DSC 3×03: People of Earth

A Discovery volta à base, e a Terra não é o que costumava ser

Sinopse

Michael Burnham conta à tripulação que procurou por eles por um ano. Nesse meio-tempo, tornou-se uma portadora, para tentar descobrir mais pistas do que levou à Queima. Ao reencontrar o pessoal da Discovery, muita emoção e abraços. E Burnham revela que encontrou uma mensagem de um almirante Senna Tal, vinda da Terra.

Saru é efetivado como novo capitão, e Book é trazido a bordo. Michael dá a seu amigo portador um prometido cristal de dilítio, em troca da carona até a Discovery.

Saru e Michael conversam, e ela sugere que se guarde o dilítio da Discovery na nave camuflada de Book, para evitar que eles se tornem um alvo. Ela também admite que se sente deslocada ao voltar, depois de um ano longe das regras da Frota Estelar. Saru relutantemente concorda, e a nave de Book é embarcada no hangar.

 

Então a Discovery salta para o Sistema Solar, nas imediações de Saturno. Após algumas horas, a nave chega à Terra, mas não é bem recebida. A capitão Ndoye, da Força de Defesa da Terra Unida, pede que eles partam. Saru insiste, e a nave é abordada para uma inspeção.

Book e Burnham se uniformizam para não gerar suspeitas nos inspetores terrestres. Ndoye explica que a Federação não está mais na Terra há cem anos. Adira, parte da equipe de inspeção, aponta que a Discovery parece uma peça de museu. Stamets e Tilly percebem que ela é muito jovem e meio geninha.

Surge uma esquadra de saqueadores, liderados pelo criminoso Wen, que costuma atacar naves da Terra. Ele exige que a Discovery renda seu dilítio. Burnham tem uma ideia e pede a ajuda de Book. A dupla parte na nave dele e oferece o dilítio a Wen, solicitando que ele baixe os escudos. Então eles o capturam e o entregam à Discovery.

Georgiou perde paciência com a conversa e tira o capacete de Wen, revelando que ele é humano. Wen revela que vem da estação de pesquisa em Titã, que se tornou independente há um século. Ndoye fica chocada ao descobrir que ele é humano. Ela achava que Titã fosse autossuficiente. Com a revelação, Terra e Titã se comprometem a dialogar para ceder ajuda e selar a paz.

Stamets descobre que Adira estava escondida na nave, após sabotar o retorno da equipe da Terra. Ela revela que conhece o almirante Tal. É um simbionte trill que está dentro dela. Adira recebe autorização de Ndoye para permanecer a bordo com a Discovery. Michael decide também ficar com a nave, como primeira oficial de Saru. Book, por sua vez, opta por partir. E a tripulação recebe autorização para fazer uma breve visita à Terra. Eles visitam o campus da antiga Academia da Frota Estelar, na esperança de que um dia a Terra volte a fazer parte da Federação.

Comentários

Seguindo o formato clássico de Jornada nas Estrelas, “People of Earth” se propõe a fazer uma análise crítica do que pode levar uma cultura a adotar uma postura mais isolacionista e xenofóbica. E o debate é levado, literalmente, para casa, ao usar a própria Terra como palco deste fenômeno, em decorrência da misteriosa Queima, o grande enigma do arco da terceira temporada de Discovery.

Vale ressaltar de saída o cuidado de Bo Yeon Kim e Erika Lippoldt, dupla de roteiristas que tem se destacado na série desde o primeiro ano, em não fazer dos terrestres vilões de quadrinhos e de resistir à tentação de mostrar uma Terra devastada pós-colapso da Federação. A cautela e o comedimento, neste caso, ajudam a mostrar que o isolacionismo pode não ser um ato de barbarismo, mas uma reação natural ao medo diante de uma situação de fragilidade.

Com isso, a série convida o espectador a refletir sobre o tema de uma forma amigável, sem aliená-lo. E discutir a ordem geopolítica contemporânea certamente não é uma novidade para a saga. Nos anos 1960, a Série Clássica refletiu a bipolarização do mundo com uma guerra fria entre a Federação e o Império Klingon (servindo de paralelo para o conflito entre Estados Unidos e União Soviética). Nos anos 1990, com o auge do processo de globalização e a sensação de que os valores das democracias ocidentais, A Nova Geração pintou a Federação como um desejável e natural governo internacional. Agora, adentrando os anos 2020, o mundo começa a adotar escolhas bem diferentes, com uma peculiar ascensão do autoritarismo, a corrosão das democracias por dentro e um crescente impulso de ações isolacionistas (capitaneadas por ideias como o lema America First e o Brexit). Se esses movimentos vão se manter pelas próximas décadas, não sabemos. Mas é como o mundo se apresenta agora e Star Trek não faz mais do que sempre fez, refletindo adequadamente esse processo. Sem apontar dedo. Mas fazendo a importante crítica social que sempre foi sua marca.

