SNW 3×08: Four-And-A-Half Vulcans

Episódio de galhofa pura e trama zero transforma tripulantes em vulcanos neuróticos

Sinopse

Data estelar: 3111.1

A Enterprise está a caminho de Purmantee III para merecida licença, quando o Alto Comando Vulcano faz uma solicitação: prestar socorro a Tezaar, um planeta pré-dobra que os vulcanos visitaram antes mesmo de fazer primeiro contato com a Terra, salvando-os de um cataclismo e dando suporte tecnológico para energia nuclear. Agora há uma falha em uma usina e é preciso visitar o planeta para corrigir o problema. Diante das circunstâncias, os membros do grupo de descida precisam ser convertidos em vulcanos, com uma versão adaptada do soro kerkhoviano. A droga não funciona com Pelia, mas Pike, La’An, Uhura e Chapel se juntam a Spock para a missão.

Os reparos na usina nuclear acontecem mais depressa do que o esperado, e o grupo logo retorna à Enterprise. Mas, quando M’Benga injeta o soro para restaurá-los ao normal, ele não funciona. Por enquanto, todos eles terão de continuar como vulcanos, para a frustração de Spock, que se vê temporariamente como o menos vulcano deles. Chapel trabalhará para tentar corrigir o soro e restaurá-los. Os demais também seguirão a bordo, sem descer a Purmantee III.

Isso logo gera problemas para eles. Uhura, como vulcana, tem dificuldades de lidar com Beto Ortegas. Pike fica com mania de limpeza e se incomoda com o odor humano de Batel, que espera convencer o almirante Pasalk de que está pronta para voltar ao trabalho. Chapel entra numa onda de superprodutividade, conduzindo vários experimentos simultâneos além da correção do soro.

Enquanto isso, James Kirk visita a Enterprise, durante os reparos da Farragut, e toma um drink com Scotty e La’An. Os dois logo notam que La’An, além de vulcana, está mais agressiva que o usual. Ela quer lançar uma campanha de conquistas com a nave e iniciar uma guerra interestelar.

Pike convoca uma reunião e comunica que, embora Chapel tenha concluído a correção do soro, os quatro afetados pretendem continuar vulcanos permanentemente. Além disso, o capitão quer criar 14 turnos de 42 minutos entre os oficiais. Diante da crise, os tripulantes não afetados se reúnem nos aposentos da Pelia, que são bloqueados dos sensores, para decidir o que fazer sobre a crise. Spock e M’Benga concluem que a única solução é tentar contatar o âmago de cada um deles, o katra, para saber se eles realmente querem permanecer vulcanos ou se estão influenciados pelo soro.

A situação entre Uhura e Beto também começa escalar quando ela usa um elo mental para fazer uma lavagem cerebral nele, tornando-o mais “adequado”. Chapel, por sua vez, conclui que relações pessoais são perda de tempo e decide terminar com Korby – e também com Spock, mesmo como amigo. La’An quer convencer Scotty e Kirk a atualizarem as armas da nave. Ela se torna violenta e dá uma surra em Kirk. Scotty consegue neutralizá-la ao criar um curto-circuito em um painel e atraí-la para ele.

Tentativas de Spock de trazê-lo à razão falharam. Una sugere conhecer um especialista em katras, um espiritualista vulcano chamado Doug, com quem teve um relacionamento no passado. Como ele mora perto de Purmantee III, seria possível trazê-lo a bordo. Mas Una tem dificuldade em manter o foco quando encontra Doug, que foi batizado pelos pais com um nome humano e é fascinado por eles. Ela inventa que é casada com Spock, e eles têm dois filhos – tudo tentando evitar seu estranho charme. Enfim, Spock decide falar a sós com Doug.

Pike e Batel recebem Pasalk para um jantar vulcano. Ela tenta defender seu retorno ao trabalho no departamento jurídico da Frota Estelar, dizendo estar bem. Mas Pike apresenta um quadro diferente, dizendo que ela não está 100% recuperada e está sob tratamento experimental. Batel explode, tem um ataque de honestidade com Pike e Pasalk e expulsa ambos dos aposentos.

Doug concorda em ajudar e dá ao oficial de ciências as informações de que ele precisa para trazer seus amigos de volta ao normal. La’An é a mais resistente, por conta de seu DNA aumentado, mas Spock consegue apelar a seu vínculo emocional com ela, numa luta telepática que se transforma em dança. Com todos novamente humanos, Uhura pede desculpas a Beto, La’An pede desculpas a Una, Chapel pede desculpas a Korby e Spock, e Pike pede desculpas a Batel – que, por seu ataque de honestidade, recebe uma mensagem de Pasalk oferecendo a ela o cargo dele, para assumir ao fim do ano, quando ele for se aposentar.

Com a crise resolvida, Kirk e Scotty brindam à boa equipe que formam, e Una tem um encontro com Doug. Mais tarde, Spock compartilha com ele tudo que sabe sobre os humanos.

