PIC 1×04: Absolute Candor

Picard recruta mais um tripulante, o jovem romulano Elnor, e resgata Sete de Nove

Sinopse

Ano: 2385. Picard visita o planeta Vashti, onde habita uma colônia de refugiados romulanos. Entre eles, o menino Elnor, que vive com as freiras guerreiras da ordem religiosa Qowat Milat. Picard tem um laço de amizade com o garoto, lê para ele o livro “Os Três Mosqueteiros” e lhe ensina movimentos de esgrima. A visita é interrompida por um chamado de Raffi informando que sintéticos atacaram Marte. Picard antecipa sua partida.

No tempo presente, na nave La Sirena, Raffi questiona a decisão de Picard de passar por Vashti antes de seguirem para Freecloud, mas Picard responde que talvez esta seja sua última chance de visitar o planeta. Picard quer ter notícias de Elnor e conseguir uma guerreira da Qowat Milat para lhe proteger contra o Tal Shiar. Picard se dá conta de que as coisas mudaram muito em 14 anos: o setor Qiris agora está tomado pelo crime e um dos chefões é Kar Kantar, que domina a área com uma antiga nave ave de rapina. Quando chegam ao planeta, encontram um sistema de defesa planetário herdado dos Patrulheiros de Fenris, que já não controlam a segurança local por falta de recursos. Ao teletransportar-se à superfície, Picard fica chocado com a pobreza, degradação e a xenofobia dos colonos. Porém, é bem recebido por uma das freiras, Zani.

No artefato, Narek planta uma semente de dúvida em Soji sobre o passado da androide, dizendo que ela não estava na lista de passageiros de uma nave que supostamente a levara ao Quadrante Beta, anos antes. O objetivo é que ela perceba que é androide e passe informações de onde veio. Narissa dá uma semana a Narek para obter informações de Soji com essa abordagem mais sutil. Do contrário, terá de recorrer à violência.

Em Vashti, Picard pede ajuda a Zani, solicitando uma guerreira para lhe dar proteção contra o Tal Shiar – já que a ordem das freiras guerreiras é temida pela polícia secreta romulana. Zani sugere que ele leve Elnor, que se tornou um guerreiro extraordinário. A princípio, Elnor, ressentido por Picard tê-lo abandonado todos aqueles anos, se recusa a ajudá-lo. Porém, quando Picard é ameaçado de morte pela espada do ex-senador romulano Tenqem Adrev – que injustamente acusa o almirante de ter se aproveitado do evento da supernova para dividir e enfraquecer o povo romulano –, Elnor surge em sua defesa e decapita Adrev. Em seguida, anuncia a todos sua lealdade a Picard como seu Qalankhkai e avisa que qualquer um que ameace o almirante será vítima de sua espada. Um amigo de Adrev saca um disruptor, mas Rios teletransporta Picard e Elnor para a nave, a tempo de salvá-los.

A antiga ave de rapina de Kar Kantar entra em cena e abre fogo contra a La Sirena. Rios executa manobras evasivas, com a ajuda de Emmet, um holograma tático de emergência. De repente, surge uma nave não identificada e ataca a ave de rapina, mas também é atingida por ela. O piloto da nave pede socorro e permissão para vir a bordo da La Sirena. Assim que o piloto é teletransportado, sua nave colide com a rede de defesa do planeta e é destruída. O piloto é Sete de Nove, e ela e Picard se reconhecem.

Comentários

O que você faria se tivesse certeza de que sua morte está próxima? É a resposta a essa pergunta que está orientando os passos de Picard, desde que o médico praticamente o desenganou, e isso fica mais claro neste episódio. Picard está acertando as contas com seu passado, e uma das pendências é o menino Elnor, que ele abandonou na colônia romulana. Agora ele se desvia do objetivo da missão – encontrar Maddox em Freecloud, a fim de que ele o leve até a irmã de Dahj – para ter notícias de Elnor. Quando Raffi o questiona, Picard diz que talvez nunca mais passe por ali.

A morte é, sem dúvida, um tema forte neste episódio e parece ser um tema que estará presente ao longo de toda a série. Em primeiro lugar, a morte do próprio Picard – que foi diagnosticado com uma doença fatal e incurável – deve rondar a temporada. Também há menção ao “juízo final” da mitologia romulana, quando haverá a aniquilação total de toda a vida no universo. Enfim, a morte como a única certeza que todos temos na vida e como essa certeza nos define como seres humanos – tema do livro Do Sentimento Trágico da Vida, que Chris Rios está lendo.

