TOS 1×15: Shore Leave

“Para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve”

Sinopse

Data estelar: 3025.3

A Enterprise entra em órbita de um planeta similar à Terra, justamente quando sua tripulação está à beira do esgotamento devido à carga de serviço ininterrupto. Um grupo de desembarque, do qual o dr. McCoy e o tenente Sulu fazem parte, vai à superfície para efetuar uma análise do corpo celeste. O planeta aparenta ser agradável e desabitado e é recomendado como local perfeito para que o pessoal da nave possa tirar uma licença e descansar.

Entretanto, coisas estranhas começam a acontecer. Primeiro, McCoy vê um coelho gigante sendo seguido por uma menininha loira, tal qual em Alice no País das Maravilhas. Ele informa sua descoberta a Kirk, que, embora julgue ser apenas um ardil para obrigá-lo a desembarcar junto com o resto da tripulação, resolve descer e averiguar.

Na superfície, McCoy mostra as pegadas de seu coelho gigante ao capitão, que começa a ficar desconfiado, suspendendo as descidas programadas até segunda ordem. Outros fenômenos ou coincidências acontecem. Sulu encontra um antigo revólver em perfeito estado sob uma rocha (além de a tripulação aparentemente se encontrar sob algum tipo de vigilância eletrônica instalada, de origem desconhecida até aquele momento), Kirk encontra Finnegan, um colega dos tempos de academia que vivia lhe pregando peças, a ordenança Barrows (também presente no grupo de descida) é supostamente atacada pelo próprio Don Juan, que lhe rasga o uniforme e Kirk encontra um ex-amor de nome Ruth, isso tudo apesar de todas as pesquisas preliminares informarem não haver formas de vida animal de nenhuma espécie no planeta.

Spock começa a receber leituras do planeta, sinais de que a energia da nave está sendo drenada, e enfrenta problemas nas comunicações. Pouco tempo depois, o vulcano desce à superfície, exatamente quando as comunicações caem de vez, impedindo o contato com o grupo de descida. Ninguém mais pode se transportar para a superfície devido à perda de energia sofrida.

Os eventos estranhos continuam se sucedendo. McCoy e Barrows encontram um vestido na floresta, Rodríguez e Angela (também presentes no grupo de descida) são encurralados por um tigre, Sulu é atacado por um samurai e McCoy é morto por um cavaleiro medieval. Cavaleiro este que. após ser morto por Kirk (usando o revólver achado por Sulu, uma vez que os feisers de mão também não mais funcionavam) e analisado por Spock, descobre-se ser artificial. E Angela e Rodríguez são novamente atacados, só que agora por um caça japonês da II Grande Guerra.

Spock especula que as aparições são provocadas de alguma forma pelos próprios pensamentos do grupo de descida, e, após a repetição de mais alguns incidentes, um homem aparece dizendo ser o guardião do local. Ele explica que todo o planeta é uma espécie de parque de diversões para o seu povo e que, de fato, ele transforma os pensamentos dos visitantes em realidades através dos seus artifícios. Em seguida, McCoy aparece, vivo e bem acompanhado de duas beldades, aparentemente saídas de um cassino de Las Vegas, que deixam Barrows toda enciumada (McCoy e Barrows estavam flertando à vontade desde que desceram à superfície do planeta).

O guardião prefere não identificar sua origem a Kirk, mas, mesmo assim, oferece as boas-vindas à tripulação da Enterprise e as licenças são autorizadas novamente. O capitão acaba decidindo ficar no planeta e aproveitar a licença ao ver novamente a réplica de Ruth.

Comentários

“Shore Leave” é um episódio singular de várias formas, a começar pelo autor da história original, Theodore Sturgeon, na época um já conceituado  escritor de ficção científica, com vasto trabalho publicado. Segundo, por se tratar de um dos raros episódios da série gravados em locação. Infelizmente, nenhuma das duas coisas foi capaz de ajudar a produzir um grande episódio.

Dado um problema de comunicação entre Gene Roddenberry e Gene L. Coon (detalhes no Revisitando) o segmento foi praticamente todo reescrito durante as filmagens, o que provavelmente contribuiu para uma sensação de estranhamento por ele causado numa trama que bem poderia ser considerada a primeira história não creditada de holodeck da franquia.

Embora o conceito do “parque de diversões” seja interessante enquanto proposta, a limitação de orçamento para mostrar um pouco das tais fábricas subterrâneas compromete um pouco da credibilidade do segmento e dificulta o envolvimento do espectador.

Some-se a isso o comportamento discutível dos personagens, mesmo com a desculpa do cansaço. Sulu começa o episódio como botânico e, de repente, começa a disparar a esmo uma arma que aparece na frente dele sabe-se lá de onde, como se fosse um adolescente desgarrado (e irresponsável). McCoy flertando com Barrows sem muita compostura, Kirk saindo no braço com um antigo desafeto e/ou flertando com um amor antigo e, eventualmente, desconectado com a estranha realidade (ou ausência dela) que o cerca, e por aí vai. O episódio tenta navegar entre a leveza descompromissada e o mistério indo e vindo entre essas facetas, mas sem se fixar muito em nenhuma delas, deixando uma sensação de deslocamento.

