ESPECIAL 60 ANOS | Febre dos DVDs, fé no coração com Nêmesis e Enterprise, e o fim de uma era

No ano de 2001, junto com a chegada do novo milênio, Star Trek celebrava 35 anos de sua existência. Nos Estados Unidos, a festa havia sido meio melancólica, após o crescimento explosivo visto na década anterior. Neste ano, chegava ao final a jornada de sete anos de Voyager, e a rede de televisão UPN, lançada pela Paramount sobre os ombros da franquia, queria uma nova série para substituí-la. O produtor executivo Rick Berman, contudo, achava que o mais saudável seria ter um hiato, um respiro, para que o público pudesse reabrir seu apetite. Mas nada feito; a rede queria uma nova série, e a forma que Berman, emparceirado com Brannon Braga, havia encontrado para revitalizar a franquia era voltar ao passado. Nascia Enterprise. Ambientada no século 22, praticamente um século antes da Série Clássica, ela, ao menos em princípio, dispensaria conhecimento prévio de Jornada para ser apreciada, já que, como prequela, ela antecedia praticamente tudo que já havia sido mostrado antes. Ornando com essa ideia, os produtores decidiram nem colocar o título Star Trek nela, algo que seria incluído somente na terceira temporada, por pressão do estúdio.

O logo de Enterprise, sem o nome Star Trek, que só seria incorporado ao título na terceira temporada. (Crédito: UPN)

As prequelas, claro, estavam entrando na moda naquela época, com George Lucas realizando os episódios I, II e III de Star Wars (o primeiro deles, A Ameaça Fantasma, chegou aos cinemas em 1999), e parecia ser uma boa estratégia para Star Trek, apesar do ceticismo dos fãs.

Em contraste, no Brasil, o ano de 2001 ainda era de exuberância para a franquia. Várias temporadas inéditas de A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager que passaram anos represadas estavam finalmente sendo exibidas pelo canal a cabo USA Network, que abraçou a marca Jornada nas Estrelas como poucos. Ao mesmo tempo, o mercado de home video nacional ganhava um impulso extraordinário: a chegada dos DVDs. Os Digital Versatile Discs (ou Digital Video Discs) representavam uma evolução fantástica com relação a seus predecessores em fita magnética VHS. Eles eram menores, mais baratos, mais fáceis de fabricar e armazenavam imagens em formato digital, que não sofre degradação como as gravações em fita. Também podiam incluir várias trilhas de áudio e legendas, desobrigando o consumidor de escolher entre dublado ou legendado.

Logomarca do formato DVD. (Crédito: Vexels)

Nos Estados Unidos, os primeiros lançamentos relacionados à franquia começariam em 1998, alternando entre os filmes de cinema e volumes da Série Clássica (40 ao todo, com dois episódios por disco). Contudo, o padrão que se firmaria para séries mais adiante seria o de boxsets com temporadas completas, e seria assim que eles chegariam ao país, a partir de 2001.

A insana coleção em 40 volumes que marcou o primeiro lançamento da Série Clássica em DVD nos EUA. (Crédito: ebay)

Com uma charmosa arte retrô e fotos dos personagens, cada volume trazia dois episódios. (Crédito: ebay)

A CIC Video deixava de existir em 2001, com o fim da parceria entre Paramount e Universal para distribuição em home video. Durante todos os seus anos de atuação, a empresa foi modesta nos lançamentos de Star Trek no Brasil, tendo liberado para locação basicamente os filmes e alguns episódios da Série Clássica e da primeira temporada de A Nova Geração. Na era da venda direta ao consumidor, houve alguns outros lançamentos (dentre eles os pilotos de Deep Space Nine e Voyager, além de segmentos de destaque como “Q Who”, “The Best of Both Worlds”, “Redemption”, “Unification” e “The Way of the Warrior”), mas nada consistente e sistemático.

Isso mudaria com o advento do DVD, e o estúdio de Star Trek passaria a lançar seus produtos nacionalmente sob o selo Paramount Home Entertainment. Em meados de 2001, chegariam os primeiros títulos de Jornada nas Estrelas, os filmes Primeiro Contato e Insurreição, seguidos pelos demais filmes da série, em lançamentos retroativos praticamente mensais, ou seja, com os mais novos chegando primeiro, até a volta completa ao pioneiro Jornada nas Estrelas: O Filme. Eram discos simples, sem muito conteúdo adicional além do filme, mas isso também estava prestes a mudar.

