Oficiais possuídos por high concept brigam pelo poder na Estação
Sinopse
Data estelar: 46922.3
Sisko e Kira têm um atrito por conta de um cargueiro valeriano que deseja atracar na Estação 9. Ela desconfia que eles transportam material bélico para os cardassianos, mas Sisko diz que, sem evidências, eles nada podem fazer a respeito.
Um cruzador klingon retorna de uma expedição ao Quadrante Gama um mês antes do previsto e explode logo após emergir do buraco de minhoca. Um oficial klingon se transporta para a Estação 9 antes disso. Ferido, ele morre depois de proclamar “vitória”.
Sisko despacha Dax e O’Brien para o campo de detritos em busca do gravador de registros da nave e descobrir o que houve. Kira lida com o cargueiro valeriano, criando falsos atrasos, mas Sisko se irrita com a postura e libera a atracação.
No Quark’s, Odo tenta extrair do ferengi informações sobre os klingons. Ele revela que os ouviu dizer que estavam em busca de algo que poderia “fazer os inimigos do Império Klingon tremerem”. O comissário em seguida passa mal e colapsa. Levado à enfermaria, é examinado por Bashir. Reestabelecido, estranha o médico questioná-lo sobre lealdades e uma eventual ruptura entre Sisko e Kira.
Em seu escritório, o comandante desenha um projeto em um PADD. Kira o interpela alegando ter evidências de que os valerianos de fato transportavam material bélico para os cardassianos, mas Sisko despreza a questão, e o tempo fecha entre os dois.
No explorador, enquanto resgata o gravador klingon, O’Brien comenta com Dax sobre as tensões entre Sisko e Kira, mas ela dá pouca atenção. A exemplo de Bashir, o chefe acha que em pouco tempo ela terá escolher entre os dois.
No escritório da segurança, Kira tenta trazer Odo para seu lado e induzi-lo a entrar na nave valeriana para obter evidências do contrabando. O comissário estranha a atitude, e a major o convida a refletir sobre quem seriam seus verdadeiros amigos.
De volta à estação, O’Brien e Dax apresentam as informações colhidas a Sisko, Kira e Odo. Os registros da nave klingon mostram que houve um motim a bordo e sugerem ter algo a ver com esferas de energia telepáticas de Saltah’na. Sisko está desinteressado e volta a seu escritório, pedindo para não ser incomodado. O’Brien e Dax seguem trabalhando no problema.
Mais tarde, Kira se aproxima de Dax no Quark’s e tenta convencê-la a ficar do lado dela contra Sisko. Quark estranha a conversa, é intimidado por Kira e vai protestar com Odo. O comissário acha estranho o comportamento de todos, menos o dele mesmo e o de Quark. Ao procurar Sisko, descobre que O’Brien está ocupando seu escritório, enquanto o comandante está “a salvo” em seus aposentos. A investigação prossegue e mostra que os klingons destruíram sua própria nave, em meio a um motim. Odo é mais uma vez avisado, desta vez por O’Brien, sobre lealdades.
De volta a seu escritório, encontra Kira, que diz ter impedido a nave valeriana de partir e que agora irá para cima de Sisko e O’Brien. Ela quer a ajuda de Odo. O comissário finge disposição e quer saber o plano dela, mas Kira se recusa a revelar até que ele prove sua lealdade. Depois que ela vai embora, Odo decide contatar o Comando da Frota Estelar, mas descobre que Kira bloqueou as comunicações. Ele tenta então o Conselho Bajoriano, mas O’Brien também bloqueou esse acesso. A Odo só resta analisar os registros completos extraídos da nave klingon.
O único interesse de Sisko é em um estranho relógio que está construindo, mas O’Brien está preocupado que Kira atente contra a vida do comandante. Sisko sugere prender Kira e seus simpatizantes, mas O’Brien teme que sejam muito numerosos. Em vez disso, ele sugere que liberem a nave valeriana e fujam nela.
Odo vai até Bashir e supõe que a crise está ligada aos arquivos telepáticos armazenados nas esferas de energia, que retratam como uma luta pelo poder levou ao colapso da civilização de Saltah’na. A infecção teria ocorrido no transporte do klingon para o Ops, e todos ali teriam sido afetados, menos Odo, por falta de um cérebro humanoide. Sua reação estranha à infecção teria causado seu colapso mais cedo. Odo pressiona Bashir a desenvolver um meio de eliminar a influência telepática.
Odo, tendo alguma entrada tanto com Sisko como com Kira, líderes das duas facções no conflito, dá um jeito de montar uma armadilha de forma a reunir todos na área de carga e então ordena ao computador que execute um programa. Uma estranha onda de energia varre a sala, todos largam suas armas e colapsam de dor, enquanto a influência telepática se desprende deles. Pedindo a todos que se agarrem em algo firme, Odo abre a comporta de ar e o misterioso campo de energia é ejetado para o espaço.
