TNG 2×12: The Royale

Um mistério do passado e muitos diálogos (intencionalmente) ruins

Sinopse

Data estelar: 42625.4

A Enterprise investiga destroços de uma nave no planeta Teta VIII e descobre se tratar de pedaços de uma nave terrestre de meados do século 21. O planeta é totalmente inóspito, mas tem um bolsão habitável e uma estrutura construída.

Riker, Data e Worf vão investigar e se veem no que parece ser um hotel da Terra do século 20, chamado Royale. Todas as pessoas nele não registram como humanos e se comportam de maneira pouco natural.

Quando o grupo avançado decide sair, descobre que não consegue deixar o edifício pela porta giratória por onde entraram. Eles detectam sinais de DNA humano e descobrem, num dos quartos, um cadáver de quase 300 anos, pertencente a Stephen Richey, o comandante da nave terrestre Charybdis, lançada pela NASA em 2037 para explorar além do Sistema Solar.

Ao lado dele, um romance chamado Hotel Royale e um diário do astronauta, indicando ter vivido por 38 anos nesse ambiente peculiar, possivelmente criado pelos alienígenas que, de forma inadvertida, contaminaram o resto de sua tripulação e condenaram a missão. Ele acreditava que os seres imaginaram que ele se sentiria confortável ali, uma vez que o livro estava em sua nave.

O grupo avançado nota que todos os eventos do livro estão acontecendo, e Riker tem uma ideia para sair: eles vão personificar investidores estrangeiros que compram o hotel ao final do romance. Jogando dados no cassino, Data quebra a banca e a equipe faz a aquisição, o que permite que eles saiam do prédio e retornem à Enterprise, deixando para trás vários mistérios sobre a malfadada missão Charybdis.

Comentários

“The Royale” tem uma ideia criativa e curiosa, perfeita para um segmento bem-humorado de A Nova Geração – um episódio inteiro baseado no que seria um livro ruim ficcional. Já vimos algumas aventuras na série baseadas em supostos bons romances, como as tramas de Dixon Hill (dentre os quais se destaca “The Big Goodbye”), mas a ideia de basear em um livro ruim dá um sabor trágico a esta comédia.

É duro imaginar o tamanho do castigo de Sísifo pelo qual passou Richey ao viver 38 anos revivendo a mesma história ruim, com os mesmos personagens rasos e diálogos insossos, dia após dia, numa repetição sem fim. Para a audiência, são motivo de diversão. Para ele, a graça deve ter acabado em pouco tempo.

Apesar da premissa bem sacada, a execução deixa a desejar. Enquanto acompanhamos o grupo avançado, e o mistério vai se desenrolando, até que funciona, a despeito da previsibilidade do avanço da trama a partir do ponto em que a situação é revelada, toda de uma vez, com a descoberta do cadáver de Richey. Mas essas cenas são intercaladas com passagens a bordo da Enterprise que parecem mera reprise, ou repetição, do que estamos vendo no planeta, mas narrado, em vez de mostrado. Faltou talvez uma trama B a bordo, ou algum risco para a nave, a fim de tornar essa parte mais interessante.

Acaba que as melhores partes do episódio são de alívio cômico, com Data interagindo com o caubói picareta de olho na mocinha, Worf atendendo o telefone no quarto do hotel e mesmo as sequências puramente Hotel Royale, com o mensageiro do hotel conversando com o concierge sobre Rita e o vilão Mickey D. Os diálogos são propositalmente um poço de clichês, o que acaba reforçado pela trilha inspirada de Ron Jones, que usa a música para enfatizar o sabor “filme ruim de gângster” das cenas.

A Riker cabe o papel do herói, comandando as ações e encontrando a saída para como eles poderiam finalmente deixar o hotel. Os cenários do hotel são naturalmente bem convincentes (não era difícil!) e a entrada, com a porta giratória num fundo escuro, é suficientemente intrigante para nos atrair para o mistério. A chegada do grupo avançado ao planeta, contrastando o fundo preto onde eles estão com a atmosfera furiosa acima, é estranhamente bonita, embora pouco realista.

Podíamos ter passado sem ouvir Geordi dizer que a temperatura ambiente no planeta era de -291 graus Celsius. Não custa lembrar que isso é impossível, uma vez que o zero absoluto, a total ausência de temperatura, se dá a -273 graus Celsius. A idade do planeta, 7,2 x 1010 anos, ou 72 bilhões, é muitas vezes maior que a idade do universo, 13,8 bilhões de anos. La Forge estava muito avoado, supomos.