A explosão do mercado de DVD no mundo todo criou novas oportunidades para os estúdios comercializarem seus itens de catálogo, e eles começaram a investir pesado (com retorno idem) em edições especiais de seus filmes. Para o primeiro longa-metragem de Jornada nas Estrelas, a Paramount trouxe de volta ao celebrado diretor Robert Wise para reeditar o filme e concluir efeitos visuais até então incompletos, dando forma final à peça, décadas depois de seu lançamento apressado nos cinemas. Essa Edição do Diretor, com dois discos (um só com conteúdo de bastidores), chegou aos EUA em 2001, e ao Brasil no ano seguinte, seguida por outras Edições do Diretor (de A Ira de Khan e A Terra Desconhecida), além de Edições Especiais para todos os outros filmes, inclusive o último com o elenco de A Nova Geração, Nêmesis, que chegaria aos cinemas em 2002.

O FIM DE UMA ERA NOS FILMES
A demanda por longa-metragens de Jornada nas Estrelas não era mais a mesma. Uma certa overdose da franquia era observada por aqueles tempos, com múltiplas séries, centenas de episódios e filmes de cinema sendo produzidos e lançados de forma simultânea, desgastando uma marca poderosa, mas não inesgotável. O auge nos anos 1990 veio com Primeiro Contato, em 1996, que se consolidou como o filme de maior bilheteria a trazer o elenco comandado por Patrick Stewart como o capitão Jean-Luc Picard. Insurreição, de 1998, teve desempenho modesto, o que fez o estúdio dar uma freada no desenvolvimento de novos longas, de forma que Nêmesis só chegaria em 2002 – e se revelaria um fracasso retumbante de bilheteria. Como diria Bob Dylan, os tempos estavam mudando.

Essa queda brusca de demanda se mostrou de forma ainda mais contundente no Brasil, em que as séries derivadas de Jornada não tinham a mesma tração do programa original. Além disso, a presença cada vez maior dos VHS (com janelas para locação e venda direta) e, depois, dos DVDs (com essas mesmas janelas), somando-se à TV a cabo e ao sistema pay-per-view (em que conteúdos específicos tinham sua exibição comercializada a clientes de TV fechada de forma avulsa), tornaram a distância entre a exibição de um filme no cinema e na TV aberta um abismo gigantesco.

Generations, lançado em 1994 nos cinemas dos Estados Unidos e em 1995 nas salas do Brasil, só chegaria à TV fechada em 1997 e sua primeira exibição em TV aberta, pela Rede Record, aconteceria apenas em 17 de janeiro de 2002, às 21h, após seu lançamento nacional em DVD, em agosto de 2001. Distribuído pela Network, o longa ganhou uma nova dublagem pela empresa irmã VTI-Rio, fazendo deste o primeiro filme de Jornada nas Estrelas a ter duas dublagens (a primeira havia sido feita ainda em 1995 pela Álamo, para o lançamento em VHS pela CIC Video). Nessa segunda, da VTI, o filme é rebatizado Novas Gerações.

Neste mesmo ano, Primeiro Contato, que havia chegado aos cinemas americanos em 1996 e, por aqui, em 1997, também teria sua primeira exibição em TV aberta, mas em outra rede, a Globo, que o traria em destaque (mas sem muita publicidade) na tradicional sessão Tela Quente, em 29 de julho de 2002, a partir das 22h05. De novo, a dublagem era a segunda, feita pela VTI para a distribuidora Network e usando o elenco de vozes da quarta e quinta temporadas de A Nova Geração, então em exibição pelo canal fechado USA. A primeira dublagem deste filme, feita para o VHS em 1998, ficou sob encargo da empresa paulista de dublagem BKS (uma espécie de sucessora espiritual e física da antiga AIC), com Antônio Moreno (Picard), Carlos Campanile (Riker), Cassius Romero (Worf), Affonso Amajones (La Forge), Isaura Gomes (Troi), Arlete Montenegro (Crusher), Eudes Carvalho (Data), Patrícia Scalvi (Rainha Borg) e Eleu Salvador (Zefram Cochrane). Isaura e Eleu, claro, já haviam participado de Star Trek na dublagem clássica da AIC.

