A vida das estrelas, e das pessoas
Sinopse
Data estelar: 869372.1
A tenente Sylvia Tilly vai para a Academia ministrar uma aula de teatro. A iniciativa tem como objetivo incentivar os cadetes a lidar com traumas e conflitos pessoais por meio da arte. Entre os alunos, apenas SAM demonstra entusiasmo imediato com a aula. SAM escolhe uma peça como projeto principal da turma, argumentando que a história sobre uma pequena comunidade, mesmo sendo muito antiga, também trata de temas universais sobre a vida e o valor da existência. Enquanto os papéis começam a ser distribuídos, SAM sofre uma grave falha em seus sistemas e colapsa diante dos colegas.
Após o incidente, SAM admite ao Doutor que já vinha apresentando falhas há algum tempo e que perdeu o controle de seu funcionamento. O diagnóstico revela um ciclo contínuo de sobrecargas e reinicializações que não pode ser interrompido com os recursos da Academia. Ake decide então levá-la ao planeta Kasq, lar de seus criadores, acompanhada pelo Doutor, na esperança de encontrar uma solução.
Em Kasq, que é um gigantesco ambiente tecnológico habitado por entidades fotônicas, os criadores de SAM projetam um ambiente virtual semelhante ao campus da Academia. Após analisarem o funcionamento da cadete holográfica, concluem que as experiências emocionais vividas por ela na Academia alteraram profundamente sua programação original, tornando o sistema irreparável. Os criadores então desativam SAM.
Enquanto isso, na Academia, os cadetes sentem a ausência de SAM e tentam continuar os ensaios da peça. Antes de partir, SAM havia deixado o papel principal para Tarima. Tarima, porém, demonstra muita resistência à atividade e se irrita com Tilly. Mesmo diante das dificuldades, os demais cadetes continuam os ensaios, dedicando a leitura da peça à memória de SAM. Eles acabam se unindo, o que faz com que Tarima comece lentamente a reconsiderar sua participação.
Em Kasq, o Doutor finalmente confronta seus próprios sentimentos e revela que evitava se aproximar de SAM porque ela lembrava sua filha holográfica perdida. Ake sugere aos criadores uma solução alternativa: reconstruir SAM com um novo processo de desenvolvimento emocional, permitindo que ela cresça e aprenda a lidar com experiências humanas desde o início. O Doutor aceita assumir o papel de figura paterna no processo. Em um planeta com outra noção de tempo, ele acompanha o crescimento de SAM desde a infância até a fase adulta em poucos dias, ensinando-a a compreender emoções, relações e experiências de vida, aprendendo a desenvolver resiliência.
Na Academia, os cadetes continuam a apresentação da peça, e Tarima finalmente aceita interpretar o papel principal. SAM finalmente retorna à Academia completamente restaurada e emocionalmente equilibrada. Reencontra os colegas e demonstra ter desenvolvido novas capacidades de lidar com as emoções.
Comentários
Starfleet Academy definitivamente não tem medo de olhar para dentro de si. Após o episódio passado, que já havia sido bem reflexivo sobre os personagens, mais uma vez embarcamos nisso. Estamos em um capítulo inteiramente dedicado às consequências emocionais que seus personagens vêm carregando.
Trazer a Tilly para ministrar essas aulas tem um significado todo especial. Mary Wiseman, a atriz que a interpreta, saiu realmente traumatizada da sua experiência em Discovery, após uma onda de ataques de haters. Trazer ela para um episódio que olha para dentro dos personagens desse jeito é emocionante. A peça escolhida por SAM, Our Town, funciona como base para o que o episódio quer dizer. A obra fala de uma pequena comunidade aparentemente comum enquanto discute questões universais sobre vida, tempo e as coisas que todos nós sentimos.
Em uma série que tenta tanto se comunicar com os jovens, e não fazer uma versão estereotipada deles, é mais um acerto. Episódio após episódio vemos eles tentando se entender, e é significativo que SAM seja a única a abraçar imediatamente a proposta. Como entidade holográfica tentando compreender o que significa existir entre humanos, como Data em A Nova Geração, ela se aproxima da peça porque quer viver mais uma experiência humana. Para SAM, a história de uma comunidade humana simples ajuda na tentativa de entender o significado da própria existência. Os outros cadetes, no entanto, estão longe de querer a mesma coisa.
É justamente quando a aula começa a ganhar forma que o episódio executa sua primeira grande ruptura. O colapso de SAM, provocado por falhas cada vez mais graves em seus sistemas, transforma rapidamente o tom do episódio. O que parecia um ensaio sobre arte vira uma crise de vida. A revelação de que suas experiências emocionais estão sobrecarregando sua programação coloca a personagem diante de um paradoxo clássico da ficção científica: quanto mais humana ela se torna, menos sustentável isso parece ser.
Kasq tem uma ambientação bem abstrata, com os habitantes do planeta sendo mais um da longa linhagem de espécies superiores demais para serem entendidas. A conclusão deles é lógica, mas devastadora: as experiências emocionais vividas por SAM alteraram profundamente sua programação original, tornando o sistema irreparável. Eles são absolutamente frios com a própria criação. Para os criadores, é só encerrar um sistema defeituoso. Para o público e para os personagens na Academia, é a perda de alguém, e não de um número.