Michael Chabon, escritor deste episódio e um dos criadores e produtores da série, foi corajoso ao inserir o tema, já que a morte é assunto quase tabu na civilização ocidental, e há vasta literatura a esse respeito. Talvez a morte do próprio pai tenha inspirado o escritor a tratar do tema. Em novembro de 2019, Chabon publicou um texto muito sensível e comovente, “The Final Frontier” (A Fronteira Final), na revista The New Yorker, relatando as lembranças que vieram à tona quando fazia companhia ao pai inconsciente no leito do hospital, poucos dias antes de ele morrer. Lembrou-se de como aprendeu a gostar de Star Trek com o pai e como o destino o fizera se envolver com a série, anos depois. Enquanto o pai dormia um sono profundo, ele escrevia o episódio de Short Treks “Q&A”. Pode ser que encontrem a cura para a doença de Picard. Porém, nesta primeira temporada, o quadro que temos é este: para Picard, esta poderá ser sua última aventura no espaço, e o espectador está diante de uma despedida do personagem.

Um tema pesado como a morte num programa de entretenimento forçosamente deve ser contrabalançado com humor, e a série faz isso muito bem. Quando Agnes pergunta a Rios sobre o tema do livro que está lendo, ele responde: “A dor existencial de viver com a consciência da morte e como isso nos define como humanos.” O humor fica por conta da reação de Agnes: “Mas que assunto agradável. Quero muito falar da dor existencial de viver com a consciência da morte.” Então Raffi interrompe a conversa, e Agnes fica aliviada: “Graças a Deus”.

Chabon parece brincar com a reação do espectador, antecipando sua reação e transferindo-a aos personagens. Agnes é a voz de parte dos fãs, que pode pensar: “Morte. Que tema agradável para uma série!” Agnes faz isso em outra cena também, quando reage ao saber das freiras guerreiras (“Isso existe? Que bizarro.”) e sua filosofia de franqueza total (“Alguém mais acha o Caminho da Franqueza Total potencialmente chato?”). Raffi também parece dar voz ao espectador quando fica muito irritada com o desvio da nave para Vashti. Sua reação, de fato, representou a de vários fãs, que estão impacientes e querem ver ação, querem ver a trama seguir adiante.

Sem pressa para apresentar os personagens, Picard introduz mais um neste capítulo: Elnor. No flashback inicial, vemos uma relação de pai e filho entre Picard e o garoto – o primeiro porque nunca teve filhos e perdeu num incêndio o único sobrinho (Generations), apresentado no episódio “Family”, de A Nova Geração; o segundo, porque vive apenas na companhia de mulheres e precisa de um modelo masculino, a figura de um pai.

Criado numa cultura que lembra vagamente culturas orientais na época medieval da Terra real, Elnor surge como a primeira pessoa – finalmente! – a sair em defesa de Picard, que vinha sendo maltratado desde o primeiro episódio. Talvez toda a rejeição – de modo geral, injusta – demonstrada pelos personagens ao velho almirante nos quatro primeiros episódios tenha sido uma preparação para a cena emocionante em que Elnor, como um samurai, surge com sua espada para defendê-lo e proclamar sua lealdade a ele. Cortar a cabeça de Adrev talvez tenha sido um exagero, mas funcionou para mostrar as habilidades de Elnor com a espada e a seriedade com que está disposto a defender Picard. De todo modo, a bronca que Picard dá em Elnor logo em seguida vem para tentar atenuar o impacto da cena de decapitação.

Assim como os klingons surgiram em Star Trek como vilões e, aos poucos, se tornaram personagens mais complexos, os romulanos de Picard aparecem em sua diversidade e complexidade. A ordem religiosa das freiras guerreiras, apresentada neste episódio, segue a doutrina do “Caminho da Franqueza Total” (o Absolute Candor do título), contrariando o segredo impregnado na cultura romulana. Picard tem amigos e inimigos romulanos. Assim, os romulanos não aparecem como se toda a espécie fosse composta de vilões, mas sim como nossa própria espécie humana: há os bons, os maus e aqueles numa zona cinzenta. Laris e Zhaban, por exemplo, são bons, claramente gratos e leais a Picard. Narissa é uma vilã mais típica. Narek, por enquanto, está numa zona cinzenta, já que demonstra dúvida quanto à sua missão de destruir Soji e outros androides como ela. Um dos aspectos mais interessantes de Star Trek: Picard é o mergulho na cultura romulana – principalmente como a destruição de Romulus pela supernova afetou essa cultura.