Nesse sentido, é clássica a escolha de fazer do “inimigo” do episódio alguém muito mais perto do que se podia imaginar – os próprios humanos, residentes de outras partes do Sistema Solar. O choque da capitão Ndoye ao descobrir que Wen é como ela, humano, com o conhecimento e a compreensão como predecessores da paz e da harmonia, é uma reviravolta típica da saga, como a descoberta de que a Horta só estava protegendo sua prole, em “The Devil in the Dark”, e de que o capitão gorn poderia estar apenar defendendo seu território, em “Arena”. Star Trek sempre colocou em primeiro plano a necessidade de se colocar no lugar do outro, de tentar entender sua posição, para perceber que há mais coisas que nos unem do que as que nos dividem.

Fora essas reflexões todas, temos uma história interessante e, de forma geral, bem contada (apesar de furinhos aqui e ali, como Wen mencionar que não se comunicaram com a Terra por falta de comunicação de longo alcance, sendo que Saturno está logo ali, e mesmo rádio convencional poderia fazer o serviço), que continua a expandir o que sabemos sobre o intrigante estado da galáxia no século 32.

A ideia de colocar Michael Burnham “um ano à frente” da tripulação ajudou a rapidamente colocar a história em andamento e permitiu um ótimo respiro à personagem, que enfim saiu do modo “tensão total” a que esteve submetida nos dois primeiros anos da série e agora parece aos poucos se encontrar e se equilibrar – embora isso envolva uma dúvida pessoal sobre pertencimento. Ela é parte da Frota Estelar? Ou ela agora deixou isso para trás, tornando-se uma portadora, parceira ocasional de Book? Sonequa Martin-Green faz seu bom trabalho usual ao vender essa nova fase de sua personagem, e a química entre ela e David Ajala quase nos faz querer acompanhar um spin-off que teria apenas os dois curtindo aventuras pela galáxia.

A cena entre Burnham e Tilly, em que ela entrega seu estado de espírito e o fato de que já havia meio que desistido de reencontrar a Discovery, funciona bem, e parece que cada vez mais os roteiristas encontram o tom para a jovem e brilhante alferes, que continua engraçada e espontânea como de costume, mas sem os exageros de alívio cômico que em alguns momentos acometeram a personagem de Mary Wiseman nas duas primeiras temporadas (embora, admito, eu tenha amado quase todos eles).

Também temos a introdução de Adira (Blu del Barrio), que neste episódio parece apenas fazer uma ponte para o próximo episódio, como a migalha de pão que indica o caminho para a tripulação da Discovery. Estruturalmente, no arco da temporada, por sinal, este episódio levou de uma migalha (a mensagem do almirante Tal, trazida por Burnham) à seguinte (o fato de que Tal é um simbionte trill dentro de Adira), com uma bem amarrada e inspirada aventura ligando os dois pontos, resolvendo algo que teria mesmo de ser o marco zero da busca de Saru e sua tripulação: um retorno à Terra, para ver o que restou do antigo planeta capital da Federação.

Aliás, capitão Saru! Finalmente o que já vinha sendo telegrafado desde o começo da série (pelo menos desde “Choose Your Pain”, da primeira temporada) ganha status definitivo, com o kelpiano assumindo a cadeira central da nave. Isso elimina a estranha ideia de “um capitão por temporada”, conceito que poderia funcionar por algum tempo, mas tinha data de validade. Doug Jones e seu personagem merecem.

Tivemos alguns momentos menores, mas interessantes, como a empatia instantânea entre Stamets e Adira, e a bela cena no final, quando a tripulação recebe autorização para uma rápida visita à Terra – sinalizando que, apesar de tudo, o planeta que eles chamavam de lar segue lá, à espera de dias melhores que, com sorte, a Discovery ajudará a trazer de volta.

Jonathan Frakes faz mais um bom trabalho na direção, se bem que aquela coisa de ficar girando a câmera durante diálogos já está meio velha e não deixaria saudade se caducasse. É verdade que o episódio poderia rapidamente se tornar claustrofóbico, ambientado quase totalmente dentro da nave, mas ainda assim o recurso de criar movimento artificialmente rodando ao redor dos atores às vezes passa do ponto. Este terceiro ano até aqui tem sido mais moderado neste tipo de artifício, o que é boa notícia. Dá para realmente sentir que a série tem um rumo mais firme, agora que alguém conseguiu esquentar a cadeira de showrunner, com Michelle Paradise assumindo as rédeas criativas da produção.

No fim das contas, um ótimo episódio, não totalmente livre de defeitos e de alegorias imperfeitas, mas capaz de expandir a construção de mundo dessa Via Láctea do século 32 – e com o coração no lugar certo.

