ENT 1×25: Shockwave

Reed e Archer no quarto do Daniels

Segmento constrói o caráter do capitão e põe fogo na Guerra Fria Temporal

Sinopse

Data estelar: Desconhecida

A Enterprise obtém permissão para visitar uma colônia de uma raça chamada paraagan. Malcolm Reed recebe todas as instruções para levar uma cápsula auxiliar à superfície sem iniciar a combustão de toda a atmosfera pela alta concentração de tetrazina no ar. Apesar de seguir os procedimentos à risca, uma explosão subitamente ocorre, incendiando a atmosfera. A cápsula auxiliar volta à nave, mas já não há mais qualquer sinal dos 3.600 paraagans que habitavam o planeta –a queima da atmosfera matou a todos.

Archer fica simplesmente desolado, assim como os demais tripulantes. “Nós viemos aqui para conhecer essas pessoas, não matá-las”, ele disse mais tarde ao almirante Forrest pelo subespaço. Reed garante a seu capitão que todos os sistemas da cápsula auxiliar estavam funcionando e que todos os protocolos foram seguidos à risca, mas as leituras da atmosfera indicam que houve um vazamento de plasma da pequena nave, causando a catástrofe.

Shockwave, part I - Enterprise

O capitão reporta os resultados da investigação ao almirante Forrest, que se encarrega de avisar aos paraagans. Mais tarde, é Forrest quem volta a contatar Archer, com más notícias. O Alto Comando Vulcano usou o incidente como argumento contra a missão da Enterprise. Pressionado, o governo terrestre cedeu –a missão está cancelada. Archer deve trazer a nave de volta à Terra, antes se encontrando com uma nave vulcana para despachar T’Pol e Phlox.

Archer comunica a notícia a T’Pol e Trip. O engenheiro fica revoltado e exige uma ação contrária de Archer, mas ele está desolado demais para reagir. Mais tarde, T’Pol também tenta convencer o capitão a defender a missão, dizendo que também intercederia junto ao Alto Comando em favor da Enterprise. Enquanto isso, os outros tripulantes discutem o que será de seu futuro fora da nave. Trip fica irritado com a indiferença de Phlox às más notícias, e Hoshi e Mayweather trocam ideias sobre o que será de suas vidas.

Almirante Forrest

Ainda desolado, Archer resolve ir dormir. Então, algo muito estranho acontece. Ele se vê em seu apartamento em São Francisco, dez meses antes de onde estava e um dia antes do klingon Klaang sofrer seu acidente em Broken Bow. Desorientado, ele se certifica de que está mesmo no passado e encontra Daniels, o misterioso tripulante da Enterprise que havia se revelado uma entidade do futuro e teria sido morto por Silik meses atrás.

Daniels diz que trouxe Archer ao passado para lhe transferir informações importantíssimas. Ele afirma que o acidente com os paraagans não deveria ter acontecido –seria fruto de mais uma intervenção dos sulibans para alterar a história do futuro e impedir a continuidade da missão da Enterprise. Para corroborar suas informações, Daniels revela a Archer como obter comprovação do que ele está dizendo: ele oferece ao capitão as coordenadas de uma nave suliban que conteria um disco de dados provando a sabotagem na cápsula auxiliar.

Daniels em Shockwave

Daniels também instrui Archer em como criar um sistema para contornar a camuflagem das naves sulibans e diz que é possível conseguir todas as plantas da nave em questão por meio de um aparelho que ficou guardado em seu antigo alojamento a bordo da Enterprise. O capitão volta à época atual e convoca uma reunião da tripulação sênior no meio da madrugada. Ele comunica a todos que a Enterprise não foi responsável pelo acidente com os paraagans e pede a Trip que construa o equipamento que permitirá a detecção das naves sulibans. Depois disso, ele vai com Reed até os antigos aposentos de Daniels para coletar as plantas da nave suliban.