O comentário social mais óbvio é a questão dos refugiados romulanos, especialmente sua mudança no comportamento desde que a Federação abandonou o assentamento de Vashti, agora berço do Renascimento Romulano – que não é explicitado no episódio, mas provavelmente se trata de um movimento “nacionalista” xenófobo, materializado na placa “Somente Romulanos” no bar local – e que mais tarde Picard vai arrancar e pisar em cima, num protesto silencioso. Embora esteja presente, a questão política dos refugiados romulanos não é tema central no episódio, que se concentra mais na relação entre os personagens.

O foco maior está na introdução de Elnor. Por isso, naturalmente, os eventos no Artefato ficam um pouco de lado. Ainda assim, temos mais informações sobre a mitologia romulana – o Ganmadan, Dia da Aniquilação, o fim do mundo, quando todos os demônios atendem ao chamado do Destruidor –, na cena em que Soji assiste a uma entrevista com Ramdha. Por alguns segundos, o rosto de Soji se funde com o reflexo do rosto de Ramdha, sugerindo, talvez, algum tipo de conexão entre elas.

No Artefato também vemos a obsessão de Narek por Soji. Haverá uma tensão crescente entre eles, agora que Narek plantou uma dúvida em Soji sobre sua própria origem (o nome dela não estava na lista de passageiros de uma nave, mas ela tem certeza de ter estado lá) e Narissa deu o prazo de uma semana para que ele resolva o caso – do contrário, ela vai assumir o controle e utilizar seus métodos violentos.

O romance entre Narek e Soji tem características ambíguas: ao mesmo tempo em que um usa o outro para obter informações de seu interesse, parece haver uma afeição genuína entre eles. O destaque nas cenas do casal vai para a bela e delicada trilha sonora (“Soji and Narek Waltz”, uma valsa com ecos do tema de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), composta por Jeff Russo, que começa quando os dois tomam cerveja romulana no bar até o momento que brincam juntos, deslizando por uma saída de ventilação do cubo borg – uma cena que pode ter sido inspirada no clássico Jules e Jim, de François Truffaut (quando os três jovens que vivem um triângulo amoroso correm numa ponte).

Santiago Cabrera continua a mostrar seu talento de ator interpretando dois novos hologramas: o de hospitalidade, com sotaque norte-americano, e Emmet, o tático cabeludo que fala espanhol. Foram os momentos mais divertidos do episódio, confirmando a função de alívio cômico desses hologramas – que, de quebra, ainda acrescentam informações sobre a personalidade de Rios, já que os hologramas são, claramente, seus alteregos.

A maior surpresa do episódio (pelo menos para quem não prestou atenção ao nome Jeri Ryan nos créditos iniciais) ficou para o final, com a entrada triunfal de Sete de Nove, a conhecida ex-borg da série Voyager – e vemos que Picard e Sete de Nove se conhecem. Um gancho e tanto, que certamente deixou o espectador curioso para o próximo capítulo.

O episódio, sob a direção firme do veterano Jonathan Frakes, teve bom ritmo, com lindas imagens, batalha entre naves e trilha sonora bonita e muito presente, contribuindo para a atmosfera de todas as cenas. Veio reforçar o título da série: Picard é sobre esse personagem, vinte anos depois de Nêmesis, e sua relação com um mundo que não é mais o mesmo dos tempos de A Nova Geração. O fã que estiver esperando um revival da antiga série ou grandes batalhas épicas deve se decepcionar. Por outro lado, o espectador que estiver disposto a se abrir para o novo – novo formato, novo tom, novos temas, novos rostos – vai poder continuar desfrutando de uma série bem escrita e bem produzida, acompanhando as últimas jornadas de um dos personagens mais queridos da franquia. Picard, até agora, tem se revelado um biscoito fino.

