Episódios de hoje…
“The Offspring” (“Descendência”; TNG 3×16, 1990)
Onde assistir: PlutoTV*
“Firstborn” (“Primogênito”; TNG 7×21, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Visitor” (“O Visitante”; DS9 4×4, 1995)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Begotten” (“Novas Vidas”; DS9 5×12, 1997)
Onde assistir: PlutoTV*
“Real Life” (“Vida Real”; VOY 3×22, 1997)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Life of the Stars” (“A Vida das Estrelas”; SFA 1×8, 2026)
Onde assistir: Paramount+*Somente dublado
A paternidade no espaço vem com desafios bem específicos, como filhos cibernéticos, holográficos ou que parecem uma geleca que assume diferentes formatos. Mas a experiência de educar uma criança, seja de que espécie ou planeta ela for, sempre acaba trazendo mais lições aos pais do que aos próprios pequeninos.
Em A Nova Geração, o comandante Data faz sua tentativa de criar sua própria descendência em “The Offspring” (“Descendência”; TNG 3×16, 1990). Após trabalhar muito em um projeto secreto, o androide revela Lal, seu rebento, aos colegas da Enterprise. Para Data, é tudo muito simples: a criança, que é outro ser artificial como ele, é seu filho, assim como um bebê é para os humanos. O capitão Picard não esconde sua irritação pelo fato de não ter sido consultado por Data antes do início desse projeto. “Alguém da nave consulta o senhor antes de procriar?”, pergunta o androide, deixando o capitão exasperado.
Picard tem razão por um lado: quando a Frota Estelar ficasse sabendo disso, as coisas iriam se complicar. Assim como no caso do próprio Data em “The Measure of a Man” (“O Valor de um Homem”; TNG 2×9, 1989), episódio em que se discute se o androide tem direitos ou é uma propriedade da Frota, a condição da nova criatura é colocada em questão. Para os comandantes, seria melhor que a criança fosse transferida para um centro de pesquisa para ser estudada, como um experimento. Data recusa, claro, e um almirante é enviado para a Enterprise para resolver o caso.
Enquanto isso, o androide segue educando seu filho, na verdade, filha. Data pede que Lal escolha seu gênero e sua aparência a partir de um cardápio de opções no holodeck – seria um sonho poder escolher uma “skin” na vida real. Ela opta por ser uma mulher humana. O novo pai vai aos poucos fazendo o “upload” de subrotinas ao cérebro positrônico de Lal, que absorve tudo muito rápido. Data nota que, ao ensinar a menina, ele mesmo parece aprender junto com ela, o que é mesmo o esperado quando temos filhos. Mas quando Lal começa a fazer um monte de perguntas em sequência, ele a desliga. Assim é fácil, comandante!
Para aprender mais sobre convívio social, Data coloca Lal para fazer um estágio no bar panorâmico, sob os cuidados de Guinan. As observações da jovem sobre os frequentadores são maravilhosas, além da interação com o comandante Riker, que chega desavisado e toma um beijo na boca de Lal, do nada. A androide questiona Data: se ela nunca terá sentimentos, para que tentar emular o comportamento humano? Lal demonstra uma angústia inesperada para um ser artificial, dando a entender que já superou o pai na capacidade de sentir emoções.
O almirante Haftel chega para decidir o que fazer com Lal. Ele se choca ao ver a jovem trabalhando no bar e já está pronto para tirar Lal da Enterprise à revelia de Data. Para o almirante, ela representa uma nova fronteira da tecnologia e é importante demais para fazer papel de garçonete, por mais que Guinan e Data expliquem o propósito daquele exercício.
Haftel chama a androide para uma conversa tentando convencê-la de que vai ser ótimo ser realocada para um laboratório da Frota Estelar. Lal vai ficando cada vez mais desesperada com a possibilidade de ser separada de seu pai. A desorientação dela chega ao ponto em que seu cérebro entra em colapso. Data faz de tudo para salvá-la, mas não consegue impedir a degradação dos circuitos. Lal precisa ser desligada, ou melhor, ela morre. Mas como ela é um androide, Data baixa todas as informações de seu cérebro e salva dentro de si mesmo. Ela segue presente dentro dele. Nem um vulcano deixaria de se comover com essa história.
