SNW 4×10: Tomorrow’s Enterprise

Episódio entre passado e futuro nos encoraja a viver o presente

Sinopse

Data estelar: 2873.2

A Enterprise estuda um buraco branco, raro fenômeno astrofísico, e Uhura capta um sinal vindo do objeto – parece ser música. A nave é atingida por pulsos de radiação. Ela então ouve Scotty gritando, mas ele não enviou tal mensagem. Pike vê que a tenente está sangrando e a manda à enfermaria. M’Benga recomenda repouso.

Ela conversa com La’An e acha que está enfrentando uma situação de deslocamento temporal e que Scotty está em perigo. Ressabiada com viagens no tempo, a oficial de segurança recomenda não seguir pensando nisso. Mas Uhura segue perseguindo respostas e encontra um sinal anômalo de comunicação do buraco branco. É ela mesma – um ano no futuro. Uhura acredita que precisa trabalhar com sua versão do futuro para salvar Scotty do que quer que vá afetá-lo.

Na versão de um ano no futuro, ela e Scotty têm um relacionamento amoroso, e James Kirk é o capitão. Eles conversam na ponte sobre os jogos de pôquer da tripulação e estão investigando o surgimento de um buraco negro. Uhura e Scotty irão até ele numa nave auxiliar para estudar mais de perto, com Ortegas (agora capitão) vindo a bordo apenas para esta missão desafiadora.

Uhura mais uma vez detecta música, e surgem objetos de dentro do buraco negro que avançam contra a nave auxiliar. Em seguida, vem mais uma rajada de radiação, e a nave perde força. Os três precisam se teletransportar, um de cada vez. Uhura é a primeira. Os demais não retornam, e Kirk e Spock informam que Ortegas e Scotty nunca estiveram com ela. Na verdade, o engenheiro morrera há um ano.

Na enfermaria, Uhura recebe mais uma vez ordens de descansar. Em seus aposentos, ela volta a investigar e tentar descobrir o que está acontecendo. Ela encontra um sinal anômalo vindo do buraco negro – é ela mesma, do passado. As duas decidem cooperar. A Uhura do futuro revela que Scotty, que não deveria estar morto, agora está. E a do passado diz que lá ele ainda está vivo. Decidem tentar impedir a morte dele no passado e mudar o futuro.

Vendo que há um pulso vindo do buraco negro/branco, cogitam que podem tentar gerar um pulso reverso para inverter o processo. A Uhura do passado consulta Spock sobre fenômenos temporais ligados a buracos brancos, e ele se responsabiliza por investigar a questão. A Uhura do futuro então pergunta ao vulcano se ele estudou o caso. Ele destaca que é preciso cultivar um diamante de dilítio para gerar o pulso reverso, mas levaria um ano para criá-lo. A informação então é passada à Uhura do passado, que recruta Scotty a ajudá-la a formar o diamante. A Uhura do futuro então o recupera pronto, dali a um ano.

As duas Uhuras então sobem à ponte para convencer seus capitães, Kirk e Pike, de emitirem o pulso reverso para o buraco negro/branco. A Uhura do futuro, mais experiente, é muito mais convincente. Mas antes que pudessem executar o plano, outra rajada de radiação do fenômeno atinge a Enterprise, nos dois tempos. E então as duas Uhuras trocam de lugar, a do passado vai para o futuro e vice-versa. Elas tentam fazer os papéis de si mesmas.

Kirk pretende explodir o aglomerado de estrelas para escapar da anomalia e percebe que há algo errado com Uhura. Ela revela a ele que é do passado. Já a Uhura do futuro dá um abraço caloroso em Scotty, que identificou uma frequência audível vinda do buraco branco. Pike estranha a Uhura e também identifica que ela veio do futuro. Ele também pretende atacar o aglomerado estelar para escapar. Uhura do futuro revela que a vida de Scotty está em jogo.

A Uhura do passado identifica em seus aposentos um artefato na parede com uma língua morta – uma mensagem, notas musicais. Ela descobriu que a notação do mural e a transmissão musical da anomalia se combinam e geram uma mensagem completa. Na anomalia, estão as parteiras, que estão preparando um bebê para nascimento. Os pulsos seriam as contrações, mas o bebê está fora de posição. Uhura tentará ajudar com uma caminhada espacial, em que pilotará drones a partir do casco da Enterprise para facilitar o parto. As duas Uhuras fazem o mesmo, no passado e no futuro.

A tentativa falha e Uhura decide entrar diretamente no buraco negro/branco para ajudar no nascimento do bebê espacial e salvar Scotty. Mas mais uma contração da anomalia atinge a Enterprise do passado e faz um painel explodir na ponte, matando o engenheiro. Do lado de dentro da anomalia, as duas Uhuras propiciam o nascimento do bebê e se veem ambas numa ponte da Enterprise silenciosa. Surgem então as parteiras e dizem que são formas de vida que vivem fora do tempo linear. Elas mandarão as duas Uhuras a seus respectivos tempos e causarão os reparos na linha temporal, salvando Scotty. E Uhura, nas duas épocas, será a única a lembrar tudo que aconteceu.