Enquanto isso, temos uma divertida inserção de diversos elementos incomuns em Jornada, desde a breve passagem por Alice no Pais das Maravilhas e Don Juan, a II Guerra Mundial, samurais, cavaleiros da Idade Média, tigres etc. São elementos tão distantes do que conhecemos do universo da Série Clássica que realmente nos levam a perguntar o que está acontecendo.

De qualquer forma, embora possa parecer estranho que alguém possa se imaginar sendo perseguido por um tigre ou bombardeado, esse conceito não assim tão diferente dos modernos parques de diversão, nos quais os brinquedos mais procurados são justamente os que causam um aumento na taxa de adrenalina das pessoas. Tudo bem que, nesses casos, a brincadeira é combinada antes, mas podemos dar esse crédito a “Shore Leave”.

A atuação enérgica de Bruce Mars como Finnegan, antigo algoz de Kirk, impressionou a todos e é uma das melhores coisas desse segmento. Detalhe para o fato de que, mais uma vez, temos a indicação de que o capitão da Enterprise não era exatamente o rei da simpatia em sua época de academia, algo já insinuado em “Court Martial”. Também em “Where No Man Has Gone Before”, Gary Mitchell diz que o “tenente Kirk” era um instrutor linha dura na academia, e agora é Finnegan (Bruce Mars) que aparece e que também não traz boas lembranças. Não será a última vez que o capitão vai topar com antigos desafetos para sua infelicidade.

Outro acréscimo à tripulação, a ordenança Tonia Barrows (Emily Banks) foi uma personagem inserida para substituir a ordenança Rand (Grace Lee Whitney), que havia sido desligada da série a essa altura. Essa foi a única aparição de Banks, personagem que deve ter deixado saudades em McCoy.

Nos dias de hoje, todos sabemos que McCoy voltaria dos mortos, mas, na época do lançamento, esse deve ser sido um momento de preocupação, visto que DeForest Kelley ainda não era uma das estrelas do seriado. Já uma cena de certo “humor involuntário” que o episódio traz é aquela em que Spock comenta sobre o “cavaleiro medieval”, obviamente um manequim. “Definitivamente não é humano, Jim”. (Sério? Mesmo? Não brinca!)

O segmento passa por cima de algumas pequenas questões, como o fato da Enterprise não procurar um local conhecido (e seguro) para tirar sua merecida folga. Além disso, por que os sensores da Enterprise inicialmente não acharam nada, para em seguida detectarem o complexo fabril no subsolo? Qual a necessidade de drenar força da nave e, o mais simples e óbvio: por que simplesmente não havia alguém esperando para receber os recém-chegados, que não tinham a menor ideia de onde estavam e que estava acontecendo? Esse parque de diversões deve enfrentar alguns problemas com os visitantes de vez em quando.

No frigir dos ovos “Shore Leave”, apesar de em algumas situações parecer meio desgovernado, tem alguns bons momentos de interação e de humor entre Kirk, McCoy e Spock, uma direção dinâmica e interessante, que busca aproveitar o espaço disponível, com algumas cenas de energia que raramente podemos ver nos corredores da Enterprise. Nada disso, porém, consegue construir um episódio que, se não e é ruim, está longe de ser memorável.

Avaliação

Citações

“The more complex the mind, the greater the need for the simplicity of play.”
(Quanto mais complexa a mente, maior a necessidade pela simplicidade do jogo.)
Kirk

“A princess should not be afraid — not with a brave knight to protect her.”
(Uma princesa não deveria ter medo — não com um bravo cavaleiro para protegê-la.)
McCoy

“On my planet, to rest is to rest — to cease using energy. To me, it is quite illogical to run up and down on green grass, using energy, instead of saving it.”
(Em meu planeta, descansar é descansar — parar de gastar energia. Para mim, é muito ilógico correr para cima e para baixo num gramado verde, usando energia, em vez de economizando-a.)
Spock

“I got a personal grudge against that rabbit, Jim!”
(Eu tenho uma rusga pessoal com aquele coelho, Jim!)
McCoy