E é curioso como o diálogo inicial entre Picard e Riker “data” a produção. Eles falam sobre o último teorema de Fermat, indicando que não havia ainda prova matemática dele no século 24. Era verdade em 1989, quando o episódio foi exibido. Mas dali a cinco anos, em 1994, o matemático Andrew Wiles apresentaria uma demonstração formal da veracidade do teorema! As informações ficaram datadas, mas a ideia por trás do diálogo, não; é fascinante pensar que uma descoberta feita no século 17 pode ficar mais de 300 anos “perdida” até que alguém possa reproduzi-la de algum modo. E não foi por falta de procurar.

No fim das contas, “The Royale” vale pelo entretenimento, mas certamente carece de brilho para entrar numa lista de favoritos.

Avaliação

Citações

“Looks like the poor devil died in his sleep.”
“What a terrible way to die.”
(Parece que o pobre diabo morreu dormindo.)
(Que jeito horrível de morrer.)
Riker e Worf

Trivia

  • O escritor Tracy Tormé propôs essa história, originalmente chamada de “The Blue Moon Hotel”, durante a primeira temporada, e foi uma das premissas que lhe valeram um lugar na equipe da série. Apesar disso, o episódio foi produzido apenas no segundo ano.
  • Na versão original, a trama era mais surrealista, misturando muita comédia a uma pitada de sátira sutil. Mas o roteiro acabou fortemente reescrito pelo showrunner Maurice Hurley, que achava a versão original muito similar a “A Piece of the Action”, da Série Clássica. “Havia gângsteres nesse, gângsteres naquele, e ambos baseados em um livro”, disse Hurley.
  • Tormé ficou tão desgostoso com a reescrita que pediu para assinar o episódio com o pseudônimo de Keith Mills. Em razão disso, ele também se afastou da equipe de produção, mantendo apenas um papel de consultor criativo, antes de partir de forma definitiva.
  • Na versão original, tida pelo diretor Cliff Bole como superior, uma projeção do último astronauta era mantida viva no ambiente do hotel para ser entretida pela tripulação da Enterprise. Uma mulher no grupo avançado morreria, e uma imagem dela seria gerada para fazer companhia à imagem do astronauta.
  • A “polêmica” do teorema de Fermat seria reorientada pelo episódio “Facets”, de Deep Space Nine, em que se diz que matemáticos e aspirantes (como Picard aqui) há 800 anos buscam uma prova em linha com as ferramentas matemáticas disponíveis a Pierre de Fermat no século 17. A solução de Andrew Wiles, apresentada em 1994, usaria artifícios mais complexos.
  • A ideia de um ambiente recriado artificialmente para os últimos dias de um astronauta relembra 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick.
  • A cena em que Data percebe que os dados estão viciados e os reajusta para iniciar uma sequência de vitórias já apareceu em um roteiro de Gene Roddenberry: o piloto The Questor Tapes, que girava ao redor de um androide chamado Questor. Muitos consideram o personagem precursor direto de Data.
  • O emblema da missão Charybdis é quase uma cópia exata do usado na missão Apollo 17, de 1972.
  • Cliff Bole lamentou as dificuldades orçamentárias do episódio. “Na minha opinião, foi um segmento meio claustrofóbico, mas acabamos construindo um cenário de Vegas do nada. Isso era minha praia, porque já tinha feito um monte de episódios de Vegas. Construímos o set com algumas cortinas e muitos truques. Richard James, o designer, bolou uns ângulos bem rápidos e toscos, e foi tudo por orçamento. A porta giratória era só uma porta giratória num fundo escuro. Deu pra notar, não?”

Ficha Técnica

Escrito por Keith Mills
Dirigido por Cliff Bole

Exibido em 27 de março de 1989 

Título em português: “Hotel Royale”

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Jonathan Frakes como William Thomas Riker
Brent Spiner como Data
LeVar Burton como Geordi La Forge
Michael Dorn como Worf
Marina Sirtis como Deanna Troi
Wil Wheaton como Wesley Crusher

Elenco convidado

Diana Muldaur como Katherine “Kate” Pulaski
Sam Anderson como gerente assistente
Jill Jacobson como Vanessa
Leo Garcia como mensageiro
Noble Willingham como Texas
Colm Meaney como Miles O’Brien
Gregory Beecroft como Mickey D

Enquete

Edição de Maria Lucia Rácz
Revisão de Susana Alexandria

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