. Aparentemente, eles saltaram para uma realidade paralela.

Os detritos são de naves klingons destruídas. Mas tudo parece muito estranho. Lorca então despacha Tyler numa cápsula operária para resgatar o núcleo do computador de uma incursora destruída. No espaço, o oficial de segurança volta a ter uma crise de estresse pós-traumático, a despeito de os corpos a bordo da nave serem — estranhamente — de um andoriano e um vulcano. Apesar da crise, ele consegue trazer de volta o núcleo de computador.

Michael Burnham consegue acessar os dados e confirma a hipótese de que eles estão mesmo num universo paralelo em que as pessoas são as mesmas, mas a Federação não existe, e os humanos fundaram um Império Terráqueo fascista, sob a liderança de um misterioso Imperador.

O capitão Lorca decide que, para sobreviver, a Discovery terá de se passar por sua contraparte do universo do espelho, o que leva a tripulação a trocar os uniformes, repintar a designação da nave no casco, redecorar interiores e deixar no comando aparente a capitão Tilly — neste universo ela não é uma simpática cadete, e sim uma líder sanguinária.

Investigando mais os dados descobertos, a tripulação também descobre que eles não são os primeiros a cruzar a fronteira entre os universos — a USS Defiant (NCC-1764) aparentemente viajou do futuro de seu universo original para o passado do universo espelho. Isso significa que deve haver um meio de romper a barreira entre os universos sem um motor de esporos — algo que a Discovery não tem no momento condição de usar, por conta da crise catatônica do tenente Stamets.

Fica decidido que Lorca, Michael e Tyler vão buscar as informações sobre a Defiant que poderiam ajudá-los a voltar para casa — e há pressa, pois a Federação ficou sem o algoritmo que quebraria a camuflagem dos klingons.

Para isso, eles vão se passar por suas contrapartes deste universo. Michael era capitão da Shenzhou, e havia presumidamente sido morta por Lorca, um rebelde que tentou dar um golpe de estado no Império.

O plano é dizer que Michael não morreu, mas fingiu sua morte para poder capturar Lorca, a quem ela agora levará de volta ao Império, reassumindo o controle da Shenzhou — agora capitaneada por Connor.

Tyler continua a ter suas crises e, num encontro com L’Rell, ela diz que ele tem outro nome e usa uma oração para tentar fazê-lo lembrar. O tenente está muito confuso e busca ajuda com o doutor Culber, a fim de investigar o que os klingons fizeram com sua mente. Exames mais detalhados, contudo, revelam que Tyler foi “reconstruído” cirurgicamente e não é quem parece ser. Ao ouvir do médico que ele não poderia acompanhar Michael na missão à Shenzhou, ele simplesmente o mata, torcendo seu pescoço.

O trio então se teletransporta para a Shenzhou, onde Michael ainda passa pela situação dramática de ter de matar Connor — o ex-alferes não está muito disposto a perder seu posto de capitão e tenta assassiná-la no turboelevador.

Lorca é levado para uma câmara da agonia, onde é torturado agressivamente, e só resta a Michael tentar encontrar nos computadores da nave as informações que podem levar a Discovery de volta a seu universo. Seu único consolo é estar ao lado de Tyler, o homem que ama, sem desconfiar que ele não é quem parece ser…

Comentários

“Despite Yourself” é um incrível passeio de montanha-russa para os fãs de Star Trek, além de propelir adiante a história da complicada tripulação da USS Discovery.

E você que pensou que as atribulações entre os comandados do capitão Gabriel Lorca estavam aplainando? Com uma série de surpresas e guinadas, tudo virou de ponta-cabeça. Já começamos com Stamets catatônico, mas em menos de uma hora terminaremos com Lorca preso e torturado numa cabine da agonia, Culber morto e Ash Tyler praticamente se revelando como Voq — algo que já era suspeitado pelos fãs mais atentos desde a introdução do personagem, em “Choose Your Pain”.

Se parece muita coisa, é porque é mesmo. Some-se a isso o fato de que Culber foi morto por Tyler, e que Michael é obrigada a matar Connor numa luta desesperada dentro de um turboelevador, e temos aí um episódio cheio de tensão e reviravoltas. Em boa parte, cortesia da primeira visita da nova série ao já tradicional “universo do Espelho”, introduzido no episódio “Mirror, Mirror”, da segunda temporada da Série Clássica.

Vamos combinar que o próprio conceito desse universo alternativo em que os humanos são assassinos sanguinários fascistas nunca foi para ser levado muito a sério. Ele é basicamente uma brincadeira, do tipo “não seria legal se houvesse, num outro universo, pessoas iguais a nós, mas completamente diferentes em personalidade?”. Claro que um conceito desses não para em pé se analisado com lupa — por sinal, nunca parou, desde 1967.

