GRANDES JORNADAS | Quatro episódios de Star Trek sobre sonhos (e pesadelos)

Episódios de hoje…
“Birthright, Part I” (“Direito de Nascença, Parte I”; TNG 6×16, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
“Phantasms” (“Fantasmas”; TNG 7×6, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*
“Night Terrors” (“Terrores na Noite”; TNG 4×17, 1991)
Onde assistir: PlutoTV*
“Waking Moments” (“Pesadelos”; VOY 4×13, 1998)
Onde assistir: PlutoTV*

*Somente dublado

Como será que viajar em velocidade de dobra pelo espaço afeta o inconsciente? Imagens incríveis e perturbadoras surgem em episódios de Star Trek que exploram os sonhos e os pesadelos das tripulações, que precisam agir para salvar suas vidas até enquanto inconscientes.

Data nos mostra que androides não sonham só com ovelhas elétricas em “Birthright, Part I” (“Direito de Nascença, Parte I”; TNG 6×16, 1993). O episódio é um crossover de A Nova Geração com Deep Space Nine, no qual a Enterprise atraca na distante estação. O jovem médico da DS9, Julian Bashir, resolve levar para a enfermaria da nave um trambolho encontrado no Quadrante Gama, que ele acredita ser um tipo de aparelho para exames de imagem. Como os computadores da estação são meia-boca, Bashir acha que usar a Enterprise para o teste seria melhor. Data detecta a atividade do médico e sugere levar o aparelho para a engenharia – é sempre engraçado quando a equipe testa invenções desconhecidas bem ao lado do motor de dobra, afinal, segurança em primeiro lugar! 

Durante os testes, o aparelho dispara um raio de energia e atinge Data em cheio. O androide fica desacordado e vê imagens que ele não entende: uma versão humana de si mesmo como um ferreiro: é seu criador, o dr. Noonien Soong. Ele inicia uma investigação para desvendar essa visão. É interessante acompanhar o caminho percorrido por Data nessa busca por significado. Ele começa indagando a Worf, para quem o fato de ele ter visto o próprio “pai” mostra que o comandante deve ir fundo em busca de compreender o que aquilo tudo quer dizer. Aliás, a trama paralela do episódio é uma investigação de Worf sobre a localização de um possível campo de prisioneiros, onde klingons sobreviventes da batalha de Khitomer – seu pai, inclusive –  estariam sob domínio de romulanos. Esse arco continua na sequência, “Birthright, Part II” (“Direito de Nascença, Parte II”; TNG 6×17, 1993).

Ao procurar o capitão Picard, Data demonstra ter pesquisado referências em diversas culturas conhecidas pela Federação que têm dados sobre a interpretação dos sonhos. Mas o capitão se surpreende: por que buscar esse conhecimento por meio de outros povos? Data diz que ele é o único de sua espécie, então ele não teria uma cultura própria. Mas ele é uma “cultura de um só”, diz Picard. Melhor procurar as referências dentro de sua vida e suas experiências em vez de pegar emprestadas as dos outros.  

O dr. Noonien Soong e Data em imagem de sonho do androide em “Birthright, Part I”.

Com a sugestão do capitão, Data resolve fazer pinturas sob a inspiração da visão que ele teve. O curioso é que ele começa a desenhar elementos que realmente havia visto enquanto estava inconsciente. Depois os desenhos são diretamente relacionados ao que ele viu, apesar de não serem uma cópia exata. Por fim, ele cria uma representação de pássaro que não estava nas imagens iniciais, indicando que sua mente está conseguindo ir além do que é mostrado. Então Data decide recriar o acidente para tentar acessar essa visão novamente. 

Ele consegue, e enxerga seu pai martelando uma asa de pássaro como se fosse um metal sendo modelado. Ele olha em volta e identifica vários elementos de seu dia a dia. O dr. Soong diz a Data que está orgulhoso por ele ter conseguido enfim acessar a capacidade de sonhar, dentro dos circuitos de seu cérebro positrônico, embora boa parte das imagens seja por demais literal. Data tenta extrair dele uma explicação para os sonhos. Ainda que o cientista responda que um homem não deve entender tudo o que vê, ele dá uma dica importante: o pássaro é a representação que Data criou para si mesmo ao ganhar as asas do inconsciente. 

***

Depois desse episódio, entende-se que Data passa a “dormir” todas as noites para ativar sua rotina de sonhos. Esse hábito se transforma em um mistério no episódio “Phantasms” (“Fantasmas”; TNG 7×6, 1993), fonte de muitas imagens de memes de A Nova Geração que circulam por aí. 

A Enterprise está recebendo um novo motor de dobra. O engenheiro-chefe Geordi La Forge, Data e a equipe estão ocupados com a nova instalação. Justamente nesse momento agitado, Data começa a ter seus primeiros pesadelos desde que passou a ativar seus sonhos com frequência. A princípio, ele vê operários destruindo um conduíte em um dos corredores da nave. Quando ele chama a atenção dos homens, eles são hostis. Data responde emitindo um som agudo que ele mesmo não parece saber de onde vem, e os homens o desmontam, removendo seus braços com facilidade e, depois, sua cabeça.