Ao encontrar a nave onde Daniels disse que estaria, Archer, Trip e T’Pol usam uma cápsula auxiliar para ir a bordo e recuperar o disco com os dados. A missão é bem-sucedida e Hoshi consegue abrir os arquivos, mostrando todos os passos da sabotagem suliban à cápsula auxiliar, feita na atmosfera do planeta-colônia. Archer volta a contatar o almirante Forrest, dando as boas notícias. Forrest fica satisfeito, mas instrui Archer a permanecer em curso para encontrar a nave vulcana, enquanto ele transmite as novas informações às autoridades.

Reed e Archer no quarto de Daniels

Archer volta a falar com T’Pol sobre sua experiência de viagem no tempo. Embora ela não consiga fornecer uma explicação razoável para o fato de o capitão ter tantas informações sobre a tecnologia, a nave suliban e a sabotagem de antemão, ela se recusa a acreditar na história de Archer. Segundo ela, cientistas vulcanos provaram que viajar no tempo era impossível. Archer fica frustrado por não poder contar com sua oficial de ciências para ajudar a solucionar o mistério.

Enquanto isso, Silik reporta a seu misterioso instrutor no futuro as últimas ocorrências. Ele, por sua vez, ordena o suliban a capturar Archer. Dezenas de naves sulibans partem então atrás da Enterprise. Ao se ver cercado, o capitão até ameaça reagir, mas Reed confirma que será impossível vencer uma batalha naquelas condições. Silik entra em contato e exige que Archer se entregue. Caso ele o faça, a Enterprise será poupada.

Silik e o Future Guy

Sem outra escolha, Archer decide aceitar os termos do suliban. Ele deixa T’Pol no comando e pede para que ela mantenha a mente aberta quanto à possibilidade de viagens temporais. Trip ameaça protestar, mas o capitão pede apenas que ele faça o que puder para ajudar T’Pol e o resto da tripulação. O capitão entra então no turboelevador, pronto para deixar a nave.

Para sua surpresa, entretanto, ele não se vê mais na Enterprise, mas em uma construção totalmente destruída. A bordo da nave, Silik acusa Archer de trapacear e de não se entregar, decidindo por destruir a nave, apesar das alegações de T’Pol de que seu capitão não está mais a bordo.

São Francisco destruída no século 31

De fato, o capitão está em um mundo totalmente desolado. Eis que surge Daniels, dizendo que o trouxe para o século 31. Entretanto, segundo ele, a vinda de Archer mudou toda a história, trazendo destruição e caos para o futuro. O capitão então decide que o melhor seria Daniels devolvê-lo ao século 22, onde ele se entregaria a Silik. Mas Daniels diz que isso não é mais possível: toda a tecnologia que permitiria enviá-lo ao passado já não existe mais, dada a destruição do local. Em um beco sem saída, Archer e Daniels observam uma desoladora paisagem de abandono e de arranha-céus totalmente deteriorados.

Comentários

“Shockwave” junta a fome com a vontade de comer. Além de nos apresentar mais uma aventura ligada à intrigante temática da Guerra Fria Temporal, nos dá pela primeira vez em muito tempo (e talvez desde o piloto “Broken Bow”) uma atuação realmente sólida e consistente do capitão Jonathan Archer.

Todas as incertezas e os erros cometidos pelo capitão ao longo da primeira temporada da série chegam a um clímax aqui: após uma catástrofe aparentemente causada pela Enterprise, 3.600 alienígenas são mortos e a missão da nave da Terra é sumariamente cancelada pelas autoridades. Desolado pela morte injustificável dos colonos e abalado pela sequência de confusões pelas quais sua tripulação passou no último ano, Archer começa a achar que de fato ele não deveria estar ali.

Title Card Shockwave, part I Enterprise

Todo o peso da responsabilidade do capitão desaba sobre ele, e Jonathan sente não só que desapontou sua tripulação e seus superiores na Terra, mas que também se mostrou incompetente para mostrar aos vulcanos que a raça humana estava pronta para ter voz ativa na comunidade galáctica. Incapaz de reagir, ele dá espaço para que T’Pol e Trip mostrem seu valor, reforçando a ideia de unidade que existe entre os três principais personagens da série.