Insurreição, que chegou aos cinemas americanos em 1998 e aos brasileiros em fevereiro de 1999, mais uma vez teria uma dublagem para o VHS, feita em 2000 pelo estúdio Álamo, com vozes diferentes. Carlos Campanile (Picard, depois de ter feito Riker no filme anterior), Luiz Antônio Lobue (Riker), João Batista (Worf), Guilherme Lopes (La Forge), Cecilia Lemes (Troi), Marta Volpiani (Crusher) e Marcelo Pissardini (Data). Mas a que chegou ao DVD e depois à primeira exibição na TV aberta  foi a da VTI-Rio, realizada após a gravação da quinta temporada de A Nova Geração, com Jorge Lucas, como Data, em lugar de Duda Ribeiro – troca que, na série, aconteceu naquela temporada. Aliás, é difícil hoje em dia até mesmo saber quando foi essa exibição inaugural em TV aberta. Jornal do Brasil Correio Braziliense publicaram programação da Globo que sugeria que o filme seria exibido na Sessão da Tarde de 23 de julho de 2003. Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo O Globo, contudo, indicam que o longa exibido naquele dia foi Passe de Mágica. Todos, contudo, concordam que Insurreição agraçaria a tela da Globo na sessão Corujão, às 3h15 do dia 7 de junho de 2007. Em 31 de agosto de 2006, quase um ano antes, a aventura de Picard e cia. chegou a ser apontada como potencial atração da sessão Intercine, mas com um adendo na listagem do jornal O Globo: “ou Segura a Onda“. Seja qual foi a data da primeira exibição em TV aberta, se em 2003, 2006 ou 2007, a exibição sem alarde, cheia de incertezas e fora do horário nobre (nada de Tela Quente ou Supercine), tipicamente associada a filmes de catálogo, expunha com clareza o baixo interesse pela franquia entre o público em geral. Os fãs estavam se concentrando todos na TV fechada, onde o mesmo filme havia chegado em 2000, no canal Telecine.

Capa do lançamento de Insurreição em VHS. Note a indicação “Dublado” entre as especificações do filme. Era a versão da Álamo. (Crédito: MercadoLivre)

Em todos os três filmes, seja qual for a versão, o trabalho de dublagem é bom, e os estúdios entregaram ótimas escalações e interpretações. As vozes da VTI, pela bagagem, estão mais assentadas em seus personagens. E o texto da VTI também é melhor, mais fluido e mais alinhado com a terminologia técnica consagrada da série. Curiosamente, nesses três filmes, a dublagem que sobreviveu até hoje, graças aos DVDs, foi a da VTI; as da Álamo e BKS hoje são consideradas raridades de colecionador. Isso, contudo, não se refletiria em Nêmesis.

Lançado em 13 de dezembro de 2002 nos cinemas americanos, o filme chegaria às salas de exibição brasileiras em 14 de fevereiro do ano seguinte – já com a fama de “bomba”, uma vez que a produção, com custo de 93 milhões de dólares, arrecadou apenas 43 milhões nos Estados Unidos. Repare que, àquela altura, a percepção do estúdio era a de que a marca depunha contra o produto. Por isso, pela primeira vez, um filme da franquia não carregou no Brasil (como na maioria dos mercados estrangeiros) o nome Star Trek. Por aqui, o filme se chamou apenas Nêmesis, sem qualquer menção a Jornada nas Estrelas, o que acabou se replicando no lançamento do longa em VHS e DVD (pela primeira vez um filme da saga teria essas duas opções lançadas simultaneamente, ilustrando a transição dos videocassetes para os DVD players). Em sua primeira versão, focada em locação e lançada em agosto de 2003, ele se chamou apenas Nêmesis.

Capa de Nêmesis em VHS, sem qualquer sinal de Jornada nas Estrelas ou Star Trek. (Crédito: MercadoLivre)

Para aquele lançamento em VHS e DVD, foi contratada a dublagem da Álamo, com a Paramount Home Entertainment seguindo a tradição da CIC Video, que preservou as vozes do elenco principal da primeira dublagem de Insurreição, com a adição de Hermes Baroli como Shinzon. Uma redublagem seria encomendada pela Network para distribuição à televisão, e como sempre o trabalho iria para a VTI-Rio, que mais uma vez lançou mão do elenco de vozes já consagrado na série e nos filmes anteriores. Esse material foi usado para exibições nos canais fechados Telecine e Universal Channel (esse último o novo nome do USA Network, adotado a partir de 1º de setembro de 2004), antes de ganhar uma tardia primeira exibição na TV aberta em 12 de janeiro de 2008, na sessão Cine Belas Artes, do SBT, às 22h30. Pelo fato de ter figurado apenas na televisão, e não em produtos de home video, hoje essa é a única dublagem de Star Trek da VTI tida como rara.

Reportagem do Jornal do Brasil de 7 de setembro de 2002 destaca Nêmesis e a estreia de Enterprise no Brasil. (Crédito: Biblioteca Nacional)

A CHEGADA DE ENTERPRISE
Na TV aberta brasileira, como atesta a exibição esparsa dos filmes de cinema, o interesse por Star Trek praticamente havia desaparecido. Tentativas ocasionais de alavancar audiência com alguma das séries ainda ocorriam, mas com pouco sucesso e nenhuma longevidade, como se deu com o Canal 21, emissora local UHF do Grupo Bandeirantes em São Paulo, que tentou emplacar a Série Clássica em 2004, mas logo desistiu.