Comentários

Ao longo da terceira temporada, Strange New Worlds veio flertando com essa ideia controversa de ser também uma paródia de si mesma. Vimos alguns elementos disso em episódios como “Wedding Bell Blues” e “A Space Adventure Hour”, mas é em “Four-and-a-Half Vulcans” que o conceito atinge a sua plenitude – se é que “plenitude” é a palavra certa para definir o que temos aqui. O episódio nada mais é que uma sitcom que gira em torno de uma única piada – humanos se comportando como vulcanos. Exageradamente. Inacreditavelmente. Todo o resto se dobra para servir a esse conceito, num sacrifício que é pesado demais para qualquer episódio carregar.

A “trama”, se é que se pode chamar assim, é realizada da forma mais rápida e prática possível, porque o único objetivo real é focar nas interações entre as versões vulcanas de Pike, La’An, Uhura e Chapel e seus respectivos círculos de afeição, além de fornecer um curioso contraste com Spock, que, habituado a ser o mais vulcano dos humanos, aqui se vê na desconfortável situação de ser o mais humano dos vulcanos.

O preço desse esforço é pago com a perda de verossimilhança. A ideia de “vulcanos estão muito longe para ir a Tezaar” se mistura a “só vulcanos podem descer no planeta” com “apesar de não terem tecnologia de dobra, eles têm sensores poderosíssimos que impedem um simples truque de maquiagem” para converte o que na verdade é insano em apenas mais um dia na vida a bordo da Enterprise. (Os apuros de Spock com os kerkhovianos em “Charades” já seriam alerta suficiente contra essa ideia maluca, mas, como dizem em Hollywood, o show tem de continuar.)

Essa, por incrível que pareça, é a melhor parte do segmento. Depois que o grupo de descida faz seu “reparo instantâneo” e volta, as coisas ficam ainda mais estranhas. Incapazes de se transformarem de imediato em humanos, Pike, La’An, Uhura e Chapel passam por várias interações supostamente engraçadas, de novo e de novo, até o fim do episódio. História mesmo, não tem mais. Tampouco sinal de riscos e ameaças. O mais perigoso que fica é La’An tentando iniciar uma guerra interestelar – o que, sozinha, com ou sem sangue de Khan Noonien Singh nas veias, seria difícil ela conseguir.

Somando-se às coincidências que compõem o episódio vêm a aparição de James Kirk na Enterprise (enquanto a Farragut segue em reparos) e o fato de que o ex-namorado vulcano de Una, o peculiar Doug, mora no entorno de Purmantee III. A relação entre Doug e Una é um caso à parte, porque estamos falando de dois personagens que soam ridículos mesmo sem terem sido afetados (desculpa que de certo modo protege os tripulantes “vulcanizados”). O vínculo entre eles lembra um pouco a sugestão de que vulcanos podem ter uma influência telepática poderosa entre as mulheres (algo que constava da formulação original de Spock criada por Gene Roddenberry, mas acabou desaparecendo, salvo por uma ocasião no episódio “The Omega Glory”, que está longe de ser um dos pontos altos da Série Clássica), aqui operando apenas para efeito cômico – o que talvez seja para melhor.

Os menos deslocados nessa aventura são Pelia, com seu usual tom de comédia, Spock, que não parece fora de lugar em seu papel na trama, e a dupla Kirk e Scotty, que começa a mostrar entrosamento e o vínculo que seriam expostos na Série Clássica. É possível que esses quatro, bem retratados por Carol Kane, Ethan Peck, Paul Wesley e Martin Quinn, tenham escapado com pontos extras deste episódio em que quase todo mundo perdeu.

É possível rir de “Four-and-a-half Vulcans”? Sim, é. Mas a graça geralmente vem acompanhada pelo constrangimento, porque nem os personagens, nem a espécie vulcana em si está a salvo dessa sátira. Como nos lembra Saavik em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, “humor é um conceito difícil”. Pode funcionar melhor para uns do que para outros, mas será difícil questionar que, com ou sem graça, o episódio trabalha em detrimento dos personagens. Não só pelas situações caricatas a que são submetidos, mas sobretudo pelo que parece ser uma regressão no formato de Strange New Worlds. A série procura se pautar por tramas episódicas combinadas à serialização de personagens. Aqui temos muito pouco em termos de trama e a serialização dos personagens atinge grau zero: a solução (tão artificial quanto o problema) recoloca todos no mesmo lugar em que estavam antes de a aventura começar. É um episódio dispensável em todos os sentidos, acompanhado por um senso de diversão duvidoso.

Isso contrasta com a incrível oportunidade que ele oferece aos atores: está claro que todos eles se divertiram com essa coisa de “vulcano por um dia” e entregaram performances compatíveis com o que o roteiro esperava deles. Pike vulcano gritalhão, Uhura manipuladora, Chapel obsessiva e La’An psicopata… dá para apostar que Anson Mount, Celia Rose Gooding, Jess Bush e Christina Chong se entusiasmaram com esse aqui.

