TOS 1×09: Dagger of the Mind

Aventura esconde discussão sobre limites da ética psiquiátrica

Sinopse

Data estelar: 2715.1.

A Enterprise vai até a Colônia Penal Tantalus para entregar suprimentos. Durante a troca de carga, um detento escapa para a Enterprise, escondendo-se em um contêiner transportado a bordo. Depois de detido, Spock o identifica como sendo Simon van Gelder, um dos membros da equipe psiquiátrica do complexo. O médico está apresentando fortes sintomas de transtorno e insanidade maníaca. O impulso de Kirk é devolvê-lo à colônia, mas McCoy insiste para que seja realizada uma investigação. O capitão lembra o oficial médico-chefe da reputação excelente de Tantalus e de seu diretor, o dr. Tristan Adams, mas McCoy não se convence.

Kirk resolve então descer ao complexo, acompanhado pela dra. Helen Noel, uma oficial da Enterprise com formação psiquiátrica. Os dois fazem um tour pela instalação, acompanhados pelo doutor Adams. Durante a visita, eles descobrem que Van Gelder teve sua mente danificada por um equipamento chamado neutralizador neural. Segundo Adams, Van Gelder tentou usar a máquina em si mesmo e sem supervisão, o que causou o dano.

Enquanto isso, Spock e McCoy prosseguem tentando descobrir algo com Van Gelder, que parece sofrer de intensa dor toda vez que tenta se lembrar do que aconteceu com ele em Tantalus. Somente depois que Spock realiza um elo mental vulcano com o médico insano que ele descobre que na verdade Van Gelder foi vítima de um experimento do doutor Adams com o neutralizador neural – um que ele está realizando com detentos e seus funcionários.

No planeta, Kirk e Noel terminam o seu tour e voltam a seus aposentos. Ainda não totalmente convencido dos fatos, o capitão decide fazer nova visita à sala do neutralizador neural, desta vez acompanhado apenas por sua oficial. Lá eles são surpreendidos pelo doutor Adams e sua equipe. Adams usa o equipamento para plantar uma forte paixão em Kirk por sua acompanhante. Após a experiência, os dois oficiais da Enterprise são mantidos prisioneiros.

Entretanto, Noel escapa pelos dutos de ar-condicionado até a sala de energia, onde ela desliga toda a força do complexo, provocando a queda dos escudos em volta da instalação e permitindo que Spock se teleporte com um grupo de seguranças.

Com a queda de energia, o neutralizador neural para de funcionar, e Kirk é capaz de lutar com Adams. Ele foge, mas o médico não deixa a sala a tempo – a energia é restaurada e Adams é vítima de seu próprio experimento malévolo. A exposição à máquina o leva à morte. Já Van Gelder consegue se recuperar e se torna o novo diretor da Colônia Tantalus. Sua primeira decisão é desmontar o neutralizador neural.

Comentários

“Dagger of the Mind” é uma história aparentemente inofensiva. Mas, por trás de um argumento escrito em tom aventureiro, escondem-se críticas fortes e questionamentos inteligentes a questões cruciais da ética médica.

Em primeira instância, o que temos é um doido varrido, cuja maluquice foi induzida por um médico, este sim um legítimo lunático, que usa uma máquina devastadora para fazer lavagem cerebral em quem está por perto.

Entretanto, por trás disso, há uma metáfora muito mais poderosa. O verdadeiro questionamento é: que instrumentos são legítimos na prática psiquiátrica? Pode um médico, em nome do que a sociedade chama de “normal”, usar todos os recursos a sua disposição para trazer os considerados “loucos” de volta ao “rebanho” da humanidade?

Se você perguntasse ao doutor Tristan Adams, ele provavelmente diria que sim. Até o próprio Kirk, no começo do episódio, consideraria tal hipótese válida, sob o ingênuo raciocínio de que as “novas colônias de reabilitação são mais humanas do que jamais o foram”. Mas depois de ver o nefasto neutralizador neural do doutor Adams em operação, ninguém pode concordar que tão violentos estupros mentais possam ser permitidos.

Claro, não há nada na história que indique a motivação do doutor Adams para sair colocando todo mundo em seu brinquedinho, a torto e a direito (exceto pelo fato de que ele mesmo era maluco), mas a grande sacada da história é que ela não passa de uma amplificação do que um psiquiatra faz ao “modificar” a mente das pessoas para “adequá-las” à sociedade.

Óbvio que não é essa a reação que o episódio levanta na maioria dos que o assistem. Para a grande massa, assim como para a NBC, era apenas mais uma aventura espacial, descrita nos termos simples de seu enredo. Mas, mesmo sob essa análise superficial, há muitos méritos para o episódio – ele é extremamente divertido e muito rico no desenvolvimento das relações dos personagens.

A começar por Spock e McCoy, que aqui aparecem muito mais trabalhando em equipe do que formando o antagonismo normalmente apresentado quando há Kirk entre eles. A saída do capitão obriga os dois a agirem em parceria, deixando as picuinhas de lado (essa dinâmica seria mais explorada em “The Tholian Web”, do terceiro ano).

