DSC 3×01: That Hope Is You, Part 1

Introdução ao século 32 fala de resgate de propósitos e de esperança

Sinopse

Um homem repete a mesma rotina, dia após dia, esperando sabe-se lá o quê. Enquanto isso, uma perseguição espacial se dá em meio a um campo de destroços. O perseguidor acusa o perseguido de ter roubado sua carga.

Uma anomalia espacial se abre: é Michael Burnham, saída do buraco de minhoca, que tromba com a nave perseguida. Ela e a nave caem num planeta.

Michael sobrevive e descobre que está no ano 3188. Mas nem sinal da USS Discovery. Seu traje detecta múltiplos sinais vitais. A missão de salvar a vida na galáxia foi bem-sucedida. Ela manda o traje disparar o último dos sinais vermelhos pelo buraco de minhoca e se autodestruir. Então parte na direção da nave caída para descobrir onde está e pedir ajuda.

Lá ela é confrontada por Cleveland “Book” Booker, o dono da nave caída, que se descreve como um portador – alguém que leva e traz mercadorias para os órions. Relutantemente, ele concorda em ajudá-la. Michael se encanta com a tecnologia no interior da nave dele. Book, por sua vez, precisa de cristais de dilítio. Michael oferece uma “relíquia”, um tricorder do século 23, que ele poderá vender.

Os dois partem juntos para o Mercantil, e Book explica a Michael que a Federação não existe mais. Ela caiu após um evento conhecido como A Queima, quando, um século atrás, todo o dilítio da galáxia se desestabilizou. No Mercantil, Michael poderá tentar se comunicar com a Discovery, segundo Book. Mas, lá dentro, ele prepara uma armadilha para Michael. Ela é presa, e Book rouba o resto dos seus pertences. Detida, ela é interrogada por um órion e um andoriano. Eles usam uma droga, e Michael fica muito doida.

Book tenta sem sucesso negociar as relíquias do século 23 e acaba sendo capturado por seu perseguidor, Cosmo Traitt. Michael, levada por seus interrogadores, aparece para identificar o ladrão. Mas os dois armam uma fuga juntos.

Na saída, Michael pega alguns cristais de dilítio. Book quer os cristais, e eles negociam uma trégua sob a ponta das armas. Os dois conseguem fugir usando transportes portáteis, mas seguem sendo rastreados e perseguidos, até se teleportarem para a água, onde em tese não poderiam ser rastreados.

Michael está ferida. Book usa um estranho poder, induzido por algo como uma oração, e evoca uma planta com poderes curativos. Burnham usa o comunicador dele para tentar contatar a Discovery. Nada.

De volta à nave, os dois acabam sendo encontrados por seus perseguidores, que obrigam Book a mostrar sua carga: um verme gigante, que acaba os atacando. A criatura se chama Molly, e ela acaba engolindo Michael também. Mas Book usa seu poder para convencê-la a cuspir a humana de volta.

Os dois podem agora partir juntos na nave de Book, graças ao dilítio. Eles rumam para um planeta conhecido como Santuário 4. Lá Book liberta a criatura. Ele é um protetor ambiental e, agradecido, decide ajudar Michael em sua busca. Ele a leva a uma estação que costumava ser um posto avançado da Federação.

Lá eles encontram Aditya Sahil, filho de um antigo oficial de ligação da Federação. Ele segue mantendo o escritório há 40 anos, na esperança de um dia poder resgatar a liga interplanetária. Como oficial comissionada, Michael designa Sahil para servir nas comunicações, procurando pela Discovery. E juntos eles hasteiam a antiga bandeira da Federação, um sinal de esperança para o futuro…

Comentários

Apesar de pegar exatamente do ponto em que paramos na temporada anterior, “That Hope is You, Part 1” é praticamente um recomeço para a série. Já havíamos visto uma mudança forte entre a primeira e a segunda temporadas, mas ali era mero ajuste de curso. Desta vez, temos, literalmente, uma nova era de Star Trek, com nosso primeiro vislumbre do século 32.