O androide conta sobre o pesadelo para todo mundo, tentando entender essa nova experiência. Quem nunca ficou preso a um sonho estranho da noite anterior? Geordi tenta acalmá-lo e a conselheira Troi também, dizendo que imagens sombrias são uma parte normal do inconsciente. Ao dormir de novo, Data entra em outro ambiente. Agora ele está no bar panorâmico Ten Forward e o tenente Worf está comendo um bolo que ele diz ser de peptídeos celulares. Ao ver o bolo, Data percebe que ele é o corpo da conselheira Troi. Enquanto isso, a dra. Crusher aparece tomando um líquido de um canudo fincado na têmpora do comandante Riker. Data pega uma faca para cortar um pedaço da conselheira Troi, que implora que ele não a machuque. Ao acordar, Data percebe que perdeu a hora, algo impensável para um ser artificial. 

A conselheira Troi é um bolo no pesadelo de Data em “Phantasms”.

Quando um computador tem um problema, talvez seja hora de consultar um maior ainda. Data carrega um programa no holodeck com ninguém menos que Sigmund Freud, o criador da psicanálise, para interpretar seus sonhos. Freud, no entanto, tenta analisar Data usando conceitos talvez humanos demais: complexo de Édipo, inadequação sexual… nada parece se aplicar ao que ele está vivendo. 

Enquanto isso, a própria Enterprise está em sérios apuros, já que o motor novo não quer funcionar de jeito nenhum. Em meio aos reparos, Data começa a ter alucinações com as imagens de seu sonho e vê uma espécie de boquinha no pescoço de Geordi. Ele também ouve o toque incessante de telefone que aparece nos sonhos. A conselheira Troi pede que ele passe a fazer sessões de terapia e pare um pouco com o programa de sonhos até que ele consiga absorver melhor essa experiência. Ele concorda, mas acaba tendo outra alucinação e ataca a conselheira, esfaqueando seu ombro. 

Ao examinar Troi, a dra. Crusher percebe um dano celular que não foi causado pelo ataque. Um conveniente escaner interfásico revela um tipo de parasita grudado no ombro da conselheira, exatamente onde Data havia feito o corte. A médica descobre que mais desses bichinhos invisíveis estão grudados em todos na nave, consumindo os peptídeos celulares do corpo dos tripulantes. É preciso descobrir como removê-los antes que eles matem a todos. 

Percebendo a ligação entre o ataque ao ombro de Troi e a presença dos parasitas espaciais, Picard decide entender melhor os sonhos de Data e pede que o cérebro do androide seja conectado ao holodeck. Ali, Picard e Geordi conseguem interagir com as imagens perturbadoras do inconsciente de Data e encontram, enfim, os culpados pelos problemas na nave, representados pelos operários que estavam destruindo o conduíte de plasma já no primeiro sonho. Eles encarnam os parasitas, que estão impedindo que o motor da nave funcione e consumindo as células dos tripulantes. Quando o androide emite um som estridente, os operários desmaiam, dando a chave para como combatê-los na vida real.

A incursão de Data e Geordi no sonho do androide remete à prática do sonho lúcido, uma técnica terapêutica da vida real. Claro que não conseguimos interagir com os sonhos de outras pessoas, mas há quem desenvolva a capacidade de intervir ativamente no próprio sohos, tendo consciência, ainda que dormindo, de que aquilo não é real e tentando alterar o curso dos acontecimentos e entendê-los enquanto acontecem em vez de só depois, já no divã do analista. 

***

Em Voyager, a habilidade do comandante Chakotay em permanecer lúcido em seus sonhos vai salvar o dia em “Waking Moments” (“Pesadelos”; VOY 4×13, 1998). Nesse episódio, a tripulação chefiada por Janeway começa a ter sonhos muito estranhos. Tuvok se vê indo nu até a ponte de comando. O eterno alferes Kim sonha que está beijando Sete de Nove. Já na cabeça do tenente Paris, a nave auxiliar que ele está pilotando explode. Em comum, todos veem um alien desconhecido que parece observá-los.

A equipe se junta para fazer um retrato falado do meliante, enquanto Janeway e o médico discutem o que fazer. Parte dos tripulantes simplesmente não consegue mais acordar, entre eles o alferes Kim. O Doutor não tem uma solução, já que nada parece estar fisicamente errado com eles. O melhor, por ora, é que todos evitem dormir.

Aí é que entra Chakotay. O comandante diz que o treino para atingir o estado de sonho lúcido é comum entre os seus parentes, descendentes de antigos nativos americanos. Ele recita um “A-koo-chee-moya”, costumeiro em seus rituais místicos, e inicia o sonho, antes estabelecendo uma imagem-símbolo para que saiba que está sonhando (a Lua da Terra) e um sinal de três batidinhas nas costas da mão para se despertar. A ideia é tentar fazer contato com o alien que todos haviam visto para entender melhor o fenômeno coletivo que estão vivendo em seus inconscientes. 