Com tudo de volta ao normal, Sisko contempla o estranho relógio que construiu, e Kira expressa remorso por sua tentativa de motim, ainda que sob influências que não podia controlar.
Comentários
“Dramatis Personae” é um daqueles episódios do estilo de possessão, troca de corpos, alteração de personalidade dos personagens, que não é uma ideia original, inclusive tendo um exemplo anterior nessa mesma temporada, no episódio “The Passenger”. Ainda que lá somente o doutor Bashir tenha sido afetado, enquanto aqui quase todos os personagens principais tenham sofrido alguma modificação.
Esse também é um episódio no estilo high concept, e não poderia ser diferente, dado que foi escrito por Joe Menoski, aqui em sua primeira e melhor de quatro participações na escrita dos episódios. Menoski que já havia trabalhado em A Nova Geração e ainda viria trabalhar mais intensamente em Voyager. Nas primeiras temporadas de Deep Space Nine vemos com mais frequência esses episódios high concepts e roteiros mais genéricos, que poderiam pertencer a qualquer outra série de Jornada, inclusive com histórias rejeitadas por TNG. Pensando em retrospectiva vemos que eles não combinam com o que DS9 se tornou, mas foram necessárias até que a série conseguisse criar a sua própria identidade.
Ao contrário de “The Passenger” que é um péssimo episódio, e em outros episódios com esse formato mais genérico, “Dramatis Personae” consegue ser um bom episódio. Ele é um bom veículo para a personagem da Kira em especial com a sua relação com o Sisko. Temos também uma atuação muito boa de alguns dos atores, em especial da Nana Visitor, Rene Auberjonois e Avery Brooks. Além da interação sempre interessante de Quark e Odo, além de outros detalhes que serão detalhados mais à frente.
A ideia de possessão é batida, e talvez os atores sejam os que mais se beneficiam de episódios desse tipo por poderem sair um pouco do personagem e interpretar versões diferentes do que estão acostumados no dia a dia. O que não é muito usual, na realidade, é termos um episódio desse formato tão cedo numa série, quando os personagens ainda não estão tão solidificados. Mas podemos atribuir boa parte desse sucesso a qualidade de grande parte dos atores do elenco da série.
Ainda que esse seja um episódio de elenco, ele até pode ser considerado um episódio mais focado na major Kira, ajudando a somar ao grande foco que a personagem teve nessa primeira temporada, mais até do que o comandante Sisko. Sendo inclusive uma temporada em que se poderia argumentar que Kira Nerys seria a personagem principal da série. E apesar de focado em trama ele tem elementos suficientes para considerar um certo desenvolvimento para a personagem. Ou no mínimo apresenta elementos que somam a construção da personagem.
Ainda vemos uma Kira em confito com suas convicções sobre o futuro de Bajor antes e depois de trabalhar com a Federação. No início do episódio ela e Sisko não concordam em como proceder frente a uma questão delicada para os bajorianos, o que provavelmente é o que provoca o tipo de reação que teve quando possuída. Ainda que se manifestado através do seu subconsciente, Kira sente que tem que pedir desculpas a Sisko pelo seu comportamento enquanto tomada pelo que quer que seja que tenha afetado a todos. Ela sente vergonha por ter tentado tomar o poder do Sisko, mesmo após esses meses em que eles vêm construindo uma relação muito mais amigável e a sua procura por um consenso com a Federação.
A escolha feita por Nana Visitor ao atuar como a Kira possuída poderia ser considerada como precursora da Intendente, pois vemos uma Kira extremamente manipuladora, inclusive usando da sua sexualidade para tentar conseguir aliados, especialmente nas cenas com a Jadzia e Odo. E dado o que conhecemos da personagem, ela talvez seja a que tenha feito mais sentido ao agir da forma como agiu, liderando o motim contra a permanência de Sisko e a Federação na Estação. Isso se assumirmos que algumas características dos personagens foram exacerbadas por conta da possessão. Sisko podemos também argumentar que a sua passividade inicial e a completa falta de interesse no que está acontecendo venha do seu próprio interesse inicial em não querer estar ali na Estação, ainda que de novo, da mesma forma que a Kira, não era mais algo presente no Sisko após esses meses trabalhando na Estação. E dado essa passividade do seu comandante, talvez O’Brien possuído tenha assumido a responsabilidade de proteger Sisko pela sua lealdade inquestionável à Federação. Mas também podemos apenas supor que o modo como os personagens agiram não tinha nada a ver com alguma pré-disposição ou característica em seus subconscientes, e mais a ver com o que os possuíram. Isso fica bem claro pensando na Jadzia e no Bashir, que não é possível fazer uma conexão entre seus personagens normais e os possuídos. Parece que as características de cada um foram escolhidas mais para atender ao roteiro. Assim como o fato de o Bashir estar no Ops sem motivos algum no momento que o klingon é teletransportado apenas para ser contaminado como todo mundo.