A solução cai no colo do Doutor, que desde o início da série vinha demonstrando uma distância em relação a SAM. Agora finalmente entendemos por quê. Ao admitir que evitava proximidade porque SAM lhe lembrava sua filha holográfica perdida, o Doutor mostra para gente um trauma que carrega há séculos. A frase que resume esse sentimento é devastadora: para ele, uma perda ocorrida oitocentos anos atrás continua sendo tão dolorosa quanto no dia em que aconteceu.
Embora não vivamos nem perto de oitocentos anos, é muito comum na experiência humana a ideia de não se apegar por medo de perder. A morte é uma das poucas certezas que carregamos na vida, e às vezes a ideia da morte do outro carrega mais dor do que a ideia da própria morte. Não há relação que dure para sempre, alguém morre antes. Nem casamento escapa disso, um dia a morte separa, como já é anunciado no próprio dia da celebração. Tudo tem prazo de validade. É duro, mas a gente se acostuma. E só a sagacidade de Star Trek para nos falar disso justamente com um personagem que não lida com a finitude, por isso mesmo, lidar com a ausência dela torna tudo mais áspero para ele. Ele não ama ninguém para não ter que perder.
Todo esse drama possibilita que Robert Picardo entregue uma de suas atuações mais emocionais nesse papel que carrega há anos. A proposta de Ake de reconstruir SAM através de um novo processo de desenvolvimento emocional é onde mora o coração do episódio. Em vez de restaurar a personagem ao estado anterior, a solução é permitir que ela cresça novamente, aprendendo desde o início a lidar com emoções humanas.
O recurso narrativo do planeta com tempo acelerado, embora já quase um clichê de Jornada, permite que esse crescimento aconteça diante do espectador em poucos dias. Vemos SAM atravessar diferentes fases de desenvolvimento, acompanhada pelo Doutor, que gradualmente assume um papel paternal nesse processo. Essas sequências são conduzidas com delicadeza pela direção, nos presenteando com a sequência mais emocionante do episódio.
Enquanto isso, na Academia, os cadetes tentam seguir com os ensaios da peça apesar da ausência de SAM. Tarima tem que assumir o papel principal deixado por ela, mas sua reação inicial é de resistência quase agressiva. Ela estava em coma, traumatizada, com uma relação amorosa confusa com Caleb, tudo que ela não quer é brincar de atriz. Um olhar mais crítico diria que é essa terceira história se repetindo ao falar de traumas, mas nessa série em particular isso cai como uma luva, com uma geração de jovens no mundo que é obrigada a lidar com eles, pandemia, desastres climáticos, em meio às suas descobertas particulares de amores e desamores.
Tilly vai aos poucos entrando no coração deles, e a ausência de SAM também vai tornando o grupo mais sensível. Tarima aceita o papel, e a peça passa então a cumprir plenamente sua função narrativa: ensinar aos cadetes, e ao público, a olhar para a vida com mais consciência e valorizar o que podemos fazer enquanto estamos aqui.
No fim das contas, The Life of the Stars é mais um episódio profundamente emocional sobre aprender a sentir, perder, crescer e, acima de tudo, valorizar o tempo que temos juntos.
Avaliação




Citações
“It was eight hundred years ago. It was yesterday.”
(Foi há oitocentos anos. Foi ontem.)
O Doutor
“The only thing that allows me to bear my infinity is not having to love anyone.”
“You mean not having to love anyone again,”
(A única coisa que me permite suportar minha infinidade é não ter que amar ninguém.
Você quer dizer não ter que amar ninguém de novo)
O Doutor e Nahka Ake
“As the poet said, you go to love life to have life and you got to have life to love life.”
(Como disse o poeta, você tem que amar a vida para ter vida, e você tem que ter vida para amar a vida.)
Frase da peça Nossa Cidade lida por Ocam
Trivia
- O título do episódio vem de uma citação do dramaturgo Thorton Wilder, que descreve sua peça Our Town como mostrando “a vida de uma vila em contraste com a vida das estrelas”. A frase “a vida das estrelas” não aparece na peça.
- Our Towné uma peça em três atos escrita pelo dramaturgo americano Thornton Wilder em 1938. Apresenta a cidade americana fictícia de Grover’s Corners entre 1901 e 1913 através da vida cotidiana de seus cidadãos. É uma das peças teatrais mais famosas do século XX. A primeira apresentação de Our Town foi no McCarter Theatre, em Princeton, Nova Jersey, em 22 de janeiro de 1938. A peça fez sucesso na Broadway e recebeu o Prêmio Pulitzer de Drama, continuando popular até hoje, com frequentes remontagens.
- Esta peça de Thornton Wilder deve ressoar especialmente aos americanos, onde a peça é uma constante nos departamentos de teatro das escolas secundárias e nos teatros comunitários.