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Em Deep Space Nine, mais um personagem que luta para entender os sentimentos humanos tem sua experiência de paternidade. Em “The Begotten” (“Novas Vidas”; DS9 5×12, 1997), o metamorfo Odo, chefe de segurança da estação, encontra por acaso uma criatura que viria a adotar como filho. O barman e trambiqueiro Quark oferece para vender uma geleca que parece ser outro “changeling” a Odo, que nesta fase do seriado perdeu seus poderes de transformação e está sólido, congelado na aparência de um humanoide. Quark avisa que o bicho parece estar morto, mas na verdade ele só está bem doente.
Àquela altura, a guerra contra o Domínio, império comandado por metamorfos conhecidos como Fundadores, já estava em andamento, então a tripulação da DS9 tem um pouco de medo da criatura. Será que os Fundadores teriam enviado aquilo à estação? Odo explica que o pequeno é somente um bebê, como ele mesmo era quando foi achado tantos anos atrás pelos bajorianos.
Os traumas de infância de Odo atravessam toda essa história. Um cientista do planeta Bajor, dr. Mora, foi o responsável por cuidar dele quando foi encontrado, ainda em forma de gosma. Ninguém sabia o que ele era exatamente, então o submeteram a testes, muitas vezes desconfortáveis, até que começasse a assumir diversas formas e conseguisse emular um humanoide, que é a aparência que ele tem a maior parte do tempo. A relação de Odo com o dr. Mora é como a de um filho com um pai que, se não chega a ser abusivo, fica perto disso.
Então imaginem a surpresa de Odo quando ele vê que o cientista veio de Bajor para “ajudá-lo” a cuidar do pequeno metamorfo doente. O conflito entre os dois já começa de imediato. Depois do tratamento inicial contra a radiação, Mora quer submeter a criatura a estímulos elétricos para que ele aprenda a se transformar. Odo protesta, lembrando como foi doloroso passar por procedimentos semelhantes quando ele ainda estava em formação. O chefe de segurança e o cientista vão nesse embate e Odo vai cedendo às ideias de Mora, vendo que elas realmente funcionam, mas se esforça para humanizar os experimentos o máximo possível. Ele conversa com a criatura, tenta acalmá-la, promete que um dia ele vai ensiná-la a se tornar uma águia tarkeliana.
A dupla começa a ter sucesso em ensinar o pequeno metamorfo a se transformar e os dois celebram juntos, com Odo reconhecendo que não teria evoluído tanto se não fossem os esforços, ainda que dolorosos, do cientista. Odo tenta usar sua experiência para proporcionar uma infância menos atribulada ao seu próprio pupilo, mas ainda assim expor a criatura a dificuldades suficientes para estimular seu crescimento, sem tantos traumas. Pensando bem, é o que sempre se tenta, pegando o exemplo dos nossos pais e tentando aprimorar a experiência da próxima geração, evitando cometer os mesmos erros e, muitas vezes, inventando novos. Mas a intenção costuma ser proporcionar uma vida melhor, ainda que imperfeita.
Uma pena que o pequeno metamorfo sofre uma desestabilização e fica à beira da morte. Como último ato, ele se funde a Odo, restaurando sua capacidade de se transformar. Juntos, eles assumem a forma da águia que Odo tanto queria ensiná-lo. Assim como Data, Odo acrescenta a si mesmo tudo o que o filho representou. É a forma Star Trek de mostrar que nunca somos os mesmos depois de ter filhos.
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Se existe um pai com muito a aprender nessa franquia, é o tenente Worf. Ao longo dos anos em A Nova Geração, o klingon teve dificuldade em conviver com seu filho, Alexander. Primeiro ele enviou o menino para ser criado pelos avós na Terra; depois eles pedem arrego diante do gênio difícil de Alexander e empurram a criança de volta para a Enterprise. Worf se irrita com frequência com a falta de interesse do menino pelos costumes klingons, em especial pelo modo “guerreiro” de vida.
O episódio “Firstborn” (“Primogênito”; TNG 7×21, 1994) já começa nesse conflito, com Worf tentando convencer o menino a participar de um ritual de iniciação. Alexander não quer e lembra que a mãe, morta anos antes, havia garantido que ele não seria obrigado a fazer nada disso se não quisesse. A frustração de Worf ecoa tantas situações em que os pais esperam que os filhos sejam simplesmente uma versão mais jovem deles mesmos.
