Debate explora desafios no futuro de Jornada

Último filme de cinema que fracassou nas bilheterias, série de televisão com audiência abaixo do satisfatório, ausência das tradicionais revistas em quadrinhos nas bancas e até processo por declínio da franquia. Esse é o atual estado de Jornada nas Estrelas nos Estados Unidos. No Brasil, a situação que sempre foi ruim parece pior. Livros da série não são publicados aqui há tempos, DVDs com os episódios das diversas séries parecem que nunca chegarão, canais de tv a cabo como USA e AXN não exibem novas temporadas, isso para não falar que não há nem sequer algum produto nacional licenciado com o nome de Jornada para venda.

Mas, será que Jornada nas Estrelas está chegando ao fim? Há como descer ainda mais? Ou, na verdade, a série não está tão mal assim? Pensando nestas dúvidas que assolam os fãs, o Trek Brasilis aproveitou sua presença no evento “O Mundo dos Quadrinhos” promovido pelo SENAC de São Paulo nesse último sábado, para promover um debate a respeito do tema. Com a presença de representantes de diversos movimentos de fãs, sejam eles sites de internet como Jornada BBS ou o próprio TB, fã-clubes como Frota Estelar Brasil, Grupo Zona Neutra e IFT ou até lojas especializadas em produtos da franquia, como a USS Brazil.

Ao início do debate, a pergunta levantada pelo mediador Fernando Rodrigues da Silva, co-editor do Trek Brasilis, foi se a culpa pela atual fase por que passa Jornada é da superexposição da série da mídia, com filmes e séries em seqüência ininterrupta, ou o comando da franquia, através da empresas Viacom e sua subsidiária Paramount Pictures é o responsável pelo declínio da marca.

Para Ralfo Furtado, proprietário da loja USS Brazil e membro do IFT – International Federation of Trekkers, sem dúvida o problema vem de cima. “Denise Crosby disse que nem viu ‘Nêmesis’”, conta Ralfo, cicerone da atriz de Tasha Yar em sua visita ao Brasil na semana retrasada. “O problema já começa aí”, brinca ele, que afirma que a UIP, responsável pelo lançamento de filmes de Jornada em nosso país é amadora e lembra a falta de consideração que a Paramount Pictures tem com os fãs da franquia.

“Nos Estados Unidos existe um merchandising muito forte de Jornada, mas no Brasil não há nem uma bola de plástico com a cara da Janeway licenciada”, conta o dono da loja USS. “Eu tenho de importar todos os produtos para minha loja, com exceção dos DVDs da Paramount”. Mesmo assim, de acordo com Ralfo, nem o vendedor dos DVDs parece saber diferenciar Jornada nas Estrelas de Guerra nas Estrelas.

Para Salvador Nogueira, editor do TB, a questão é mercadológica. Segundo ele, o sucesso atrapalha Jornada, que tenta sempre dar saltos mais altos, como pular da TV para o cinema, só que os custos altos vão se acumulando e chega uma hora em que tudo explode. “Ou se gasta mais em contratos de atores, etc, e vai se desgastando a franquia na mídia, ou a Viacom [proprietária da Paramount] dá um tempo para evitar a superexposição da marca e seu declínio, mas terá de arcar com processos como o que a Activision está movendo”, lembra Salvador. A Activision entrou com um processo contra a Viacom alegando que a empresa não pretende mais produzir novos filmes de cinema da série e isso a prejudicará financeiramente, já que a Activision tem um contrato para produzir games de Jornada baseado em novos filmes e séries. Para o editor do TB, os donos da franquia encontram-se em uma encruzilhada que não se resolverá tão cedo, mas o declínio de Jornada não será tão acentuado como se apregoa.

Leandro Martins Pinto, representante do site Jornada BBS, lembrou que não é qualquer franquia do entretenimento que pode passar pelo que Jornada tem passado e ainda assim ser viável. Segundo ele, a série está mesmo em um período difícil, pois pela primeira vez houve um prejuízo considerável graças ao fracasso de “Nêmesis” nas bilheterias. “E nem adianta contabilizar venda de DVDs e materiais do filme, pois isso já entrava na contabilidade da Paramount”, diz Leandro, que acredita agora que o nome da Viacom entrou no problema com maior evidência, alguma providência maior para deter a queda de Jornada será tomada.

Sílvia Reis e Clóvis Furlanetto, representantes do fã-clube Frota Estelar Brasil e Grupo Zona Neutra, preferiram se ater ao que ocorre no fandom nacional para explicar a baixa popularidade de Jornada. Sílvia começou lembrando a péssima recepção que a UIP dá aos fãs de Jornada. A Frota Estelar tenta, desde o filme “Primeiro Contato” fazer pré-estréia quando é lançado algum novo filme de Jornada no cinema, mas esbarra na má-vontade da distribuidora, que além de não dar atenção aos fãs ainda tem o costume de lançar de forma péssima as produções por aqui, em semanas de Carnaval, em pouquíssimas salas e quase sem divulgação na mídia.

A UIP responde pelo lançamento internacional dos filmes da Paramount, e em Portugal e Argentina nem sequer lançou “Nêmesis” nos cinemas. Na opinião de Sílvia, que é assessora de imprensa da Frota junto com Clóvis Furlanetto, a divulgação de Jornada acaba ficando restrita aos fãs, e esse círculo fechado atrapalha o desenvolvimento da franquia.

Clóvis concorda. Para ele a resistência dos responsáveis pela marca de Jornada acaba minando a franquia. Um exemplo que pode ser utilizado é o fato de que o próprio SENAC, através de seu coordenador Gley Fabiano Xavier, não conseguiu autorização para exibir filmes de Jornada no dia do evento e ainda, ao pedir DVDs de Jornada de cortesia para a Paramount, pois pretendia utilizá-los em sorteios, recebeu a resposta de que seria enviado a ele o DVD do filme “O Fantasma”, aquele com Billy Zane.

O assessor de imprensa da Frota Estelar concorda que há má vontade das empresas em divulgar Jornada no Brasil, e disse que o clube pretende capitalizar a vinda de Leonard Nimoy ao país em outubro para mostrar que o fã “não é bobo, nerd ou doido. O fã trabalha, o fã estuda”, ou seja, é um cliente em potencial para empresas que desejarem investir em Jornada. Com um ícone da cultura pop como Nimoy em nosso país, a atenção da mídia se voltará um pouco mais para o universo trekker, e esse é o momento para tentar mudar a mentalidade dos outros a respeito dos fãs de Jornada.

Ralfo Furtado atentou ao fato de que campanhas de cartas e e-mails têm pouco resultado hoje em dia, citando o exemplo o caso da finada série do capitão Sulu, favorita dos fãs norte-americanos, mas preterida pela Paramount em favor de Enterprise, que o estúdio achava mais viável.

A conclusão que se chega ouvindo os membros do fandom nacional que participaram do debate é que Jornada está em mãos erradas. Viacom, Paramount e UIP ainda não sabem ao certo, depois de tantos anos, o que fazer com uma das maiores franquias do entretenimento. Quem sofre com isso são os fãs, que vêm suas séries preferidas gerarem filmes e episódios aquém das expectativas.

O trekker segue sua sina de sofrimento. E o trekker brasileiro, mesmo com a vinda de Leonard Nimoy em outubro, parece que não tem muito que comemorar.


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