Nicholas Meyer traz novidades sobre Star Trek: Khan – Ceti Alpha V

O escritor e diretor Nicholas Meyer ofereceu uma atualização sobre seu projeto intitulado Star Trek: Khan – Ceti Alpha V. O projeto foi revelado por Meyer no Star Trek Day do ano passado, onde explora o exílio de Khan Noonien Singh em Ceti Alpha V, antes dos acontecimentos do filme Star Trek II: The Wrath of Khan.

Nick Meyer conversou com Larry Nemecek no seu canal Portal 47, onde discutiu vários aspectos da carreira do escritor, incluindo alguns fatos pitorescos de seu tempo em Star Trek II, Star Trek VI e Star Trek: Discovery, e também um pouco sobre seu novo trabalho, Ceti Alpha V. A entrevista foi condensada para melhor entendimento.

Fazendo Star Trek II com orçamento menor (1982)

A produção descontrolada em Star Trek: The Motion Picture acabou consumindo um orçamento de 45 milhões de dólares, alto demais para a época. Harve Bennette (produtor) aceitou fazer outro filme com menos que isso. Nesse tempo foi quando Nick veio a bordo:

Eu tinha dirigido “Time After Time” (Um Século em 43 Minutos) e estava interessado em fazer um filme de um roteiro que escrevi que se chamava “Fifith Business”. Essa era minha obsessão. O tempo passou, e um dos meus amigos era executiva da Paramount, que me disse: “Você não vai poder fazer o filme que deseja, se não quiser aprender a dirigir”. Eu tinha dirigido apenas um filme. E ela continuou: “Por que não vai até a Paramount para conhecer Harve Bennett?”. Ela descreveu o que Harve tinha feito e que ele tinha sido contratado para fazer o segundo filme de Star Trek. E eu disse: “É aquela do homem com orelhas pontudas”.

Então, eu fui lá e Harve me mostrou The Motion Picture. Eu não entendi aquilo, depois ele me mostrou alguns episódios. E sentado ao lado do Harve senti que havia algo, sobre estas coisas, que eu gostava, mas eu não conseguia superar os cenários cafonas e bobos. Mas havia algo atraente nisso. Eu me lembrei dos livros que li quando tinha 13 anos. Após minha imersão nos livros de Sherlok Holmes, eu passei a ler “As Aventuras do Capitão Horatio Hornblower”, que era um capitão da Marinha Real nas guerras Napoleônicas. E aí pensei: “Essa coisa de Star Trek é uma espécie de Horatio Hornblower no espaço”. Para ser sincero, eu não sabia o que Star Trek significava, mas descobri como iria fazer. Submarinos, navios de guerra, a Marinha. Então, comecei a querer fazer minha Ópera Espacial. Um quinto rascunho estava vindo, os produtores o enviaram para mim e nós seguimos em frente, fiz o acordo. Passadas semanas e nada. Eu acordei e pensei: “O que aconteceu com aquele filme Star Trek, sobre o qual estávamos conversando?”. Então, liguei para o Harver que disse que havia cinco rascunhos que eram cinco tentativas separadas de obter um segundo filme. São roteiros não relacionados. Mas a Paramount estava determinada a fazer isso. Eles fizeram uma franquia para competir com George Lucas, Star Wars.

Então, eu disse: “Me envie todos aqueles roteiros e me deixa lê-los”. Passei não sei quantas semanas lendo essas cinco versões diferentes. Depois Harve e Robert (Sallin) vieram a minha casa. Eu peguei meu bloco de notas e disse: “Aqui está minha ideia de fazermos uma lista do que gostamos nesses cinco roteiros. Pode ser a trama principal, sub tramas, uma sequência, uma cena, um personagem, um diálogo, não importa. Então, faremos um roteiro que incorpore o máximo de coisas desta lista”. Eles pareciam não ter gostado da ideia e eu perguntei qual era o problema. E eles me responderam que de acordo com a Industrial Light & Magic, empresa contratada para fazer os efeitos especiais, se não tivessem o roteiro em 12 dias, não poderiam garantir a entrega das cenas a tempo para a abertura de junho. Isso era novidade para mim. Então, eles disseram para eu não aceitar o acordo de 12 dias, mas eu repliquei: “Esqueça o acordo, esqueça o dinheiro, esqueça os créditos. Ou começamos a fazer agora, ou não haveria filme”. Eu fiz em 12 dias, e me lembro que minhas costas estavam doloridas quando terminei. Harver escreveu cinco a seis linhas.