Trivia

  • Theodore Sturgeon (nascido Edward Hamilton Waldo, em 1918, em Nova York), o criador da história do episódio, recebeu vários prêmios ao longo de sua carreira como escritor (ele foi um dos principais escribas da chamada “era de ouro da ficção científica”), entre eles o International Fantasy Award por seu livro More Than Human (1953) e o Hugo e o Nebula por Slow Sculpture. Para Jornada, ele escreveria também “Amok Time”, da segunda temporada, e “The Joy Machine”, roteiro nunca filmado. The Joy Machine foi comercializado pela Pocket Books em 1996.
  • O episódio foi essencialmente rescrito em locação. É verídica a história de que Gene Roddenberry se sentava calmamente embaixo de uma árvore enquanto refazia o roteiro, o que acaba transparecendo na desconjuntada história filmada. “Esse é o nosso episódio Ilha da Fantasia, relata Leonard Nimoy. “Foi escrito por Theodore Sturgeon, que foi o autor de ‘Amok Time’, um de nossos episódios mais poderosos. Na versão original, Sturgeon havia criado um planeta em que o pensamento se manifestava materialmente simplesmente porque o planeta assim fazia acontecer. Considerando insuficientemente científico, Gene fez uma reescrita de último minuto noite após noite enquanto estávamos filmando. Ele estabeleceu a ideia de que havia um maquinário subterrâneo extremamente complexo que produzia a versão física do pensamento de uma pessoa, tirando-a do reino do metafísico e trazendo-o para o científico.”
  • A ideia original de Sturgeon era anterior a qualquer episódio produzido da série. Numa versão preliminar do roteiro, a pesquisa de Sulu revelava que a composição celular do planeta era uniforme, aparentemente indicando um ambiente artificial. Tal pesquisa determinava também que a área paradisíaca encontrada correspondia apenas a um pequeno “oásis” em um planeta quase todo árido. McCoy também enfrentava um cavaleiro medieval para mostrar à mãe de uma tripulante (que simplesmente “aparecia na hora”) que não havia nada a temer e morre negando a realidade, com Kirk chegando ao som de uma música circense ao local (!). Ainda víamos o corpo sem vida de McCoy ser dragado para o interior do planeta por “garras mecânicas que saíam de alçapões que se abriam na superfície”. Os comunicadores parariam de funcionar porque eles operariam através da força da nave e ela estava começando a perder energia. Em um determinado momento, a Enterprise seria arrastada para a atmosfera do planeta e a luz do dia ficaria visível nas janelas de observação da nave. Kirk, então, se concentraria em descobrir tudo a respeito da situação e o guardião. então. se materializaria em resposta a tal ato. O planeta existiria já por mais de um milênio e seria completamente automatizado. Com um maior número de visitantes do que o seu projeto suportava de cada vez, o complexo do planeta passaria a drenar energia da nave para compensar tal diferencial. É fácil observar uma melhor estrutura do que aquela do roteiro filmado, uma virtual zona.
  • Os produtores ficaram tão impressionados com a performance de Bruce Mars como Finnegan que tentaram mais tarde trazer o personagem “de verdade” para uma participação especial em um episódio. Embora isto não tenha acontecido, Mars retornou para uma breve aparição como um policial em “Assignment: Earth”
  • O “tema de Finnegan”, composto por Gerald Fried para o segmento, foi reaproveitado diversas vezes em outros episódios, notadamente em cenas de alívio cômico. Um claro exemplo é na famosa cena em que Kirk e Spock têm que se livrar de um guarda do passado, no absolutamente clássico episódio “The City on the Edge of Forever”.
  • A tripulante Angela (Barbara Baldavin) é a mesma que perdeu o noivo no episódio “Balance of Terror”. Aqui ela aparece já curada do trauma de sua perda. Na realidade, somente em cima da hora alguém da produção se lembrou que a atriz tinha vivido a personagem Angela Martine em “Balance of Terror” e daí fizeram a conexão. No roteiro a personagem era nomeada originalmente como Mary Teller.
  • O primeiro ano da Série Animada de Jornada nas Estrelas teve uma sequência de “Shore Leave”, chamada “Once Upon a Planet”, que foi ao ar em 3 de novembro de 1973. Nesse episódio a tripulação da Enterprise volta ao planeta, onde as suas fantasias acabam se tornando largamente hostis sem explicação aparente. É descoberto, então, que o guardião já havia morrido e o computador central que controlava todo o complexo planetário começa a se ressentir por ser tratado como uma mera ferramenta. Spock dá um jeito no computador enquanto o resto da tripulação tira novamente uma licença maravilhosa.
  • Parte das locações de “Shore Leave” foram usadas também para gravar os seguintes episódios da Série Clássica: “Arena”, “The Alternative Factor” e “Friday’s Child”. E vale a pena reparar na formação de rochas durante a perseguição entre Kirk e Finnegan. O ex-colega do capitão em certo momento fica exatamente no mesmo lugar em que foi filmada a primeira aparição de Spock em Vulcano no início de “Jornada nas Estrelas IV: A Volta Para Casa”.

Ficha Técnica

História de Theodore Sturgeon
Roteiro de Gene Roddenberry
Dirigido por Robert Sparr

Exibido em 22 de dezembro de 1966

Títulos em português: “A Licensa” (AIC-SP), “A Licensa” (VTI-Rio)

Elenco

William Shatner como James T. Kirk
Leonard Nimoy como Spock
DeForest Kelley como Leonard H. McCoy
George Takei como Hikaru Sulu

Elenco convidado

Emily Banks como ordenança Tonia Barrows
Oliver McGowan como o guardião
Perry Lopez como Rodríguez
Bruce Mars como Finnegan
Barbara Baldavin como Angela
Shirley Bonne como Ruth

Revisitando

Enquete

Edição de Carlos Henrique Santos
Revisão de Nívea Doria

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