Episódios de hoje…
“The Andorian Incident” (“O Incidente Andoriano”; ENT 1×7, 2001)
Onde assistir: Paramount+
“Stigma” (“Estigma”; ENT 2×14, 2003)
Onde assistir: Paramount+
“Kir’Shara” (“Kir’Shara”; ENT 4×9, 2004)
Onde assistir: Paramount+
“Sins of the Father” (“Pecados Paternos”; TNG 3×17, 1990)
Onde assistir: PlutoTV*
“The Collaborator” (“O Colaborador”; DS9 2×24, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
“Equilibrium” (“Equilíbrio”; DS9 3×4, 1994)
Onde assistir: PlutoTV*
* Somente dublado
A racionalidade dos vulcanos, a simbiose selecionada dos trills, a espiritualidade dos bajorianos e a honra guerreira dos klingons são características muito bem estabelecidas ao longo das diversas séries de Star Trek. Mas alguns episódios nos revelam um “lado B” desses povos tão admirados e expõem a hipocrisia e as mentiras oficiais que sustentam regimes e reputações.
A série que mais se aventurou pela política do planeta Vulcano foi Enterprise. Por baixo da sua aparente racionalidade absoluta, os vulcanos aprontavam algumas coisas bem erradas, como mostra o episódio “The Andorian Incident” (“O Incidente Andoriano”; ENT 1×7, 2001). Aqui, o capitão Archer estava somente começando sua missão de percorrer os caminhos indicados nos mapas estelares compartilhados pelos vulcanos quando vê um posto avançado de interesse. A subcomandante T’Pol informa que o lugar é, na verdade, um templo vulcano com monges que se dedicam à meditação e praticamente não usam tecnologia. Archer decide dar uma passadinha para conhecer as instalações.
Chegando lá, eles se deparam com um clima estranho, poucos monges, artefatos quebrados… e finalmente são capturados por andorianos, alienígenas azuis “vizinhos” dos vulcanos, liderados pelo comandante Shran – um personagem que voltaria muitas vezes, interpretado pelo versátil Jeffrey Combs. Eles estavam por ali mantendo os habitantes reféns por desconfiarem de que o monastério era usado para espionar Andoria. Segundo os vulcanos, isso seria um absurdo, fruto da mente paranoica dos andorianos.

O capitão Archer é interrogado pelo andoriano Shran em “The Andorian Incident”.
Depois de muita tortura, tiros e brigas, Archer descobre uma estrutura oculta com um mega sensor, capaz de executar uma vigilância completa dos andorianos. Os vulcanos estavam realmente usando o monastério para acobertar suas atividades de inteligência. Archer ganha alguns pontos favoráveis com os andorianos com essa descoberta, e deixa os vulcanos com muita coisa para explicar.
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Em “Stigma” (“Estigma”; ENT 2×14, 2003), o problema revelado na sociedade vulcana é ainda mais profundo. T’Pol está sofrendo com uma doença que, descobre-se, é transmitida através da prática dos “mind melds” (fusões mentais). Se esse ritual parece ser normal e bem aceito no tempo do sr. Spock ou do comandante Tuvok, que fazia fusões na Voyager dia sim, dia não, no século 22 a prática era vista como condenável pela maioria dos vulcanos.

T’Pol, Archer e o dr. Phlox debatem em “Stigma”.
O paralelo todo do episódio com a epidemia de Aids a partir dos anos 1980 é bem claro. A prática de “mind meld” é algo restrito a uma minoria, que está representando os homossexuais da vida real, e um pequeno percentual deles carrega a doença, que seria análoga ao HIV. Claro que nem só os homossexuais contraem o vírus, mas no início dos anos 80 a epidemia se concentrou entre eles e se disseminou na sociedade, até que os atuais tratamentos conseguissem finalmente controlar a doença.
T’Pol havia contraído a chamada síndrome de Pa’nar ao sofrer uma fusão mental forçada no episódio “Fusion” (“Fusão”; ENT 1×17, 2002), quando um grupo de vulcanos “alternativos” entra em contato com a Enterprise. Eles são de um grupo que não suprime as emoções, tentando um equilíbrio delas com a racionalidade. Para eles, o discurso de que as emoções vulcanas são fortes demais para controlar é uma propaganda dos poderosos para manter a sociedade sob controle. Um deles, Tolaris, tenta converter T’Pol incentivando-a a não meditar para controlar as emoções e força a barra com ela para uma fusão mental. Depois desse contato, T’Pol começa a ter sintomas da doença neurodegenerativa e eventualmente recebe o diagnóstico em “Stigma”.
O Alto Comando vulcano acaba sabendo do diagnóstico de T’Pol e ameaça removê-la do posto na Enterprise. O capitão Archer insiste que ela seja ao menos ouvida em audiência antes que isso seja executado.
O fato de a síndrome vulcana ser concentrada entre os praticantes da fusão mental dá margem aos dirigentes do planeta para questionar esse “estilo de vida”. Ao ser interrogada sobre isso, T’Pol esclarece que isso não é uma opção e sim um dom com o qual esses vulcanos nascem. De novo, a comparação com os homossexuais é clara. O preconceito é tão descarado que os cientistas vulcanos nem chegam a se interessar em pesquisar a sério uma cura para a síndrome de Pa’nar. A situação revolta o capitão Archer, afinal, os vulcanos se orgulham de seguir o lema IDIC (Infinita Diversidade em Infinitas Combinações). Mas aqui vemos que o respeito à diversidade fica só da boca para fora.
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A resolução desse caso só acontece bem mais para a frente, em “Kir’shara” (“Kir’shara”; ENT, 4×9, 2004). O episódio faz parte de um arco narrativo que começa com um atentado terrorista em Vulcano, atribuído a um grupo visto como radical no planeta, os “syrranitas”. Seguidores de Syrran, eles têm uma visão pacifista que, depois fica claro, está em contraste com os planos belicistas do Alto Comando vulcano de atacar o planeta dos andorianos. Aquela estrutura de vigilância escondida no monastério já era parte desse plano.

