Se beber, não escreva um episódio de Star Trek
Sinopse
Data estelar: 2011.7
A Enterprise é enviada ao sistema rodaxiano, onde Pike negociará um tratado para encerrar uma guerra civil. Ortegas e Scotty seguem em pé de guerra sobre como lidar com a nave. A tripulação segue estressada pelo trabalho. O capitão decide fazer uma passagem pelo planeta de férias Cesnar Grand, para dar uma licença ao turno alfa (o único que não teve folga recente) antes das desgastantes negociações.
O planeta é livre de tecnologia e tem uma atmosfera que causa efeitos inebriantes em quem a respira – o efeito é diferente para cada pessoa. A tripulação desce em uma nave auxiliar, abre a escotilha e… a próxima coisa de que Ortegas se lembra é de acordar em um quarto ultrabagunçado onde claramente houve muita farra, e ela foi participante ativa. Ortegas está com o braço engessado, e ao seu lado desperta um homem vestido com uma fantasia de mugato – é Scotty.
Dendru, o gerente do planeta, bate na porta do quarto e diz que tem uma carta urgente para Pike e pergunta se Ortegas pode entregá-la. Ela está revoltada por estar de ressaca e ter tido perda de memória, mas o gerente enfatiza que isso pode acontecer – estava nas letras ultra miúdas do contrato. Scotty ainda parece alterado e não pode ser deixado sozinho, então Ortegas o leva junto em uma busca por Pike.

Eles vão aos aposentos de Spock, que acredita estar tendo uma visão de que James Kirk está com ele jogando xadrez. O vulcano diz que Pike foi à festa da Uhura. Chegando lá, ela também está alterada, em sua própria jornada. O capitão não está lá. Ortegas e Scotty vão em seguida até o bar, onde encontram Una cantando karaokê: “Total Eclipse of the Heart”, em klingon. M’Benga está atendendo no bar, mas com muita dificuldade para preparar drinks. Ele serve um para Scotty – e é verde. O doutor conta onde o capitão está: fazendo tatuagens.
Ao finalmente o encontrarem, eles entregam a mensagem, que diz que os rodaxianos virão até eles para as negociações e chegarão em duas horas. O encontro era esperado em duas semanas, após a licença. Ortegas e Scotty vão buscar a nave auxiliar, enquanto Pike, alterado, se compromete a reunir a tripulação.
Ao chegarem ao estacionamento, os dois descobrem que a nave auxiliar não está lá. Ela só poderia ter sido movida com um chip duotrônico, mas eles não sabem onde está. A atendente informa que quem ficou com o chip foi Scotty, horas atrás. Mas ele não se lembra de nada. Os dois tentam voltar à Uhura e convencê-la a emprestar o tricorder, para que possam localizar a nave. Ela concorda, contanto que os dois peçam desculpas um ao outro. Scotty ativa o tricorder e acessa o sistema de segurança. Ele atira o dispositivo para Ortegas, mas na direção errada. O tricorder cai no chão e se espatifa.

Plano B: invadir o escritório da administração e hackear o computador. Para isso, Scotty e Ortegas recrutam Spock. Não encontram a máquina, mas o vulcano faz um elo mental com uma planta e com isso identifica a localização da nave auxiliar. Ela está em um local do planeta onde costuma haver ladrões. Spock recomenda que recrutem La’An para ir até lá. Ele continua alucinando com Jim Kirk e acha que isso pode ter um significado especial.
La’An transformou uma sessão de relaxamento em aula de artes marciais. A pedido de Ortegas, ela os acompanha e dá uma surra em um dos cinco bandidos – tornando-se a líder deles. A nave auxiliar está escondida atrás de uma placa publicitária.
Os sensores internos indicam que o chip duotrônico para ligá-la está ali perto – esteve o tempo todo no gesso de Ortegas. Quando os dois acham que vão sair com a nave, são rendidos por dois encapuzados com hiposprays, que os prendem em um depósito, amarrados. Trabalhando juntos, eles começam a se libertar. Eis que surge Dendru, para terminar de soltá-los. Ortegas ainda está irritada, e o gerente lamenta, esperava que a jornada deles pudesse ajudá-la com isso. Ela fica chocada ao descobrir que tudo que está acontecendo com eles foi planejado por Dendru. Ele a faz pensar sobre suas frustrações e recomenda que passem antes pelo sala C, onde uma colega está causando problemas.
É Chapel, arrumando briga num bingo. Eis que chegam também La’An e seu bando. A confusão está armada, mas os tripulantes conseguem sair dela ilesos. Com todos de volta à nave auxiliar, precariamente reparada, Pike tenta se concentrar para a missão diplomática adiante, mas os efeitos do planeta não parecem ter se dissipado por completo. Com uma tatuagem gigante no rosto, ele recebe os diplomatas a bordo da Enterprise, que dizem ter estranhado o pedido para adiantar as negociações. O capitão não se lembra de tê-lo feito.