Interessante que Odo não é afetado, por conta da sua fisiologia transmorfa, possibilitando uma interação digamos que verdadeira com Quark ao longo do episódio todo, dado que este também não foi afetado. Além de Odo servir como o único do elenco principal que poderia solucionar o problema, dado não ter sido contaminado. Essa interação entre os dois personagens gera algumas cenas interessantes como por exemplo Quark tentando vender informação para o Odo, parecendo não saber com quem ele está lidando. E Odo por sua vez, abusa do seu poder mais uma vez sem nenhuma vergonha para obter a informação do Quark. E ainda temos Odo conversando com Quark para tentar entender o que está acontecendo, mas se percebe que é mais um monólogo do que qualquer coisa. O interessante dessa cena é que demonstra como Odo sente-se à vontade em usar Quark como ouvinte para as suas investigações.
Outro ponto interessante a ser comentado é também a possibilidade de ser um precursor do que seria chamado futuramente de Sisko construtor. Ainda que totalmente por acidente, dado que Joe Menoski não tinha a intenção de trazer uma característica para o Sisko ao mostrá-lo construindo o relógio. No fundo ele apenas se inspirou em Rodolfo II um monarca do império austro, húngaro e croata lá dos anos de 1550. Mas que inevitavelmente se junta ao conjunto de elementos criados futuramente pela equipe de roteiristas, com Sisko sendo apresentado como um construtor, como visto em “Explorers” e o seu envolvimento com a Defiant, como dois exemplos.
Dito tudo isso, o episódio não está livre de falhas. Temos um conflito real criado no começo do episódio, mas o high concept acaba sequestrando o conflito real e o transforma em um conflito de mentirinha do qual não se tem consequência nenhuma. No fundo o high concept é de certa forma covarde, pois evita o conflito real entre a Kira e o Sisko e todas as ações e infrações cometidas após os personagens terem sido possuídas são esquecidas e perdoadas ao final. Também é bastante confuso de entender o que realmente aconteceu. Os personagens foram contaminados por um vírus, ou seria uma força telepática? Eles estavam revivendo uma história que aconteceu, exatamente como aconteceu? A possessão exacerbou as características existentes e/ou do subconsciente dos personagens ou foram contaminados pelas características de outras pessoas? Ou seria apenas um método usado pela civilização para que as pessoas conhecem sua história, mas que não funcionou da maneira correta em contato com outras raças? Enfim, são muitas perguntas sem respostas que a história de Menoski infelizmente não consegue responder.
Mas ainda assim, no final das contas “Dramatis Personae” é um episódio interessante, com boas atuações, trazendo elementos para alguns personagens, e que apesar de uma trama meio sem fundamento, acaba funcionando como episódio. Não é dos mais brilhantes da temporada, mas ficou acima de muitos episódios desse mesmo formato vistos anteriormente, o que é um ponto positivo.
Avaliação




Citações
“He’s still dead, if that’s what you mean.”
(Ele ainda está morto, se é o que quer saber.)
Bashir
“Anyone who’s against Sisko is against me.”
(Qualquer um que seja contra Sisko é contra mim.)
O’Brien
Trivia
- O episódio teve o título provisório de “Ritual Sacrifice”.
- O relógio que Sisko constrói neste episódio pode ser visto em vários episódios posteriores.
- O título de episódio é derviado do latim, que significa “pessoas do drama” e é utilizada para se referir aos personagens principais de uma peça de teatro.
- Durante as filmagens do episódio, Nana Visitor escorregou em uma escada molhada e machucou as costas. Nana queria continuar filmando suas cenas, mas Rick Berman a incentivou a ir ao hospital. Contudo, quando ela chegou ao hospital ainda com maquiagem bajoriana, os médicos inicialmente ignoraram suas costas por causa de seu “nariz quebrado”
Ficha Técnica
Escrito por Joe Menosky
Direção de Cliff Bole
Exibido em 30 de maio de 1993
Título em português: “Luta Pelo Poder”
Elenco
Avery Brooks como Benjamin Lafayette Sisko
René Auberjonois como Odo
Nana Visitor como Kira Nerys
Colm Meaney como Miles Edward O’Brien
Siddig El Fadil como Julian Subatoi Bashir
Armin Shimerman como Quark
Terry Farrell como Jadzia Dax
Elenco convidado
Tom Towles como “o Klingon”
Stephen Parr como “o Valeriano”
Randy Pflug como “o guarda”
Jeff Pruitt como “o alferes”
Balde do Odo
Enquete
Edição de Muryllo Von Grol
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