A escolha é bastante feliz, e já neste primeiro episódio dá para sentir o gosto de liberdade, não só para os roteiristas, mas também para os fãs. Desta vez, não há quaisquer balizas sobre o que pode ou não acontecer sem violar o cânone. Agora é hora de Discovery abandonar o trabalho feito nas duas primeiras temporadas de ora driblar, ora reler a continuidade estabelecida na saga, para efetivamente passar a escrever sua própria história.

É quase uma série inteiramente nova. Seria de fato um novo show, se não preservasse aquilo que é mais importante na identidade de qualquer programa: seus personagens. O que, em Star Trek, até hoje sempre incluiu a nave-heroína. E aqui vemos já esse legado sendo plenamente explorado, com os produtores se dando ao luxo de fazer um episódio inteiramente focado na protagonista da série, Michael Burnham.

Antes de entrar na história em si, vale destacar que já dá para sentir que Discovery começa a encontrar um ritmo mais seguro de si nesta terceira temporada. O episódio não se sente obrigado a te oferecer um ponto de enredo a cada 30 segundos, evitando o passo frenético das duas temporadas anteriores, e isso se sente até nas escolhas de fotografia do diretor Olatunde Osunsanmi, que evita aqui as estripulias de câmera que marcaram os anos anteriores. Ajudou também o fato de as filmagens em locação oferecerem um cenário estonteante nas praias e tundras da Islândia.

Após uma introdução intrigante com aquele que conheceríamos mais tarde como o oficial Aditya Sahil, já temos a sensação de estarmos em outra época, com a tecnologia mais avançada já vista em uma série de Star Trek. Vemos a cama e o escritório de “matéria programável” (diferentemente de holografias, ela tem materialidade física, de modo que não precisa de projetores para se manter na forma desejada), além do adorável despertador-passarinho.

E esse é só o começo do espetáculo. Não há muita dúvida de que a equipe técnica melhora ano após ano, e temos aqui o visual mais cinematográfico já visto em uma série de Star Trek. O apuro dos detalhes e o design de produção são incríveis.

Michael Burnham aqui serve de canalizadora da própria audiência, entrando nesse estranho novo mundo do futuro. Sonequa Martin-Green, como sempre, faz um grande trabalho. Impressiona sempre como ela consegue alternar, em rápida sucessão, o estado emocional de seu personagem. Repare quando ela está conversando com Cleveland “Book” Booker a caminho do Mercantil, e ele conta que a Federação caiu e pede que ela tire a insígnia antes de chegarem lá. Em menos de 20 segundos, você vê passar pelo rosto de Sonequa a tristeza, seguida pela autorrecriminação, terminando com a determinação de seguir em frente. Não é a primeira vez que ela faz isso, mas sempre encanta a capacidade de transmitir de forma tão precisa o processo mental pela qual passa a personagem.

E o tema do episódio, naturalmente, gira em torno de perda, solidão e resgate. Ela acaba de salvar a galáxia, sacrificando tudo que tinha para isso, em nome de “um futuro” (como ela mesmo coloca), e chega a uma terra estranha, sozinha, sem qualquer sinal da Discovery.

Seu companheiro de jornada parece estar mais ou menos no mesmo barco: Book, trazido à vida com brilhantismo por David Ajala, é alguém acostumado a não confiar em nada e ninguém, que parece perdido, sem família, sem amigos, e a força que o impele adiante é um sentido de propósito: descobrimos ao final que ele é uma pessoa do bem, voltada para a preservação de criaturas que são caçadas de forma implacável pela galáxia, correndo para isso grandes riscos pessoais.

Book representa, em toda a sua ambiguidade, o mundo do século 32, onde imperam a desconfiança e o cinismo. E Michael traz os valores que carregou do século 23, munida de “confiança por reflexo” e uma esperança de transformar o mundo. No âmago, ambos são do mesmo tipo. Mas a vida os moldou de forma totalmente diferente. Ao fim do episódio, depois de ajudar Book em seu propósito nobre, ela também é ajudada por ele, e vemos que ainda há os que acreditam nos ideais da Federação. A mensagem é linda, e a cena final comove até o mais frio dos corações, graças à atuação fantástica do ator indiano Adil Hussain, num papel pequeno, mas absolutamente essencial.