Ortegas e Scotty decidem por si mesmos voltar à nave auxiliar e finalizar os reparos. Os dois acabaram mais próximos pela experiência, e ela revela que sempre quis ser engenheira, mas não tinha vocação para isso, enquanto ele admite ter medo de assumir o leme, por ter causado acidentes quando jovem. Scotty então descobre um dispositivo a bordo: é uma bomba.
Ortegas vai pedir ajuda, mas a tripulação da ponte continua afetada pela atmosfera do planeta, em meio às negociações. Um discreto “telefone sem fio” chega a Spock, que descobre sobre a bomba e vai ajudá-los. Ele encontra uma mensagem gravada, por Scotty e Ortegas, lá no planeta, em que eles descobriram no começo das férias que a nave foi adulterada e indicavam que ninguém a trouxesse à Enterprise antes de descobrir o que aconteceu. Eles esqueceram tudo.
A bomba tem tecnologia rodaxiana, uma tentativa de sabotar as negociações de paz. Se Scotty soltar a bomba, ela vai explodir. Ortegas decide ajudá-lo e pilotar a nave auxiliar para longe da Enterprise. Eles serão transportados de volta uma fração de segundo antes da detonação. Spock vai à sala de transporte e diz querer ter um par adicional de mãos para ajudar. Jim Kirk aparece. O vulcano acredita estar alucinando de novo. Kirk dá um bofete nele para fazê-lo perceber que é real. Os dois operam o transporte e salvam Ortegas e Scotty, que agora têm uma nova apreciação de sua amizade.

Pike segue conduzindo as negociações, quando a nave auxiliar explode espetacularmente, o que honra profundamente os diplomatas, confundindo o episódio com um antigo ritual diplomático deles. Com isso, as negociações avançam com sucesso, e o sabotador é apreendido. A única perda é de Scotty, que acaba tendo um dedo decepado no incidente. Ortegas o leva à enfermaria, e dá olá a Kirk. Spock agora está convencido de que ele é real. Jim diz que estava passando férias em Cesnar e foi ótimo passar um tempo com Spock.
Comentários
Se Beber, Não Case, versão Star Trek. Se você gostou do original, possivelmente vai pelo menos dar umas risadas com essa versão feita no contexto de Strange New Worlds. É uma comédia descomprometida que usa a intoxicação (da forma mais inofensiva e não dolosa possível) para colocar os personagens em situações absurdas nos quais eles não poderiam estar sem um blecaute de memória que um bom porre pode oferecer.
Repare que a trama não está tão distante do que a franquia sempre fez – temos aqui um cruzamento de “Shore Leave”, da Série Clássica, com “Two Days and Two Nights”, de Enterprise –, e não é nela que residem os problemas, mas sim na forma como o episódio e seus elementos são conduzidos.
A audiência é dada a conhecer que tudo vai dar errado já na propaganda introdutória do planeta Cesnar, quando o glorioso Dendru (interpretado pelo comediante Dave Foley, perfeitamente escalado no papel) faz sua apresentação do que espera a tripulação em seus dias de férias. Não pelo que ele diz, mas pelo que não diz – seguido por uma interminável sequência de advertências ilegíveis em letras miúdas.
Sem demora, o episódio mergulha de cabeça na premissa, com Ortegas e Scotty – os amigos improváveis – acordando após uma noite de muita alegria da qual nada se lembram. Ela parece estar com o braço quebrado, ele está numa fantasia de mugato, e muita bagunça cerca os dois. O resto é previsível na forma, mas não no conteúdo – sabemos que vamos encontrar o resto da tripulação em situações inusitadas, mas não quais. Boa parte do humor que vem a seguir pode até funcionar de primeira, com o fator surpresa, mas se perde em revisitas.
A “missão” é colocada em andamento quando Dendru entrega o envelope destinado ao capitão Pike. Ortegas e Scotty que lutem – entre si e contra os outros – para entregá-lo.