Ainda assim, o fator “diversão” é alto, e nada impediu que “Mirror, Mirror” se tornasse um dos episódios mais queridos da série original. Da mesma maneira, as séries derivadas que se aventuraram a explorar esse universo quase sempre se deram bem. Ou seja: a aposta de Discovery era relativamente segura e potencialmente traria grande entretenimento.

E foi isso que tivemos em “Despite Yourself”, que, a despeito de seus momentos genuinamente angustiantes, é possivelmente o episódio em que o humor orgânico funciona melhor, dentre todos os segmentos de Discovery até este ponto da série. Tente não rir com a cadete Tilly tentando se passar por uma capitão agressiva e criminosa. Eu não consegui. A personagem ganha aqui seu melhor veículo para brilhar até agora.

Outros momentos divertidos envolvem as peculiaridades do Império Terráqueo, como os personagens fazendo a saudação com a mão e gritando “Longa vida ao Império!”, e um ponto especial para os fãs de longa data da franquia vem quando o episódio menciona o fato de que a USS Defiant foi parar no universo do Espelho antes dele, algo que descobrimos no episódio “In a Mirror, Darkly”, da quarta temporada de Enterprise, que por sua vez esclarece um mistério não respondido de “The Tholian Web”, da Série Clássica, que por sua vez não tinha nada a ver com o universo do Espelho para começo de conversa. OK, esses roteiristas definitivamente conhecem a franquia em que estão trabalhando — o que é ótimo — e não têm medo de soltar referências obscuras que podem até mesmo ser confusas para telespectadores de primeira viagem — o que é melhor ainda. Vê-se aí uma apreciação pelo cânone digna do troféu Mike Okuda de qualidade.

Mais intrigante ainda para os fãs é a exibição de um diagrama da própria Defiant, no que pode ser um prelúdio para que a Discovery encontre mais adiante uma nave da classe Constitution — a mesma a qual pertence uma certa nave estelar chamada Enterprise (NCC-1701). O design exibido é quase um rascunho, com alterações relevantes às formas originais, mas preservando bastante a identidade clássica. Trata-se de uma versão atualizada, mas bastante respeitosa, da nave de ficção científica mais famosa de todos os tempos. (Millenium Falcon que me perdoe.)

O episódio também deixa claro o que os produtores quiseram dizer com “segundo capítulo”. Ao chegarem ao universo do Espelho, e sem previsão imediata de retorno, os tripulantes da Discovery claramente encontrarão novos desafios e perigos, quase que abrindo um parêntese no arco geral da temporada, que é a Guerra Klingon.

Contudo, e isso também fica claro neste episódio, a história geral da série continua. Vários eventos que acontecem em “Despite Yourself”, como as crises de Transtorno de Estresse Pós-Traumático de Tyler e a busca da verdade sobre o que os klingons fizeram com ele, estão sendo desenvolvidos desde antes e nada têm a ver com o fato de a nave ter ido ao universo do Espelho. Por sinal, são desenvolvimentos importantíssimos e muito bem trabalhados aqui por todos os envolvidos — Shazad Latif tem um desempenho espetacular transmitindo toda a insegurança e o desespero de Tyler, e a cena que ele faz com Mary “L’Rell” Chieffo — um misto de agressão e sensualidade, ódio e paixão — é realmente especial. O mesmo se pode dizer da morte de Culber, totalmente inesperada, quase como um soco no estômago da audiência. (Pobre Wilson Cruz!)

Tivemos aí barba, cabelo e bigode — além do desempenho dos atores, o texto efetivo e afiado de Sean Cochran e o brilhante trabalho de direção de Jonathan Frakes. Não surpreende, dado o histórico do bom e velho Will Riker com a franquia, à frente e atrás das câmeras. Frakes parece saber conduzir as cenas sem ser espalhafatoso ou chamar atenção demais, deixando o drama falar por si. Ele sabe quando a cena pede movimentos de câmera e quando a melhor coisa a fazer é deixar os atores se moverem e conduzirem a trama adiante sem distrações. Excelente.

Por fim, o retrato do universo do Espelho nunca foi tão apavorante. Ele continua exagerado, meio “over”, como de costume, mas com um nível acentuado de perigo para os personagens. Talvez pela natureza da própria série, que já mostrou que ninguém está à salvo da guilhotina.

