A lenda do fracasso de Star Trek: Discovery

Para um jornalista, confesso, é assustador ver com que facilidade mentiras ganham tração e credibilidade na internet hoje em dia. Vivemos definitivamente a era do “fake news”, e Star Trek decerto não passa impune. Por um misto de oportunismo e ódio, um dos mitos mais persistentes é o de que a CBS, por alguma razão, estaria secretamente insatisfeita com os resultados de Discovery ou com os destinos da franquia. Nada poderia estar mais longe da verdade e, embora as empresas de streaming em geral sejam reticentes em divulgar dados específicos de audiência, não é difícil demonstrar isso de forma cabal com as poucas informações disponíveis.

Vamos lá então. Uma temporada de Star Trek: Discovery custa cerca de US$ 100 milhões. É uma cifra extraordinária, sem dúvida, e cada tostão se vê na tela pelos valores de produção. Para efeito de contraste, uma temporada de Enterprise custava, à época, cerca de US$ 40 milhões. Isso 15 anos atrás. Reajustando pela inflação, seriam uns US$ 55 milhões, por uma temporada de no mínimo 22 episódios. Hoje têm sido 14 ou 15. Ou seja, é fácil demonstrar que o custo por episódio de Discovery é estratosfericamente maior que o das antigas séries. Daí talvez surja alguma margem para que se acredite que a CBS está perdendo dinheiro com seu novo programa. Mas será?

Primeiro, lembremos que a CBS só manteve os direitos de exibição da nova série de Star Trek nos EUA, onde os usou para propelir seu novo serviço de streaming, o CBS All-Access. A exibição no Canadá foi vendida à Bell Media e em outros 188 países, notoriamente, à gigante Netflix. À ocasião do negócio, o então CEO da CBS, Les Moonves, chegou a declarar aos acionistas que Discovery já era lucrativa para a empresa antes mesmo do lançamento, o que nos permite supor que somente esses contratos cobriram os custos de produção da primeira temporada. (Lembremos que os executivos não podem mentir em reuniões de acionistas, sob risco de processos monstruosos.) Mas sejamos conservadores e imaginemos que, a partir do segundo ano, a venda de uma série desse porte para o mundo inteiro, exceto os EUA, tenha saído por apenas metade do custo de produção da temporada, ou seja, US$ 50 milhões.

Pois bem. Para pagar a conta, faltaria ainda a outra metade, que a CBS teria de fazer com seu serviço de streaming. Informações sobre o número de assinantes andaram escassas, mas num anúncio recente (de novo aos acionistas, mais uma vez sem poder mentir sob risco de processo bilionário) a empresa comunicou que atingiu no começo de 2019 a meta estipulada para 2020, de cerca de 4 milhões de assinantes.

O fato de a companhia ter atingido sua meta interna com um ano de antecedência deveria ser tido como sintoma claro de sucesso, mas há quem ainda assim questione. A pergunta é: como? Senão vejamos. Os 4 milhões de assinantes podem parecer um número modesto — e, se comparado ao número de assinantes da Netflix nos EUA, 60 milhões, é mesmo —, mas são um ótimo patamar para um serviço que, ao menos até o momento, é praticamente carregado nas costas por Star Trek: Discovery. Para efeito de comparação, The Orville, a ópera espacial homenagem/plágio/sátira de Star Trek criada por Seth MacFarlane, tem tido em seus mais recentes episódios audiência de cerca de 3 milhões de espectadores. Isso em TV aberta, gratuita, na Fox americana. Então, em comparação, 4 milhões de assinantes num serviço pago não é batatinha.

E Star Trek: Discovery inquestionavelmente é a principal impulsionadora da plataforma, navegando sozinha quando esteve no ar em suas duas temporadas. Ou seja, não havia outra programação de séries inéditas em exibição no CBS All-Access nos meses em que Discovery esteve sendo exibida.

Aí podemos fazer um exercício de aritmética básica. O plano de assinatura mais barato do CBS All-Access é de US$ 6 mensais. Vamos supor que todos os 4 milhões de assinantes estão nesse plano menor, com comerciais (há um plano mais caro, a US$ 10 mensais, sem propaganda), e que eles só permanecem no serviço durante a exibição de Discovery, cancelando a assinatura assim que a série termina sua temporada.

Neste segundo ano, os episódios inéditos vão de janeiro a abril, com mais Short Treks vindo em maio. Mas sejamos conservadores e pensemos em apenas 4 meses de assinatura, de 4 milhões de espectadores, a US$ 6. Essa multiplicação simples (4x4x6) resulta em US$ 96 milhões! Ou seja, só nessa conta de verso de envelope, a CBS está saindo da brincadeira com uma “sobrinha” de US$ 46 milhões, supondo que a exibição internacional só renda metade do custo de produção (repetindo: provavelmente é mais). E esquecendo que, na nossa matemática, há 4 milhões de espectadores vendo comerciais pagos no CBS AA, pelos quais certamente a rede fatura mais uns milhõezinhos. E aí, em cima disso, vem o faturamento com o licenciamento de produtos: quadrinhos, romances, brinquedos, roupas, uniformes, réplicas de props, naves colecionáveis e itens que vão de lençóis a ímãs de geladeira. Aí tem o mercado de home video. E depois syndication. Pode somar mais vários milhõezinhos aí, mesmo sendo muito pessimista.

Em suma, não existe matemática que permita supor que Star Trek: Discovery é nada além do retumbante sucesso que a CBS declara publicamente que é. Não por acaso, a despeito dos boatos persistentes nas redes insociáveis de “cancelamentos” e “cortes”, a série foi renovada para o terceiro ano com apenas seis episódios da segunda temporada exibidos, assim como aconteceu no primeiro ano.

Também não é por acaso que a CBS escolheu Alex Kurtzman para tocar a franquia adiante, dado que ele já havia produzido um revival de grande sucesso para a rede, Hawaii 5-0. Após o sucesso de Discovery, Kurtzman ganhou um contrato de cinco anos e US$ 25 milhões para expandir o universo de séries trekkers, e estão em estágios variados de desenvolvimento duas séries animadas (uma adulta e uma infanto-juvenil), uma série ancorada por Patrick Stewart com a volta de Jean-Luc Picard e uma série da Seção 31, spin-off direto de Discovery, ancorada por Michelle Yeoh. Isso sem falar em projetos ainda não anunciados.

Não existe planeta nesta galáxia em que executivos de televisão joguem dinheiro fora em séries que não estão trazendo resultados. E não existe cálculo possível que coloque Discovery no vermelho. Mesmo supondo que não houvesse contratos de distribuição internacional, a série provavelmente já se pagaria integralmente só com as assinaturas americanas do CBS All-Access.

Não há margem para dúvida: o retorno de Star Trek à televisão foi melhor que almoço grátis para a detentora de seus direitos. E por enquanto só nos serviram a entrada. Vem muito mais por aí.

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