Volta à fantasia propicia encontro de La’An com as duas faces de sua personalidade
Sinopse
Data estelar: 2355.6
Após a participação no casamento de um dignitário benzita, em que La’An debelou um esquema de um espião órion para sabotar o evento, a Enterprise encontra um misterioso planeta “impossível” – um mundo plano. A investigação por um grupo de descida liderado por Pike revela que ele abriga um ambiente de conto de fadas, com castelo e fadas. Eles encontram um sósia de M’Benga, e o médico revela que algo parecido aconteceu quando a Enterprise encontrou uma nebulosa que agia como uma consciência gerada espontaneamente no espaço, um “cérebro de Boltzmann”, e criou uma fantasia a bordo baseada em um romance que ele lia para a filha. M’Benga acha que desta vez o fenômeno está criando uma fantasia baseada nos sentimentos de La’An.
No planeta, Pike, Spock e Pelia são capturados pelos guardas vermelhos da rainha Neve. La’An também é confrontada por eles, mas os espanca e a escapa. Em seguida, ela encontra o príncipe galante, que se parece com James Kirk e a confunde com a princesa Thalia. Os dois são amantes, e ele decide ajudá-la a ir ao castelo da rainha Neve para resgatar os colegas aprisionados. A desculpa que ela dá é que irão lá recuperar as memórias dela, presas num colar.
Confrontados pela rainha Neve, Pike e Spock são aprisionados em quadros, enquanto Pelia, se fazendo passar por Benny Russell, autora do livro em que a fantasia é baseada, é cooptada para escrever a história da rainha Neve, que pretende destruir o “dragão de ferro” – a Enterprise, vista no céu acima. Enquanto isso, sir Routh e o mago Pollux pegam os equipamentos dos tripulantes e se transportam para a Enterprise, onde pretendem substituir seus duplos, Pike e Spock, e tomar o “dragão de ferro” para si.
No planeta, La’An e o príncipe galante encontram sir Adya, que se parece com Ortegas e os leva a um pântano onde poderão encontrar uma chave para entrar no castelo da rainha. Mas o desnudar da Lua cheia faz o príncipe partir atrás de um lobisomem. La’An e Adya prosseguem para uma choupana e acabam encontrando a arqueira Z’ymira, que se parece com Una e espanta o lobisomem. Adya e Z’ymira eram um casal, mas agora estão separadas. Z’ymira tem a chave, que entrega a Adya antes de dar um beijo apaixonado nela.
O príncipe volta a encontrá-las e ele e La’An retomam o caminho para o castelo. Dentro, há um baile de máscaras, e os dois decidem se misturar. Mas tudo dá errado quando a Lua cheia volta a aparecer. O príncipe então se transforma em um lobisomem, e a rainha Neve o aprisiona num quadro. La’An se encontra com seu alter-ego, a princesa Thalia, que lamenta a perda do príncipe, seu amor. Neve faz uso de um feitiço que tira forças de La’An e de Thalia para se tornar um dragão e então parte para atacar a Enterprise.
A cachorrinha Runa acorda La’An e Thalia, que se enfrentam em um combate corpo a corpo. Uma se vê abraçando seu lado violento pela primeira vez, e a outra se flagra mergulhando em seu lado meigo, também pela primeira vez. O conflito vira uma luta de espadas.
Na Enterprise, Routh e Pollux tentam se comportar como seus sósias, sem muito sucesso. Mas vão à ponte e tomam o controle da nave, depois de passarem no bar de bombordo para tomar uns drinques. E então precisam enfrentar o dragão que ataca a nave. Routh, como Pike, dá ordens peculiares, terminando por comandar Pollux a fazer um feitiço contra o dragão, que o deixa exaurido, sem grandes resultados.
No planeta, La’An decide parar de lutar. É uma catarse para ambas, que se enxergam uma na outra. Dois lados da mesma pessoa. As duas decidem parar de resistir a si mesmas e usam um caldeirão mágico para recuperar a força que a rainha tirou delas. O feitiço poderoso faz, no espaço, o dragão voltar a ser a rainha Neve, para estranhamento da tripulação da Enterprise, que nota que ela se parece com Uhura. O poder também libertou os prisioneiros dos quadros no castelo. Pike então chama La’An e diz que é hora de partir.
De volta à Enterprise, a oficial de segurança se vê em paz consigo mesma e recebe um presente: o príncipe enviou a cachorrinha Runa para ficar com La’An. Ela decide se reconectar com seu passado mais meigo, de antes do ataque gorn que destruiu sua família, e resgata um antigo colar que a lembrava de seu pai. Ela também toma coragem e convida Kirk para um drinque. Os dois terminam o encontro com uma dança. Pelia decide ficar no planeta plano, na verdade uma nave, onde o fantasioso reino com os duplos da Enterprise continuará existindo.
Comentários
“Once La’An a Time” é mais uma incursão à exploração de gêneros que se tornou marca preponderante de Strange New Worlds, sobretudo nesta quarta temporada. Mas, em contraste com algumas tentativas menos bem-sucedidas, este episódio faz um bom trabalho tanto com o gênero como com os personagens, em particular a mencionada no título, em uma jornada divertida, criativa e contagiante. Dá para pensar no episódio como um “Shore Leave” com esteroides, somado a um toque de “The Enemy Within”, para ficar em duas referências clássicas.
