VOY 2×18: Death Wish

Episódio com forte teor filosófico traz de volta o sabor do Q Continuum

Sinopse

Data estelar: 49301.2

Durante tentativa de coletar uma amostra de cometa, a Voyager acaba transportando a bordo um membro do Q Continuum que estava aprisionado dentro do astro. O ser expressa sua gratidão pelo “resgate” e diz adeus à tripulação. Mas, na tentativa de desaparecer, acaba fazendo todos os homens da nave sumirem. Quando a capitã Janeway exige o retorno de seus oficiais, o velho conhecido Q, que tantas vezes atormentou Picard e a Enterprise, aparece a bordo.

Q diz à capitã que o outro Q, que escapou de seu confinamento no cometa, havia sido trancado por 300 anos devido a sucessivas tentativas de cometer o suicídio. O “Q-suicida” pede asilo e arrisca a vida da tripulação da Voyager ao lançar a nave por todos os cantos e eras do Universo, tentando se esconder do outro Q. Irritada com o jogo de “cabo de guerra” entre os seres onipotentes, Janeway concorda em conceder uma audiência para considerar o pedido de asilo. Os termos são logo impostos: se a capitã decidir em favor do Continuum, o prisioneiro deverá retornar ao confinamento, mas, se a decisão favorecer Q2, deverá lhe ser concedida a mortalidade para que possa realizar seu desejo de morte.

O Q rebelde pede a Tuvok que o represente na audiência, onde explica que quer pôr fim à sua entediante imortalidade. Q retruca dizendo que o suicídio poderia implicar consequências imprevisíveis para o Continuum, que nunca conheceu nada a não ser a vida eterna. Um momento de drama acontece na sala, quando Q chama a si mesmo para testemunhar na presença de outras pessoas que tiveram suas vidas profundamente afetadas pelos Q, entre elas William Riker, da USS Enterprise.

Q tenta influenciar a decisão final de Janeway prometendo levar a Voyager de volta para a Terra. Porém, determinados a apresentar um veredito justo, Janeway, Tuvok e o Q-suicida levam a audiência para uma manifestação simbólica do Continuum, o local onde os seres onipotentes vivem. A ideia era mostrar como é a vida dos membros da dimensão em seu próprio domínio. Mais tarde, a capitã anuncia que revelará sua decisão no dia seguinte. Pela manhã, ela concede a Q2 o pedido de asilo e insiste que ele explore os mistérios da vida mortal e que considere as consequências antes de tomar qualquer atitude drástica. No entanto, em poucas horas, o “humano” Q, agora chamado Quinn pela tripulação, comete o suicídio ao tomar um raro veneno que Q confessa ter fornecido ao amigo.

Comentários

“Death Wish” não é um episódio convencional de Voyager, pelo fato de fazer forte referência a outra série de Jornada e por resgatar dela um personagem recorrente. Mas talvez seja esse o motivo pelo qual tivemos uma das melhores e mais profundas histórias da segunda temporada – a continuidade inerente ao enredo, somada aos fatores morais implicados no roteiro. A crise existencial dos Q já é tocada de forma mais ou menos sutil desde “Hide and Q”, da primeira temporada de A Nova Geração, mas só agora temos um insight completo sobre o que aquele episódio significava.

Durante A Nova Geração, Q fez diversas aparições e, apesar de sua personalidade egocêntrica e sarcástica, sempre passou uma lição para os seres humanos (ele foi o responsável pela introdução dos Borgs à Federação, para citar o exemplo mais contundente).

Porém, nesse caso não é a humanidade que está sendo julgada por seus valores, mas os membros do Q Continuum. As grandes questões são abordadas: Seria a imortalidade uma dádiva desses seres tão poderosos? A vida eterna deveria ser imposta a indivíduos que já absorveram uma infinidade de conhecimentos? Como uma sociedade supostamente tão evoluída pode defender os princípios do Estado a ponto de ignorar os direitos individuais?

A oportunidade foi perfeita para uma história com forte conteúdo moral e um insight inédito sobre a natureza do Q Continuum. A expressão metafórica desse mundo por meio daquele posto de beira de estrada em que o tempo não existe (os relógios não têm ponteiros), os jogos envolvem mundos inteiros e o silêncio reina (porque não há mais nada a ser dito) é brilhante – justamente porque é complicado imaginar uma dimensão alienígena de criaturas onipotentes em termos tão humanos. É surpreendente, e, enquanto metáfora, extremamente eficiente.

No episódio como um todo, houve um excelente equilíbrio entre situações dramáticas e o bem afamado humor de Q (John de Lancie). O ator, que interpreta esse personagem há 14 anos, é velho amigo de Kate Mulgrew (Janeway), por isso pode-se imaginar o quanto os dois se divertiram nos sets de filmagem. Aliás, embora Tuvok tenha tido uma boa participação, o roteiro é mesmo centrado no trio capitã e “Qs”. Houve fortes momentos com cada um deles.

