Após um longo e cativante período de exibição pela Bandeirantes, a Série Clássica de Star Trek deixou a programação de forma definitiva em 1985. Mas, ao longo dos anos em que a atração ficou no ar, é possível que ela jamais tenha sido exibida por inteiro por aquela rede. Havia, pasme, “episódios perdidos”, algo que não impactava a audiência casual, mas jamais passaria despercebido pelos fãs.
O jornalista Sérgio Figueiredo é um dos que se lembram que, nos velhos tempos do Star Trek Fã-Clube do Brasil, fundado por ele em 1983, já se discutia esse misterioso sumiço. “No fã-clube, discutíamos os ‘episódios perdidos’. Eu me lembro de assistir a ‘Day of the Dove’ com dublagem na Tupi”, diz. O fã e estudioso da série Wilson Maffetano corrobora o relato. “Eu me lembro que numa reunião do fã-clube duas irmãs levaram o áudio da dublagem de ‘Day of the Dove’ gravado em fita.”
Esse, do terceiro ano de produção, era um dos dez que pareciam então ter desaparecido para sempre da televisão brasileira. Os outros eram “Arena” e “The Return of the Archons”, da primeira temporada, “The Apple” e “The Omega Glory”, da segunda, e “The Enterprise Incident”, “And the Children Shall Lead”, “Spectre of the Gun”, “For the World Is Hollow and I Have Touched the Sky” e “That Which Survives”, além do já referido “Day of the Dove”, da terceira temporada.
Ninguém sabe exatamente quando, onde ou por quê cada um desses episódios desapareceu, e, numa época em que as razões para cada sumiço eram muitas, é difícil determinar como aconteceu. Por exemplo, incêndios foram ocorrências relativamente comuns nas emissoras. Quer ver só? A TV Record teve incêndios em 1960, 1966, 1967, 1969 e 1992. A TV Tupi teve dois, um em 1972 e outro em 1978. A Excelsior, responsável pela estreia de Jornada nas Estrelas na televisão brasileira em 1968, teve dois, um em 1967 e um em 1970. A TV Globo teve nada menos que três incêndios em 1969, um em 1970, um em 1971 e um em 1976. A Bandeirantes teve um, devastador, em 1969. E o SBT (então TVS) teve um em 1978.

Incêndio de grandes proporções atinge a TV Bandeirantes, em São Paulo, em 16 de julho de 1969; foram tantas as ocorrências do tipo naquele ano que o governo desconfiava de atentados terroristas. (Crédito: Reprodução)
Algum desses incêndios pode ter causado uma ou mais das perdas irreparáveis? Para Maffetano, é uma possibilidade. “Entre a exibição da Excelsior e da Band, os canais que reexibiram a série todos sofreram incêndios”, diz.
Já Figueiredo é mais cético com relação aos incêndios, e acha que a explicação é mais simples. “Não acredito em fogo, acredito em má conservação. Eram filmes de 16 milímetros que foram mal conservados e se estragaram”, especula. De fato, quando Star Trek começou sua exibição na TV, as cópias masters televisivas vinham em filmes, mas, com a adoção do videotape, esse material teria de ser telecinado (convertido de filme para fita), e é possível que nem todas as masters tenham sido localizadas ou estivessem em conservação adequada para o processo.