Interessante como ele se estabelece como uma continuação de “The Elysian Kingdom”, da primeira temporada, com consequências para a forma como vemos aquele episódio. Se antes podíamos nos questionar se a transformação ocorrida naquele episódio a bordo da Enterprise foi real ou mera alucinação de M’Benga, aqui fica estabelecido que ela de fato aconteceu. Ainda assim, a essência do que vimos ali não se perdeu – a continuação reafirma que a história toda foi um veículo para que M’Benga lidasse com seus próprios sentimentos de aceitação e luto pela perda da filha.
Aqui, por razões não totalmente compreendidas, o retorno ao reino deseja propiciar a mesma coisa a La’An – trabalho da tal nebulosa/cérebro de Boltzmann, que poderia perfeitamente se chamar Deus Ex Machina, mas que serve como um ótimo atalho para enfatizar aquilo que, no fundo, toda história de ficção faz – ela ajuda a processar nossas próprias experiências em termos de empatia com os personagens e circunstâncias fictícios a que somos expostos.
Do ponto de vista do escopo da produção, este episódio traz um ganho considerável com relação ao predecessor, em que a história foi totalmente limitada aos cenários da Enterprise (ainda que redecorados a caráter) e os personagens, salvo M’Benga e Hemmer, viviam essencialmente os habitantes ficcionais do reino. Para completar o quadro, todos eles perdiam as memórias, exceto M’Benga, o que significa que, na prática, a história só aconteceu para o médico – o que, naquele contexto, reforçava a qualidade ambígua do episódio, mas ao mesmo tempo nos deixava na situação de ter uma história de um personagem só.
Aqui, em contrapartida, fazemos uma visita de fato ao tal reino, com todos os requintes de produção exigidos, com múltiplos cenários, do calabouço ao palácio da rainha, passando pela floresta e pela choupana da arqueira. Visualmente, temos um espetáculo admirável, com direito a uma espetacular batalha entre a Enterprise – o “dragão de ferro” –, e um dragão “de verdade”.
No plano dos personagens, os tripulantes da Enterprise seguem como si mesmos, no máximo meramente emulando suas contrapartes fantásticas. Agregando ainda mais diversão, temos Anson Mount e Ethan Peck interpretando sir Routh e o mago Pollux a bordo da Enterprise, tentando fingir serem Pike e Spock. É muito divertido, e os atores vão muito bem, em mais um exercício desafiador de interpretação em camadas: Mount que é Routh que é Pike, ao mesmo tempo em que, no “planeta”, Mount que é Pike que é Routh.
Vão as aspas no “planeta” porque os produtores ousaram tirar sarro dos terraplanistas, apresentando um mundo que, à moda dos ignorantes da era medieval (os cultos já sabiam então da natureza esferoide da Terra), era plano. No fim, descobrimos que se trata de uma espaçonave, e Pelia é despachada com ela ao fim do episódio – mais um personagem que tem seu destino encaminhado, embora aqui sem muita pompa, conforme vamos nos aproximando do fim da série. Scotty já pode fazer o papel de engenheiro-chefe sem que precisem encontrar desculpas.
O coração do episódio está com La’An, que finalmente enfrenta seus conflitos internos entre sua natureza violenta, talvez ligada aos genes aumentados que possui, e seu desejo de encontrar alguma leveza na vida. Desde o final da temporada anterior esse processo vem se desenhando como algo traumático, agressivo, potencialmente devastador, e aqui temos um tratamento surpreendentemente leve e inspirado, em que ela precisa confrontar a si mesma, com sua alter-ego, princesa Thalia, fazendo a jornada inversa: enquanto La’An, vivendo como Thalia, encontra o amor e a ternura, Thalia, vivendo como La’An, descobre seu lado violento.
Os mais encantados diriam que temos uma versão suave de “The Enemy Within”, da Série Clássica, e, vamos combinar, nos dois casos os aspectos “científicos” que dão sustentação à exploração alegórica são finos como uma folha de papel. Uma falha do teletransporte que duplica pessoas dividindo-as em seus lados bom e mau não é muito mais convincente do que um mundo de fantasia criado por uma superinteligência que coloca versões real e fictícia de uma pessoa em conflito com seus sentimentos ocultos. É uma explicação suficiente, ainda que talvez não inteiramente convincente, que propicia a Christina Chong mais uma vez dar um show de interpretação, fazendo as nuances de suas diferentes personas.
O desfecho também surpreende por deixar La’An intacta, por assim dizer – o que nada faz por explicar o sumiço dela antes da Série Clássica. Todas as possibilidades para ela ainda estão em aberto – inclusive um romance com James Kirk, algo a que o episódio alude em seu desfecho. A presença dele na fantasia é plenamente justificável, já que o ente superpoderoso criou o príncipe charmoso com base nos sentimentos ocultos de La’An. Já na Enterprise, tornou-se algo tão comum que os roteiristas nem se dão mais ao trabalho de explicar. Quer dizer, explicam: La’An o convidou para um drinque, e ele foi. Fácil assim. Mais uma vez as coisas parecem fora de ordem, e há a tentação de pensarmos que o episódio anterior, “Orders of Magnitude”, na verdade se passa depois deste – explicando por que Kirk abre aquele episódio querendo ir à Enterprise para encontrar-se com ela.