E, claro, o recheio do episódio é de muita ação frenética, com cenas muito divertidas e detalhes que devem agradar os fãs da saga – quem poderia reclamar de ver um luriano entre os capangas da aliança órion-andoriana? Sonequa também vai muito bem fazendo a Michael “chapada”, com a ajuda de truques de câmera muito efetivos para dar a sensação de “campo de distorção da realidade” da droga que ela é levada a tomar. Vemos também que transportes portáteis viraram tecnologia corriqueira no século 32. E somos apresentados àquele que promete ser o grande mistério da temporada: o que será que aconteceu no evento conhecido como A Queima, que precipitou o colapso da Federação?

É de arrepiar pensar que esta trama, concebida muito antes da trágica pandemia do novo coronavírus, traga tantos elementos que estamos vivenciando agora: a crise federada parece ter sido causada por isolamento, a incapacidade de viajar livremente pela galáxia com a escassez de dilítio trazida pelo cataclismo… abrimos a série com um sujeito que, de forma obstinada, mantém-se firme a despeito de 40 anos isolado, acreditando no resgate do futuro. Isso fala a nós hoje em mais de uma forma, e impressiona a presciência. Assim como Discovery parece ter capturado o zeitgeist na primeira temporada da série, com a trama do Espelho e o ressurgimento do fascismo em nosso planeta,  e a segunda temporada buscou discutir os perigos da inteligência artificial numa sociedade paranoica, a terceira temporada também parece estar totalmente em linha com nosso momento atual, falando dos dramas do isolamento e da esperança pela construção de um futuro melhor.

Avaliação

Citações

“You guys have a real problem if your couriers are stealing stuff and then colliding with thousand-year-old women in space!”
“What cargo was he hauling?”
“I don’t know, but it was temperature-sensitive, and really valuable, so it’s probably ice cream.”
(Vocês realmente têm um problema se seus portadores estão roubando coisas e então colidindo com mulheres de mil anos de idade no espaço!”)
(“Que carga ele estava transportando?”)
(“Não sei, mas era sensível a temperatura e realmente valiosa, então provavelmente é sorvete.”)
Michael Burnham, drogada, e um interrogador órion

“I don’t know how much of the Federation still exists, I simply do my part to keep it alive.”
(Eu não sei quanto da Federação ainda existe, eu simplesmente faço a minha parte para mantê-la viva.)
Aditya Sahil