Filme 16 mm degradado do acervo da TV Tupi, processado e armazenado hoje pelo Arquivo Nacional. (Crédito: Arquivo Nacional)
No que ambos concordam é que essa perda foi acontecendo aos poucos. “Todos não foram perdidos de uma vez, foi acontecendo ao longo dos canais”, diz Figueiredo. “Acredito que a perda dos dez ocorreu entre 1978 e 1979 e entre 1981 e 1982.”
Para as emissoras que exibiam os episódios de forma contínua por anos a fio, a perda de um ou outro não significava grande coisa. Coube aos fãs, mais uma vez, fazer o máximo esforço para preservar a história. Hoje, todas as cópias remanescentes das dublagens da AIC-SP são fruto de gravações domésticas ou coleções particulares de fãs. E coube a eles, recentemente, resgatar a dublagem de um dos episódios perdidos, “The Enterprise Incident”. Desde 2022, são nove os que continuam desaparecidos.
RESGATE DOS EPISÓDIOS PERDIDOS
Naturalmente afeiçoados às versões originais que os cativaram na TV entre os anos 1960 e 1980, os membros do Jetcom liderados por Cristina Nastasi, ao serem chamados por Victor Berbara, dono da distribuidora Network e da dubladora VTI-Rio, para colaborar com as novas adaptações de Jornada nas Estrelas para o público brasileiro, queriam apenas preencher as lacunas.
“Após a exibição do quarto filme, enviei uma carta a vários jornais criticando a qualidade da dublagem. O filme, que era uma comédia divertida, ficou sem graça”, conta Nastasi. “Algum tempo depois, recebi um convite para uma reunião na VTI. Levei alguns amigos e fui participar da reunião. O dono queria ouvir minhas reclamações e falou que a Manchete estava trazendo a série de volta, assim como os episódios de A Nova Geração. Fomos convidados a prestar assessoria para o estúdio.”
Criação do jornalista e megaempresário de comunicação Adolpho Block, a Rede Manchete chegava aos televisores brasileiros em 1983, na esteira do sucesso da revista Manchete, semanário lançado em 1952 que consolidou o Grupo Bloch como um poderoso conglomerado de mídia, e na não renovação da concessão da TV Tupi, em 1980, abrindo espaço para novas redes — surgiam aí a TVS (futuro SBT), de Silvio Santos, em 1981, e a Manchete, dois anos depois. Com espírito vanguardista, a nova rede atingiria seu auge de popularidade em 1990, com a telenovela Pantanal. Escrita por Benedito Ruy Barbosa, foi a primeira produção do gênero a liderar audiência no horário nobre sem estar na Rede Globo. A programação da Manchete também marcaria época com o Clube da Criança, atração que marcou o início das carreiras de Xuxa e Angélica. Com a volta de Jornada nas Estrelas, a rede queria associar seu ar de modernidade ao programa, ao veiculá-lo na Sessão Espacial.

Adolpho Block na Rede Manchete nos anos 1980. (Crédito: Manchete.org)
Consultados por Berbara, Nastasi e seus colegas queriam manter a dublagem da AIC-SP para a Série Clássica, redublando apenas os (então) dez “episódios perdidos”, de preferência trazendo de volta tantas vozes quanto fosse possível das versões originais. “Existe uma diferença entre o que os fãs querem e o que a empresa ‘dona’ do produto quer”, recontou a jornalista, ao explicar a decisão da Network de partir para uma redublagem completa feita pela VTI.
Convenhamos, havia razões técnicas legítimas para a escolha. As versões da AIC, a despeito de sua qualidade artística indiscutível, tinham problemas associados à tecnologia precária da época em que foram feitas. A banda internacional (a trilha sonora sem as vozes), por exemplo, sofria de distorções claras que prejudicavam a apreciação do cuidadoso trabalho da Desilu e da Paramount com o design de som da série.
“Os filmes vinham em celuloide de 16 mm. Vinha uma cópia completa, com as vozes originais, músicas e efeitos mixados; um script ou texto com os diálogos originais, em inglês, e um rolo de fita magnética também de 16 mm de bitola, que não existe mais, onde vinham gravados os ruídos e as músicas do episódio. Este rolo nós chamávamos de Banda de Músicas e Efeitos, M&E track”, contou Emerson Camargo, primeiro diretor e tradutor de dublagem de Star Trek na AIC, além de primeira voz do capitão Kirk, em entrevista concedida ao Trek Brasilis em 2004. “As distorções hoje notadas eram em função dessa banda de M&E que nem sempre vinha perfeita ou não ‘corria bem’ na hora da mixagem com a banda de diálogos em português.”
A isso se somou uma questão burocrática incontornável. A passagem dos produtos da Paramount Pictures da Brascontinental, a antiga distribuidora, para a Network, em 1983, foi marcada por atritos e desentendimentos. Na transição da distribuição, o material, em sua melhor qualidade, foi perdido, impedindo uma remasterização adequada. As únicas gravações sobreviventes são aquelas feitas ou obtidas por fãs, com qualidade ainda mais sofrível pelos equipamentos precários com que foram captadas e pela existência de lacunas nas trilhas.
Resultado: o único caminho seria partir para uma redublagem completa.
O NOVO KIRK É FILHO DO SPOCK (E DO KIRK)
Num primeiro momento, a VTI escalou Júlio Cesar Barreiros como o capitão Kirk, Waldyr Sant’anna (que já havia feito Kirk nos filmes) como McCoy e Luiz Brandão como Scotty. Mas, depois das críticas pesadas ao trabalho com Jornada IV, a empresa optou pela realização de testes de voz para escolher os dubladores de forma definitiva.

