TNG 3×15: Yesterday’s Enterprise

Aventura de linha do tempo alternativa costura o destino de duas Enterprises

Sinopse

Data estelar: 43625.2

A Enterprise encontra uma fenda temporal e dela emerge uma nave: é a Enterprise-C, que viajou 22 anos no futuro e, com isso, de forma instantânea, produziu uma nova linha temporal.

Um grupo avançado presta assistência à nave, muito danificada, e a capitão Rachel Garrett é trazida à Enterprise-D, onde revela que estava numa batalha defendendo o posto avançado klingon de Narendra III contra uma incursão romulana quando acabou capturada pela fenda temporal.

Na nova linha do tempo, a Federação está em guerra com o Império Klingon, e a tenente Tasha Yar jamais chegou a morrer, seguindo como oficial de segurança de Picard. Mas Guinan está convencida de que nada daquilo deveria estar acontecendo, e a Enterprise-C não deveria estar ali. Ela externa suas preocupações a Picard, mas o capitão hesita em mandar a nave de Garrett de volta, onde ela encontrará morte certa pelas mãos dos romulanos.

Guinan, no entanto, consegue persuadi-lo, indicando que o retorno da Enterprise-C poderia impedir a guerra de ter começado. Picard convence Garrett da importância de retornar, enquanto o tenente Castillo, da Enterprise-C, e Tasha Yar, da Enterprise-D, se apaixonam.

Os klingons atacam as duas Enterprises, e Garrett morre. Informada por Guinan de que deveria estar morta, Yar pede permissão a Picard para ir com a Enterprise-C. Ele relutantemente concorda, e a Enterprise-D dá cobertura para que a nave possa entrar na fenda temporal. Quando ela o faz, a linha do tempo volta a ser o que era antes.

Comentários

“Yesterday’s Enterprise” é seguramente um dos melhores episódios de toda a série, com qualidades que por vezes parecem contraditórias. Por exemplo, ele tem uma trama relativamente simples (nave do passado emerge no futuro; nave do passado volta a sua própria época) e ao mesmo tempo ultracomplexa, por envolver a criação de uma nova linha do tempo em que os personagens são essencialmente os mesmos, mas num contexto muito diferente. Ele também é um episódio de viagem no tempo, com todos os paradoxos que envolvem essas tramas, e  firmemente fincado na mesma época (com duas realidades paralelas!), uma vez que nunca chegamos a ver a Enterprise-C em seu próprio tempo.

Para acompanhar essa dualidade entre simples e complicado, temos incríveis valores de produção e atuações igualmente potentes. Grande destaque vai para as sutis mudanças de cenário e sobretudo de iluminação feitas na Enterprise-D para refletir essa linha do tempo alternativa, acompanhadas por pequenas alterações nos uniformes (com golas fechadas na frente e cintos militarísticos), que dão enorme credibilidade à ideia de que estamos mesmo numa realidade alternativa. A iluminação da ponte, em particular, mais escura e com uma contraluz azulada, é particularmente efetiva.

E nem precisamos falar do modelo da Enterprise-C. Não é tarefa trivial desenhar uma nova Enterprise, e aqui temos uma feita para um único episódio e que precisa se encaixar em termos estilísticos numa linhagem que àquela altura já tinha a Enterprise clássica, a A e a D. O trabalho é largamente bem-sucedido.

Também temos uma fantástica reintrodução para Tasha Yar, personagem morta de forma precoce em “Skin of Evil”, da primeira temporada, quando a atriz Denise Crosby pediu para deixar a série. Aqui, ela é muito bem servida pelo roteiro, com direito a ganchos para futuras aparições (da atriz, não da personagem).