Em compensação, na TV fechada, Jornada nas Estrelas era o tipo de produto que funcionava bem, com um público fiel e disposto a pagar por sua programação favorita. O USA Network surfava essa onda com sucesso desde 1996, mas em 2002, por ocasião do lançamento de Enterprise, mais um canal fechado entraria nessa briga pela atenção do público. Lançado no Brasil em 1999 e focado em séries policiais e de ação, o canal AXN, do grupo Sony, seria o responsável por trazer ao país – com impressionante velocidade – a então mais recente série da franquia.

Ela estrearia por aqui em 7 de setembro de 2002, sábado, a partir das 21h, com uma novidade para transmissões televisivas de Jornada: em vez de dublagem, os episódios viriam todos legendados.

Logotipo do AXN em 2002. (Crédito: Logopedia)

Era principalmente uma medida de economia, já que o custo de dublar era muito superior ao de meramente incluir legendas. No início de 2002, essa começou a ser uma escolha preferencial de vários canais a cabo. Fox, Sony, Warner, AXN e vários outros começaram a tirar a dublagem de sua programação, sem prévio aviso ou consulta aos assinantes. Séries que estrearam naquele ano como 24 Horas, Alias – Codinome Perigo, Friends, Seinfeld e as animações Rei do Pedaço e Família da Pesada passaram a ser exibidas com legendas. E isso valeu também para novas temporadas de séries que já estavam no ar, como Nova York contra o Crime, Buffy, a Caça Vampiros, Angel, Arquivo-X, Lei e Ordem, SOS Malibu, Plantão Médico e outras.

Após a exibição do piloto de Enterprise, “Broken Bow”, os episódios regulares passaram a figurar na grade do AXN às sextas, às 22h, depois mudando para as 21h, e o canal procurou trazer uma temporada por ano, acompanhando à distância o ritmo americano. Se o primeiro ano lá estreou em setembro de 2001, aqui foi em setembro de 2002; o segundo por aqui, chegaria em 2003; o terceiro, em 2004, e o quarto, em setembro de 2005, já em novo horário, sábados às 17h, com encerramento das exibições no ano seguinte. Uma curiosidade é que, embora a série estivesse sendo produzida e finalizada no formato 16:9 (o das televisões widescreen, hoje comuns), no AXN o programa ia no formato 4:3 (o mais clássico da TV, que imperou em todas as produções anteriores de Jornada), com cortes nas laterais do quadro.

Enquanto o AXN levava Enterprise adiante, o USA Network seguia dedicado às temporadas remanescentes de A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager. A sexta temporada de A Nova Geração, bem como a terceira de Deep Space Nine e de Voyager chegariam ao canal em 2002. Em 2004, já como Universal Channel (antecessor do atual Universal TV), viriam as quartas temporadas de Deep Space Nine e Voyager, com duas adições importantes ao elenco de dublagem: o falecido Paulo Flores é substituído por Ronaldo Júlio como Ben Sisko, e a recém-introduzida Sete de Nove ganharia sua voz brasileira, a de Carla Pompilio.

Ronaldo Júlio, o dublador de Ben Sisko a partir da quarta temporada. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Carla Pompilio, a voz de Sete de Nove. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Em 2005, chegariam as quintas temporadas de ambas as séries, com apenas uma mudança digna de nota: no último episódio do quinto ano de Deep Space Nine o dublador Mauro Horta é substituído por Malta Junior como gul Dukat, mas voltaria ao papel em seguida e o levaria até o final da série, em um trabalho excepcional.

Mauro Horta, dublador de gul Dukat. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)

Em 2006, chegaria a aguardadíssima sétima temporada de A Nova Geração – primeiro e único experimento do canal exibindo episódios inéditos de Star Trek com legendas, em vez de dublagem. O teste não agradou, e as duas temporadas finais de Deep Space Nine e Voyager ganharam vozes brasileiras, com exibição em 2006 e 2007, em ritmo agressivo, com dois episódios de cada série aos sábados.

Em 2008, o Universal Channel encerrava de forma solene, com direito a clipe comemorativo, sua relação com Jornada nas Estrelas, depois de ter trazido ao Brasil, ao longo de 12 anos, nada menos que 20 temporadas inéditas, além das que haviam sido veiculadas anteriormente por outras emissoras.

A cada ano que passava, era uma programação que fazia menos sentido, conforme mais e mais filmes e séries chegavam ao formato de DVD, permitindo que os fãs assistissem a qualquer episódio, fosse dublado ou legendado, quando e como quisessem, apenas colocando um disco para tocar em um aparelho plugado à televisão. A TV linear, como hoje é conhecida (essa ideia de uma programação com horários fixos, em que é preciso sintonizar na hora certa para ver), começava a perder sua razão de ser, substituída de início pelos discos digitais.