Garcia Júnior e Márcio Seixas, os novos Kirk e Spock, na VTI. (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
Nesse processo, o escolhido para viver a nova voz brasileira do capitão Kirk foi Garcia Júnior, que já havia dublado David Marcus, o filho de Kirk, em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, na Herbert Richers, e no mundo real era o filho de Garcia Netto, o dublador de Spock na Série Animada e nos três primeiros filmes. Àquela altura ele já era uma voz bem conhecida, graças a He-Man e MacGyver, dois grandes sucessos dos anos 1980.
Completando o grande trio, Spock seria dublado por Márcio Seixas (que havia feito o computador HAL 9000 em 2001: Uma Odisseia no Espaço e também ficaria conhecido por dar voz brasileira ao homem-morcego em Batman: The Animated Series) e McCoy, por Nilton Valério (a voz de Zorro/Guy Williams).

Cláudia Freitas e Nilton Valério, voz do McCoy, na VTI. (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
As vozes do trio corresponderam ao desafio, trazendo à vida em português as picuinhas entre Spock e McCoy e o misto de autoridade e simpatia de Kirk, com as impecáveis interpretações de Garcia, Seixas e Valério. O restante dos tripulantes também brilhou, com um divertido Chekov, graças ao talento de Marco Ribeiro (Robert Downey Jr. e a voz do Máskara no desenho e no filme), a bela voz e a emoção de Lina Hossana (a dra. Lewis de Plantão Médico), como a tenente Uhura, e Cleonir Santos (a eterna voz do Speed Racer, antiga versão), como Sulu, reproduzindo o timbre grave de George Takei. A enfermeira Chapel foi dublada por Ilka Pinheiro (a voz da Mulher-Maravilha do desenho dos Superamigos e diretora de dublagem da série), emprestando sua cortante voz à personagem. Outro a ser ressaltado é o experiente Waldyr Sant’anna, que deu um sotaque diferenciado a Scotty, graças à assessoria prestada pelo Jetcom.

Marco Ribeiro (Chekov e La Forge), Cleonir dos Santos (Sulu) e Lina Rossana (Uhura). (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
O trabalho do grupo de fãs foi, além de fornecer as novas traduções e estabelecer padrões para todo o jargão específico de Jornada nas Estrelas, acompanhar as gravações e se certificar de que tudo estava saindo a contento. A tradução da redublagem ficou a cargo de Cristina Nastasi, Cláudia Freitas e Lilian Oliveira.