Além de Crosby, quem faz um trabalho fantástico na atuação são os dois maiores gigantes do elenco, Patrick Stewart e Whoopi Goldberg. Por sinal, o coração do episódio está nessas cenas. São eles que, cada um a seu modo e de seu ponto de vista, expõem o que há em jogo e apresentam o dilema que Picard deve enfrentar. E um dilema sem solução fácil é uma das coisas mais saborosas que Star Trek costuma oferecer. Nós, a audiência, claro que sabemos qual seria a decisão certa. De certa maneira, somos todos Guinans nesse episódio, com conhecimento de que há algo muito errado ali, mas a chave é convencer Picard disso. E ele não tem nada mais que a confiança cega em uma velha amiga para fazer uma escolha de vida ou morte. Dá para sentir o peso na interpretação de Stewart, o que faz o episódio funcionar para além do high concept de ficção científica que ele incorpora.

De fato, não há reparos a fazer a “Yesterday’s Enterprise”. Até mesmo o uso que ele faz de todos os personagens, inclusive Worf, que não aparece na linha do tempo alternativa, mas abre o segmento com a famosa cena do suco de ameixa, e a ideia de abrir e fechar o episódio com Guinan, são inspirados. O romance de Castillo e Tasha funciona e aparece na medida certa, como apenas mais um ingrediente, na decisão da tenente de fazer sua morte ter significado. Enfim, estamos falando de um grande clássico de Star Trek, muito bem produzido, dirigido e atuado.

Avaliação

Citações

“Let’s make sure that history never forgets… the name… Enterprise.”
(Vamos nos certificar de que a história nunca esqueça… o nome… Enterprise.)
Picard