Avaliação

Citações

“What’s your book about?”
“The existential pain of living with the consciousness of death and how it defines us as human beings.”
“Well, that’s not a conversation killer at all. I totally want to talk about the existential pain of living with the consciousness of death.”
(O livro é sobre o quê?
A dor existencial de viver com a consciência da morte e como isso nos define como humanos.
Mas que assunto agradável. Quero muito falar da dor existencial de viver com a consciência da morte.)
Agnes e Chris Rios

“Man can’t even take a guilt trip without using a starship.”
(O cara precisa de uma nave estelar até para lidar com o remorso.)
Raffi, sobre Picard

“What’s the Way of Absolute Candor?”
“It’s their primary teaching: total communication of emotion without any filter between thought and word. And it runs entirely counter to everything that the Romulans hold dear.”
(O que é o Caminho da Franqueza Total?
É sua doutrina básica: expressão completa das emoções, sem filtros entre pensamento e fala. Algo em total contradição a tudo o que os romulanos mais prezam.)
Agnes e Picard

“Because you could not save everyone, you chose to save no one.”
“Yes. I allowed the perfect to become the enemy of the good.”
Como você não podia salvar todos, preferiu não salvar ninguém.
Sim. Deixei que o perfeito fosse inimigo do bom.
Zani e Picard

“Seven of Nine?”
“You owe me a ship, Picard.”
(Sete de Nove?
Você me deve uma nave, Picard.)
Picard e Sete de Nove

Trivia

  • Durante a reunião da tripulação no estúdio holográfico de Picard, ouve-se a suíte #1 em sol maior para violoncelo, de Bach.
  • Este é o primeiro episódio de Star Trek a não mostrar nenhum oficial da Frota Estelar uniformizado.
  • Picard traz a Elnor um exemplar de “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas. Uma versão holográfica do romance foi criada por Reginald Barclay no episódio “Hollow Pursuits”, de A Nova Geração.
  • Picard sempre gostou de esgrima, como se pode ver nos episódios “We’ll Always Have Paris”, “I, Borg” e “Lessons”, de A Nova Geração.
  • Zani diz a Elnor que Picard não gosta de crianças, falando do desconforto de Picard com os pequenos, como visto em Encounter at Farpoint, “The Bonding” e “Disaster”de A Nova Geração. Porém, Picard parece ter mudado, como sugere o seu relacionamento com Elnor e a faixa do “Dia do Capitão Picard”, feita por crianças na Enterprise (“The Pegasus”), que ele guardou em seu cofre nos Arquivos da Frota Estelar, conforme vimos no primeiro episódio de Picard, Remembrance.
  • A garrafa de cerveja romulana que Narek e Soji bebem no bar é semelhante à garrafa de cerveja romulana que McCoy traz de presente ao almirante Kirk no seu aniversário, em A Ira de Khan.
  • Quando Narek fala do “ritual borg”, Soji faz um movimento com a cabeça semelhante ao de Data.
  • É a primeira vez que aparece uma ave de rapina romulana antiga desde o episódio “The Enterprise Incident”, da Série Clássica.
  • O ex-senador romulano Adrev menciona as naves de resgate como sendo da classe Wallenberg, uma homenagem a Raoul Wallenberg, sueco que perdeu a vida salvando milhares de judeus na Hungria durante a ocupação nazista nos anos 1940.
  • Sete de Nove é uma ex-borg, personagem da série Star Trek: Voyager, em que apareceu pela primeira vez no episódio “Scorpion, Part II”, da quarta temporada.

Ficha Técnica

Escrito por Michael Chabon
Dirigido por Jonathan Frakes
Exibido em 13/02/2020
Produção: 103

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Alison Pill como Dra. Agnes Jurati
Isa Briones como Soji Asha
Evan Evagora como Elnor
Michelle Hurd como Raffi Musiker
Santiago Cabrera como Cristóbal “Chris” Rios/Holograma de Hospitalidade/Emmet
Harry Treadaway como Narek

Elenco convidado

Jeri Ryan como Sete de Nove
Peyton List como Narissa
Amirah Vann como Zani
Rebecca Wisocky como Ramdha
Iann Nunney como o jovem Elnor
Evan Parke como Tenqem Adrev
Erika Alvarez como Bidran
Jamie Barcelon como Garçom
Kay Bess como Computador da La Sirena
Donny Boaz como Skantal
David Chattam como Observador nº 2
Willow Geer como Refugiado nº 1
Djamel Hamdad como Refugiado nº 2
Ken Lyle como Vendedor de Frutas
Linda Nile como Observador nº 3
Ciro Suarez como Observador nº 2
Heather Winters como Shai

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