O drama que envolve o capitão é sólido, a caracterização (tanto no roteiro como na atuação de Scott Bakula) é coerente e convincente e as circunstâncias são igualmente bem trabalhadas, mostrando como a tripulação reagiu à catástrofe e ao cancelamento da missão.

Tucker e T'Pol reagem ao fim da missão da Enterprise

Ainda abalada pelo forte teor dramático desse início (prejudicado apenas pela primeira atuação deslocada de Vaughn Armstrong como o almirante Forrest, que parece aqui mais uma mistura de bebê chorão com o paizão de Archer ao conversar com o capitão, em vez de seu oficial superior e o responsável por Archer ter o comando da primeira nave estelar de longo alcance da Terra), a audiência é subitamente mergulhada em uma intensa aventura espaço-temporal, quando Archer é atirado para dez meses no passado e reencontra Daniels, um personagem que todos consideravam morto havia seis meses.

A breve estadia de Archer no passado é interessante e bem-realizada tecnicamente, com direito a cenografia completa do quarto do capitão e uma vista noturna da cidade de São Francisco. De quebra, oferece novos elementos para a continuidade de uma história que, de outro modo, já estava chegando a um beco sem saída.

Janela do apartamento do Archer - São Francisco

Revigorado pela revelação de que a Enterprise não foi culpada pela morte dos alienígenas, Archer vê uma chance de se redimir e de expor a sabotagem suliban, salvando a pele da Enterprise e mostrando mais uma vez que a humanidade estaria pronta para lidar com as mais intrincadas confusões do espaço exterior. O que ninguém para para pensar, mas que é uma grande jogada dos produtores (resta saber se é intencional), é a facilidade com que Daniels consegue manipular Archer para fazer com que ele execute exatamente o que a entidade do futuro gostaria. Dado que em “Cold Front” são os sulibans e Silik que salvam a Enterprise da destruição e que Daniels nada teria feito para evitá-la, começa a se desenhar uma intrigante aventura temporal para Archer e cia, lembrando os bons tempos da mitologia de Arquivo-X. O potencial sem dúvida está plantado.

Apesar da transição clara do drama para a aventura no meio do episódio, ainda há um excelente trabalho acerca dos personagens, com especial atenção para Archer. Uma menção honrosa vai para a cena em que o capitão tenta convencer T’Pol de que viajou no tempo. Fica muito claro para a audiência que Archer respeita as opiniões de sua primeiro oficial vulcana e que ele gostaria de ter alguma credibilidade junto a ela, para que ela possa ajudá-lo a esclarecer todo esse mistério.

Archer e T'Pol

Mas a melhor cena do episódio provavelmente é a em que Archer se vê sem alternativas e decide se entregar a Silik. A atuação de Bakula se sobressai mais do que em qualquer momento da série até aqui. Lentamente, a cada passo pela ponte, sentimos que o capitão Archer está aceitando o fato de que o fim da linha pode ter chegado para ele e que é sua responsabilidade fazer todo o possível –inclusive sacrificando sua vida– para que a Enterprise possa continuar. Naquele momento, chega o verdadeiro teste para Archer– o seu “Kobayashi Maru”, por assim dizer. E, apesar da situação simplesmente remoê-lo por dentro, o capitão é capaz de tomar a decisão certa, abandonando a nave, e de manter o senso de coesão da tripulação, agindo como um verdadeiro líder (seu discurso para T’Pol e Trip até lembrou o registro que o capitão Kirk deixou para Spock e McCoy em “The Tholian Web“, do terceiro ano da Série Clássica). Nota dez para Archer e dez para os roteiristas. A cena é tocante, significativa, bem executada e abrilhantada pela atuação de Bakula, nem exagerada nem sutil demais, em um momento tão difícil e crucial.