Comentários

Bem, comecemos tirando o elefante da sala: a trama de ficção científica de “Tomorrow’s Enterprise” faz pouco ou nenhum sentido. Buraco branco, buraco negro, bebê espacial, entrelaçamento quântico, realidades alternativas, tudo é misturado num liquidificador de forma no máximo modestamente articulada para nos conectar a uma mensagem e a uma premissa.

A premissa, bastante interessante, nos oferece um jogo entre duas versões de Uhura interagindo através do tempo a bordo da mesma nave, lidando com duas faces do mesmo fenômeno, separadas por um ano. Já a mensagem, clara, é a de que devemos, por assim dizer, estar presentes no presente – vivendo-o como a única coisa que de fato experimentamos (já que o passado para nós é um eco, uma lembrança, e o futuro é um mistério, uma incógnita).

Por mais belas que sejam ambas, premissa e mensagem, a execução é um pouco confusa e alterna momentos melhores e piores. Onde funciona melhor? Toda vez que as duas Uhuras precisam interagir, beneficiando-se de forma inteligente de sua distância temporal, para obter determinado resultado. Onde falha? No esforço de, ao mesmo tempo, nos levar à era de James T. Kirk como capitão da Enterprise e ter de recobrir essa fase com o aspecto de linha do tempo alternativa.

A rigor, estamos falando de um ano após o início do episódio, o que decerto cai antes de “Where No Man Has Gone Before”, primeiro segmento produzido com William Shatner na Série Clássica. Mas, mesmo nessa posição “segura” no cânone, estamos diante de um futuro vastamente alternativo. Scotty, é claro, não morreu na linha do tempo que conhecemos. Boyce vem parar aqui, mas há menções à presença de McCoy, transformando a transição da equipe médica de Pike para Kirk em uma festa da uva. Mais ou menos como todo mundo ao mesmo tempo agora. Ortegas, descobrimos, virou capitão. Pike, antes de seu fatídico acidente, teria virado almirante (não é a patente dele quando o reencontramos em “The Menagerie”). E La’An, ao que tudo indica, bateu com as dez ou virou Vera Verão. Mas não importa, porque, de novo, futuro vastamente alternativo.

Também incomodam alguns empréstimos feitos de outros cantos da franquia. De repente, o episódio estabelece que no futuro de Kirk a tripulação joga pôquer regularmente. Há algo de errado nisso? Não exatamente. Sabemos que Kirk é um fã de pôquer e já vimos baralhos na sala de recreação em “Charlie X”, da Série Clássica. Por outro lado, o capitão pergunta a Spock em “The Corbomite Maneuver” se ele conhece o jogo, o que parece inconsistente com partidas regulares da tripulação sênior antes disso.

O mais grave, na verdade, é que essa se tornou uma marca registrada da tripulação de A Nova Geração. É proibido que duas tripulações gostem do mesmo jogo? De novo, não exatamente. Mas ao repetir a ideia, a série a barateia para os dois lados – aqui tem significado menor, e lá vira “mais uma tripulação fissurada em pôquer”. É uma inclusão que faz pouco pelo episódio, mas deixa os fãs com um certo gosto de guarda-chuva na boca. Remete também a outras “roubartilhadas” que Strange New Worlds praticou com A Nova Geração antes, como o desfecho de “The Best of Both Worlds, Part II” (reprisado em “Hegemony, Part II”) e a jornada de Pike em “New Life and New Civilizations” (confessamente inspirada em “The Inner Light”).

Aqui eles conseguem ter uma história que lança para a periferia os dois capitães, Pike e Kirk, sem dar a Anson Mount ou Paul Wesley material relevante com que trabalhar. Em termos de atuações, o destaque maior fica para Celia Rose Gooding, que faz um espetacular trabalho refletindo as duas Uhuras, separadas por apenas um ano, mas muito diferentes em termos de autoconfiança e postura.

Peculiar também a escolha de dar um relacionamento amoroso entre Uhura e Scotty. É algo que já havia sido de algum modo apresentado em Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira, mas que mesmo lá nunca fez muito sentido para a maioria dos fãs (o celebrado escritor Peter David, ao adaptar o filme para os quadrinhos na época, incluiu informações adicionais para tentar explicar o comportamento anormal dos dois). Aqui, a coisa aparece como uma tendência a bordo da Enterprise em Strange New Worlds – interesses românticos são praticamente a base da série, o que chega em alguns momentos a desvirtuá-la.

Nem todas as referências e easter eggs são ruins, contudo. Charmosíssimas as duas aparições, do tipo “piscou e perdeu”, de um aureliano e de uma caitiana no hangar da Enterprise de Kirk, remetendo a dois personagens vistos na Série Animada (o historiador Aleek-Om, do clássico “Yesteryear” e a oficial de comunicação M’Ress, que aparece em boa parte dos episódios). Mas nem chegam a ser elementos da trama. Estão lá só pelo prazer visual dos fãs. E nisso agradam.