O BOMBARDEIO DO DVD
Nos Estados Unidos, a avalanche de lançamentos estava em alta rotação desde 2001, quando a Paramount Home Entertainment de lá terminou o lançamento dos 40 volumes avulsos da Série Clássica e passou a lançar, em 2002, os boxsets de A Nova Geração, seguidos por Deep Space Nine, Voyager, Enterprise e, por fim, a negligenciada Série Animada. Ao fim de 2006, já estava tudo em catálogo, conforme o estúdio se preparava para a transição para mídias de alta definição.

No Brasil, os anos de 2002 a 2005 foram principalmente dedicados à chegada dos filmes ao formato, primeiro em discos simples (indo de trás para a frente), depois em edições especiais duplas (em ordem cronológica, começando com O Filme e terminando com Jornada nas Estrelas: Nêmesis, a essa altura já com o nome completo), encerrando o ciclo em dezembro de 2005.

Lançamentos brasileiros dos filmes de Jornada em DVD: primeiro as edições simples, depois as duplas; apenas os dois primeiros filmes ficaram sem edição simples por aqui, indo direto para a dupla. (Crédito: César Lima)

As séries, consideradas por aqui produtos mais nichados, demorariam mais a engrenar. Em junho de 2005, chegariam de forma praticamente simultânea os boxsets da primeira temporada da Série Clássica e da primeira temporada de Enterprise. A boa notícia é que o seriado clássico veio em classudas embalagens de plástico duro que ficaram conhecidas como “saboneteiras”, mesmo modelo adotado no lançamento americano. A má notícia é que o preço veio bem salgado também, R$ 189,90 – numa época em que o salário mínimo era R$ 300. Quem pôde, comprou. E a Paramount Home Entertainment ficou satisfeita com o resultado, tanto que com rapidez lançou as outras duas temporadas clássicas e as três remanescentes de Enterprise, concluindo essa bateria de lançamentos em janeiro de 2006 – antes mesmo que os últimos episódios da série fossem exibidos na televisão pelo AXN! Era um sintoma claríssimo de que os DVDs estavam mesmo suplantando os canais de TV ao suprir os fãs com seus filmes e séries favoritos.

As belas embalagens importadas que vieram com o primeiro lançamento nacional da Série Clássica, começando pela “saboneteira sabor bananão”. (Crédito: Fernando Penteriche)

O fôlego do formato, contudo, seria limitado, conforme fossem entrando em campo as demais séries da franquia. A Nova Geração teria suas sete temporadas lançadas, começando com a primeira em junho de 2006 (por R$ 144,90) e terminando com a sétima em agosto de 2008 (por R$ 129,90, com uma embalagem mais simplória, usada a partir do terceiro ano). A Série Animada chegaria em dezembro de 2006, com as duas temporadas em um único boxset. Deep Space Nine e Voyager não teriam a mesma sorte; a primeira delas teve apenas os três primeiros anos lançados no Brasil (entre 2007 e 2008), e a segunda apenas os dois primeiros anos (entre 2007 e 2008).

Os DVDs de Enterprise; a quarta temporada chegou em DVD antes de sua exibição completa na TV por aqui. (Crédito: Fernando Penteriche)

A Nova Geração foi lançada por inteiro, mas só os dois primeiros anos vieram caprichados; os demais adotaram embalagens mais simples. (Crédito: Fernando Penteriche)

A Série Animada finalmente volta a estar acessível aos fãs brasileiros com os DVDs; depois de sua exibição original nos anos 1970, ela só voltaria à TV brasileira com o advento do streaming. (Crédito: Fernando Penteriche)

Deep Space Nine teve apenas três temporadas lançadas em DVD no Brasil. (Crédito: Fernando Penteriche)

Voyager menos ainda, só duas. (Crédito: Carlos Amorim)

Se não foi capaz de promover o lançamento completo de todas as séries, esse auge do DVD no Brasil também não foi de se desprezar. Além dos boxsets com temporadas inteiras, a Paramount Home Entertainment (a partir de 2006, CBS Home Entertainment) lançou diversas caixas com coletâneas temáticas de episódios, produtos que vendiam até melhor que os pacotes completistas. Um deles, por sinal, foi feito em parceria com um evento de fãs, que trouxe ao Brasil o ator mais famoso de Jornada nas Estrelas a estar entre nós.

