ENT 2×05: A Night in Sickbay

Porthos na enfermaria

Catástrofe e comédia ficam na mesma página do dicionário de Berman & Braga

Sinopse

Data estelar: Desconhecida

Um grupo avançado, composto por Archer, T’Pol, Hoshi e o cãozinho Porthos, volta de uma frustrada missão diplomática no mundo natal kreetassano. Não bastasse o fracasso das negociações, o capitão ainda tem que se conformar com o fato de seu cachorro ter adquirido um patógeno que não pôde ser eliminado nem mesmo após o processo de descontaminação conduzido pelo dr. Phlox.

O médico diz ao capitão que seu cão precisa ficar mais tempo na enfermaria, mas os outros três estão liberados. Cada um volta aos seus afazeres e Archer vai até a engenharia contar a Trip que fracassaram as negociações para a obtenção dos injetores de combustível de que a Enterprise precisa. A nave atualmente está com cinco dos seis funcionais. Archer insiste que é possível manter a nave funcionando com cinco deles, mas Trip lembra que eles podem ficar à deriva se mais um quebrar e eles não tiverem obtido uma substituição — o que pode não acontecer logo, uma vez que nem todos têm peças tão compatíveis com os sistemas da nave como os kreetassanos.

Tucker e Archer na engenharia

Apesar disso, irritado pela forma como foi tratado no planeta, Archer não parece disposto a voltar às negociações. Para começar, ele nem sabe o que foi que ofendeu os kreetassanos desta vez. E seu humor não melhora nada quando ele volta à enfermaria e é informado pelo doutor Phlox de que seu cãozinho não vai nada bem — o parasita que o infectou está minando seu sistema imunológico. Phlox está aplicando um tratamento, mas não sabe se ele terá sucesso.

Depois de voltar aos seus aposentos, Archer sente a falta de Porthos e acredita que, talvez, seja melhor ele passar a noite na enfermaria, ao lado de seu cão. Lá, ele é recebido por Phlox e ocupa uma das camas de pacientes. Mas as atividades do doutor (como cortar as unhas e esticar a língua) acabam impedindo o capitão de dormir. Ele decide, então, ir à sala de ginástica da nave para se exercitar.

Phlox esticando a língua

Lá, ele encontra T’Pol, também fazendo corrida em uma esteira. Os dois começam a conversar e a vulcana logo deixa claro que não aprova a postura do capitão, colocando seu cão acima de sua nave na lista de prioridades. Archer começa a se comportar de modo cada vez mais agressivo para com sua primeiro-oficial, por motivos pouco compreendidos. Mas ambos são interrompidos por Hoshi, que diz que os kreetassanos contataram a Enterprise para oferecer a lista de exigências deles para que perdoem a tripulação humana.

Aparentemente, eles ficaram ofendidos depois que Porthos fez xixi em uma de suas árvores sagradas, mas Archer não está muito tocado pela situação. O capitão se recusa a participar do estranho ritual de desculpas exigido pelo protocolo kreetassano.

T'Pol e Archer na academia

Na enfermaria, as coisas vão de mal a pior. O tratamento original desenvolvido por Phlox não funciona e a vida de Porthos passa a estar ameaçada. O doutor vai tentar um tratamento alternativo, mas, como com o primeiro, não há garantias de sucesso. Archer fica ainda mais frustrado e reage com violência ainda maior quando T’Pol vem falar com ele.

O doutor, dando uma de psicanalista, reconhece em Archer o comportamento de alguém que está tentando reprimir um desejo sexual inconsciente por sua oficial de ciências. Ele tenta convencer o capitão disso, mas Archer se recusa a acreditar nas observações de Phlox. Apesar disso, seus sonhos dizem outra coisa.

Porthos na enfermaria

Ao cair no sono, Archer sonha que está no funeral de Porthos, acompanhado por T’Pol e no qual Phlox é o padre. Lá, o capitão e T’Pol se dão as mãos, em meio à tarde chuvosa, num claro sinal de intimidade. O sonho, então, salta para a câmara de descontaminação, da qual Phlox diz que Hoshi e Porthos podem sair, mas onde T’Pol e Archer precisam ficar um pouco mais. Sozinhos, os dois começam a se acariciar de formas “não-protocolares”, terminando num beijo. Em meio a esse sonho, Archer é acordado por um alarme na enfermaria: o tratamento de Phlox mais uma vez está falhando.

A única alternativa que resta ao doutor é tentar um transplante de hipófise, trocando a de Porthos por uma de uma lagarta que ele mantém na enfermaria. Quando o médico revela que nunca fez isso antes, Archer ameaça não o deixar seguir com o procedimento, chegando até a ofender o denobulano. Um pouco mais calmo, instantes depois, ele concorda com o procedimento e pede desculpas a Phlox pela explosão.