Respondendo a uma pergunta no chat da Live, Nick falou sobre uma cena cortada do filme em que aparece uma criança dentro do Botany Bay e que foi especulado ser o filho de Khan:

Não houve discussão. Acho que nunca pensamos nisso, em termos de filho de Khan. Tudo que eu queria era mostrar que eles estavam se reproduzindo e que havia um bebê. Mas eu meio que estraguei tudo nas filmagens, então, cortamos.

Não aceitou escrever para Star Trek III (1984)

Foi perguntado se ele teria se recusado a escrever para o terceiro filme porque estava cansado de fazer Star Trek, disse:

Não é por isso que eu disse não. Na época, eu perguntei do que se tratava, e eles disseram: “Trata-se de trazer Spock de volta à vida” e eu respondi: “Ressurreição? Eu acho que não sei como fazer ressurreição”. E disse, me perdoem a expressão “Vá a Deus, porque talvez ele saiba como” (Harve Bennett acabou sendo o roteirista). Então, Leonard (Nimoy) entrou nesta brecha, e viu que isso era uma oportunidade de colocá-lo na cadeira de diretor. E creio que a Paramount não ficou entusiasmada, no começo, com isso, porque me lembro do Leonard ligando para minha casa a noite dizendo que Michael Eisner (executivo que estava no comando) não queria que ele fizesse a estreia como diretor num filme em que ele é também a estrela, e me perguntou: “O que você acha Nick?”. Eu respondi: “Você está preparado para deixar a nave navegar sem você?” e ele disse: “Com certeza”. E finalizei: “Então, você vai dirigir o filme”.

Brigando pelo orçamento de Star Trek VI (1991)

Eu morava em Londres. Frank Mancuso comandava a produção da Paramount e Martin Daves dirigia a empresa. Eles estavam em Londres e nos encontramos para almoçar, onde disseram que não estavam felizes com o filme Star Trek V. E me pareceu que queriam tirar mais um filme com o elenco original. Estávamos falando numa faixa de 30 milhões de dólares. Eu disse que não tinha ideias. Meses depois, eu estava em minhas férias, e Leonard voou ao meu encontro de Boston para Provincetown. Ele me deu uma ideia e disse basicamente: “Você sabe que os Klingons sempre foram nossos substitutos para os russos. E se o Muro (de Berlim) cair no espaço sideral?” e eu disse: “Ok, vamos fazer uma grande explosão, uma matança intergalática de Chernobyl, o Império Klingon termina e eles serão o lixo alienígena ilegal da galáxia”. Leonard concordou. Falamos com a Paramount que achou ótimo. Depois de um tempo, descobri que tinham contratado dois roteiristas para escreverem a história que inventei. Eram mais baratos que eu. Eles contrataram esses caras e a próxima coisa que ouvi foi que eles estavam tendo um pouco de dificuldade para começar. Eu não me lembro mais do que aconteceu, mas acabou voltando para mim. Eu tinha um assistente maravilhoso e escrevemos juntos. Eles aprovaram o script. Leonard quis uns ajustes e fizemos os ajustes.

Então, fui para Los Angeles em 1990 ou 1991. Estávamos sentados no escritório com os diretores de produção e Leonard. Harve não estava lá, havia rompido com a Paramount. Aí eles disseram que estavam falando de 25 milhões e eu repliquei dizendo que eram 30 milhões porque foi isso que me ofereceram antes. Mas o que eles não quiseram dizer foi que houve uma divisão da Paramount e a folha estava no vermelho, com fracassos de 40 milhões e os executivos estavam com medo. Eu respondi: “Olha, você está me forçando a refazer as contas, mas eu farei as contas para você, o que não é meu forte. Você tem 14 milhões comprometidos com o roteiro e o elenco principal, nem falo do restante do elenco, mas a equipe regular. Você tem 4 milhões em efeitos e 2 milhões em pós-produção”. Acho que cheguei a 18, 20 milhões. Aí eles conversaram entre si e disseram: “27 milhões”. Então, eu voltei a dizer: “Acho que está havendo um equívoco. Não estou negociando, estou dando informações”. Fiquei irritado, e decidi que iria ao Frank Mancuso falar sobre isso e ele era quem decidiria. Estive com o Frank e expus todo o problema dizendo: “Aqui está o orçamento de Star Trek, 45 milhões. Aqui está o do segundo de 11,2 milhões. Depois os demais filmes, três, quatro, cinco foram 41% a mais que seu antecessor, exceto pela proposta de Star Trek 6, que concordei  em fazer um filme com o mesmo orçamento de Star Trek 5”.  Ele me ouviu e agradeceu pela explicação. Quando sai da sala fiquei sabendo que o filme havia sido cancelado. Então, eu estava naquela situação de limpar a mesa e arrumar minhas coisas e fiquei sem saber o que dizer para a família que foi comigo, sem filme e sem fonte de renda. Então, fui para a Paramount e vaguei pelos galpões de filmagens, quando recebi um telefonema de Stanley Jeffe (vice-presidente da empresa) que me disse: “estamos agora administrando o estúdio e ouvi dizer que você precisa de dinheiro”. Eu respondi que precisava de 5 milhões e ele disse: “Conseguiu” e desligou. E o filme estava de volta.

