GRANDES JORNADAS | Quatro episódios de Star Trek sobre diferentes pontos de vista

Episódios de hoje…
“A Matter of Perspective” (“Pontos de Vista”; TNG 3×14, 1990))
Onde assistir: PlutoTV*
“Ex Post Facto” (“Ex Pós Facto”; VOY 1×8, 1995)
Onde assistir: PlutoTV*
“Living Witness” (“Testemunha Viva”; VOY, 4×23, 1998)
Onde assistir: PlutoTV*
“Veritas” (“Verdade”; LDS, 1×8, 2020)
Onde assistir: Paramount+

*Somente dublado

É possível conhecer um fato por meio do que conta quem o presenciou? Existe uma verdade ou apenas versões? Em 1950, o cineasta japonês Akira Kurosawa lançou o filme Rashomon explorando essa questão, com a história de um crime contada pelo ponto de vista de cada uma das testemunhas – e até da vítima, por meio de uma médium. Esse artifício narrativo ficou conhecido pelo nome do filme (que está disponível na íntegra no Youtube, com legendas em inglês) e foi muito usado no cinema, na TV e, claro, em Star Trek.

Em “A Matter of Perspective” (“Pontos de Vista”; TNG 3×14, 1990), na Nova Geração, o imbróglio gira em torno de uma morte, e o suspeito é o comandante Riker. Ele e o engenheiro Geordi La Forge haviam passado a noite numa estação espacial-laboratório, avaliando a pesquisa chefiada por um cientista, dr. Apgar, cujos resultados interessam à Frota Estelar. Geordi volta primeiro para a Enterprise e, quando Riker estava sendo transportado, a estação de pesquisa explode.

Somente o dr. Apgar estava presente no momento da explosão, então ele é a única vítima. Sua esposa e a assistente estavam no planeta orbitado pelo laboratório, ainda bem. Claro que uma investigação terá de ser feita, e de fato há um ar de mistério nas atitudes de Riker e Geordi sobre como a missão havia transcorrido até ali. Um investigador do planeta sobe até a nave e informa que, no sistema judicial local, o acusado é culpado até que se prove inocente, e há dois testemunhos contra Riker. O comandante Data e a equipe da Enterprise usam o holodeck para reproduzir o depoimento de cada um dos envolvidos, levando ao efeito Rashomon da história.

Como no filme japonês, há diferenças mais ou menos sutis em como cada testemunha reconta os eventos que culminaram na morte de Apgar, em especial sobre o comportamento da mulher do cientista, Manua. Nas diferentes versões, ela é caracterizada como sedutora, como vítima e, por fim, como uma esposa que tenta dar um empurrão à ascensão social do marido.

O cientista dr. Apgar e sua esposa, Manua, em “A Matter of Perspective”.

Na versão de Riker, Manua se mostra muito receptiva à visita da Frota ao laboratório comandado por seu marido. Apgar estava pedindo mais recursos para a pesquisa, então os dois tripulantes da Enterprise estavam lá para dar uma olhadinha em seu progresso. Para Riker, Apgar reagia de forma hostil à inspeção inesperada. Ainda no depoimento do comandante, a esposa flerta com ele constantemente. Apgar flagra Riker e Manua no quarto em uma situação constrangedora. Para Riker, a mulher estava se insinuando e ele estoicamente recusava todas as investidas. O cientista, ao entrar no quarto, teria atacado a própria mulher e tentado dar um soco no comandante, que desvia. Apgar então diz que vai delatar o comportamento do oficial à Frota.

O investigador revela ali que, pelas análises que eles fizeram do momento em que Riker volta à Enterprise, o comandante deve ter atirado com um feiser em direção ao gerador da base durante o transporte, com o objetivo de explodir o laboratório e Apgar junto.

No depoimento de Manua, a coisa piora bem para o comandante. Para ela, Riker a assedia sem parar, dando pouca atenção ao que o cientista tem a dizer. Manua recorda ter ficado desconfortável com as investidas de Riker. Como já conhecemos o comandante de muitas temporadas, não é estranho ele ser sedutor, mas a visão dela coloca Riker à beira de cometer um abuso sexual. Ele sai da sala de depoimentos e reclama para Troi: por que Manua mentiria daquela forma? Mas, segundo a conselheira, a esposa não estava mentindo: aquelas eram as lembranças dela sobre o que havia ocorrido. Como negar o seu ponto de vista?