APOGEU E QUEDA DAS CONVENÇÕES
Quando George Takei veio ao Brasil para uma convenção do fã-clube Frota Estelar Brasil, em 1996, um dólar valia um real. A paridade, fruto do sucesso inicial estrondoso do Plano Real, implementado em 1994 após décadas de hiperinflação, permitia sonhar grande, e nada foi maior que a vinda do capitão Sulu ao Brasil. Naquele momento, a carência de episódios inéditos era enorme, e os encontros de fãs eram praticamente a única forma de saciá-los adequadamente.

A Frota poderia ter avançado mais a partir daquele ponto, com um sucesso tão grande, mas divergências internas acabaram sabotando essa possibilidade. Aldo Novak, até então essencialmente o primeiro oficial de Luiz Navarro, decidiu alçar voos próprios, tentando fazer um evento que abarcasse basicamente todo o universo geek, passando por Arquivo-X, Jornada nas Estrelas, Perdidos no Espaço, Millenium, Babylon 5, Star Wars e outras propriedades. Era a Alien Megacon, evento realizado em 28 de junho de 1998 que poderia ser visto como um precursor do que mais tarde viriam a ser as Comic Cons brasileiras, com uma diferença importante: o evento foi mais fiasco que festa.

David Prowse, que fez o Darth Vader na trilogia clássica de Star Wars, sobe ao palco da Alien Megacon, em 1998. (Crédito: César Lima)

Isso porque muitas das atrações prometidas, dentre elas o ator Nicholas Lea, que fazia o agente Krycek em Arquivo-X, não apareceram. Mas um dos que de fato estiveram por lá foi Richard Arnold, que havia sido consultor de Star Trek e assistente pessoal de Gene Roddenberry até sua morte. Mal sabia o americano que essa seria apenas a primeira de muitas viagens ao Brasil. No começo dos anos 2000, ele se tornaria um dos principais contatos da Frota Estelar Brasil com os elencos de Jornada nas Estrelas.

Fãs se reúnem na Alien Megacon em 1998: nesta imagem, temos Cristina Nastasi, Sérgio Figueiredo, Guilherme Briggs e César Lima ao centro. (Foto: César Lima)

Com a avalanche de episódios proporcionada pelo USA Network, os fãs sentiam cada vez menos a necessidade de ir às convenções para ver filmes. Luiz Navarro não tardou a perceber que, para a Frota manter grandeza e relevância, seria preciso voltar a trazer atrações internacionais.

As movimentações para isso começaram em 2001, 35º aniversário de Star Trek. Àquela altura, o dólar já valia três reais, o que tornava tudo mais caro e complicado. O fã-clube então procurou uma parceria com o canal USA, então o maior interessado na promoção de Jornada nas Estrelas no Brasil, e a ideia interessou. Em 1º de junho, o Trek Brasilis noticiava com exclusividade: “USA quer trazer ator de Jornada ao Brasil”. Na reportagem de Salvador Nogueira, a revelação das tratativas e de que o USA tinha uma verba de 10 mil a 12 mil dólares reservada para a ação, que corresponderia ao cachê do ator. Os alvos, indicados pela Frota, eram James Doohan (Scotty) ou Walter Koenig (Chekov).

No dia seguinte, houve uma convenção do fã-clube no auditório Elis Regina, no Anhembi, e, no palco, os organizadores rebateram a publicação de forma nada lisonjeira. Mas era tudo real, e, meses depois, os detalhes viriam à tona. USA e Frota trabalhavam no projeto desde março e haviam fechado acordo com Walter Koenig para vir a uma convenção em 1º de setembro, para marcar os 35 anos da série. Só que o canal precisava fechar seu planejamento detalhado de setembro, o que não aconteceu em tempo de manter o compromisso do ator com a data. Um último esforço ainda foi feito para substituí-lo por Majel Barrett (Christine Chapel, Lwaxana Troi e a voz do computador da Enterprise), mas ela só tinha data em 1º de dezembro, e para aquela ocasião o USA não poderia usar a verba disponível, pois ela era destinada à promoção do canal para o mês de setembro. No final das contas, para a convenção de 1º de setembro, veio apenas Richard Arnold – o contato da Frota com Koenig e Barrett.

Trocando em miúdos, miou a vinda de um ator em 2001. Em 31 de agosto daquele ano, o Trek Brasilis trazia todos esses detalhes de bastidores, e com eles uma declaração de Luiz Navarro de que a Frota tentaria promover a vinda de alguma atração internacional no ano seguinte, com recursos próprios. “Estamos pensando em algo na linha do ‘ou vai ou racha’”, disse. 