Não creditado como roteirista de Discovery

Meyer conta como foi que veio a bordo da nova série Discovery.

Isso foi trabalho de Allan Gasmer, meu agente de longa data, que viu que estavam se preparando para produzir Discovery e contatou alguém de lá dizendo para contratar seu cliente pelo histórico. Então, fui entrevistado por Brian Fuller e fui adicionado ao time.

O escritor fala ainda sobre a produção da primeira temporada que foi tumultuada e complicada, e porque não teve seu nome creditado.

Fui contratado para escrever o segundo episódio (“Battle at the Binary Stars”), que foi uma batalha no espaço e eu sou bom em (escrever) batalhas espaciais. E na sala de roteiristas fizemos um esboço muito específico da ação de cada episódio. Eu segui este esboço e escrevi meu episódio. Então, recebi anotações dizendo: “Este episódio, como foi escrito, é muito caro. Precisamos de mais conversa e menos ação”. Eu concordei e reescrevi o episódio conforme as instruções.

Não quero começar algo questionável aqui, mas, então, basicamente o que aconteceu foi que meu script entrou numa espécie de ciclo de enxágue. E depois foi devolvido para mim, com o meu nome apenas, mas eu não tinha escrito mais. Não era eu (quem escreveu o roteiro). Mas acho que as pessoas me veem como uma espécie de marca ou boa ou má. Eu disse para as pessoas do estúdio: “Pessoal, não vou criticar, nunca irei criticar, mas eu não escrevi isso e, portanto, creio que meu nome não deveria estar nisso (nos créditos)”. Então, eles me tiraram da série.

Meyer ficou feliz ao ver que partes do seu roteiro original foram preservadas no episódio:

A única vez que vi aquela coisa filmada foi no cinema, na noite em que lançaram os dois episódios e o segundo foi aquele em que eu havia trabalhado. E a única satisfação que tive foi que todas as coisas que pensei serem problemáticas, quando li a versão do roteiro foram todas preservadas e replicadas na tela.

No IMDb consta Meyer como produtor consultor de toda a primeira temporada.

Atualizando Star Trek: Khan – Ceti Alpha V

Originalmente, Ceti Alpha V foi escrito como uma minissérie em três partes, depois foi falado que seria uma versão em podcast, depois um drama em áudio. O escritor esclareceu que o projeto ainda continua, explicando:

Agora está sendo trabalhado como peça de rádio: nove ou dez episódios de meia hora. Acho que a ideia é que, se for bem-sucedido, voltaremos a fazer algo em filme.

Eu adoro peças de rádio. Não vou dignificar isso chamando-o de podcast. É uma peça de rádio, e eu costumava dirigir peças de rádio na faculdade.

Eu realmente adoro peças de rádio, e vou te contar por que as acho legais… Acredito que todas as grandes mídias artísticas dependem para seu sucesso de algo que deixam de fora. As pinturas não se movem. A música não possui conteúdo intelectual. As palavras são apenas códigos em uma página… É a contribuição imaginária do público… que junta tudo isso. Quando procuro um filme, procuro o que quero deixar de fora. O rádio é perfeito porque é tudo a sua imaginação. A imaginação é perfeita porque não precisa ser treinada.

Pressionado para fornecer detalhes sobre que tipo de valores de produção poderiam ser esperados para um drama de áudio de Star Trek, ou mesmo quem seria considerado para o elenco, Meyer negou especular, embora tenha confirmado que sim, o projeto ainda estava no caminho. Ele alertou que algumas questões de bastidores precisavam ser resolvidas antes de prosseguir com o elenco, a busca de elementos musicais e assim por diante. Suas palavras finais ao Portal 47:

Este é um programa, tudo o que posso dizer sobre ele, e não quero ser indiscreto, que tem uma cozinha cheia de cozinheiros.

Reconhecendo que a série foi reformulada e que o cronograma diminuiu, especialmente depois das duas greves de Hollywood que atrasaram tudo, Meyer foi franco, dizendo:

Qualquer cronograma que tínhamos saiu pela janela há alguns meses.

Fonte: Trek Movie

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