Avaliação

Citações

“This ship bears the name Discovery. Never has that been more fitting, or more prescient. She has carried us into the future, and it will be our privilege to make that future bright. Let us begin. Together.”
(Esta nave tem o nome de Descoberta. Nunca foi mais adequado ou presciente. Ela nos trouxe para o futuro, e será nosso privilégio fazer este futuro brilhante. Comecemos. Juntos.”
Saru, assumindo como capitão da Discovery

“Diplomacy is so slow.”
(Diplomacia é tão lenta.)
Georgiou, ao revelar a natureza de Wen

Trivia

  • O diário pessoal de Michael Burnham indica que a data estelar do registro é 865211.3. O número é consistente com o padrão do século 24, em que mil unidades são um ano. Isso colocaria o diário em 3188, 824 anos após a primeira temporada de A Nova Geração.
  • Wen se revela um morador de um posto de pesquisa em Titã, a maior das luas de Saturno e a segunda maior do Sistema Solar. Titã foi destaque antes em “The First Duty”, de A Nova Geração, e no filme Star Trek (2009).
  • No século 32, a Terra não faz mais parte da Federação. Com isso, ela voltou a ser governada pela Terra Unida, instituição estabelecida no século 22. Já a Frota Estelar, originalmente estabelecida como instituição terrestre, foi substituída pela Força de Defesa da Terra Unida.
  • A humana Adira se revela unida ao simbionte trill Tal. Os trills já eram conhecidos no século 23, pois Emony Dax esteve com Leonard McCoy na Terra nos anos 2240. Contudo, trills não eram comuns na Frota, o que justifica Jadzia Dax ter apagado suas pintas na visita à Enterprise em 2268, em “Trials and Tribble-ations”, de Deep Space Nine. E os simbiontes certamente eram um aspecto oculto da cultura trill até o século 24, já que isso se mostra uma surpresa para a dra. Crusher em “The Host” (2367). Naquele episódio de A Nova Geração, William Riker, apesar de humano, como Adira, serve como hospedeiro temporário para um simbionte trill.
  • “People of Earth” foi o primeiro de três episódios desta temporada dirigidos por Jonathan Frakes.
  • A atriz sul-africana Phumzile Sitole, que faz a capitão Nboye, contou a Frakes que pretendia desistir da profissão após este trabalho, mas mudou de ideia após participar do episódio.
  • O canadense Christopher Heyerdahl, que aqui interpreta Wen, é conhecido dos fãs de ficção científica por seus papéis recorrentes como Halling e Todd, em Stargate Atlantis. Mais recentemente, ele é lembrado por seu papel recorrente em Hell on Wheels, série que foi estrelada por Anson Mount (Pike) e Colm Meaney (O’Brien).
  • No fim do episódio, a tripulação da Discovery visita o antigo campus da Academia da Frota Estelar e encontra um grande olmo, árvore mencionada por Jean-Luc Picard. Olmos americanos costumavam viver 400 anos no século 19, até o surgimento de uma doença nos anos 1930, que reduziu a expectativa de vida a 150 anos. Mas, pelo visto, no futuro, eles passarão dos mil anos.
  • Na falta de uma locação com um olmo de mil anos, a árvore foi criada digitalmente, com a instalação de uma estrutura de fundo azul no meio do jardim.
  • As roteiristas Bo Yeon Kim e Erika Lippoldt quiseram trazer a discussão do isolacionismo, tão pertinente no século 21, mas transporta para o século 32. “Mesmo num mundo pós-Federação, essa ainda é uma Terra que passou pela Federação. Então, essas pessoas são muito mais iluminadas que nós”, disse Kim. “Não é como se a Federação tenha regredido para esse pensamento xenofóbico. Realmente quisemos contar essa história de que, o que quer que tenha acontecido com a Queima, criou muito transtorno de estresse pós-traumático nas pessoas. Estando tão desconectada do resto dos planetas, a Terra começou a “outroizar” outros, para se proteger. O medo foi a maior fraqueza, e até mesmo quem passou pela Federação não teria como se proteger dele.”
  • Confira mais curiosidades e easter eggs deste episódio, em artigo de Maria-Lucia Racz, clicando aqui.

Ficha Técnica

Escrito por Bo Yeon Kim & Erika Lippoldt
Dirigido por Jonathan Frakes

Exibido em 29 de outubro de 2020

Título em português: “Povo da Terra”

Elenco

Sonequa Martin-Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
David Ajala como Cleveland “Book” Booker
Michelle Yeoh como Philippa Georgiou

Elenco convidado

Blu del Barrio como Adira
Christopher Heyerdahl como Wen
Adil Hussain como Aditya Sahil
Phumzile Sitole como Ndoye
Emily Coutts como Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como Gen Rhys
Oyin Oladejo como Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como R.A. Bryce
Sara Mitich como Nilsson
Fode Bangoura como mercador alienígena
Shawn Campbell como inspetor supervisor
Riley Gilchrist como regulador andoriano
Xavier Lopez como tripulante
Fabio Tassone como computador da nave de Book
David Benjamin Tomlinson como Linus

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