Episódios de hoje…
“Frame of Mind” (“Demência”; TNG 6×21, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Thaw” (“Medo”; VOY 2×23, 1996)
Onde assistir: Paramount+, PlutoTV*
“Hard Time” (“Reabilitação”; DS9 4×19, 1996)
Onde assistir: Paramount+, PlutoTV*
“Shore Leave” (“A Licença”; TOS 1×15, 1966)
Onde assistir: DVD/Blu-ray* Somente dublado
“Estranho é parte do trabalho”, disse a cafeinada capitã Janeway ao alferes Harry Kim. Talvez isso não seja muito bom para os membros da Frota Estelar mas, para os fãs de Star Trek, é perfeito.
Alguns dos episódios mais marcantes das séries colocam os personagens em uma posição na qual não podem mais confiar nos próprios sentidos. A viagem ao espaço se torna também uma exploração dos limites da mente dos oficiais da Frota e lembram o estilo de The Twilight Zone (Além da Imaginação), série americana da década de 1960 onde o estranho era sempre o prato do dia, bem ao gosto de Janeway.
Em “Frame of Mind” (“Demência”; TNG 6×21, 1993), o comandante Riker está envolvido com a produção de mais uma das peças de teatro da Dra. Crusher. Ele sente que está se aprofundando cada vez mais na psique de seu personagem: um homem perturbado, internado em um hospital psiquiátrico. Daí para a frente, os acontecimentos da peça e da vida real começam a se mesclar, e Riker já não sabe diferenciar ficção e realidade.

Uma pena que a peça Frame of Mind não seja real: seria uma leitura deliciosa!
Este episódio é um dos melhores momentos de Jonathan Frakes na pele do comandante Riker. Sentimos seu desespero e sua insegurança em relação aos próprios sentidos. Em quem confiar?
Aqui se tocam em temas de saúde mental, como a internação compulsória, os tratamentos agressivos e a relação de confiança (ou falta de) entre médicos e pacientes em uma situação de enorme assimetria de poder.
O próprio ofício de ator também está em pauta. Riker expressa desconforto ao acessar o lado mais sombrio de sua personalidade, algo que muitos atores relatam ao interpretar personagens traumatizados, em sofrimento ou mesmo criminosos.
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Já em “The Thaw” (“Medo”; VOY 2×23, 1996), a sensação de desconforto vem de um palhaço sinistro interpretado pelo excelente ator convidado Michael McKean. Quem gosta da série Better Call Saul o conhece como Charles McGill, irmão cheio de manias do advogado picareta.

O palhaço é o centro das atenções em um ambiente aparentemente lúdico habitado pelas mentes de pessoas remanescentes de um planeta que sofreu um desastre climático. Essas pessoas estão em uma espécie de coma quando a tripulação da Voyager chega ao planeta.
Alguns tripulantes se infiltram nesse ambiente mental e encontram o palhaço e mais todo um elenco de figuras circenses, todas comandadas por ele. Os habitantes reais são aterrorizados pelo palhaço, que manipula suas emoções e começa a fazer isso também com os tripulantes da Voyager. Ele explora as inseguranças do alferes Harry Kim e o expõe a situações vexatórias para aumentar o controle sobre sua mente.
A estratégia lembra a do também palhaço assustador nos filmes It (de 1990 na versão feita para a TV e de 2017 e 2019 nas versões para o cinema), baseados na obra de Stephen King. Neles, o monstro com aparência brincalhona explora os medos de crianças para se alimentar delas.
A atuação da capitã Janeway para desarmar o palhaço em “The Thaw” lembra o estilo do capitão Kirk e seus discursos que convenciam até computadores a cometer suicídio.
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Outro episódio que mexe com a percepção da realidade é “Hard Time” (“Reabilitação”; DS9 4×19, 1996).

Todo fã de Deep Space Nine sabe: o chefe O’Brien tem que sofrer. Neste episódio, o pobre engenheiro é submetido a uma espécie de prisão mental por uma raça de alienígenas. Ele é julgado, condenado e punido antes mesmo que os membros da Frota Estelar possam fazer alguma coisa.
A sentença de 20 anos de prisão, no entanto, é cumprida em questão de horas. Mas, do ponto de vista de O’Brien, todos os segundos desses 20 anos foram vividos como se fossem reais. Só que isso ocorreu apenas dentro de sua mente. Ao ser solto e voltar à estação espacial, O’Brien se mostra irritável e começa a ter alucinações que o levam de volta à prisão mental, em especial por conta de um companheiro de cela cuja lembrança o atormenta.
A ajuda psicológica oferecida na estação não é suficiente para o engenheiro, que vai precisar contar com a ajuda de seu melhor amigo da vida real para tirá-lo dessa situação. “Hard Time” é um poderoso episódio que lida com tecnologia aplicada à justiça, estresse pós-traumático e o difícil desafio de ajudar alguém em sofrimento psicológico. Como estender a mão a alguém que recusa qualquer tentativa de aproximação?
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Para terminar, um episódio mais leve: “Shore Leave” (“A Licença”; TOS 1×15, 1966).

Tudo começa aparentemente bem neste episódio escrito por Theodore Sturgeon, já na época um conhecido autor de contos e romances de ficção científica e fantasia. A tripulação da Enterprise precisa de um descanso, e um planeta aparentemente amigável é escolhido para que os oficiais possam esticar as pernas. Mas nesse planeta na região de Omicron Delta os pensamentos se tornam reais: segue então um desfile de personagens saídos de Alice no País das Maravilhas, um samurai, um velho rival de Kirk na escola e outros da imaginação de cada tripulante que coloca os pés no planeta.
Apesar do risco aparente, afinal temos armas e vemos mortes resultantes dos conflitos com os personagens, a confusão entre o real e o imaginário acaba sendo revelada como somente uma forma de entretenimento. O segredo é ter isso em mente e imaginar apenas coisas boas enquanto se está no planeta. Fácil, não?
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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