T’Pol recebe uma fusão mental curativa em “Kir’Shara”.
Em “Kir’Shara”, T’Pol descobre que a síndrome de Pa’nar era conhecida há milênios, desde os tempos de Surak, espécie de fundador da filosofia vulcana. A causa da doença não é a fusão mental em si mas sua prática de forma incorreta. A “syrranita” T’Pau realiza a fusão corretamente e cura T’Pol da doença. Mais uma vez fica reforçada a ideia de que todo o preconceito em torno da síndrome é uma mentira propagada pelos governantes para estigmatizar os seguidores de uma corrente de pensamento contrária à deles. A descoberta de um artefato remanescente dos tempos de Surak e sua revelação ao Alto Comando desmantelam essa estrutura de poder. Depois, revela-se que o líder do Alto Comando estava mancomunado com os romulanos. Sim, sempre eles!
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Voltando (ou melhor, avançando) ao século 24, em Deep Space Nine, o episódio “Equilibrium” (“Equilíbrio”; DS9 3×4, 1994) traz revelações incômodas sobre a sociedade dos trills. Esse povo tem como particularidade a junção entre um corpo humanoide e um simbionte parecido com uma grande lesma. O simbionte tem uma vida longa, de centenas de anos, e vai trocando de hospedeiro ao longo do tempo. A primeira aparição dos trills ocorre em A Nova Geração (no episódio “The Host”), mas só em Deep Space Nine entendemos que somente se juntam a um simbionte poucos trills que passam por uma rigorosa seleção, como Jadzia, a oficial de ciências da DS9, que carrega o simbionte Dax.
Neste episódio, Jadzia começa a ter alterações comportamentais e biológicas muito severas que a forçam a voltar ao planeta Trill para se tratar. Ela fica atormentada por uma música que não sai de sua cabeça e tem rompantes de hostilidade. Ela começa a ter pesadelos que, depois entende-se, são memórias residuais de um hospedeiro anterior de Dax. A saúde de Jadzia fica tão frágil que os médicos em Trill já se preparam para remover o simbionte dela, o que causaria sua morte, para implantá-lo em outro hospedeiro. A sorte dela é que o comandante Sisko e sua equipe investigam o caso e descobrem quem era o trill que se juntou a Dax anteriormente.