O comandante Chakotay caça dentro de seu sonho lúcido em “Waking Moments”.

Ele consegue encontrar o desconhecido, que diz que a Voyager precisa sair imediatamente do espaço de seu povo, senão eles vão colocar a todos para dormir para sempre. A raça desse alien vive permanentemente em sonho, e chama os tripulantes da Voyager de mais uma “espécie acordada”, o que parece ser o motivo da hostilidade. Ele instrui Chakotay a procurar um sistema planetário específico para saírem o quanto antes do espaço deles, e que ao fazer isso todos os que ainda dormem vão acordar. 

O problema é que Chakotay está sendo enganado. Sair do tal espaço dos aliens não vai impedir que eles sigam invadindo o inconsciente dos tripulantes da Voyager. Quando o comandante pensa que está acordando, dando as batidinhas na mão, ele ainda está no sonho induzido pelos inimigos. Chakotay só percebe isso depois que os aliens “entram” na nave, ainda no campo dos sonhos, e o comandante vê a imagem da Lua num console. Então ele se faz acordar novamente (agora para valer) e vai atrás do planeta natal dos aliens. 

Chakotay os encontra, todos dormindo. Como funcionaria uma sociedade em que se interage somente em sonhos? Eles acordam para comer? São muitas perguntas. Mas o comandante não tem tempo para isso. Ele mal para em pé de tanto sono, já que os aliens têm um transmissor que gera uma espécie de frequência narcótica. Chakotay acorda um deles, mas cai dormindo em seguida. Dentro do sonho, o comandante ameaça explodir todo mundo se não libertarem a tripulação da nave desse estado inconsciente. O plano dá certo, mas a equipe da Voyager fica traumatizada: todos agora sofrem com insônia, de tanto medo de terem seus sonhos capturados de novo. 

***

A conselheira Troi também precisa agir dentro de um sonho no episódio “Night Terrors” (“Terrores na Noite”; TNG 4×17, 1991). A Enterprise vai atrás de uma nave que havia ficado à deriva e encontra todos mortos, menos um passageiro betazoide que havia se fechado num armário, mas está catatônico e não consegue explicar o que aconteceu. 

O exame dos corpos revela que todos mataram uns aos outros de forma violenta e sem causa aparente. A Enterprise permanece ali para investigar o mistério e tentar colocar a nave, a Brattain, para funcionar novamente e levá-la a uma base. O clima, já pesado por conta da tragédia sem explicação, acaba piorando porque os tripulantes parecem todos ter perdido a paciência. Pouco a pouco notam-se cada vez mais olheiras roxas e rostos cansados entre os oficiais. A conselheira Troi reclama de frequentes pesadelos, o que faz a dra. Crusher perceber que ninguém tem sonhado mais na nave além da betazoide. 

Segundo a médica, os demais membros da Enterprise não atingem o sono profundo, o chamado sono REM (movimento rápido dos olhos, na sigla em inglês) há dias e, se continuarem assim, vão todos enlouquecer, como teria ocorrido com os tripulantes da Brattain. De fato, a privação dessa etapa de sono causa perda da memória, da capacidade de concentração e até falta de controle emocional. Daí a dizer que milhares de pessoas iriam todas pegar em armas umas contra as outras pode ser um exagero dramático, mas o episódio mostra de forma eficiente a degradação progressiva das faculdades mentais de todos. 

Uma cena arrepiante mostra a dra. Crusher numa sala com os cadáveres dos tripulantes da Brattain, todos cobertos com lençóis. Ela se assusta ao perceber que, de repente, todos se sentaram nas macas, mas tenta manter a calma por saber que aquela visão é efeito da privação de sono. Esse trecho foi lembrado no recente episódio de Strange New Worlds, “The Griffin Incident” (“O Incidente Griffin”; SNW 4×2, 2026), em que Spock alucina que sua ex-noiva, T’Pring, levanta de uma maca dentro de um saco para cadáveres. 

A dra. Crusher alucina com cadáveres em “Night Terrors”.

Para piorar, a Enterprise está presa ao lado da Brattain. Data teoriza que eles estão sendo vítimas de um tipo de fenda espacial que drena a energia da nave. Seria necessário criar uma forte explosão para se livrar do fenômeno. Ao mesmo tempo, eles começam a notar que os sonhos de Troi parecem ser uma tentativa de comunicação, possivelmente de uma nave presa do outro lado da mesma fenda. Essa transmissão está estragando o sono de todos os humanos, mas a conselheira e seu cérebro betazoide estão captando a mensagem: os aliens pedem a liberação de hidrogênio pela Enterprise. O gás, combinado a algum elemento que a outra nave tenha, deve criar uma grande explosão. Resta à conselheira entrar no pesadelo de novo e avisar os aliens que é hora do show. Como ela é treinada nas técnicas do sonho lúcido, Troi cumpre a missão e ambas as naves se soltam. Com isso, enfim, é hora de dormir.

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


Descubra mais sobre Trek Brasilis

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.