Archer indo se entregar ao Silik

Claro, Archer acaba não indo parar na nave de Silik, mas no século 31. E lá temos uma revelação ainda mais bombástica –o futuro foi drasticamente alterado e não há meio de devolvê-lo ao século 22. É o fim da linha para o capitão da primeira nave estelar Enterprise? Enquanto isso, um enfurecido Silik decide destruir a nave de Archer. As naves sulibans miram suas armas todas para o núcleo de dobra da Enterprise. É o fim da primeira missão interestelar humana de longo alcance? Dois aparentes becos sem saída, um no século 31, outro no século 22, não poderiam ser um melhor gancho para um episódio crucial no desenrolar de uma Guerra Fria Temporal.

 

Avaliação

Citações

“This has got to be the first time a Vulcan has ever attempted to cheer up a human.”
(Essa deve ser a primeira vez que um vulcano tentou animar um humano.)
Archer

“If you’re trying to tell me the last ten months was a dream, I’m not buying it.”
(Se você está tentando me dizer que os últimos dez meses foram um sonho, não estou engolindo.)
Archer

“He did –in a manner of speaking.”
“Can’t you ever give a straight answer?”
“It depends on the question.”
(Ele matou –de um certo modo.)
(Você nunca pode dar uma resposta direta?)
(Depende da pergunta.)
Daniels e Archer

“Well, good for the Vulcan Science Directorate.”
(Bem, que bom para o Diretório de Ciência Vulcano.)
Archer

Trivia

  • Segundo relatos, o episódio foi filmado entre os dias 27 de março e 8 de abril de 2001.
  • Todas as cenas foram feitas em estúdio.
  • “O episódio final, com o qual estamos muito felizes, fala da temporada inteira que veio antes dele”, diz o produtor-executivo, cocriador da série e roteirista do episódio Brannon Braga. “O Comando da Frota Estelar e o Alto Comando Vulcano decidem juntos que a missão é um fracasso. Archer, claro, é quebrado pela culpa. E é T’Pol quem diz que ele precisa lutar contra essa decisão e que ela está disposta a lutar com ele. O relacionamento dos dois realmente chega a termo emocionalmente, onde pela primeira vez ela fica ao lado dele como capitão em vez de combatê-lo. O episódio se torna uma luta para salvar a Enterprise e manter a missão, então é bem sentimental e empolgante.”
  • Braga também comentou o conteúdo da Guerra Fria Temporal no episódio. “O episódio lida muito com isso, assim como o primeiro do próximo ano, e você aprenderá muito mais sobre isso.”
  • Depois de três aparições como o comandante de Silik no futuro distante, o ator James Horan está convencido agora de que ele não é da turma “do bem”. “Meio que soa como um cara mau, especialmente do último roteiro que recebi, o episódio final da primeira temporada.”
  • John Fleck (Silik) e James Horan fazem sua terceira aparição na série juntos. A primeira foi em “Broken Bow” e a segunda em “Cold Front”. Vaughn Armstrong faz sua sexta aparição como o almirante Forrest. O ator já acumula 11 papéis em Jornada nas Estrelas. Matt Winston retorna como Daniels, que apareceu uma vez em “Cold Front”. Stephanie Erb interpretou Liva, em “Man of the People”, de A Nova Geração.
  • É a primeira vez na história de Jornada nas Estrelas que a primeira temporada de uma série termina com um cliffhanger explícito (com direito a “to be continued” no fim da temporada).

Ficha Técnica

Escrito por Rick Berman & Brannon Braga
Dirigido por Allan Kroeker

Exibido em 22 de maio de 2002

Título em português: “Onda de Choque”

Elenco

Scott Bakula como Jonathan Archer
Jolene Blalock como T’Pol
John Billingsley como Phlox
Anthony Montgomery como Travis Mayweather
Connor Trinneer como Charlie ‘Trip’ Tucker III
Dominic Keating como Malcolm Reed
Linda Park como Hoshi Sato

Elenco convidado

John Fleck como Silik
Matt Winston como Daniels
Vaughn Armstrong como almirante Forrest
James Horan como figura humanoide
Stephanie Erb como recepcionista
David Lewis Hays como tripulante tático

Enquete

Edição de Mariana Gamberger
Revisão de Susana Alexandria

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