O que nos leva a Michael Burnham. Eu a deixei para o final porque ela tem um papel completamente passivo aqui. A sensação que fica é que ela está sendo manipulada — por Lorca, num nível, e por Tyler, em outro — e caminha sem saber para o que parece ser uma armadilha, enquanto tenta obter as informações cruciais para levar a Discovery de volta a seu universo, emulando a capitão da Shenzhou do Espelho. A primeira armadilha, por sinal, é do Connor terráqueo, que tenta matá-la no turboelevador da Shenzhou. Sonequa Martin-Green vende muito bem a angústia de ser obrigada a agir como uma selvagem para sobreviver. A tensão a que ela é submetida aqui é brutal, e terminar o episódio vendo-a agarrada a Tyler, enquanto Lorca agoniza sob tortura, é perturbador — um teaser perfeito para nos deixar na beira da cadeira à espera do próximo episódio.

No frigir dos ovos, “Despite Yourself” não é um clássico, mas é diversão garantida, alternando com sucesso entre momentos de drama agudo e de humor leve — o que nunca é algo fácil de se conseguir — e propelindo adiante a saga da Discovery.

Avaliação

Citações

Tilly – This is Captain Tilly. What the heck… heck-hell? What the hell? Hold your horses!
(“Aqui é a capitão Tilly. Que diach… diacho-diabos? Que diabos? Peguem leve!”)

Burnham – Destiny didn’t get me out of prison, Captain. You did.
(“O destino não me tirou da prisão, capitão. Você me tirou.”)

Tilly – Is that how you treat your long-lost captain? If you greeted me that way I’d cut out your tongue and use it to lick my boots.
(“É assim que você trata sua capitão perdida? Se você me cumprimentasse assim eu cortaria sua língua e a usaria para lamber minhas botas.”)

Trivia

  • Este é o nono episódio da franquia a envolver o “universo do Espelho”, que apareceu pela primeira vez em “Mirror, Mirror”, da Série Clássica. Deep Space Nine fez cinco episódios com a temática, e Enterprise, um duplo.
  • Pela primeira vez em Discovery vemos um diagrama do que seria uma nave da classe Constitution, como a Enterprise clássica. É a Defiant, vista pela primeira vez em “The Tholian Web”. Há pequenas mudanças, mas o desenho básico foi preservado. De acordo com o co-produtor-executivo Ted Sullivan, o visual da nave é resultado de alterações sofridas no universo do Espelho.
  • Quando Lorca finge ser o engenheiro-chefe da Discovery, ele faz um sotaque escocês, numa homenagem especificada no roteiro a Montgomery Scott, o engenheiro milagreiro da Série Clássica.
  • O episódio abre o que os produtores chamam de “segundo capítulo” da primeira temporada da série. Este segundo capítulo terá ao todo seis episódios.
  • Uma das maiores preocupações com este episódio foi de como lidar com a morte de Culber. Ela vem na esteira de uma série de mortes de personagens gays em séries de televisão americanas nos últimos anos. Para evitar uma reação adversa do público, os produtores consultaram a GLAAD, organização ativista de direitos LGBT, e receberam o apoio para a história. No pós-show de Discovery, After Trek, o produtor-executivo Aaron Harberts, ele mesmo gay assumido, e sua colega Gretchen Berg também anunciaram que Culber não estaria 100% morto e que o personagem interpretado por Wilson Cruz ainda voltaria a aparecer.
  • O episódio tem a direção de Jonathan Frakes, ator que interpretou o comandante Riker, e dirigiu dois filmes de Star Trek, além de episódios de A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager.
  • A equipe de cenografia cometeu um erro na cena em que Burnham vem a bordo da ISS Shenzhou. Ao fundo, alguns tambores têm o símbolo da Frota Estelar, em vez do símbolo do Império Terráqueo.

Ficha técnica

Escrito por Sean Cochran
Dirigido por Jonathan Frakes
Exibido em 07/01/2018
Produção: 110

Elenco:

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Jason Isaacs como Gabriel Lorca
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Shazad Latif como Ash Tyler

Elenco convidado:

Wilson Cruz como Hugh Culber
Mary Chieffo como L’Rell
Sam Vartholomeos como Danby Connor
Emily Coutts como Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como Rhys
Julianne Grossman como computador da Discovery
Sara Mitich como Airiam
Ali Momen como Kamran Gant
Oyin Oladejo como Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como Bryce
Chris Violette como Britch Weeton
Romaine Waite como Troy Januzzi

TB ao VIVO

2 Comments on "DSC 1×10: Despite Yourself"

  1. David Gaertner Curitiba | 22 de janeiro de 2018 at 10:58 pm |

    Verdade

  2. Ricardo Pinheiro | 23 de janeiro de 2018 at 2:22 am |

    Se colocarem romulanos agora na série, vai mandar o episódio “Balance of Terror” pro espaço sideral.

    Ok, Enterprise arrumou uma maneira de colocar os primos dos Vulcanos dentro do contexto, mas é melhor evitar.

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