Archer sonhando com T'Pol

O médico, então, comenta com Archer que T’Pol havia dito que ele era incapaz de pedir desculpas. O pensamento faz com que o capitão reconsidere sua decisão de não se desculpar com os kreetassanos. Enquanto Phlox trabalha para salvar seu cão, ele vai à superfície e realiza o ritual exigido pelos kreetassanos para compensar pelas ofensas anteriores. A ação é bem-sucedida e Archer consegue dos alienígenas os injetores de combustível de que a Enterprise precisa.

De volta à Enterprise, Archer pede desculpas a T’Pol por sua aspereza anterior, ressaltando que tais conflitos são inevitáveis, especialmente se os dois oficiais são de sexos opostos — sem dúvida, ecoando as observações iniciais de Phlox. Para a surpresa de todos, T’Pol apenas concorda, dizendo que ambos precisam trabalhar para evitar que se envolvam pessoalmente e dando a entender que a tensão entre os dois é recíproca.

Archer em ritual kreetassano

Na enfermaria, Archer descobre seu cãozinho recuperado e pronto para voltar a seus aposentos.

Comentários

“A Night in Sickbay” pode ser definido em uma só palavra: catástrofe. Há tantos elementos equivocados em apenas 45 minutos que é impossível entender como os criadores da série, que deveriam melhor entender o que o programa e os personagens deveriam ser, puderam ser os responsáveis diretos por esse roteiro.

Primeiro, a motivação da história — a obtenção de uma peça que acaba de quebrar na Enterprise. Depois de a nave ter passado por uma verdadeira reforma em “Dead Stop”, é meio estranho ouvir que já esteja novamente precisando de reparos (se houvesse uma menção no episódio aos eventos do segmento anterior, isso poderia ter sido contornado, mas como não foi o caso…).

Title card ENT 2x05 A Night in Sickbay

Depois, temos mais da infame câmara de descontaminação — uma desculpa gratuita e pouco científica para mostrar os rapazes sem camisa e as moças em blusas curtinhas e com as coxas de fora.

Para completar o quadro, Archer parece uma criança ao longo de todo o episódio, incapaz de eleger suas prioridades e assumir sua posição de capitão por ter ficado magoado com o descaso dos kreetassanos para com seu cachorro. E, como se não bastasse, os produtores tiram da cartola uma tensão sexual entre Archer e T’Pol, algo que não é suportado por nenhum episódio anterior da série e que, provavelmente, não vai voltar a aparecer tão cedo.

Hoshi, T'Pol, Archer e Porthos na sala de descontaminação

Só para não dizer que o episódio é 100% lixo, vale destacar a única atuação realmente digna de nota: a de John Billingsley, como Phlox. Apesar de o roteiro simplesmente demolir a dignidade do bom doutor (indo desde observações sem sentido, como aquela sobre a tensão de Archer com relação a T’Pol, até o uso do personagem como palhaço, com um líquido gosmento caindo sobre ele, sem falar nas infames cenas da língua esticada e das unhas nojentas), Billingsley consegue imprimir tamanha personalidade que, apesar de todos os esforços dos produtores em contrário, ainda sou capaz de respeitar Phlox.

Todo mundo sabe, desde o princípio, que os produtores queriam colocar mais sexo nesta série do que nas anteriores. Honestamente, não tenho nada contra isso, contanto que seja feito para desenvolver os personagens, não em detrimento deles. No caso de Archer e T’Pol, a sugestão de tensão sexual fez muito mal aos dois (além de simplesmente não fazer o menor sentido!).

Phlox caçando um morcego

Quando sentimos a sensualidade entre T’Pol e Tucker em “Broken Bow”, eu achei potencialmente interessante, mesmo que gratuito. A mesma coisa valeu para os desejos reprimidos de Reed, revelados em “Shuttlepod One“. Mas, aqui, o uso de Archer é totalmente inapropriado e vai contra tudo o que vimos nos episódios anteriores. Ao que parece, os produtores têm essa necessidade de dizer que todos os tripulantes babam por T’Pol — o que, por si só, não traz nada de bom à série. Dessa vez, eles perderam feio.

Para completar a desgraça, T’Pol reconhece tacitamente algum interesse por Archer, algo ainda mais impensável do que o contrário. De onde Rick Berman e Brannon Braga tiraram essa ideia?