Quanto à ficção científica em si, quanto mais se tenta entender, menos se entende. Buracos negros são objetos astrofísicos reais cuja gravidade é tão grande que nada consegue escapar deles, nem mesmo a luz (e com isso ondas de rádio). Já buracos brancos são hipotéticos, e seriam objetos em que nada pode entrar. São, de certo modo, o inverso um do outro, olhando do ponto de vista das equações da relatividade. Mas, em ambos os casos, a troca de informação entre exterior e interior é problemática – menos aqui, em que ela acontece ao sabor das necessidades da trama.

Igualmente estranha e mal explicada é a coisa do bebê espacial e do parto. Mas não há como negar que, na força do “porque sim”, esses elementos levam a história para onde precisava ir para Uhura ter as lições que deveria aprender. E tudo isso é regado a um espetáculo visual admirável. Mas não deixa de produzir um certo vazio lógico.

No fim das contas, o que mais perturba neste final de temporada é que ele reforça, mais uma vez, a obsessão que os produtores têm de ancorar sua série não como prequela da Clássica, mas como virtual refação dela. Estão os gorns por aí que não deixam mentir.

Aqui temos mais um caso em que uma premissa oculta vem primeiro que a premissa aparente. A missão era, principalmente, ter uma história parcialmente ambientada na Enterprise sob o comando de Kirk. O resto – Uhura como veículo, a mensagem de valorização do presente – veio a reboque, como premissa aparente que viabiliza a oculta. Não por acaso, a mensagem soa um pouco falsa. Temos de valorizar o presente, embora numa trama temporal que entrelaça passado e futuro, e temos de reconhecer o quanto Uhura evoluiu e amadureceu, embora apenas um ano separe as duas versões dela.

É verdade que, na era do streaming, raras vezes as produções têm convicção de que serão renovadas ano após ano, o que obriga cada episódio final de temporada a ter algo de fim de série – o que, no caso de Strange New Worlds, implica uma aproximação com a Série Clássica, já que é lá que ela vai desaguar. Mas é irônico ver um episódio final que valoriza o presente em uma série que está a todo momento se projetando para o futuro, em vez de aceitar seu lugar natural na cronologia da saga.

Avaliação

Citações

“Time travel is heartbreaking. The only day we have is today.”
(Viagem no tempo é de partir o coração. O único dia que temos é o de hoje.)
La’An Noonien-Singh

Trivia

  • Robbie Thompson é roteirista de TV e quadrinhos, egresso da série Supernatural. Ele se juntou a Strange New Worlds na quarta temporada e este é seu segundo episódio, depois de “The Griffin Incident”. Henry Alonso Myers é co-showrunner da série desde sua primeira temporada e este é seu décimo episódio como escritor.
  • O diretor Chris Fisher é o diretor produtor da série e foi escalado aqui para dirigir o episódio depois que o plano original para o final da quarta temporada, um segmento a ser dirigido por Akiva Goldsman, não se materializou.
  • Brian Markinson retorna como o doutor Philip Boyce, depois de sua aparição em “Off-Hour”. Aqui é dito que ele está servindo ao lado de Leonard McCoy, que é mencionado, mas não visto.
  • James Kirk menciona seu amigo Gary Mitchell, que, descobrimos, é irmão de criação de Jenna Mitchell, que normalmente ocupa a função de navegadora na Enterprise de Pike.
  • Nas cenas do futuro, Uhura e Chapel usam uniformes e penteados que remetem a seu visual na Série Clássica. Uhura tem até seus brincos verdes de argolas.
  • Embora os segmentos do episódio sejam separados por um ano, apenas três unidades de data estelar separam os diários de Uhura nas duas épocas.
  • No universo alternativo do futuro, a tripulação da Enterprise joga pôquer semanalmente – algo que acontecia no século 24 a bordo da Enterprise-D, comandada por Jean-Luc Picard, em A Nova Geração.
  • Várias espécies da Série Animada fazem rápidas aparições neste episódio, dentre eles um aureliano, uma caitiana (possivelmente M’Ress) e um membro da espécie de Sord (reptiliano que apareceu em “The Jihad”). Também vemos um boliano e um tellarita.

Ficha Técnica

Escrito por Henry Alonso Myers & Robbie Thompson
Dirigido por Chris Fisher

Exibido em 24 de setembro de 2026

Título em português: “A Enterprise de Amanhã”

Elenco

Anson Mount como Christopher Pike
Ethan Peck como Spock
Jess Bush como Christine Chapel
Christina Chong como La’An Noonien-Singh
Celia Rose Gooding como Nyota Uhura
Melissa Navia como Erica Ortegas
Babs Olusanmokun como Joseph M’Benga
Rebecca Romijn como Una Chin-Riley

Elenco convidado

Paul Wesley como James T. Kirk
Brian Markinson as Philip Boyce
Alex Kapp como computador da Enterprise

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Edição de Maria Lucia Rácz

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