Primariamente, esse é um episódio sobre a relação dos dois, que ganham bom e merecido destaque. Eles começam em uma situação de que não se suportam e terminam se reconhecendo “iguais em suas diferenças”, nascendo daí uma bela amizade. Não são poucas as vezes em que amigos de verdade se formam assim, de um atrito inicial, e nesse sentido o episódio até é realista e recompensador. O tratamento dado especificamente a Ortegas e Scotty agrega a ambos, eles saem diferentes do que entraram, e é seguro dizer que, como desejava Dendru (e Uhura), eles concluíram sua jornada. Ponto para a trama A.
Não tiveram a mesma sorte Spock e Kirk, com a trama B. Um elemento tão importante do folclore de Star Trek como a amizade desses dois ganha aqui um tratamento frívolo difícil de elogiar, ainda que se considere o ardente desejo de ser engraçado em primeiro lugar e relevante em segundo. Sim, Spock totalmente sóbrio (e ao mesmo tempo fora de si, vendos pessoas como plantas) pode ser engraçado pelo contexto. A ideia de que ele está tendo uma visão de Kirk é provocativa e tinha potencial. Mas acaba sacrificada por uma piada – a descoberta de que Kirk realmente esteve lá o tempo todo.
Para começar, isso exige uma dose de suspensão da descrença colossal. Conte aí: Kirk nunca está em cena quando alguém vai falar com o vulcano, exceto no fim; Kirk decidiu de moto próprio passar férias em Cesnar ao mesmo tempo que a tripulação da Enterprise; Kirk voltou a bordo sem ninguém notar; Kirk conseguiu sustentar horas, quiçá dias, de conversas com o vulcano sem que ele notasse que estava falando com uma pessoa real… se pegarmos detalhe por detalhe, tudo é inacreditável, ainda que se leve em conta o estado alterado de Spock.

Fica ainda mais feio quando vemos a escolha da ordem de exibição dos episódios. No traumático “The Griffin Incident”, Jim promete que vai dar mais atenção ao filho David e tenta ligar para Carol. No episódio seguinte, “Human Best Friend”, ele vai passar férias em Cesnar sozinho. Como é que é?! E o David? Jim tirou folga e não foi vê-lo para passear no planeta Vegas?
Aqui precisamos introduzir o fato de que o segundo episódio era o quarto na lista de produção e foi filmado depois deste, que originalmente deveria vir logo depois do primeiro, “Valles Marineris”, em que é apontado que a tripulação está exausta. Só podemos supor que a ordem cronológica correta não é a de exibição, o que no mínimo é uma escolha peculiar para uma série que, desde o início, prometia “histórias episódicas com continuidade de personagens”. Para quem reclamava que Kirk na Série Clássica perdia a Edith Keeler tragicamente em um episódio e já estava bem no episódio seguinte, como cansou de apontar o showrunner Akiva Goldsman ao falar do trabalho com Strange New Worlds, essa sequência de exibição é trágica.
Para piorar, com a coisa do Kirk alucinado que é real, acabamos com o que pode ser descrito como a evolução “involuntária” da intimidade entre dois, o que não faz bem a qualquer deles. A parceria histórica entre Kirk e Spock, descobrimos aqui, tem como um de seus alicerces uma mera confusão de bêbado. Patético, ainda que Ethan Peck e Paul Wesley façam bom trabalho com o material e nos entretenham em suas cenas juntos.

Os demais membros do elenco têm sua vez sob a ribalta, em geral em situações absurdas que “rimam” com suas características, mas não vemos qualquer evolução ou sofisticação nesse tratamento. É a diversão pela diversão. Tendo dito isso, algumas sequências são bem engraçadas.
Os destaques vão para as cenas mais orgânicas, menos forçadas: Una cantando karaokê é consistente com o que esperamos dela numa situação desse tipo, e quem não gosta de Total Eclipse of the Heart em klingon só pode estar errado. M’Benga se atrapalhando todo como um barman improvisado também tem seu valor de comédia pastelão, e a cena não joga em detrimento do personagem.
Numa segunda liga, temos os que recebem tratamento caricato, mas ao menos consistente. Entram aí La’An acabando com o relaxamento da galera e virando líder de gangue (mais uma vez exprimindo seus impulsos violentos) e Uhura, entre a festa e a introspecção, refletindo sobre a jornada de cada um.