Ilka Pinheiro, diretora de dublagem, com Cláudia Freitas, Cristina Nastasi e Cláudia Costa, trio do Jetcom. (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
Garcia Júnior sabia o peso que era dar nova voz a um personagem tão querido, de uma série tão querida, que já tinha uma versão brasileira consagrada. “Eu sempre fui um cara que assisti à serie criança e eu nunca imaginava que eu um dia iria redublar. Eu acho meio lamentável, pra mim, pois eu assistia com a primeira dublagem”, disse, em entrevista ao Trek Brasilis, em 2021.
Ele conta o que sentiu ao fazer a redublagem: “Quando você está acostumado com alguma coisa, você fica meio saudosista. Eu não queria que mudasse uma memória afetiva da minha infância. Eu me lembro que em 1996, depois da redublagem, fui estrear uma peça e lá em Belém do Pará um grupo lá me entrevistou exatamente sobre isso, dizendo que o Emerson Camargo tinha feito um comentário sobre o fato de não ter gostado de terem redublado, e o que eu achava disso. Eu acho que ele tem toda razão. Eu também não gostei de terem redublado, mas, no fim das contas, se alguém tinha que redublar, que bom que fui eu. Só pelo fato realmente da ligação afetiva com a série, mas eu também não gostei de ter redublado. Já que isso precisa ser feito, que bom que eu fiz. É algo amargo-doce que remete à sua infância. Que algo que era clássico, que eu acho que não deveria mexer, mas a qualidade do áudio pediu.”
E assim, finalmente, o dublador do Kirk ganhou a oportunidade de narrar a abertura da série, privilégio que Emerson Camargo e os demais atores que deram voz ao personagem não tiveram. “Resolvi separar a abertura da série dando um toque mais solene, aliás, como se fazia na época, convidando um locutor para a gravação da abertura. Mas, sim, me arrependi depois de não poder dizer a frase famosa que, por sinal, escrevi e reescrevi várias vezes – ‘corajosamente indo onde homem algum nunca esteve’ ou ‘onde a humanidade nunca esteve antes’ etc. – até a versão final”, disse Camargo ao TB em 2004.
Esse foi um dos muitos reparos que a redublagem proporcionou, num esforço coletivo para evitar erros cometidos nas versões anteriores e dar uma consciência a todo o elenco de dubladores sobre a importância da série para o público. Por esse aspecto, podemos afirmar que a redublagem foi superior à primeira versão, com interpretações e textos melhores, ainda que com alguns equívocos, como a escolha da dubladora para dar voz brasileira à atriz Joan Collins, Edith Keller em “The City on the Edge of Forever” e um problema terrível com a banda internacional de “The Troubles With Tribbles”, em que, em vez de termos o som ambiente original, temos uma vinheta musical que se repete de novo e de novo ao longo do episódio.
Além da supressão dos erros de tradução, Chekov e Scotty agora finalmente tinham seus sotaques na versão brasileira, e houve uma padronização das expressões e dos termos técnicos da série.
Diferentemente da AIC, que dublou a série em “lotes” de episódios, mas cobrindo a atração em sua integridade, a VTI redublou seguindo a exata ordem de produção, iniciada com “Where No Man Has Gone Before”, mas interrompeu os trabalhos após 52 episódios, com “Patterns of Force”, da segunda temporada. O plano inicial era redublar a série inteira, mas a Manchete pagou inicialmente por 52 episódios, e foi isso que ela recebeu.
GERAÇÃO MANCHETE
O retorno de uma série icônica como Star Trek à televisão brasileira após anos sem exibição, acompanhada por uma novíssima produção que então era sucesso nos Estados Unidos, e com novas dublagens, é um evento por si só marcante. Mas claro que a Manchete fez seu máximo esforço para promover sua nova Sessão Espacial, conduzindo uma intensa campanha de marketing, com várias chamadas com imagens das séries.