Se você cavar bem fundo, talvez encontre a história por trás da história, uma alegoria sobre redesignação (tema importante no contexto da discussão do universo transgênero humano) e as controvérsias que giram em torno disso. Mas é tanta piada em cima que o melhor a fazer é nem tentar ler as entrelinhas aqui. Também não ajuda mais uma vez a brutal economia envolvida na produção: a Enterprise visita dois planetas e não vemos a superfície de nenhum deles, com mais um segmento inteiramente ambientado nos cenários fixos da série (pelo menos com a volta do bar panorâmico).

No fim das contas, temos um episódio que tende a trazer mais más do que boas lembranças, sobretudo à luz do fato de que a temporada tem apenas dez segmentos, vários dos quais a essa altura “desperdiçados” com premissas que se preocupam mais com a forma do que com o conteúdo propriamente dito.

Avaliação

Citações

“Hey, maybe next time, let me in on your plan ahead of time.”
“I wanted to, but you know, the… the element of surprise.”
“You didn’t have a plan, did you?”
“I did not, no.”
“You know, Mr. Scott, we make a pretty good team.”
(Ei, talvez da próxima vez possa me informar do seu plano antes.)
(Eu queria, mas, sabe, o… o elemento surpresa.)
(Você não tinha um plano, tinha?)
(Eu não tinha.)
(Sabe, sr. Scott, nós fazemos uma ótima equipe.)
James T. Kirk e Montgomery Scott

Trivia

  • Não deveria surpreender que, antes deste episódio, a escritora Dana Horgan tenha assinado “A Space Adventure Hour” e “Subspace Rhapsody”. Ela também escreveu o roteiro de “Ad Astra Per Aspera” e colaborou com o finale da terceira temporada, “New Life and New Civilizations”.
  • Henry Alonso Myers é co-showrunner de Strange New Worlds, ao lado de Akiva Goldsman. Este é seu oitavo episódio da série como roteirista.
  • A diretora canadense Jordan Canning entrega aqui seu terceiro episódio, após “Charades” e “Wedding Bell Blues”.
  • Na sequência de abertura, Anson Mount faz seu monólogo como sua personalidade vulcana. A jikaru, criatura vista no episódio anterior, também foi incorporada às imagens.
  • A canção que toca quando os tripulantes vulcanizados caminham pelo corredor para descer ao planeta é “Reckless Youth”, da banda The Home of Happy.
  • Chapel faz aqui sopa plomeek, algo que ela voltaria a fazer para Spock em “Amok Time”, da Série Clássica.
  • A enfermeira também diz que La’An e Spock são um par que se encaixa melhor, comparando-os à prática de kintsugi, uma arte japonesa de emendar cerâmica quebrada, usualmente com ouro. Os dois de fato demonstram bom “encaixe” na sequência de dança telepática ao fim do episódio.
  • Purmantee III parece ter sido batizado em referência a Primanti Bros., uma rede de lanchonetes americana conhecida por inserir batatas fritas nos sanduíches, como os “sandubas de Purmantee” que Ortegas gosta tanto.
  • A propósito, aqui Spock come um sanduíche com a mão, algo que vulcanos normalmente não fazem, segundo T’Pol, em Enterprise. Mas a vulcana também acabou se aclimatando aos humanos da NX-01 e chegou a comer pipocas com a mão a bordo daquela nave.
  • Pike e La’An mencionam a relação entre romulanos e vulcanos, mas de forma secreta, ambos influenciados por viagens no tempo que fizeram, respectivamente em “A Quality of Mercy” e “Tomorrow and Tomorrow and Tomorrow”. Spock, que não sabe disso, atribui a agressividade de La’An a seu DNA aumentado.
  • Quando Spock encontra o katra de La’An telepaticamente, a cena se passa no laboratório da nave, e dessa vez podemos ver baleias belugas nadando sob o piso, aparentemente confirmando que há um departamento de Operações de Cetáceos na nave (embora a cena se passe num lugar imaginário).
  • Esta é a segunda participação de Patton Oswalt em Star Trek. Antes disso, ele deu a voz a Spot 73, o gato digital de Jurati no episódio “Penance”, de Picard. Fã da franquia, ele escreveu uma história em quadrinhos para a edição Star Trek #500, da IDW.

Ficha Técnica

Escrito por Dana Horgan & Henry Alonso Myers
Dirigido por Jordan Canning

Exibido em 28 de agosto de 2025

Título em português: “Quatro Vulcanos e Meio”

Elenco

Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley
Martin Quinn como Montgomery Scott}

Elenco convidado

Paul Wesley como James T. Kirk
Patton Oswalt como Doug
Cillian O’Sullivan como Roger Korby
Melanie Scrofano como Marie Batel
Mynor Luken como Beto Ortegas
Carol Kane como Pelia
Rong Fu como Jenna Mitchell
Graeme Somerville como vice-almirante Pasalk

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Edição de Maria Lucia Rácz

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