No fim, a equipe da Enterprise descobre o verdadeiro culpado: o próprio dr. Apgar tentou usar as ondas geradas pelo seu experimento para matar Riker e fazer parecer um acidente com o transporte. Mas as ondas rebateram no feixe de energia do transporte e voltaram ao gerador, causando a explosão do laboratório.

A versão apresentada pelo capitão Picard usa três estratégias: pinça partes dos depoimentos de cada um, não faz juízo de valor sobre as percepções pessoais das testemunhas e preenche as lacunas factuais com achados científicos. Com isso, a causa da morte é esclarecida e também a motivação do cientista, que vai além dos ciúmes: Apgar temia que Riker já tivesse descoberto suas negociações com planetas inimigos da Federação, que poderiam usar seu experimento para fazer uma arma e remunerá-lo muito melhor que a Frota Estelar, permitindo que ele agradasse à sua mulher. Daí vinha tanta animosidade contra a inspeção de seu laboratório. As questões sobre quem assediou quem e como aconteceu a briga entre Riker e Apgar seguem sendo um mistério, o que deixa o espectador com um gostinho amargo sobre a conduta do comandante em relação à esposa do cientista no fim da história.

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Em Voyager, outro oficial cheio de borogodó acabou enrolado em um suposto crime passional. Desta vez, foi Tom Paris. Em “Ex Post Facto” (“Ex Pós Facto”; VOY 1×8, 1995), o tenente é sumariamente condenado pela morte de um cientista no planeta Banea, onde as pessoas têm penugens de aves na cabeça – um deles lembra uma galinha d’angola. A pena à qual o tenente é submetido é reviver o crime pelo ponto de vista da vítima a cada 14 horas, como um filme passando em sua cabeça.

Nesse episódio, o efeito Rashomon ganha uma nova dimensão, porque a versão do morto é implantada diretamente no cérebro do condenado, que se enxerga pelos olhos da vítima. Paris vê a si mesmo beijando a esposa do dr. Ren, que, ao pegá-los no flagra, ameaça o tenente de contar para a capitã Janeway sobre o que estava ocorrendo e é morto com uma facada. Paris se desespera com essa visão e insiste que as coisas não foram assim, mas os oficiais baneanos explicam que o julgamento já terminou e essas imagens irão se repetir para sempre em sua mente.

As versões do alferes Kim, do próprio tenente Paris e da esposa da vítima são mostradas ao longo da história. De novo, o comportamento da mulher, Lidell, é um ponto focal nas narrativas. Para Kim, ela parece tensa com a presença dele e do colega em sua casa, após terem pedido ajuda ao dr. Ren para consertar uma peça da Voyager que havia sido danificada. Ele lembra de imediato do flerte entre Paris e a mulher. Já para o tenente, Lidell é a sedutora, fazendo confidências a ele sobre seus problemas conjugais enquanto Kim e o físico conversavam sobre assuntos técnicos em outro cômodo. Na vez de a recém-viúva dar seu depoimento, ela enfatiza as lembranças da tarde chuvosa que passou com Paris até seu marido os flagrar e ser morto pelo tenente. Ela fala com tanta frieza sobre a morte do dr. Ren que até impressiona o comandante Tuvok, o mais desapaixonado dos vulcanos, que tenta esclarecer os fatos.

 

A baneana com cabeça de passarinho Lidell, esposa do cientista assassinado em “Ex Post Facto”.

Como o implante de memórias punitivas deixa o tenente Paris inconsciente, Tuvok decide fazer uma fusão mental com ele para investigar melhor o crime. Ele consegue acessar a memória implantada no tenente pelo médico de Banea e nota diversas inconsistências. Há uma sequência de caracteres alienígenas que ficam passando na imagem como uma legenda e nada têm a ver com o crime. Apesar de aquelas lembranças serem supostamente uma cópia exata do que a vítima teria visto antes de morrer, Paris e a mulher aparentam ter a mesma altura, quando na verdade o acusado é bem mais alto do que ela.