Logo da Sessão Espacial em 1991. (Crédito: Reprodução/YouTube)

Logo da Sessão Espacial em 1992. (Crédito: Reprodução/YouTube)
Faltando um mês para a estreia, o Cinemania, programa sobre cinema exibido nas tardes de sábado, com produção e apresentação do crítico Wilson Cunha (e autodeclarado trekker), deu aos fãs o primeiro gostinho das novas vozes, apresentando trechos da redublagem da Série Clássica e da dublagem de A Nova Geração.
A novidade maior, claro, era o (já não tão) novo seriado (então em sua quinta temporada nos EUA como um grande sucesso de audiência, em meio às comemorações dos 25 anos da saga), e a Manchete preparou o lançamento com pompa e circunstância para o domingo, 16 de junho de 1991, às 18h, quando seria exibido o episódio piloto “Encounter at Farpoint”, em suas duas partes, vindo uma em seguida da outra (mas já no formato em duas partes, e não como um telefilme, como ocorreu na exibição original americana e no VHS da CIC Video).

Em 1988, a CIC Video lançou em VHS, para locação, 20 episódios do primeiro ano de A Nova Geração, distribuídos em dez volumes. Era, até a exibição da Manchete em 1991, a única forma de ver a série no Brasil. (Crédito: Enjoei)
No dia seguinte, estrearia a Sessão Espacial, faixa da programação que se estenderia de segunda a sábado, sempre às 17h30 (mais adiante às 18h), com uma programação dedicada ao sci-fi. Segundas, quartas e sextas trariam a Série Clássica, na nova dublagem da VTI-Rio, com a exibição dos episódios seguindo a ordem de produção. Terças e quintas trariam Galactica e Buck Rogers. Aos sábados, era vez de A Nova Geração, pela primeira vez na televisão brasileira.
PICARD E DATA FALANDO PORTUGUÊS
A escolha do elenco de vozes para a temporada inaugural foi, decerto, um trabalho em andamento. Leonardo José (voz de Lex Luthor na primeira temporada da série Lois & Clark e Thanos nos filmes da Marvel) traz um tom grave e formal ao capitão Picard. Hélio Ribeiro (a voz do Flash dos anos 1980) faz um papel brilhante como Data, após alguns episódios do menos inspirado José Luis (o Dexter em O Laboratório de Dexter). Alfredo Martins (a segunda voz de Luthor em Lois & Clark) também está ótimo como o primeiro oficial Will Riker.

Leonardo José, a primeira voz brasileira de Jean-Luc Picard.

Alfredo Martins, a primeira voz do comandante Will Riker.
Deanna Troi começa a série com a voz de uma trepidante Cláudia Costa, substituída nos últimos episódios por Theresa Anquetin. Os ajustes, ainda que em pleno voo, mostram o zelo com que o trabalho estava sendo conduzido, mesmo diante de prazos apertados.
Ainda merecem destaques Marco Ribeiro, dando a vibração e o entusiasmo que pedem Geordi La Forge; Selma Lopes (a voz de Marge Simpson), com uma interpretação muito boa como Beverly Crusher; Oberdan Júnior (a voz do Tintin no desenho As Aventuras de Tintin), que acentuou a juventude de Wesley Crusher; e Marly Ribeiro (a voz da atriz Linda Koslowski no filme Crocodilo Dundee), com um tom nasal muito similar ao de Denise Crosby como Tasha Yar.