Na terceira divisão, encontramos aqueles com quem era preciso fazer alguma coisa que seja engraça e se encaixe na história – pouco importa se faz sentido. Pike com as tatuagens e o estilo afetado (uma escolha de atuação de Anson Mount), e Chapel no bingo (sendo hipercompetitiva no jogo mais tedioso que existe). Subutilizados, para ser gentil.
A proposta em geral é bem executada, e não se nega o talento da diretora Yana Gorskaya para a comédia. Mas o tratamento em geral descuidado, por vezes desastroso dos personagens, torna mesmo a melhor comédia algo que pode fazer alguns sentirem prazer culposo ao ver este episódio – sentimento não muito dissimilar daquele despertado por “A Space Adventure Hour”, na terceira temporada.

Avaliação




Citações
“It’s green.”
(É verde.)
Joseph M’Benga, servindo uma bebida
Trivia
- O episódio é escrito por Kathryn Lyn, que começou em Star Trek por Lower Decks e depois passou à equipe de roteiristas de Strange New Worlds na segunda temporada. A escritora faz uma ponta no episódio como a cantadora do bingo.
- A diretora Yana Gorskaya nasceu na Rússia e emigrou para os Estados Unidos ainda criança. Especialista em comédias, este é seu primeiro episódio de Star Trek.
- O episódio tinha número de produção 402 e provavelmente foi o segundo a ser filmado na temporada. Ele de fato pega o gancho da necessidade de descanso do primeiro episódio, “Valles Marineris”.
- O título saiu de uma fala de Spock para Kirk, referindo-se ao “melhor amigo humano”.
- Como se pode imaginar, os atores se divertiram muito gravando esse episódio. Na verdade, a diversão começou até antes, quando a trupe fez uma leitura de mesa do roteiro.
- O comediante canadense Dave Foley faz aqui seu primeiro papel em Star Trek em live-action, como Dendru, do planeta Cesnar, mas ele já havia participado com voz, como Parth, do episódio “Parth Ferengi’s Heart Place”, da quarta temporada de Lower Decks.
- A Enterprise aparentemente funciona em três turnos, alfa, beta e gama.
- A propaganda do Cesnar Grand conta com animações com personagens no estilo da Série Animada. Entre as figuras, vemos uma argosiana (do episódio “The Ambergris Element”), um edosiano (espécie do navegador Arex), um vulcano, alguns andorianos e uma moça com um traje dos androides de Exo III (de “What Are Little Girls Made Of?”, da Série Clássica).
- O quarto bagunçado tem um pingo (bem vivo), de “The Trouble With Tribbles”, e um cachorro do planeta Alfa 177 (aparentemente empalhado), de “The Enemy Within”, ambos episódios da Série Clássica.
- Scotty começa sua jornada de férias vestido como um mugato, a criatura perigosa vista em “A Private Little War”, da Série Clássica. O jovem tenente James Kirk havia visitado o planeta Neural, em 2255 (sete anos antes deste episódio), e já conhecia esses bichos. A missão deve ter ficado famosa, porque Scotty o reconhece.
- Em 2268, Scott serviria uma bebida a um dos kelvans que invadiram a Enterprise no episódio clássico “By Any Other Name” e, ao tentar explicar o que era, disse apenas: “É verde.” Muitas décadas depois desse episódio, em 2369, Scotty também seria servido com uma dose de whiskey de Aldebarã descrita apenas como “verde”, por Data, no episódio “Relics”, da sexta temporada de A Nova Geração.
- Spock ouve uma planta cantante. Aqui parece ser uma alucinação, mas em 2254, em Talos IV, foi real, no piloto original da Série Clássica, “The Cage”. O vulcano também tem uma tradição de fazer elos mentais com seres estranhos, desde a sonda Nomad (“The Changeling”) até a Horta (“The Devil in the Dark”). Aqui foi a planta do escritório do planeta.
- Os créditos finais incorporam cenas no planeta Cesnar, com destaque para Una cantando “Total Eclipse of the Heart”, de Bonnie Tyler, mas uma versão em klingon.
Ficha Técnica
Escrito por Skylar Ojeda & Dana Horgan
Dirigido por Yana Gorskaya
Exibido em 6 de agosto de 2026
Título em português: “Melhor Amigo Humano”
Elenco
Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Martin Quinn como Montgomery Scott
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley
Elenco convidado
Dave Foley como Dendru
Sam Calleja como atendente do estacionamento
Nicolas Grimes como ex-líder da gangue
Darryl Hinds como Co’Rah
Kirstin Rae Hinton como No’Mahc
Alex Kapp como computador da Enterprise
Kathryn Lyn como cantadora do bingo
Louisa Martin como Cornelia
Asha Vijayasingham como professora
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