Adicionando a isso o fato de que o povo de Numiri, inimigos de Banea, está atacando a Voyager e tenta sequestrar Paris, Tuvok conclui que o assassino é, na verdade, o médico baneano que realizou a transferência de memórias, um espião a serviço dos numiris. Ele havia manipulado as lembranças implantadas em Tom Paris, inserindo dados confidenciais sobre as pesquisas do dr. Ren que interessavam aos numiris e trocando a própria imagem pela do tenente, para parecer que Paris havia dado a facada. Se no episódio de A Nova Geração as lembranças de cada testemunha se contradiziam pela subjetividade de cada uma, aqui a memória deixa de ser confiável por um truque cirúrgico feito pelo médico-espião, deixando bem menos espaço para dúvidas.

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A série animada Lower Decks também brinca com os testemunhos divergentes em “Veritas” (“Verdade”; LDS 1×8, 2020). Nesse caso, em vez de todos os depoentes terem visto exatamente o mesmo fato, cada um esteve presente em um pequeno pedaço da mesma missão, e eles contam os acontecimentos por meio de seus estreitos pontos de vista.

Os quatro jovens alferes (Mariner, Boimler, Tendi e Rutherford) se encontram no que aparenta ser um tribunal, onde são interrogados por um alien mal-encarado. Já os seus chefes, os comandantes da nave Cerritos, estão “congelados”, suspensos em um feixe de luz, como se aguardassem um julgamento. Clar, o alienígena, pede que cada alferes conte os acontecimentos de uma data estelar específica usando o “cone da franqueza”, que só aceita a verdade.

 

A alferes Mariner presta seu depoimento ao lado dos companheiros em “Veritas”.

Do ponto de vista de Mariner, aquele era um dia bem comum que havia sido interrompido por um alerta vermelho na nave. Ela e Boimler correram para a ponte de comando sem saber nada do que estava acontecendo. Mariner, sempre malandra, foi improvisando enquanto a capitão tentava negociar com a nave dos clickets, que haviam lhe dado um mapa da Zona Neutra entre a Federação e o Império Romulano, mas agora estavam bravíssimos porque ela os havia agradecido –gesto ofensivo para os clickets. A falta de informação de Mariner sobre o contexto daquele conflito coloca a capitão em uma situação pior ainda. O relato deixa Clar, que a interroga, perplexo com sua incompetência.

Rutherford, que tem implantes cibernéticos, é o próximo a falar. Ele assegura que tem memória perfeita por conta de seu cérebro computadorizado, mas dá o depoimento mais confuso de todos: durante o dia em questão, ele acabou sendo “atualizado” à revelia o tempo todo, parecendo um PC com Windows enlouquecido. A cada vez em que ele é reiniciado, Rutherford perde a consciência e aparece em outro canto sem saber como havia chegado ali. Ele some da Cerritos e aparece numa nave romulana, depois até num casamento gorn, tudo sem a menor explicação entre os apagões.

Tendi está doida para prestar depoimento, mas diz que, por ser uma missão secreta, ela teria de censurar algumas informações. Mas censurar o quê, se ela não tem a menor ideia do objetivo da missão? Ela só acabou indo junto do comandante Ramson para Romulus porque estava limpando a sala de reuniões e foi confundida com a pessoa que deveria fazer a “limpeza” (a extração dos tripulantes) na missão.

O interrogador se desespera: como é possível que nenhum deles saiba o que foram fazer em Romulus, o que foram buscar ali e por quê? Boimler tenta explicar: eles são subalternos e não ficam sabendo das informações completas, só o mínimo necessário, e confiam que os oficiais mais graduados saibam o que estão fazendo, afinal, se é uma missão da Frota, deve ser para o bem. Clar revela que o julgamento era, na verdade, uma homenagem aos oficiais da Cerritos que o resgataram de Romulus. No fim das contas, essa era a missão que nenhum deles havia entendido.

A defesa apaixonada da Frota feita por Boimler comove a capitão, que promete ser mais transparente com os alferes no futuro, mas já descumpre a promessa assim que eles começam a fazer perguntas. Vão continuar no escuro mesmo, não tem jeito.

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Voltando a Voyager, o Doutor tem uma experiência direta com outro tipo de testemunho: o de fatos históricos. O episódio “Living Witness” (“Testemunha Viva”; VOY 4×23, 1998) é um ensaio sobre como a história é escrita e reinterpretada segundo os interesses de quem a registra e a reproduz. Nos nossos tempos em que as “narrativas” importam mais do que os fatos, a relevância do tema se renova.