Marly Ribeiro (Tasha Yar)
Uma estreia notável como personagem fixo no mundo das dublagens foi a de Guilherme Briggs (que mais tarde se projetaria como a voz do Freakazoid, entre muitos personagens marcantes). Com seu alcance vocal impressionante, ele conseguiu com perfeição captar a essência da voz grave de Worf. Ainda um pouco hesitante e começando na profissão, ele voou sob a direção do experiente Waldyr Sant’anna, que começou os trabalhos, e mais tarde sob Leonardo José, que dirigiu o restante da primeira temporada – a única contratada pela Manchete e então dublada pela VTI.
Briggs contou em 2016 como começou na dublagem: “Meu início se confunde com meu amor e admiração eterna por Star Trek, desde criança. Eu fazia dublagens satíricas da Série Clássica na época dos videocassetes nos anos 80, desenhava inúmeras charges, quadrinhos e caricaturas de Kirk, Spock, McCoy e dos membros da Enterprise e diversos aliens deste universo. Já cheguei a me fantasiar de Spock para me apresentar numa peça na faculdade, brincar de fazer a clássica cena do Spock salvando a Enterprise em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan em caixas eletrônicos pela rua (com amigos, sozinho não!), entre diversas outras demonstrações de carinho (e loucura) pela série. Meu primeiro papel fixo como dublador em série foi o Worf e, logo em seguida, algum tempo depois, o Quark, de Deep Space Nine. E lá se vão 25 anos.”
Figurinha carimbada do Jetcom, para este trabalho ele contou com a parceria das tradutoras Cláudia Freitas e Cláudia Chaves, também egressas do fã-clube carioca, para verter com todo o cuidado a nomenclatura usual de Star Trek para o português, mantendo a consistência com os padrões estabelecidos e com a nova tradução da Série Clássica, que caminhou em paralelo no estúdio. Assim, temos a segurança de que as patentes da Frota Estelar, bem como os termos técnicos, em geral se alinham com o esperado pelos fãs – com uma ou outra infeliz exceção que fazem parte inevitável de um esforço desse tipo.
Com tudo pronto, episódios dublados, faltava só estrear.
E COMO FOI?
Levantamento dos índices referentes à audiência na Grande São Paulo (a principal praça de exibição em termos de número de espectadores), feito pelo Trek Brasilis a partir do acervo do Ibope preservado no AEL (Arquivo Edgard Leurenoth) e curado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), indica que a primeira exibição, com o episódio duplo “Encounter at Farpoint”, teve entre 2 e 3 pontos (o equivalente a 2% a 3% dos televisores), colocando a Manchete em terceiro lugar, empatada com a Record, até que ambas fossem superadas pela Bandeirantes na segunda hora da programação e caíssem para a quarta posição, à frente apenas das lanternas TV Gazeta e Cultura. Globo e SBT mantinham então folgada e quase intransponível liderança sobre as demais.
Não era ruim, mas também não era brilhante. Nas semanas seguintes, A Nova Geração seguiria com o mesmo padrão de audiência, com desempenho sempre um pouco inferior ao obtido pelos episódios da Série Clássica, que costumavam marcar, às segundas, quartas e sextas, entre 4 e 5 pontos no Ibope e com isso tipicamente asseguravam à Manchete o terceiro lugar em audiência – já Galactica e Buck Rogers entregavam, às terças e quintas, rendimento inferior.
A Nova Geração também sofreu na época com uma concorrência mais pesada aos sábados, quando, além das campeãs usuais Globo e SBT, a Bandeirantes também despontava com força, com o programa de auditório Clube do Bolinha e transmissões de futebol.

O Estado de S.Paulo, em seu Caderno 2, anuncia a chegada de A Nova Geração, nos 25 anos de Star Trek. (Crédito: Reprodução)

Capa da edição de Manchete que deu destaque a Star Trek, em julho de 1991. (Crédito: Reprodução/BN)
A Manchete usou como pôde seu poder transmídia para tentar alavancar o interesse pela nova atração, impulsionada também pelo aniversário de 25 anos de Star Trek e a iminente chegada de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida aos cinemas.
A estreia de A Nova Geração se torna notícia nos principais jornais do país (dentre eles O Estado de S.Paulo, reproduzido acima) e, em 20 de julho de 1991, pouco mais de um mês após a estreia, a tradicionalíssima revista Manchete também entra no bonde trekker. Em sua edição 2049, a popular publicação traz uma reportagem de três páginas apresentando o movimento dos fãs da época. Tivemos imagens mostrando os principais fã-clubes, Frota Estelar Brasil em São Paulo e Jetcom no Rio de Janeiro, além de entrevistas com Luiz Navarro e Cristina Nastasi e fotos dos dubladores e da equipe do Jetcom na VTI.

