Roteiristas revelam o que poderia ter sido a quinta temporada de Enterprise

Para celebrar o aniversário de 25 anos da série Star Trek: Enterprise, o podcast Trek Talks reuniu um painel especial com alguns dos principais roteiristas da série. Moderado por Diana Keng, participaram o co-criador e produtor executivo Brannon Braga, os roteiristas Mike Sussman e Phyllis Strong, o casal de escritores Judith e Garfield Reeves-Stevens e André Bormanis.

A conversa destacou o processo criativo difícil da série e, principalmente, as histórias que ficaram pelo caminho após o cancelamento precoce na quarta temporada.

“Observer Effect”: a solução econômica de Brannon Braga

Com os orçamentos cada vez mais apertados durante a quarta temporada, a produção enfrentou forte resistência interna para aprovar novos episódios. Garfield Reeves-Stevens relembrou a reação inicial dos executivos: “Não queremos fazer isso, precisamos economizar dinheiro”. Foi então que Brannon Braga apresentou uma solução prática e criativa: “Economizamos dinheiro se os membros regulares do elenco, forem possuídos por algum alienígena. Assim, não precisamos de participações especiais”. Dessa sugestão surgiu o episódio Observer Effect (Efeito do Observador), que utilizou apenas o elenco fixo, exigiu poucos efeitos visuais e incluiu uma discreta referência à Série Clássica ao revelar, no final, que os alienígenas eram os Organianos.

Quando questionados sobre qual episódio eles ainda gostariam de ver produzido se a série continuasse, Brannon Braga foi direto: “Não houve uma única ideia que não tenha sido usada, porque encontrar conceitos novos era como garimpar ouro”. Já os demais participantes revelaram que ainda guardavam ideias ricas em mitologia e cheias de referências à Série Clássica.

Coronel Green

Garfield Reeves-Stevens contou que ele e a esposa, Judith, desenvolveram uma trama em duas partes centrada no retorno do Coronel Green — o vilão clássico de “The Savage Curtain”, da Série Original. A história exploraria temas de vingança contra inimigos antigos e traria uma surpreendente conexão familiar:

Coronel Green (Série Clássica) e versão Coronel Green (Enterprise)

Uma vez, apresentamos a ideia para Manny [Coto], e ele disse: ‘Vamos detalhar’. Colocamos tudo em cartões. Escrevemos um argumento, e tudo girava em torno do retorno do Coronel Green, da Série Clássica. E, então, a decisão foi: ‘Muito parecido com os Augments. Não queremos fazer outro’. Mas o interessante era que o Coronel Green, tendo sobrevivido de alguma forma, iria atrás das pessoas que o prejudicaram no passado e também entraria em contato com os descendentes daqueles que o ajudaram. E descobriríamos que o pai ou avô de (Malcolm) Reed era um dos apoiadores do Coronel Green. Então, entraríamos em uma história pessoal, que seria dividida em duas partes e terminaria com Trip e Reed do lado de fora da Enterprise, prestes a entrar em dobra espacial.

O Coronel Phillip Green foi um personagem surgido na Série Clássica. É citado como um dos líderes mais brutais da história da Terra de Star Trek. Mesmo depois da Terceira Guerra Mundial, ele comandava uma milícia conhecida por sua extrema violência. Seu lema famoso era “Esmagar e devastar” (ou “Overwhelm and devastate”). O destino final de Green permanece desconhecido.

A Rainha Borg

Outra proposta dos Reeves-Stevens envolvia a origem da Rainha Borg. Um episódio sobre os Borg aconteceu na segunda temporada (“Regeneration“), mas havia a intenção de avançar mais na história. O casal imaginava um episódio focado na chefe da área médica da Frota Estelar (que seria interpretada por Alice Krige), mostrando o processo mental de alguém que decide se juntar ao Coletivo.

Alice Krige como rainha Borg

E então, a ideia que achamos realmente intrigante foi ter outra série sobre os Borg, mas com a chefe da área médica da Frota Estelar, que seria interpretada por Alice Krige. Sim, e veríamos alguém escolhendo — ela, claro, acaba se tornando a Rainha Borg — mas veríamos o que se passa na mente de alguém que decide se juntar ao coletivo

Mas Garfield relatou que Manny Coto, produtor da quarta temporada, preferia evitar crossovers excessivos para preservar a identidade própria da série.