O capitão Picard sugere a Worf um passeio a um planeta próximo onde um festival de cultura klingon está acontecendo, para ver se Alexander se anima a abraçar mais as tradições de seus antepassados. O menino começa a se divertir, mas no meio da festinha Worf é atacado por dois klingons, que tentam matá-lo. Um outro guerreiro se aproxima e ajuda o tenente a se livrar deles. Ele se apresenta como K’mtar e diz que foi enviado pelo irmão de Worf, Kurn, para ajudá-lo a se proteger da família inimiga, os Duras, supostos mandantes da tentativa de assassinato.
K’mtar sobe à Enterprise e passa a interagir bastante com Alexander, falando de uma forma mais amigável do que Worf sobre as vantagens de seguir com o treinamento de guerreiro. Mas o menino ainda resiste. K’mtar até ameaça tirar a guarda dele de Worf, enviando-o para uma escola klingon, que seria o equivalente a enviar Alexander para uma escola militar. Mas Worf não quer isso. O estresse entre eles vai subindo de temperatura até que todo o esquema de K’mtar é descoberto. Ele é o próprio Alexander, vindo do futuro para tentar mudar o destino dele e do pai. O Alexander adulto revela ter se tornado um ativista pela paz entre as casas klingons em vez de ter seguido o caminho de guerreiro. Por isso, não conseguiu defender o pai de um atentado que tirou a vida de Worf. A ideia dele era voltar ao passado para convencer sua versão criança a estudar as artes marciais e conseguir manter o pai vivo.
Worf então percebe que tanta pressão para fazer Alexander virar algo que ele não queria só trouxe culpa para o menino. Ele pede que K’mtar-Alexander se acalme, afinal, por ele ter voltado no tempo e avisado sobre o assassinato, o atentado já pode até ter sido evitado. O mais importante, porém, é que ele se mantenha fiel aos seus ideais e saiba que ele tem orgulho do filho, seja ele como for. Um belo amadurecimento para Worf, que passou anos revirando os olhos para tudo o que Alexander fazia para contrariar suas expectativas.
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Em Voyager, mais uma paternidade nada convencional vem à tona em “Real Life” (“Vida Real”; VOY 3×22, 1997). A história começa num ambiente meio “comercial de margarina”: o Doutor toma café da manhã com sua esposa e se despede dos filhos ao ir para o trabalho. A esposa é bonita, os filhos são educados e estudiosos, a casa é meticulosamente arrumada. O médico programou aquele ambiente no holodeck para experimentar como seria ter uma família – e ele acha tudo muito simples, apesar de ter escutado falar que poderia não ser assim. Kes, sua ajudante, e a engenheira B’Elanna Torres ficam curiosas para visitar esse lar tão perfeito.
Elas vão jantar na “casa” do Doutor e a programação perfeitinha de todos os membros da família começa a dar nos nervos de Torres. Ela para tudo e pede para reprogramar aquele holograma, para que ao menos o médico consiga ter um aprendizado mais fiel sobre o que é ter uma família de verdade. Ela usa um algoritmo que vai gerar situações de forma mais aleatória, tentando simular a vida real de um pai de família.
Quando o programinha começa de novo, a casa linda dá lugar a um lar meio bagunçado. A filha estudiosa agora leva bronca pelo quarto desarrumado e o menino vira um adolescente resmungão com amigos klingons. A esposa, que antes estava sempre à disposição para cozinhar e organizar, agora está atrasada para um compromisso de trabalho. O médico tenta chamar uma reunião familiar para colocar a casa em ordem, mas deixa todos bravos com sua tentativa de remodelar a rotina deles em favor do próprio conforto.
A tensão familiar explode quando a menina, Belle, se machuca em uma competição esportiva e sofre uma lesão cerebral irreversível. O médico sai do holodeck e diz ao tenente Tom Paris que nunca mais vai voltar ao programa, para evitar ver sua filha morrer. Para o Doutor, seria irracional se submeter a essa situação tão dolorosa se ele tem todos os meios para evitá-la. Paris não aceita essa ideia. Se ele criou essa simulação para entender o que é ter uma família, ele precisa voltar e dar apoio à filha em seus momentos finais e à esposa para suportar a perda da menina. O médico acaba cedendo e segura a mão da filha e abraça sua esposa quando Belle morre. O menino adolescente também se aninha com a família, dando e recebendo apoio naquele momento de luto. Agora sim o médico aprendeu o que significa ser um pai, ou ao menos teve uma amostra disso.