Sonho de Archer com T'Pol

Mudando de assunto, mas seguindo com o tom: tenho certeza de que muitos telespectadores sabem o quanto uma pessoa pode amar seu animal de estimação. Eu respeito isso e acho que muitas cenas do episódio expressaram de forma adequada esse sentimento. Mas esse homem é o capitão da mais importante nave espacial da Terra! Sua preocupação maior deveria ser de transmitir uma boa impressão dos humanos a outras raças alienígenas! Mas, quando uma delas se ofende, ele está mais preocupado com seu cão (que não tinha nada que estar em uma missão diplomática!) do que com as relações entre humanos e kreetassanos. Por esse comportamento, só posso supor que ele ganhou o cargo de capitão numa rifa ou algo do tipo…

Archer e Porthos

A péssima qualidade do roteiro e do enredo contrasta com os belíssimos efeitos visuais digitais, como a língua comprida de Phlox — que é extremamente bem feita — ou seu morcego de estimação (pena que as duas sequências sejam patéticas ao extremo).

A direção de David Straiton não faz nada mais que a obrigação, sem grandes inovações ou qualidades. Os atores fazem o que podem — o que não é muito, diga-se de passagem –, dada a qualidade do roteiro.

Infelizmente, “A Night in Sickbay” é capaz de demolir todo e qualquer esforço anterior da produção em dar a Archer uma personalidade definida e, de preferência, uma que pudéssemos admirar. Phlox também não se sai bem da enrascada e o que menos compromete essa aberração que os produtores chamam de episódio é Porthos — felizmente, não há nenhuma cadela vulcana a bordo.

Avaliação

Citações

“You know, this isn’t some guinea pig you’re working on here. This is Porthos, my beagle, my pal. And from what you’re telling me, the closest thing your people have to pets are furry little things that go well with onions.”
“Perhaps you’re right, captain. Perhaps I’m insensitive to the bond between you and your subservient quadruped. I’ll leave the procedure up to you. But whatever your decision, make it quickly.”
(Sabe, essa não é nenhuma cobaia em que você está trabalhando. Esse é o Porthos, meu beagle, meu camarada. E, pelo que você está me dizendo, a coisa mais próxima que seu povo tem de animais de estimação são coisinhas peludas que vão bem com cebolas.)
(Talvez você tenha razão, capitão. Talvez eu seja insensível ao elo entre você e seu quadrúpede subserviente. Vou deixar o procedimento por sua conta. Mas, qualquer que seja a sua decisão, faça-a depressa.)
Archer e Phlox

“If Porthos pulls through, will he need a special diet or treatment, having a chameleon’s pituitary gland?”
“You may have some difficulty finding him. He’ll have the ability to blend into his background when frightened.”
“You’re kidding.”
“Yes, I am.”
(Se Porthos sair dessa, ele vai precisar de uma dieta especial ou tratamento, tendo uma hipófise de camaleão?)
(Você pode ter alguma dificuldade para encontrá-lo. Ele terá a habilidade de se camuflar quando assustado.)
(Você está brincando.)
(Sim, estou.)
Archer e Phlox

Trivia

  • “Temos um episódio bem engraçado que mostra o nosso bom capitão passando algum tempo na enfermaria, porque seu cão ficou doente”, disse o produtor-executivo Rick Berman. “Ele vai para a enfermaria do mesmo jeito que uma mãe iria para um hospital quando seu filho fica doente e acaba sendo um episódio do tipo ‘casal neurótico’ entre o capitão e o dr. Phlox. É bem divertido.”
  • Scott Bakula destaca a importância de Porthos. “Temos um grande episódio que, de certo modo, é sobre o meu cão. Ele é o fundo de um episódio inteiro, mas ele fica doente, então eu passo o episódio inteiro na enfermaria com o doutor Phlox. Nós descobrimos muitas coisas sobre ele que poderíamos não ter querido saber; como o que ele faz nas horas de folga — ele tem coisas para cortar e aparar!”
  • As filmagens começaram em 1º de agosto de 2002 e acabaram no dia 8. Embora tenha sido o quarto episódio a ser filmado, foi o quinto a ser exibido, porque “Dead Stop” e “Minefield” precisavam ser apresentados em sequência.
  • Vaughn Armstrong reprisa o papel do capitão kreetassano que apareceu anteriormente em “Vox Sola”. Mais conhecido em Enterprise como sendo o almirante Forrest, Armstrong já acumula 11 papéis em Jornada nas Estrelas.

Ficha Técnica

Escrito por Rick Berman & Brannon Braga
Dirigido por David Straiton

Exibido em 16 de outubro de 2002

Títulos em português: “Uma Noite na Enfermaria”

Elenco

Scott Bakula como Jonathan Archer
Jolene Blalock como T’Pol
John Billingsley como Phlox
Anthony Montgomery como Travis Mayweather
Connor Trinneer como Charlie ‘Trip’ Tucker III
Dominic Keating como Malcolm Reed
Linda Park como Hoshi Sato

Elenco convidado

Vaughn Armstrong como capitão kreetassano

Enquete

Edição de Mariana Gamberger
Revisão de Nívea Doria

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