De fato, foi e rachou. O clube decidiu promover a pré-venda dos ingressos de uma convenção com Walter Koenig mirando sua vinda para 9 de março de 2002. As dificuldades com o câmbio forçaram o clube a tabelar o preço em dólar, o que tornou a adesão dos fãs ainda mais complexa. Com a arrecadação abaixo da necessária para arcar com os custos, a Frota decidiu “empurrar” a vinda do ator para junho, realizando em 9 de março uma convenção tradicional, sem atrações internacionais. Mas, enfim, em plena Copa do Mundo do Japão e Coreia (que seria conquistada pelo Brasil naquele ano), Walter Koenig desembarca no Brasil. Um dia antes da convenção, a ser realizada em 15 de junho, ele concedeu uma entrevista coletiva no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, e declarou: “Espero me divertir muito no sábado. Eu tenho poucas experiências de convenção que não foram positivas, que não foram cheias de alegria. O entusiasmo dos fãs nunca cansa de me impressionar, e acho tão acalentador.”

Walter Koenig no palco do auditório Elis Regina, no Anhembi, em 2002. (Crédito: Miguel Nascimento)

A Paramount Home Entertainment aproveitou o embalo e usou o evento para promover o lançamento da Edição do Diretor de Jornada nas Estrelas: O Filme, e a Convenção do Capitão Chekov (nome dado ao evento, embora ele só tenha chegado a comandante, ao menos até onde o vimos em tela, com a última aparição em Generations) foi realizada com sucesso, sob o comando de Luiz Navarro e Christiano Nunes – jornalista que havia alcançado protagonismo como vice-presidente da Frota após a saída de Novak e se tornado figura fundamental na organização dos eventos do clube.

O momento apoteótico do evento se deu às 13h20, quando Walter Koenig subiu ao palco vestindo uma camisa da Seleção Brasileira e, sob intensos aplausos, declarou: “É um grande prazer estar aqui, pela primeira vez no Brasil e na América do Sul.” A Frota Estelar Brasil havia conseguido, mais uma vez, o que parecia impossível.

Contudo, a um alto custo. O auditório Elis Regina, com capacidade para 800 pessoas, estava a meia bomba, no que foi o único evento da história da Frota Estelar Brasil a fechar no prejuízo. Os tempos haviam mudado, os fã-clubes estavam fechando, quando não definhando, e mesmo o maior deles parecia ter um teto cada vez mais baixo. E tudo ficaria ainda mais dramático dali a um mês com a morte de Christiano Nunes, em 18 de julho de 2002, após complicações de uma cirurgia bariátrica. Ele tinha 35 anos.

Koenig posa com o staff da Frota Estelar Brasil no Anhembi. (Crédito: Miguel Nascimento)

Só um milagre poderia salvar a Frota de um fim melancólico. E ele veio. Mas, antes, teríamos uma inesperada visita, com a (segunda) vinda da atriz Denise Crosby ao Brasil.

TREKKIES
Parecia a sina dos membros do elenco de A Nova Geração passarem pelo Brasil meio escondidos. Havia acontecido com Brent Spiner (Data) em 1995, com o lançamento de Generations, e aconteceu de novo com Denise Crosby (Tasha Yar), que esteve em solo brasileiro em 1997 participando da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com seu documentário Trekkies – uma exploração do fandom de Star Trek nos Estados Unidos e no Canadá e dos extremos a que seus membros podem chegar, num retrato por vezes não muito simpático (embora verdadeiro) desse público.

Por conta dessas escolhas controversas, não houve muito entusiasmo com a produção, e poucos fãs apareceram para ver o filme dela no CineSESC, na rua Augusta, durante a mostra. Um dos que apareceram foi Ralfo Furtado, jornalista, dono da loja de produtos nerds USS e capitão da USS Brazil, “nave” local da International Federation of Trekkers. Desse contato uma boa relação se estabeleceu e, em 2003, quando Crosby decidiu rodar o documentário Trekkies 2, dessa vez voltado ao fandom internacional, ela entrou em contato com Furtado, para conduzir gravações no Brasil.

Com isso, Crosby voltou a São Paulo na última semana de junho daquele ano e participou de um Trek Dia Feliz, encontro de fãs promovido regularmente pela USS Brazil (aquele já era o trigésimo primeiro) no auditório do Sindicato dos Jornalistas. Aconteceu no dia 28 de junho, e foi uma reunião numa escala muito mais modesta que as convenções da Frota, mas marcou a primeira vez que uma atriz ligada a Star Trek participou de uma reunião de fãs.