O relacionamento entre McCoy e Kirk parece já bastante desenvolvido, com indiretas e sugestões de parte a parte. A escolha de McCoy, ao escalar Helen Noel para acompanhar o capitão, gera uma cena hilária na sala de transporte, quando Kirk deixa um “recadinho” ao médico, logo depois de interromper Noel para que ela não revelasse a todos os presentes em que circunstâncias os dois se conheceram…

Apesar do comportamento interessante e cativante do trio Kirk-Spock-McCoy e da beleza estonteante de Marianna Hill (Helen Noel), quem rouba a cena mesmo é o enlouquecido Simon van Gelder, interpretado por Morgan Woodward. O ator desempenhou tão bem suas funções, mostrando a luta interna de seu personagem para revelar os horrores de Tristan Adams, que acabou ganhando outro papel em Jornada, no episódio “The Omega Glory”, do segundo ano da série.

Pontos negativos ficam para a interpretação inócua de James Gregory, como Tristan Adams, e a reciclagem da pintura que já havia representado a estação de processamento de lítio em Delta Vega, no episódio “Where No Man Has Gone Before”. (Na versão remasterizada do episódio, fizeram a substituição por uma nova pintura digital.)

Sorte que a Série Clássica nunca dependeu de grandes efeitos visuais ou cenários mirabolantes para contar e encantar com suas histórias. Mais uma vez, essa regra prevaleceu.

Avaliação

Citações

“To all mankind – may we never find space so vast, planets so cold, heart and mind so empty that we cannot fill them with love and warmth.”
(“A toda a humanidade – que nunca encontremos espaço tão vasto, planetas tão frios, cabeças e mentes tão vazias que não possamos preencher com amor e calor.”)
Tristan Adams

“One of the advantages of being a captain is being able to ask for advice without necessarily having to take it.”
(“Uma das vantagens de ser um capitão é poder pedir por conselho sem necessariamente ter de segui-lo.”)
James Kirk

“You, Earth people, glorified organized violence for forty centuries. But you imprison those who employ it privately.”
(“Vocês, povo da Terra, glorificaram violência organizada por quarenta séculos. Mas vocês prendem aqueles que a empregam particularmente.”)
Spock

“It’s hard to believe that a man could die of loneliness.”
“Not when you’ve sat in that room.”
(“É difícil acreditar que um homem pode morrer de solidão.”)
(“Não quando você sentou naquela sala.”)
McCoy e Kirk

Trivia

  • O roteirista deste episódio é S. Bar-David, pseudônimo de Shimon Wincelberg, escritor muito importante na concepção inicial da série Perdidos no Espaço, de Irwin Allen.
  • O episódio marca o primeiro uso do elo mental vulcano (Vulcan Mind Meld), uma criação de Gene Roddenberry para evitar uma longa, chata e controversa cena de hipnose. Esse primeiro elo entre Spock e Van Gelder envolve muito mais preparação (com “a derrubada de barreiras pessoais”) para poder ser executado. Ao longo da série, o elo mental foi perdendo seu tom solene e passou a ser usado corriqueiramente como forma de resolver problemas de roteiro. Aqui ainda parecia muito pessoal e misterioso.
  • O título do episódio vem da peça Macbeth, de William Shakespeare. “Is this a dagger which I see before me/Or art thou but a dagger of the mind” (“É isso um punhal que vejo diante de mim/Ou és tu nada exceto um punhal da mente”).
  • O nome da assistente que o dr. Adams apresenta como uma ex-detenta que agora é terapeuta não é Lethe à toa. Trata-se do nome de um rio em Hades que faz com que os que bebam de sua água esqueçam seu passado.
  • O episódio marca a segunda vez que Kirk revela seus sentimentos contidos relativos à solidão do comando e seu desejo por amor (a primeira foi em “The Naked Time”). Aqui ele também reforça sua fama de maior “limpa-trilho” da galáxia, ao dar uns pegas em Helen Noel.
  • Para Leonard Nimoy, o episódio não só questiona ferramentas psiquiátricas, como a própria prática médica. “Neste caso parece que o cientista que ficou louco é o psiquiatra, e Van Gelder faz referência a ele substituir os pensamentos de outras pessoas com seus próprios ou moldar e manipular a mente das pessoas para sua própria satisfação. Essa pode ser uma pincelada mais ampla do que simplesmente examinar as ferramentas da psiquiatria, pode de fato estar questionando a psiquiatria enquanto prática.”

Ficha Técnica

Escrito por S. Bar-David
Dirigido por Vincent McEveety

Exibido em 3 de novembro de 1966

Título em português: “O Punhal Imaginário”

Elenco

William Shatner como James T. Kirk
Leonard Nimoy como Spock
DeForest Kelley como Leonard H. McCoy
Nichelle Nichols como Uhura

Elenco convidado

James Gregory como Tristan Adams
Morgan Woodward como Simon van Gelder
Marianna Hill como Helen Noel
Larry Anthony como tenente Berkeley
Suzanne Wasson como Lethe

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3 Comments on "TOS 1×09: Dagger of the Mind"

  1. Já inventaram o Neutralizador Mental, se chama TV brasileira!

  2. Antonio de Pádua | 20 de fevereiro de 2012 at 1:44 am |

    Me lembro de ter ficado muito impressionado quando era criança ao assistir este episódio. Não sei se tem relação, mas esta história de neutralizador neural pode ter alguma relação com uma pratica da medicina da década de 50: a lobotomia, que curava muitos transtornos mentais mas transformava a pessoa num vegetal. O inventor desta técnica ganhou até o Prêmio Nobel, porém ela foi abandonada alguns anos mais tarde.

  3. A tal pintura “reciclada” tem parte da estrutura do Palácio da Alvorada. Brasília recém inaugurada, sendo notícia no mundo e com uma arquitetura futurística não passou despercebida pela produção de Jornada.

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