Trivia

  • Este primeiro episódio da terceira temporada foi filmado em locação na Islândia. O mesmo vale para o segmento seguinte, “Far From Home”.
  •  Michael Burnham chega ao ano 3188. Este é o futuro mais longínquo já retratado em todas as séries de Star Trek.
  • A exemplo da abertura da segunda temporada, algumas mudanças aparecem na sequência de abertura. Os cristais verdes passam a ser vermelhos (presumivelmente trocando de cristais do tempo por dilítio), Burnham aparece com tranças rastafari, vemos uma nova insígnia para a Frota Estelar, novos robôs de manutenção e um buraco de minhoca. Tudo para se alinhar com a nova história. E este é o primeiro episódio a ter o novo logotipo da série.
  • A trama desta temporada lembra uma proposta de série jamais realizada, chamada Star Trek: Federation, proposta por Bryan Singer após o cancelamento de Enterprise. Ela também era ambientada ao redor do ano 3000, num momento em que a Federação colapsara para um punhado de mundos e uma única nave representava os ideais da Frota Estelar. Também lembra um pouco a série Gene Roddenberry’s Andromeda, baseada em escritos do próprio Roddenberry e desenvolvida por Robert Hewitt Wolfe. Estrelada por Kevin Sorbo, ela mostrava uma nave transportada para o futuro e tentando restaurar sua civilização aos seus melhores dias.
  • O personagem Cleveland “Book” Booker é vivido por David Ajala, ator britânico shakespeareano que interpretou Manchester Black em Supergirl.
  • A roteirista Jenny Lumet contou a origem da gata de Book, Rancor (Grudge). “Eu inventei esse gato na terceira temporada, e esse gato era na verdade baseado em um cachorro, um cão pequinês, Nelly, que vivia na manga do quimono da minha avó Lena Horne. Um quimono tem uma manga comprida, e então você coloca seu cão companheiro na manga e você anda por aí assim, e por anos eu pensei que Nelly estava morta, porque ela nunca fez nada”, disse, complementando que a gata Leeu, nome real do animal, parece não gostar de Sonequa Martin-Green – o que soa bem adequado, sendo ela a gata de Book.
  • Cleveland “Book” Booker descreve “A Queima”, cataclísmico evento que levou à degradação do dilítio em toda a galáxia, como ocorrido entre 100 e 120 anos atrás. O portador também indica que tecnologias de viagem no tempo foram banidas da galáxia após as Guerras Temporais. É uma referência à série Enterprise. Sabemos que ao menos uma das potências envolvidas na Guerra Fria Temporal tinha origem em 3052, de onde vinha o agente temporal Daniels. Mais tarde, o episódio duplo “Storm Front”, da quarta temporada de Enterprise, indicou que as escaramuças viraram um conflito aberto.
  •  Book também menciona que os gorns teriam destruído recentemente dois anos-luz de subespaço. A primeira aparição de um gorn foi no clássico episódio “Arena”, da primeira temporada da Série Clássica. Mais tarde um membro dessa espécie seria visto em “In a Mirror Darkly, Part II”, de Enterprise, como CGI. E como animação, em “Veritas”, de Lower Decks. Por fim, o capitão Lorca, na primeira temporada de Discovery, tinha um esqueleto de gorn em seu depósito.
  • O perseguidor de Book neste episódio é Cosmo Traitt, personagem descrito pelo chefe de adereços Mario Moreira como um betelgeusiano. Um membro desta raça, presumivelmente da estrela supergigante vermelha Betelgeuse, aparece em Jornada nas Estrelas: O Filme.
  • Cleveland Booker se diz familiarizado com tecnologias como deslizamento quântico (quantum slipstream drive) e a vela solar de táquions. A tecnologia de deslizamento quântico foi encontrada pela primeira vez pela USS Voyager, no episódio “Hope and Fear” (quarta temporada). Já os veleiros de táquions são uma tecnologia primitiva de voo interestelar desenvolvida pelos bajorianos no século 16. Com ela, eles conseguiram chegar até Cardássia, como demonstrado por Sisko no episódio “Explorers”, do terceiro ano de Deep Space Nine.
  • O Mercantil, no planeta Hima, foi filmado na Hearn Generation Plant, na região de Toronto. O mesmo local serviu como a USS Hiawatha, em “Brother”, e como a base de Essof IV, em “The Red Angel” e “Perpetual Infinity”.
  • Entre os capangas dos órions vistos no episódio, temos andorianos, telaritas e ao menos um luriano, espécie nunca antes vista em Discovery. Trata-se da raça de Morn, o cliente falastrão (mas nunca em tela) do Bar do Quark na série Deep Space Nine. Também é possível notar um cardassiano numa rápida cena de perseguição. Os cardassianos foram os principais antagonistas em DS9.
  • Este episódio é o primeiro da série a não trazer Doug Jones como Saru e o terceiro (depois de “The Vulcan Hello” e “Battle at the Binary Stars”) a não mostrar a USS Discovery.
  • Nele vemos pela primeira vez a bandeira da Federação Unida de Planetas do século 32, uma relíquia guardada há gerações. Ela tem apenas seis estrelas, indicando a retração da organização.
  • Você pode conferir mais referências e easter eggs do episódio neste artigo de Maria-Lucia Racz no Trek Brasilis.

Ficha Técnica

Escrito por Michelle Paradise & Jenny Lumet & Alex Kurtzman
Dirigido por Olatunde Osunsanmi

Exibido em 15 de outubro de 2020

Título em português: “Minha Esperança É Você, Parte 1”

Elenco

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
David Ajala como Cleveland “Book” Booker

Elenco convidado

Adil Hussain como Aditya Sahil
Nicole Dickinson como Hadley
Riley Gilchrist como regulador andoriano
Julianne Grossman como voz do Santuário
Brandon McGibbon como Ithyk
Jake Michaels como Ithor
Fabio Tassone como computador da nave de Book
David Benjamin Tomlinson como Cosmo Traitt

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