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Muitos anos depois (uns 800 mais ou menos), o Doutor precisa confrontar de novo essa situação. Em “The Life of the Stars” (“A Vida das Estrelas”; SFA 1×8, 2026), o médico holográfico agora é professor na Academia da Frota, no século 32. Uma das alunas é uma entidade fotônica chamada S.A.M. (Series Acclimation Mil) ou, simplesmente, Sam. Desde o início das aulas ela tenta se aproximar do Doutor, sem sucesso. Ele sempre dá uma esnobada na menina, que vê o Doutor, um superlongevo holograma, como referência, já que ela é recém-criada, com a aparência de uma jovem de 17 anos.
Mas Sam está com problemas: ela havia sido atingida por um tiro de feiser durante uma missão educativa que havia dado muito errado, e sua matriz holográfica começou a se degradar. As tentativas de conserto não dão certo e é necessário enviar a jovem para reparos em seu planeta natal. Ao chegarem a Kasq, lar dos seres fotônicos, os criadores de Sam realizam um diagnóstico e decidem que a menina não tem conserto. Ela foi criada como um papel em branco, sem memórias, e o trauma da missão que a danificou foi mais do que sua programação seria capaz de suportar. A capitão e chanceler da Academia, Nahla Ake, não se conforma com essa resposta e pede que eles reconsiderem.
Ao ver Sam naquela situação, o médico enfim admite que ela o lembra de Belle, sua filha holográfica que havia morrido séculos antes. Ele não queria estabelecer laços com Sam por medo de perdê-la também. Ake então faz uma sugestão aos criadores de Sam: eles podem reiniciá-la, mas em vez de já com 17 anos, deixá-la crescer, ter uma infância e um pai: o Doutor. Convenientemente, o tempo passa numa escala diferente no planeta Kasq, então o médico e Sam conseguem passar 17 anos juntos como pai e filha, enquanto poucas semanas transcorrem na Academia da Frota, na Terra. Ake é uma lantanita com vida quase eterna, então, para ela, envelhecer 17 anos não tem tanta importância assim. Fortalecida com memórias de infância e adolescência, Sam se restabelece e ganha uma personalidade estável, menos borbulhante do que sua versão anterior, e finalmente tem um pai ao seu lado.
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A relação de pai e filho mais marcante das séries de Star Trek, no entanto, é bem mais convencional: os humanos Ben Sisko, à frente da estação Deep Space 9, e seu filho, Jake. Essa pequena família de apenas dois membros foi destaque na época, ao retratar uma paternidade presente e afetuosa em uma família afro-americana nos anos 1990. Não era esse o retrato mais comum presente na TV naquela década.
O episódio que mais se concentra no forte laço entre Ben e Jake é “The Visitor” (“O Visitante”; DS9 4×4, 1995), um dos melhores de toda a franquia. Um acidente a bordo da nave Defiant deixa Sisko preso numa espécie de fenda no tempo. A “âncora” de Sisko ao espaço comum é Jake, e o pai aparece para o filho de tempos em tempos.
A trama começa com Jake, já idoso, contando sua história para uma jovem aspirante a escritora que vem procurá-lo, curiosa para saber por que ele havia interrompido sua carreira tantos anos atrás. O velho Jake lembra o acidente do pai e toda a busca infrutífera por recuperá-lo por toda sua vida. A recusa do filho em aceitar que Sisko realmente não teria mais salvação marca sua trajetória. Os amigos pedem que ele desista, mas ele não aceita. Ele desvia de sua vocação à escrita e passa a estudar física para conseguir resgatar o pai do fenômeno espacial que o prendeu.
No fim, entendemos que Jake terá de fazer o maior sacrifício possível para libertar o pai dessa condição: ele, idoso, toma um remédio para cometer suicídio em um momento específico que permitiria soltar o pai desse elo que o prende na fenda temporal exatamente quando ele estivesse materializado ao lado de Jake. Ben, durante a aparição, percebe que o filho está cometendo suicídio e se desespera. Mas, ao fazer isso, Jake devolve a ambos ao momento inicial do acidente, na Defiant. Jake dá ao pai o maior presente de todos: sua vida de volta. E também recupera a vida do jovem que não queria perder seu pai tão cedo.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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