TOS 1×00: The Cage

Primeiro piloto foi apontado como “muito cerebral” pela rede NBC

Sinopse

A USS Enterprise recebe um pedido de socorro do planeta Talos IV, supostamente oriundo de uma nave de pesquisa perdida, a SS Columbia. No planeta, o capitão Pike é capturado pelos talosianos e descobre que a única real sobrevivente é uma bela mulher, Vina.

Preso em uma jaula, Pike é submetido a uma série de ilusões cujo objetivo é fazê-lo se apaixonar por Vina, supostamente para darem início a uma população humana de escravos.

A tripulação da Enterprise tenta resgatar Pike, sem sucesso. Diante da resistência do capitão a Vina, os talosianos aprisionam duas outras mulheres: a Número Um, primeira oficial, e a ordenança Colt.

Pike descobre que emoções primitivas humanas neutralizam a telepatia talosiana e, com isso, escapa para a superfície do planeta, com as três mulheres.

Ao final, os alienígenas revelam seus planos: queriam que Pike iniciasse a recolonização do planeta, após a guerra catastrófica que quase os destruiu, a fim de salvar a cultura talosiana. Mas os humanos se mostraram incompatíveis. Assim, eles deixam o capitão e seus tripulantes partirem. Vina, revelada agora como uma mulher desfigurada, decide ficar, beneficiada pelo poder das ilusões talosianas.

Comentários

“The Cage” discute principalmente a dificuldade do ser humano se adaptar ao cativeiro. Um dos maiores valores compartilhados pela humanidade é o direito à liberdade. O episódio nos mostra que não é possível para o homem que o aprisionamento seja agradável, por mais que tentemos torná-lo confortável.

O episódio ainda toca em dois conceitos: o perigo de uma guerra nuclear – exibido através do destino dos talosianos – e que as aparências podem enganar, pois se no início somos levados a encarar os alienígenas como malévolos, ao fim da história percebemos que não é bem assim.

De qualquer forma, a essência de Star Trek já estava ali: uma série destinada não meramente a entreter, mas a provocar reflexões sobre o mundo e a condição humana. Não é à toa que os executivos da NBC consideraram este primeiro piloto “muito cerebral”…

Analisando o enredo, podemos perceber uma história bem amarrada, com começo, meio e fim, além de boa fluidez. Falta, contudo, um ponto de clímax, um momento em que o telespectador para e pensa: e agora? Mas, pelos propósitos da narrativa, pelas questões levantadas, e pelo grau de verossimilhança, o enredo pode ser considerado muito bom.

Vendo sob a perspectiva dos personagens, a construção da história é irretocável. Vemos uma força nos personagens, uma personalidade definida, e mais do que isso, um senso de propósito. Desde já temos o vulcano Spock (embora ainda estivesse em processo de amadurecimento, nem fazendo sombra ao grande Spock dos episódios subsequentes), a Número Um (segunda na cadeia de comando, uma mulher, em 1964? Bravo!), o dr. Philip Boyce, já se mostrando um proto-McCoy, e a nobreza de intenções e a determinação do capitão Christopher Pike, personagem brilhantemente interpretado por Jeffrey Hunter.

Além dos personagens regulares, temos a estonteante Vina, e os inacreditavelmente alienígenas talosianos. São por personagens como esses que os trekkers há décadas se perguntam: como teria sido a série se tivesse seguido os padrões de “The Cage”?

Todos os aspectos de produção podem ser elogiados, desde o roteiro e a direção, até os efeitos visuais (extremamente convincentes, levando em conta as possibilidades tecnológicas e orçamentárias da época), passando pela cenografia de Talos IV e das ilusões de Pike, com destaque para a recriação da batalha de Rigel VII. A maquiagem, em particular, dá um show, com detalhes sutis como as veias pulsantes das enormes cabeças dos talosianos (na verdade, tubos infláveis, movidos por uma bombinha de ar pressionada pela atriz que interpretava o papel). A escolha de mulheres baixas e com traços faciais estranhos, somada à dublagem dos alienígenas com vozes masculinas, ajudam muito a convencer o telespectador de que estamos diante, realmente, de alienígenas.