- Entre os atores que fizeram o papel de gerente de palco na Broadway, estão Henry Fonda, Alan Alda, Paul Newman e Jjm Parsons.
- A observação do Doutor em seu diário pessoal “O céu está começando a mostrar alguns raios de luz no leste” também é uma das primeiras falas da peça Our Town, proferida pelo personagem gerente de palco, com quem o Doutor mais tarde se compara.
- Este episódio foi escrito por Gaia Violo e Jane Maggs. Violo é a criadora da série e agora tem três créditos de roteiro nesta temporada, incluindo “Kids These Days” e “Vox in Excelso”. Para Jane Maggs, este é seu segundo crédito de roteiro na Academia da Frota Estelar, ao lado de “Beta Test”. Ela também fez parte da equipe de roteiristas de duas temporadas de Star Trek: Picard.
- Esta é a sexta vez que Andi Armaganian assume a direção de Star Trek, tendo anteriormente dirigido dois episódios de Discovery, “Rubicon” e “Jinaal” e dois episódios de Strange New Worlds, “Lift Us Where Suffering Cannot Reach” e “Through the Lens of Time”, bem como o episódio da semana passada de Starfleet Academy, “Ko’Zeine”.
- Graças ao epílogo adicionado ao final da série Discovery, “Life, Itself”, sabemos que Tilly se torna a instrutora mais antiga da Academia da Frota Estelar, pelo menos de acordo com Michael Burnham.
- O tempo acelerado de Kasq é semelhante ao de Gotana do episódio “Blink of an Eye” de Voyager e Dilmer III de “Fully Dilated”, de Star Trek: Lower Decks.
- O Doutor faz referência a ter vivido três anos no planeta Gotana, no episódio “Blink of an Eye” da série Voyager. O planeta em si não foi nomeado no episódio de Voyager, conhecido apenas como “planeta de Kelemane” (ou, como Naomi Wildman o chamou, “O Planeta Estranho Onde o Tempo Passava Muito Rápido e as Pessoas que Viviam Lá também”). Daniel Dae Kim interpretou o famoso personagem Gotana-Retz em “Blink of an Eye”, e agora compartilha o nome com o planeta.
- O episódio “Real Life” de Voyager foi escrito pela co-criadora da série Jeri Taylor e dirigido por Anson Williams, e foi ao ar pela primeira vez em 23 de abril de 1997. Belle foi interpretada pela atriz Lindsey Haun, de 12 anos, que ainda atua.
- “Como disse o poeta, ‘Você tem que amar a vida para ter vida, e você tem que ter vida para amar a vida’”. Essa frase de Our Town, lida por Ocam, soa exatamente como a criatura rochosa Ki-Ty-Ha de Lower Decks em “Crisis Point 2: Paradoxus” proferindo clichês para Brad Boimler: “O propósito da vida é… uma vida com propósito”.
- “Parabéns, foi um fracasso espetacular em trabalho em equipe.” – Jett Reno (Tig Notaro) para os cadetes após sua rotina “combustível” e desastrosa de simulação de ponte. A cena parecia familiar aos jovens “cadetes” Maquis passando pelos passos do tenente-comandante Tuvok em uma simulação de ponte igualmente desastrosa em “Learning Curve” de Voyager. Como Reno, Tuvok disse: “Seu primeiro comando foi menos do que bem-sucedido. Vocês estão todos mortos.”
- Datas estelares: 869372.1 (diário do médico no início) e 869408.67 (diário da capitão Ake no final)
- Pela segunda vez, o vencedor do Oscar Chiwetel Ejiofor deu voz aos Criadores Kasq.
- Em seu escritório, Ake ouve a ópera clássica “Dôme épais le jasmin” (“Dueto das Flores”) da ópera francesa Lakmé.
- Na nave, o médico tocou E lucevan le stelle da ópera Tosca, de Puccini, que ele disse uma vez ter o feito chorar durante todo o terceiro ato na primeira vez que a assistiu.
- A bebida que Tarima tomou foi Tears of Kressari, de uma civilização apresentada no episódio “The Circle” de Deep Space Nine.
Ficha Técnica
Escrito por Gaia Violo e Jane Maggs
Dirigido por Andi Armaganian
Exibido em 26 de fevereiro de 2026
Título em português: “A Vida das Estrelas”
Elenco
Holly Hunter como Nahla Ake
Sandro Rosta como Caleb Mir
Karim Diané como Jay-Den Kraag
Kerrice Brooks como SAM
George Hawkins como Darem Reymi
Bella Shepard como Genesis Lythe
Zoë Steiner como Tarima Sadal
Brit Marling como Computador principal (voz)
Stephen Colbert como reitor digital dos estudantes (voz)
Tig Notaro como Jett Reno
Robert Picardo como Doutor
Elenco convidado
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Chiwetel Ejiofor como Maker (voz)
Romeo Carere como Ocam Sadal
Sophia Wynter como SAM criança
TB ao Vivo
Enquete
Citações, Trivia, Ficha Técnica, Elenco e Elenco Convidado por Maria Lucia Rácz
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