Mais grave ainda, aqui temos M’Benga como oficial médico-chefe, sem qualquer menção aos eventos de “Orders of Magnitude”. É impossível pensar que “Once La’An a Time” se passa imediatamente depois. Se, do ponto de vista dos episódios individuais, isso não traz problemas, torna-se caótico quando pensamos no coletivo, em termos de “continuidade de personagem” – uma das promessas da série. Seja quem foi que escolheu essa ordem de exibição dos episódios desta temporada, é inexplicável e prejudicial ao programa.
Avaliação




Citações
“There’s no subtext here at all, is there?”
(Não há o mínimo subtexto aqui, há?)
La’An Noonien-Singh
Trivia
- A roteirista Onitra Johnson escreve seu quinto episódio para Strange New Worlds. Antes ela assinou o precursor direto deste, “The Elysian Kingdom”, além de “Lost in Translation”, “Shuttle to Kenfori” e “Through the Lens of Time”.
- A diretora Sydney Freeland conduz seu segundo episódio na série, depois de “The Serene Squall”, da primeira temporada.
- Este é o terceiro título de episódio em Star Trek derivado da frase “once upon a time”, traduzido comumente como “era uma vez”, expressão típica da abertura de contos de fadas. As duas anteriores foram “Once Upon a Planet”, na Série Animada, e “Once Upon a Time”, em Voyager.
- Há razões para acreditar que este episódio se passa antes de “Orders of Magnitude”, já que M’Benga segue como oficial médico-chefe da Enterprise.
- O título do episódio foi uma ótima oportunidade para os produtores esclarecerem a grafia do nome La’An. Segundo o coprodutor executivo e roteirista Bill Wolkoff, é com A maiúsculo, e não “La’an”, como por vezes até o Paramount+ usou.
- O casamento diplomático de um dignatário benzita indica que a Federação já tem contato com essa espécie, vista em A Nova Geração, desde pelo menos o século 23.
- Martin Quinn não aparece nesse episódio, nem como Scotty, nem como um personagem fictício do reino, mas é creditado na abertura.
- Esta é a segunda aparição da cachorrinha Runa Ewok, que na vida real é mesmo da atriz Christina Chong. A primeira aparição foi em “The Elysian Kingdom”.
- A fala de Pelia, “como desejar”, e a menção a Max, o chef da rainha, como um “milagreiro” são referências ao papel de Kane no filme A Princesa Prometida (1987), como Valerie, esposa de Miracle Max, vivido por Billy Crystal.
- O psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) é mencionado aqui em duas ocasiões, em conexão com o que acontece no episódio, em particular com La’An. Ele é conhecido pela teoria dos arquétipos, estruturas mentais que comporiam a totalidade da experiência humana. Segundo ele, seriam quatro os grandes arquétipos, o Self, que representa a psique unificada; a Sombra, que contém os aspectos reprimidos, ocultos e inaceitáveis da personalidade e que precisa ser integrado de forma consciente para que a pessoa atinja completude e maturidade (é o que parece ocorrer com La’An aqui); a Persona, que é a máscara social que o indivíduo costuma apresentar publicamente; e a Anima/o Animus, conjunto de impulsos inconscientes que se relacionam com capacidades emocionais e conexões de natureza sexual.
- Spock evoca a clássica frase de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”
- Também descobrimos que Pelia colaborou com Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick no roteiro de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968).
- O design do planeta parece ser uma referência à popular série de livros de fantasia Discworld, de Terry Pratchett. No contexto da ficção científica, parece mais um delírio terraplanista.
- Pike menciona o Medieval Times, um restaurante temático americano em que disputas de cavaleiros acontecem durante uma refeição. Talvez a sede tenha se mudado para Hysperia, planeta do engenheiro Billups, de Lower Decks, que infelizmente não recebe uma menção aqui.
- O autor do livro que inspirou “The Elysian Kingdom”, Benny Russell, é mencionado aqui em diálogo. Naquele episódio, ele só aparecia na capa do livro. É uma referência ao alter-ego de Benjamin Sisko em “Far Beyond the Stars”, de Deep Space Nine.
Ficha Técnica
Escrito por Onitra Johnson
Dirigido por Sydney Freeland
Exibido em 17 de setembro de 2026
Título em português: “Era uma Vez uma La’An”
Elenco
Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley
Elenco convidado
Paul Wesley como James T. Kirk
Carol Kane como Pelia
Erniel Baez como Salazar
Christopher Cordell como guarda vermelho
Jonathan Gould como lacaio
TB ao Vivo
Em breve
Enquete
Edição de Maria Lucia Rácz
Episódio anterior | Próximo episódio
Descubra mais sobre Trek Brasilis
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.