A história começa mostrando os tripulantes da Voyager que já conhecemos, só que agindo de forma agressiva e com roupas e cortes de cabelo diferentes dos esperados – até a tatuagem facial do comandante Chakotay acaba sendo turbinada nessa interpretação. Na verdade, estamos vendo um holograma informativo em um museu num planeta distante. A instituição, mantida pelo povo kyriano, mostra a história deles como uma etnia oprimida pelos seus inimigos, os vaskanos, com a ajuda dos comandados pela capitão Janeway. A revelação de que se trata de uma reconstituição lembrando a história mais de 700 anos depois dos fatos nos coloca em uma espécie de museu do holocausto, no qual a visita da Voyager é retratada como causadora de uma destruição tão grande que os habitantes de Kyrian ainda lutam para se recuperar.

Um visitante de Vaskan vê a reprodução e questiona a versão apresentada, mas um historiador do museu, Quarren, defende a apresentação dizendo que ela se baseia nas evidências disponíveis e que recentemente havia sido achado um dispositivo de dados que pode revelar ainda mais. O vaskano rebate naquela linha “não tenho nada contra os kyrianos e tenho até amigos que são…”, frase que costuma preceder discursos preconceituosos. Nesse momento, o episódio nos coloca numa posição difícil: claramente os kyrianos sofreram um genocídio no passado e tentam preservar a história de seu povo, mas como conhecemos os tripulantes da Voyager, sabemos que a narrativa mostrada ali está longe da verdade.

Quarren consegue reativar uma cópia “backup” do Doutor guardada em uma peça recuperada da Voyager. O médico precisa lidar com o fato de que tanto tempo já passou e que, naquele planeta, ele e seus colegas são considerados criminosos de guerra.

 

O Doutor da Voyager e o historiador Quarren debatem sobre o passado em “Living Witness”.

O médico holográfico assiste à versão dos kyrianos para os fatos de tantos séculos atrás. Janeway teria negociado um acordo comercial com os vaskanos, que também haviam lhe pedido ajuda contra seus inimigos. A reconstituição mostra a capitão descarregando um bombardeio de armas biológicas, feitas pelo Doutor, em cidades kyrianas, deixando até o representante de Vaskan constrangido. Um líder de Kyrian invade a Voyager e é capturado por um destacamento borg liderado por uma Sete de Nove ainda inteiramente cibernética, em vez de humanizada como conhecemos. Ele acaba executado a sangue frio por Janeway.

O médico só não arranca os cabelos porque eles lhe faltam. Ele tenta explicar a Quarren que aquilo é uma completa distorção da história. Para facilitar, ele pede para fazer sua própria simulação para esclarecer os fatos. Quarren, que inicialmente achou que o Doutor era um mentiroso, permite que ele mostre sua versão, demonstrando ter maturidade para ser apresentado a algo que vai contradizer tudo o que ele havia aprendido até então, em vez de se apegar cegamente às suas crenças.

Na versão do doutor, o líder de Kyrian invade a Voyager durante a negociação de Janeway com seus inimigos, mata três engenheiros e toma Sete de Nove como refém. O embaixador vaskano mata o líder dos kyrianos durante o conflito. O Doutor só presenciou os fatos até ali, então não consegue esclarecer quem bombardeou quem depois disso. Uma juíza kyriana diz: se foi Janeway ou o embaixador de Vaskan que cometeu o assassinato, isso não altera o fato de que os filhos dos kyrianos não podem frequentar as mesmas escolas que os vaskanos ou morar nos mesmos bairros. Para o vaskano, trata-se de uma desapaixonada revisão da história. Mas ele pode se dar a esse luxo, afinal está do lado que, naquele momento, é a classe dominante. Não se trataria de raça, era só apurar os fatos. “Sempre se trata de raça”, diz a kyriana.

O museu é atacado por vândalos vaskanos. O planeta entra em guerra civil entre as raças tendo o depoimento do médico como estopim. O Doutor pede para ser apagado, descompilado. Os fatos de 700 anos atrás já não importam mais, o que importa é manter a paz, argumenta. Mas Quarren insiste que a história precisa ser passada a limpo em vez de os dois lados continuarem cegamente se culpando, cada um usando sua própria narrativa conveniente para justificar as hostilidades. Ele demonstra acreditar que é possível e desejável buscar a verdade. A continuação da investigação sobre o passado acaba levando à paz entre os dois povos, que aprendem, enfim, a respeitar suas diferenças. Afinal, é Star Trek.

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


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