Na condição de piloto recusado, “The Cage” é surpreendentemente satisfatório, fornecendo um prelúdio intrigante para o que viria depois, conforme Star Trek ganhasse sinal verde da NBC para virar série.

Avaliação

Avaliação: 3 de 4.

Citações

“Do you want me to try my theory out on your head?”
(“Você quer que eu teste minha teoria na sua cabeça?”)
Pike

Trivia

  • A Enterprise original foi projetada por Matt Jefferies, com instruções de que a nave tivesse um ar naval e não emulasse um foguete ou um disco voador, dois clichês da época.

  • O dr. Philip Boyce é retratado como o melhor amigo do capitão Pike, um médico amável e humano, muito parecido com o que viria a ser o dr. Leonard McCoy. Por sinal, Gene Roddenberry queria DeForest Kelley para o papel. O diretor Robert Butler o convenceu a ir com John Hoyt.

  • O teletransporte foi uma invenção de Gene Roddenberry para resolver o problema de ter de pousar uma nave toda semana, o que seria caro demais para a série.

  • Em “The Cage”, a tripulação da Enterprise usa armas laser. Elas depois seriam trocadas por feisers, por recomendação do consultor científico, Harvey P. Lynn, pesquisador da RAND e amigo de Roddenberry.

  • Para ressaltar a aparência alienígena dos talosianos, atrizes viveram os papéis. Meg Wyllie interpretou o líder talosiano, e teve sua voz dublada por Malachi Throne.

  • “The Cage” traz o único vislumbre da Terra do futuro na Série Clássica. A paisagem idílica fica nos arredores de Mojave, cidade natal de Pike, no século 23.

  • A atriz Majel Barrett topou testar a maquiagem verde de Vina. Mas, nas fotos, sua pele sempre parecia bizarramente normal. Alguém estava “consertando” na revelação, sem saber que era para ela estar verde mesmo.

  • Durante décadas, a única cópia completa de “The Cage” era em preto-e-branco. Só em 1987, um rolo de filme do episódio piloto em cores foi encontrado nos arquivos do estúdio.

  • Spock aparece neste episódio muito mais emotivo do que nos acostumamos a ver na Série Clássica. Em parte porque o personagem ainda não estava muito definido mesmo. Ele aparece mancando em uma cena em Talos IV. A explicação é um suposto envolvimento do personagem em um conflito anterior ao episódio, fato mencionado no roteiro, mas editado da versão final.

Ficha técnica

Escrito por Gene Roddenberry
Dirigido por Robert Butler

Entregue à NBC em março de 1965 (não foi ao ar)

Título em português: “A Jaula”

Elenco

Jeffrey Hunter como Pike
Majel Barrett como Número Um
John Hoyt como Boyce
Peter Duryea como Tyler
Laurel Goodwin como Colt
Leonard Nimoy como Spock

Elenco convidado

Susan Oliver como Vina
Meg Wyllie como líder talosiano
Malachi Throne como voz do líder talosiano

Revisitando

TB ao Vivo: Watch Party

Próximo episódio

12 Comments on "TOS 1×00: The Cage"

  1. Excelente episódio…de fato uns dos vários “ápices intelectuais” da série, fico imaginando a repercussão que ele deve ter causado em 64…entre os diretores e produtores, até hoje qndo tenho a oportunidade de revê-lo acho bem ousadinho….Enfim…acho que capta bem a alma de jornada!

  2. Também gosto mto desse episódio. Tenho em DVD e já assistir uma dezena de vezes. Tenho até a versão preto e branco dele.
    Apesar de algumas coisas que foram mudadas com Spock sorrindo, a “borda da Galáxia”, armas laser e td mais, pra mim é o início de tudo.