O tenente Waldyr Alves Junior, o capitão Luiz Ambrósio, o primeiro oficial Aldo Novak e o tenente Reinaldo Loureiro, da Frota Estelar Brasileira, em 1991. (Crédito: Reprodução/BN)

Na foto, Guilherme Briggs, Cláudia Chaves e Cristina Nastasi, do Jetcom, ao lado dos dubladores Waldyr Sant’anna, Márcio Seixas e Garcia Júnior e da diretora de dublagem Ilka Pinheiro. (Crédito: Reprodução/BN)
Considerando o desempenho e a concorrência, Jornada nas Estrelas fazia um bom papel na emissora, tanto que despertou o interesse de (sem trocadilho) uma nova geração de fãs que perdera a chance de acompanhar a série original ainda com a dublagem da AIC-SP, até 1985. Mas o que a Manchete precisaria dali a menos de um ano não seria um bom programa de ficção científica, mas um milagre.
Surfando na esteira do sucesso da novela Pantanal, de 1990, a rede dobraria a aposta com Amazônia, um projeto fabuloso com custo estimado em 12 milhões de dólares que estreia em dezembro de 1991 e, de cara, naufraga, marcando dois pontos no Ibope (sim, menos que Star Trek).
O diretor da emissora, Jayme Monjardim, decide ejetar alguns personagens que não agradaram e triplica a aposta, lançando Amazônia – Parte II. Para a surpresa de quase ninguém, a novela afunda de novo. O horário nobre da emissora vira uma cidade fantasma – ela despenca para o último lugar. Adolpho Bloch demite Monjardim, enquanto tenta desesperadamente renegociar as dívidas fabulosas da empresa.
Aos 84 anos, ele vai ao Palácio do Planalto para pedir socorro ao ministro Jorge Bornhausen e ao presidente Fernando Collor, chegando a chorar diante do mandatário numa tentativa de sensibilizá-lo. Sem efeito. Contrariado, Bloch vende 49% da Manchete, junto ao controle administrativo, para o grupo IBF Formulários em junho de 1992. É por essa época que A Nova Geração é retirada da grade. A Série Clássica seria recolocada (ou melhor, escondida) às 9h da manhã, em meio à atração Dudalegria, até se despedir em definitivo da programação em outubro de 1992.
O ano seguinte da Manchete começa no mais completo caos. A emissora decide, pela primeira vez, não fazer a cobertura do carnaval carioca e, em São Paulo, o atraso no pagamento de salários leva os funcionários a fazer greve e a tirar a TV do ar no fim da tarde do dia 15 de fevereiro, por promessas de quitação de dívidas não cumpridas por Hamilton Lucas de Oliveira, dono da IBF, a nova proprietária. Movimento similar de greve e saída do ar pipocaria de novo em 15 de março, desta vez na sede carioca.

Logo da Rede Manchete em sua fase final. (Crédito: Manchete.org)
Vira crise de governo, e o presidente Itamar Franco (sucessor de Collor, após o impeachment) acaba também ouvindo os apelos de Adolpho Bloch para que o controle da rede voltasse a ele – uma medida cautelar concedida pela Justiça do Rio de Janeiro faz exatamente isso em 23 de abril, sob a alegação de que a IBF descumpriu cláusulas contratuais da venda. A Manchete ensaiaria um retorno ao sucesso entre 1995 e 1997, mas uma nova crise voltaria em 1998, e a concessão acabaria sendo transferida, em 1999, à TV Ômega, de Amílcare Dallevo, formando a Rede TV e encerrando, talvez precocemente, a trajetória do empreendimento televisivo do Grupo Bloch.
Quanto a Jornada nas Estrelas, a aventura brasileira, impulsionada por aquela redublagem e exibição em 1991-1992, estava apenas começando.
Continua…
Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.
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