Ralfo Furtado com Denise Crosby no Trek Dia Feliz 31, em 2003. (Crédito: USS Brazil)

“Denise respondeu perguntas da plateia, tirou fotos com todo  mundo que pediu, não recusou um único autógrafo, comeu de bandejão no  restaurante por quilo junto com todo mundo, comprou ervas e produtos  naturais na praça da Sé, quis comer comida mineira e beber muitas caipirinhas (coisa que não pôde fazer em 1997, quando estava grávida), adorou pão de queijo, gastou muita grana em artesanato no Embu, andou a pé pela praça da República, avenida Ipiranga, jantou no Bar Brahma, famosa esquina das avenidas São João e Ipiranga, presente na letra da música de Caetano Veloso, do qual ela é fã, ela adora bossa-nova, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, ganhou muitos presentes de todo mundo, em todas as casas de trekkers que visitou, entrevistando para o documentário, foi certa noite numa casa de  samba, quis comer comida japonesa no bairro da Liberdade, revelou intimidades depois de uma rodada de saquê, fez também uma rápida aparição na JediCon, onde tirou mais fotos e deu autógrafos, se emocionou na despedida no aeroporto e em várias outras ocasiões, gostou de nós e nós gostamos dela. Ela é legal demais”, contou Furtado no site da USS Brazil, dizendo que Crosby gostaria de voltar em breve – o que nunca aconteceu.

Crosby posa com os fãs no Trek Dia Feliz, em 2003. (Crédito: USS Brazil)

E aí voltamos ao milagre que ofereceu uma última dança à Frota Estelar Brasil.

LINHA DIRETA COM VULCANO
No primeiro semestre de 2003, toca o telefone na casa de Luiz Navarro. Do outro lado da linha, há alguém que diz ser a secretária de ninguém menos que Leonard Nimoy. De início ele imaginou que fosse trote, mas a pessoa disse que o próprio Nimoy gostaria de falar com ele: Spock em pessoa gostaria de vir ao Brasil, e Richard Arnold disse que Navarro poderia ajudar a acontecer.

Leonard Nimoy e Richard Arnold durante sessão de autógrafos na convenção da Frota em 2003. (Crédito: Miguel Nascimento)

Embora ainda chamuscada pelo resultado da convenção com Koenig, era uma chance que a Frota não poderia deixar passar. Um esforço concentrado então foi iniciado para viabilizar o desejo de Nimoy. Navarro informou que só poderia pagar 3 mil dólares de cachê ao ator e diretor, e o jornalista Paulo Gustavo Pereira convenceu a Paramount Home Entertainment a financiar a passagem aérea executiva. Em troca, a empresa promoveria o lançamento dos filmes de Jornada em DVD e lançaria um box numerado de colecionador conectado à vinda de Nimoy. E assim, num contraste forte com todas as dificuldades entre 2001 e 2002 para conseguir trazer alguém dos Estados Unidos para um evento trekker, nasceu a Convenção Capitão Spock (e, sim, nesse caso ele era mesmo capitão, desde Jornada II!).

Leonard Nimoy em convenção da Frota Estelar Brasil em 2003. (Crédito: Miguel Nascimento)

Leonard desembarcaria em São Paulo no dia 22 de outubro, ao lado da esposa Susan Bay, uma secretária e o sempre presente Richard Arnold, faria uma passagem pelo prestigiado talk-show Programa do Jô (atração de Jô Soares na Rede Globo) e receberia o carinho dos fãs em 25 de outubro, sábado, em um evento com casa cheia no Auditório Elis Regina.

Leonard Nimoy é entrevistado por Jô Soares em 2003. (Crédito: Globo)

Antes de partir para o Brasil, contudo, Nimoy concederia uma entrevista que se tornaria motivo de controvérsia. Por telefone, ele falaria por meia hora com o Trek Brasilis, sem que os organizadores do evento soubessem disso. O atrito fez com que Salvador Nogueira fosse barrado da coletiva com o ator e diretor, ilustrando mais uma vez a relação conflituosa entre o principal fã-clube e o principal veículo de imprensa voltado para Jornada nas Estrelas no Brasil. Apesar disso, entrevistado e entrevistador puderam se encontrar na convenção, com uma ajudinha de Richard Arnold, e Nimoy mencionou a entrevista em sua apresentação no palco.

Vida longa e próspera do homem que inventou a saudação vulcana! (Crédito: Miguel Nascimento)

E foi nesse frenesi apoteótico que a jornada da Frota Estelar Brasil chegou ao fim. Após 25 de outubro de 2003, nunca mais ninguém recebeu um boletim, a revista Diário de Bordo parou de circular, não houve outras convenções, nem cobrança de mensalidades. Após 14 anos e mais de 120 eventos, três deles com atores da Série Clássica, a vinda de Nimoy marcava o fim de uma era. Dali a dois anos, Enterprise seria precocemente cancelada nos Estados Unidos, e Star Trek parecia um fenômeno fadado a se recolher às brumas do passado. Mas já havíamos visto esse filme antes.

Continua…

Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.

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