Jadzia fica obcecada com uma canção em “Equilibrium”.
Mesmo não tendo obtido bons resultados no seu treinamento para receber um simbionte, o músico Joran ficou com Dax implantado por mais de seis meses, o que contraria a versão oficial dos dirigentes de Trill de que somente uma a cada mil pessoas pode receber um simbionte, pois o risco de rejeição seria altíssimo. Na verdade, cerca de metade da população de Trill é capaz de abrigar um simbionte e isso viria à tona se o caso de Joran fosse tornado público. As memórias desse hospedeiro foram bloqueadas em Dax e a única chance de salvar a vida de Jadzia seria reintegrá-las. Com sua costumeira gentileza, o Sisko convence os médicos a realizar o procedimento, ameaçando expor suas mentiras a todos caso se recusassem. Caso resolvido. E a versão oficial seguiu intacta.
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A Nova Geração também tem um caso exemplar de narrativa dos poderosos para manter o “status quo” no episódio “Sins of the Father” (“Pecados Paternos”; TNG 3×17, 1990). Worf descobre ao mesmo tempo que tem um irmão mais novo, Kurn, e que o pai deles está sendo acusado de traição no governo klingon. O caso teria ocorrido em Khitomer, posto avançado dos klingons que foi destruído pelos romulanos, onde Worf perdeu seus pais e acabou sendo adotado por humanos. Kurn era muito novo e não estava com a família em Khitomer, por isso sobreviveu e foi adotado por outra família. Um membro do conselho klingon acusa Mogh, pai de Worf, de ter sido o responsável por fornecer dados aos romulanos para o ataque.
Worf vai a Qo’noS, sede do império, e contesta a acusação, feita pela família rival Duras. Durante um recesso da audiência, Worf é surpreendido por um pedido do chanceler K’mpec para que retirasse sua petição. Por que a maior autoridade dos klingons pediria a alguém para não lutar pela própria honra?
O pessoal da Enterprise começa a investigar o ataque dos romulanos a Khitomer e descobre que, na verdade, foi o pai de Duras, o acusador de Worf, que passou os códigos de defesa para os romulanos, e não Mogh. Então as provas que Duras apresentou ao conselho são falsificadas. O capitão Picard também acha uma testemunha ocular do ataque ainda viva e a leva à audiência. Ao vê-la, K’mpec convoca uma sessão privada onde fica evidente que o julgamento todo do pai de Worf era uma farsa. Os klingons haviam achado as provas contra o pai de Duras havia pouco tempo, e resolveram colocar a culpa em Mogh, já morto, para não bagunçar a política do império. Afinal, a família de Duras é poderosa, e a queda deles em desgraça poderia causar uma guerra civil. Já a família de Worf, que vive fora do império, havia sido dizimada em Khitomer, e eles nem sabiam que havia um irmão dele ainda vivo.

Os klingons dão as costas para Worf em “Sins of the Father”.
Então Worf é obrigado a engolir um sapo gigantesco. O conselho o bane do império –é aquela cena emblemática dos klingons cruzando os braços e dando as costas para Worf. A alternativa era a execução dele e de Kurn, agora que todos sabem que eles são irmãos. Worf convive com a desonra até a ascensão de Gowron (e seus olhos esbugalhados) como novo chanceler, no episódio “Redemption” (“Redenção”; TNG 4×26, 1991).
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Finalmente, temos uma conspiração em Bajor, agora envolvendo a organização religiosa do planeta. Em “The Collaborator”(“O Colaborador”; DS9 2×24, 1994), começamos a história às vésperas da eleição de um novo líder, o chamado kai, entre os sacerdotes bajorianos, os vedeks. O favorito é Bareil, que também é namorado da major Kira, braço-direito do comandante Sisko na Deep Space 9. A temperatura do pleito esquenta com duas presenças na estação: a vedek Winn, maior concorrente de Bareil na eleição e interpretada pela excelente Louise Fletcher, e um ex-colaborador dos invasores cardassianos, o antigo governador Kubus Oak. Por ter contribuído com o domínio dos lagartões em Bajor, Kubus havia sido condenado ao exílio, mas estava ali para pedir licença para viver seus últimos anos de vida na terra natal. Kira não permite, mas ele faz um pedido de asilo à vedek Winn, oferecendo uma informação que vai mudar o resultado da eleição para kai.

O vedek Bareil, a major Kira e a vedek Winn batem um papo tenso em “The Collaborator”.
Anos antes, ainda durante a ocupação de Bajor por Cardássia, um grupo de rebeldes havia sido executado após ter tido sua localização revelada aos cardassianos por um vedek, que depois suicidou. Kubus revela que, na verdade, esse sacerdote estava a serviço de Bareil, informação que muito interessa a Winn para removê-lo da eleição. Kira tenta provar a inocência de Bareil mas não consegue fazê-lo a tempo, e ele acaba retirando sua candidatura para evitar o escândalo. Winn, nossa malvada favorita, é eleita.
Depois de tudo, Kira encontra a evidência mostrando que Bareil estava num retiro e não teria como ter se comunicado com o vedek que passou as informações aos cardassianos. Só então ficamos sabendo que o próprio Bareil plantou a prova contra si mesmo para proteger a imagem da kai anterior, Opaka, que havia sido uma referência para os bajorianos durante os piores anos da ocupação. A antiga líder religiosa havia revelado a localização da célula dos guerrilheiros, onde seu próprio filho estava, para evitar um massacre muito maior, já que os cardassianos planejavam assassinar todos os habitantes da região caso não conseguissem localizar os rebeldes. Bareil prefere se incriminar a manchar a reputação de Opaka, uma figura que unificou os bajorianos. O sacrifício dele conseguiu preservar essa memória, mas deu à agora Kai Winn a liderança religiosa do planeta. Sabemos que ela usaria esse poder para servir à sua própria ambição.
Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.
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