Trivia

  • Eric Stillwell, que trabalhava na produção de A Nova Geração, mas não como roteirista, contou em entrevista ao Trek Brasilis a longa história que levou à concepção desse episódio. “Um dos roteiros especulativos que foi submetido durante a segunda temporada foi de Trent Christopher Ganino, chamado ‘Yesterday’s Enterprise’, onde a Enteprise-D encontra a Enterprise-C, que chegou à nossa época por acidente e precisa ser mandada de volta antes que mude a história. Era uma história que lidava primariamente com o dilema de Picard de contar ou não a essas pessoas que o retorno delas também resultaria em suas mortes, e saber se esse conhecimento mudaria ou não o curso da história.”
  • Tasha Yar e a guerra com os klingons viriam apenas mais tarde, segundo Stillwell, depois que Crosby manifestou o desejo de retornar à série. “Após o lançamento de Jornada V, Trent e eu começamos a colaborar em uma ideia diferente que envolvia a morte acidental de Surak, o fundador da filosofia vulcana moderna, durante uma expedição arqueológica feita com o Guardião da Eternidade. Como resultado da morte de Surak, os vulcanos nunca evoluíram como os conhecemos hoje e terminaram formando uma aliança com os romulanos para destruir os klingons. Na época em que os encontramos, eles resolvem se dedicar a destruir a Federação. Estamos em guerra. E porque a linha do tempo foi alterada e os klingons se foram, Tasha Yar sobreviveu para lutar mais uma vez. No final, o pai de Spock, Sarek, que estava a bordo da Enterprise e inalterado pela mudança temporal, convence Picard a deixá-lo retornar para o passado de Vulcano via Guardião da Eternidade para corrigir o problema. Com efeito, Sarek substitui Surak e se torna o fundador da filosofia vulcana moderna. Quando mostramos essa ideia aos produtores, eles pediram para que tirássemos o Guardião da Eternidade e Sarek, e de algum modo combinássemos o resto com o conceito original de Trent para ‘Yesterday’s Enterprise’. Eles queriam manter Tasha (porque eles sabiam que Denise Crosby estava interessada em retornar) e queriam que usássemos Guinan como a pessoa que convence Picard de que algo está terrivelmente errado. E é assim que o episódio se desenvolveu.”
  • A roteirização foi igualmente atribulada. As filmagens originalmente estavam marcadas para janeiro de 1990, após o hiato de Natal. Mas para conciliar as agendas de Crosby e Whoopi Goldberg, foi preciso antecipar as filmagens para 11 de dezembro. E isso só seria possível se o roteiro fosse todo escrito durante o feriado de Ação de Graças de 1989, no final de novembro. Para viabilizar isso, o roteiro foi dividido entre quatro roteiristas da equipe (Ira Steven Behr, Ronald D. Moore, Hans Beimler e Richard Manning) e cada um deles escreveu um pedaço. O showrunner Michael Piller deu uma polida final, não creditada, e todos estavam convencidos de que o episódio seria um desastre, pela forma como foi escrito.
  • “Trouxemos Denise de volta para matar Tasha Yar uma segunda vez”, disse Ronald D. Moore. “Foi uma ótima oportunidade de despachar a personagem em um grande e heroico sacrifício, porque ninguém ficou realmente feliz com o jeito que ela deixou a série na primeira temporada. Ninguém na série de fato gostou, os fãs não gostaram, eu não estou certo de que até ela tenha gostado. Então, ‘Yesterday’s Enterprise’ era uma chance de matá-la direito.”
  • Por questões de tempo e de orçamento, acabamos vendo menos mortes de personagens principais na linha do tempo alternativa. Vemos o fim de Riker. Mas o roteiro ainda previa Wesley Crusher decapitado e Data eletrocutado. Talvez tenha sido melhor assim.
  • A Enterprise-C foi projetada pelo ilustrador Rick Sternbach, baseado em desenhos deixados por Andrew Probert ainda na primeira temporada, quando ele rascunhou uma linhagem completa de Enterprises.
  • Na cena final, entre Geordi e Guinan, o engenheiro-chefe está usando o uniforme da linha do tempo alternativa, num claro erro de continuidade.
  • A primeira exibição de “Yesterday’s Enterprise” teve 13,1 milhões de espectadores nos EUA, a terceira maior da série toda.
  • Michael Piller ficou bem satisfeito. “Esse foi um episódio clássico. Nunca conheci Denise Crosby pessoalmente, mas sou com certeza um admirador. Ela fez um grande trabalho para nós. Aquele foi um episódio tão legal quanto podemos fazer. Ele era uma das histórias mais divertidas e únicas de viagem no tempo que você vai ver na vida. Não sei se houve um episódio melhor na terceira temporada. Diabos, Picard manda 500 pessoas para sua morte baseado na palavra da barwoman. Vamos lá, isso é duro. Eu fiquei muito feliz com ele e, francamente, dou o crédito ao diretor e ao elenco e às pessoas que fizeram a pós-produção. O roteiro não era um dos melhores que escrevemos naquela temporada. Conceitualmente, era maravilhoso, saído das cabeças de algumas pessoas aqui… Há pequenos furos no episódio que não pudemos consertar. Era uma premissa tão complicada e fascinante, mas no fim foi o material de personagem que deixou todo mundo orgulhoso.”
  • Jonathan Frakes admitiu que foi um roteiro meio complicado. “Até hoje eu não entendo ‘Yesterday’s Enterprise’. Não sei que diabos aconteceu naquele episódio. Ainda estou tentando entender — mas gostei do visual.”

Ficha Técnica

História de Trent Christopher Ganino & Eric Stillwell
Escrito por Ira Steven Behr & Richard Manning & Hans Beimler & Ronald D. Moore
Dirigido por David Carson

Exibido em 19 de fevereiro de 1990

Título em português: “Elo Perdido”

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Jonathan Frakes como William Thomas Riker
Brent Spiner como Data
LeVar Burton como Geordi La Forge
Michael Dorn como Worf
Marina Sirtis como Deanna Troi
Gates McFadden como Beverly Crusher
Wil Wheaton como Wesley Crusher

Elenco convidado

Whoopi Goldberg como Guinan
Denise Crosby como Natasha Yar
Christopher McDonald como Richard Castillo
Tricia O’Neil como Rachel Garrett

Enquete

Edição de Maria Lucia Rácz
Revisão de Susana Alexandria

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