Outra coisa singular foi a participação especial de Jonathan Frakes (Will Riker, de A Nova Geração). Apesar de sua estadia ter sido curta, deu para resgatar seu complicado relacionamento com Q, embora ele pudesse ter sido melhor aproveitado (justamente com base na história de “Hide and Q”) do que foi, ao fazer o papel do descendente do combatente da guerra civil americana. Junto a Riker, estavam Isaac Newton – com fraquíssima presença – e Mauri Ginsberg (interpretado por ele próprio).

Janeway marcou com força o episódio. O “suborno” de Q foi quebrado pela ética e moral da capitã, que graciosamente também tomou uma decisão sábia ao final da história. Foi um dos grandes momentos da capitã na série. Pudemos conhecê-la em toda a sua humanidade. A visão que predominou é a de uma mulher emocional, e não a daquela capitã responsável unicamente destinada a trazer seus colegas para casa.

A problemática enfrentada pela capitã é, em última análise, decidir quem deve ter a autoridade final sobre o destino dos indivíduos, eles próprios ou o Estado. A questão pode parecer trivial, mas é complexa. Como parte de um sociedade, um indivíduo tem obrigações a cumprir para manter o “todo” funcionando. Ao mesmo tempo, na condição de ser único e individual, cada um tem certos direitos. A linha entre direitos e deveres é que precisa ser estabelecida. Neste caso, Janeway decidiu em favor do indivíduo. Mas não pense que todos adotariam a mesma decisão. No Brasil, por exemplo, suicídio é considerado crime, e sua punição é prevista em lei, por mais insensato que isso possa parecer.

Sobre Q, ele continua quase o mesmo ao longo dos anos, com o sarcasmo e a personalidade de sempre. Mas, ao final, ele sai com um bônus: há um crescimento em sua personalidade, motivado pelo sacrifício do Q-suicida, que o inspira a também se rebelar contra o status quo no Continuum. Para completar, fica a promessa de um retorno (ele volta em “The Q and The Grey”, do terceiro ano, com as repercussões dessa história).

É um “roteiro-cabeça” que, quando terminamos de assistir, ficamos um tempo refletindo. É também um resgate da concepção original de Gene Roddenberry sobre Jornada: o enfoque nas grandes questões filosóficas e a crítica a costumes da sociedade. Um vencedor.

Avaliação

Citações

“I guess that’s what we get for having a woman in the captain’s seat.”
(É isso que dá ter uma mulher na cadeira de capitão.)
Q

“Did anyone ever tell you are angry when you are beautiful?”
(Alguém já lhe disse que fica muito brava quando está bonita?)
Q

“I am curious. Have the Q always had an absence of manners, or is this the result of a natural evolutionary process that comes with omnipotence?”
(Estou curioso. Os Q sempre foram assim mal-educados, ou isso é um processo evolucionário natural que vem com a onipotência?)
Tuvok

“Thank you; and please don’t call me madam captain.”
(Obrigada; e por favor não me chame de senhora capitã.)
Janeway

“Q! What the hell is going on?”
(Q! Que diabos está acontecendo?)
Riker

Trivia

  • O episódio marca a primeira aparição de Q em Voyager. O personagem voltaria ao seriado em duas outras ocasiões, em “The Q and the Grey” (terceira temporada) e em “Q2” (sétima temporada).
  • O episódio marca a segunda aparição de um personagem de A Nova Geração em Voyager, e a primeira de um personagem regular, o comandante William Riker. O primeiro a fazer a transição foi Reginald Barclay, em “Projections”, do início do segundo ano. Mais tarde, Geordi La Forge faria uma participação (em “Timeless”, do quinto ano) e Deanna Troi e Barclay se tornariam personagens recorrentes da série nas últimas duas temporadas.
  • O episódio, nos bastidores, mostra uma dupla interessante em ação: Michael e Shawn Piller, pai e filho. Após sair de Jornada, Michael Piller abriria com seu filho uma produtora própria, chamada “Piller Squared”. Aqui, Shawn foi responsável pela história, e Michael roteirizou.
  • O diretor James Conway tem uma velha história com Jornada nas Estrelas, mas seu trabalho mais importante é bem recente: ele está dando o pontapé inicial na série Enterprise, ao dirigir o episódio-piloto, “Broken Bow”.
  • O ator Gerrit Graham não fez sua estreia no franchise neste episódio, ao atuar como o Q rebelde. Antes ele havia interpretado “o caçador”, no episódio “Captive Pursuit”, de Deep Space Nine.

Ficha Técnica

História de Shawn Piller
Roteiro de Michael Piller
Dirigido por James L. Conway

Exibido em 19 de fevereiro de 1996

Título em português: “Desejo Fatal”

Elenco

Kate Mulgrew como Kathryn Janeway
Robert Beltran como Chakotay
Roxann Biggs-Dawson como B’Elanna Torres
Robert Duncan McNeill como Tom Paris
Jennifer Lien como Kes
Ethan Phillips como Neelix
Robert Picardo como Doutor
Tim Russ como Tuvok
Garret Wang como Harry Kim

Elenco convidado

John de Lancie como Q
Gerrit Graham como Q rebelde
Peter Dennis como Isaac Newton
Maury Ginsberg como Maury Ginsberg
Jonathan Frakes como William Thomas Riker

Enquete

Edição de Stéphanie Cristina
Revisão de Roberta Manaa

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