  3. O termo “dobra espacial” não havia sido desenvolvido nesse piloto. Lembro-me que um tripulante comenta: “Nossas naves alcançam a velocidade da luz!” No universo Star Trek já consolidado, a dobra 5 (que deixa a velocidade luz em passos de tartaruga), não é tudo isso para longas viagens estelares, tanto que no seriado Enterprise, à velocidade de dobra 5, a NX-01 quase desmancha! E eles culpam os Vulcanos de ocultarem a tecnologia dos motores de dobra 7, 100 anos antes do capitão Pike!

  4. Foi o primeiro piloto e praticamente o Roddenbarry o desenvolveu sozinho. Com o tempo e a inclusão de outros colaboradores as “features” de ST ficaram mais definidas e modernas.
    Podemos ver que ela não é totalmente coerente nos comentários sobre a tecnologia de dobra, mas como é muito evasiva dá até para não questionar muito. O fato de falar que as novas naves atingim a velocidade da luz, seria conhecida dos próprios sobreviventos, pois, claro, se estavam lá é porque foram em dobra.
    No novo e derradeiro piloto, a coisa foi mais coerente e é um dos maiores episódios da série. Gosto do THE CAGE, mas gosto mais do THE MENAGERIE, principalmente a citação final sendo feita ao Kirk e não ao Pike: ” O Capitão Pike tem uma ilusão e o senhor tem a relaidade… que ela valha por uma ilusão ¨. Com essa citação, qualquer dúvida que tinha o capitão, que não teve o controle da situação e isso foi grandemente desconfortável para ele, foi dirrimida e ele ficou convicto que foi a melhor solução para o Pike.
    De qualquer forma, The Cage tem uma forte influência em ST.

  5. Eu gostaria de ver uma série com a tripulação do The Cage. Acho que seria muito interessante. É uma pena que o filme só vai trazer o Pike, sem aparecer os outros tripulantes. Gostaria de saber mais sobre o Dr. Philip Boyce e a Number One. O Pike também é um personagem muito interessante, bem interpretado pelo Jeffrey Hunter

  6. Lendo essa matéria deu vontade de assistir!

    Nesse “The Cage”, tem um loirinho que está na posição de navegador (antes do Chekov).

    Ele é bem parecido com o Tucker de “Star Trek – ENTERPRISE”.

    Tipos bem parecidos.

  7. É um episódio que eu sempre gosto de rever.
    Adoro o tom “FC-sério” e ao assistir, sempre me dá o sabor dos antigos livros de bolso FC dos anos 70 (alguém lembra?)
    O argumento e o roteiro mostram bem a inteligência de Gene Roddenbery, nos brindando com uma história bem coesa e com aquele tom mágico de parábola.

    …e ainda por cima simplesmente adoro a Susan Oliver! Mesmo toda verdona… é FASCINANTE!

    Se a série tivesse seguido esse molde inicial, eu com certeza iria adorar tanto quanto adoro a que vingou.

    …E VIVA STAR TREK!!!!

  8. Martin Juan Sarracena | 9 de novembro de 2008 at 10:09 pm |

    Eu vi todos os episódios de Jornada desde 1967 até que acabou. Eu tinha 14 anos.
    Alguns anos atrás, numa loja de video, achei uma versão em preto e branco de The Cage, em VHS.
    Comprei por dez reais e levei para casa.
    Nunca cansei de vé-la e revé-la.
    Considero-a uma obra prima.

  9. Eu lembro de ter assistido a esse episódio algumas vezes quando passou na TV aberta e paga… infelizmente este episódio piloto não está no box da primeira temporada de TOS. Mesmo ele não sendo considerado o episódio piloto, ele poderia estar nos extras, ou algo assim.
    Esse episódio foi começo de tudo !!!

  10. O “The Cage” está no box do terceiro ano da série, em duas versões, uma remasterisada e a versão original

  11. Dilermando Oliveira | 21 de outubro de 2009 at 3:33 pm |

    Pude ver em VHS este primeiro episódio da série, ainda em preto e branco. Excelente.
    Vida longa e próspera.

  12. Um episódio sem dúvidas muito interessante, porém, particularmente eu acho que ST não é ST sem os duelos verbais Spock-McCoy. Ou seja, ainda bem que a série dessa maneira não vingou.

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