Brannon Braga concordou com Garfield, embora considerasse a ideia legal:

Ele tem razão, mas é uma ideia realmente boa e muito tentadora. Porque os Borg são infinitamente fascinantes, e nós só fizemos um episódio que, eu acho, foi escrito por Mike e Phyllis. Mas a ideia de ver Alice Krige de alguma forma antes de ela se tornar a Rainha é fascinante.

A Rainha Borg estreou em Star Trek: First Contact (1996), interpretada por Alice Krige, que se tornou uma das vilãs mais icônicas da franquia. A personagem também foi vivida por Susanna Thompson em Star Trek: Voyager e por Annie Wersching em Star Trek: Picard, mas a performance de Krige continua sendo a mais marcante. A atriz ainda retornou para fazer este papel no episódio final de Voyager e para dublar a Rainha na terceira temporada de Picard. Sua voz também pode ser ouvida no videogame Star Trek: Armada II e na atração Star Trek: The Experience.

A cidade Flutuante

Já André Bormanis apresentou um conceito inspirado em “The Cloud Minders” (Série Clássica), ambientado na cidade flutuante de Stratos ainda em construção, cem anos antes dos eventos da Série Clássica. A história exploraria o início da desigualdade social entre a elite nas nuvens e os mineiros nos túneis.

Lembro-me de ter apresentado uma ideia ao Manny que ele gostou muito. Era baseada no episódio da Série Clássica, ‘The Cloud Minders‘ — a cidade de Stratos, onde todos vivem vidas de lazer enquanto os mineiros trabalham nos túneis. E eu achei que seria interessante ver isso 100 anos antes, quando ainda estava sendo construída e antes da estratificação social, antes dessa crescente desigualdade de renda, ter se enraizado. E o Manny disse que era muito legal, que precisávamos pensar nisso. E ele disse: ‘Essa é uma história para a 5ª temporada’

A Guerra Romulana

Mike Sussman e Brannon Braga confirmaram que Manny Coto já tinha um arco completo planejado para a quinta temporada, que incluiria, entre outros elementos, a Guerra Romulana — evento canônico que a série pretendia abordar.

Mike Sussman: “Não me lembro de nenhum episódio específico que não tenha sido produzido e que me interessasse. Mas, e sei que isso também valia para o Manny, nós esperávamos que, se a série tivesse continuado, tivéssemos abordado a Guerra Romulana, que canonicamente aconteceu.”

Brannon Braga: “Se Manny ainda estivesse vivo e aqui, ele contaria a vocês seu plano para a 5ª temporada. Ele já tinha tudo planejado.”

Estação espacial K-7

Outro ponto destacado pelos Reeves-Stevens foi a estação espacial K-7, famosa no episódio “The Trouble with Tribbles” (Problema com os Pingos), da Série Original. Garfield explicou que eles haviam desenvolvido uma ideia de crossover entre duas séries que consideravam especialmente atraente para uma hipotética sétima temporada de Enterprise. A proposta consistiria em uma última e grandiosa batalha da Guerra Temporal, na qual a tripulação da Enterprise NX-01 retornaria à estação K-7 no exato momento em que as tripulações de Kirk e de Sisko também estivessem presentes — reunindo, assim, os eventos de “The Trouble with Tribbles”, da Série Original, e “Trials and Tribble-ations”, de Deep Space Nine.

Uma história que nunca apresentamos, mas que pensamos a respeito, e agora vemos que é algo bastante comum… Pensamos que, para a sétima temporada, um episódio ideal seria ter uma última batalha da Guerra Temporal, envolvendo a tripulação da Enterprise retornando à estação espacial K-7 enquanto a tripulação de Kirk e a tripulação de Sisko estão lá.

Infelizmente, a quinta temporada de Star Trek: Enterprise nunca chegou a ser produzida. Segundo Brannon Braga, o processo de cancelamento começou ainda durante a quarta temporada, logo após a Paramount ser comprada pela CBS. Com a mudança de direção, todos os executivos que acompanhavam a franquia havia 15 anos foram substituídos por uma nova equipe. Embora a renovação parecesse certa até então, o clima de incerteza se instalou rapidamente. Braga lembra-se de receber a ligação confirmando o cancelamento ainda enquanto a quarta temporada estava em exibição.

Para os roteiristas, o fim não foi uma surpresa total. Judith Reeves-Stevens comentou, com humor, que já desconfiavam que a série estava em dificuldades quando a tradicional “cesta de frutas semanal” parou de chegar às salas dos roteiristas. Braga, por sua vez, confessou entre risos que nem sabia da existência dessa cesta.

As quatro temporadas de Star Trek: Enterprise estão disponíveis no Paramount+.

fonte: TrekMovie

[redes]


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