Academy revisita os Klingons sem nostalgia, questiona sua identidade e faz bom episódio
Sinopse
Data estelar: 868943.8.
O Doutor conduz uma aula de debate, enfatizando o poder do discurso, da argumentação e do confronto de ideias como ferramentas fundamentais da Frota. Os cadetes participam de exercícios, realmente debatendo pautas. Jay-Den Kraag, no entanto, sofre uma crise de ansiedade ao falar em público, entra em colapso emocional e precisa ser medicado pelo Doutor para se recuperar.
Jay-Den conversa com Caleb, mas é interrompido quando a chanceler Nahla Ake o chama. Os klingons estão à beira da extinção. Uma nave transportando os últimos sobreviventes de oito grandes casas klingons sofreu um acidente, e o destino da família de Jay-Den é desconhecido.
Dezesseis meses atrás, Jay-Den era refugiado em Krios Prime, com um pai muito rígido, profundamente ligado às tradições guerreiras klingons. Jay-Den é muito próximo do irmão, Thar, que compreende seu desejo de seguir um caminho diferente, como curandeiro. Thar entrega a Jay-Den um sinalizador de recrutamento da Academia da Frota Estelar, incentivando-o a buscar um futuro fora das expectativas da família.
Mais tarde, Thar é mortalmente ferido ao tentar adquirir tecnologia alienígena proibida. Em seus momentos finais, ele diz para o irmão a acreditar em si mesmo e a “confiar nas estrelas”. Pouco depois, o pai de Jay-Den o leva para uma caçada. Quando Jay-Den se recusa a matar a presa, seu pai reage com fúria, erra o disparo, abandona o filho no planeta e destrói o sinalizador da Academia.
De volta ao presente, a bordo da Athena, o almirante Charles Vance entra em contato com Ake e pede sua ajuda para estabelecer um canal informal com antigos aliados klingons. A Frota propõe que o planeta Faan Alfa seja oferecido como um novo lar para o povo klingon, já que Qo’noS foi destruído. Ake aceita intermediar o contato.
O general klingon Obel Wochok comparece às negociações. Ele rejeita qualquer solução baseada em diplomacia formal, mantendo-se fiel à tradição, ao orgulho e aos símbolos históricos do antigo Império Klingon. Apesar de recusar oficialmente a proposta de um novo mundo, ele demonstra abertura pessoal ao diálogo com Ake.
Ao mesmo tempo, o Doutor autoriza que o tema da competição oficial de debates seja a diáspora klingon. Jay-Den apoia a escolha do tema, mas recusa o convite de Caleb para formarem uma dupla. Os dois entram em conflito, e Darem Reymi intervém para ajudar Jay-Den a controlar o estresse por meio de técnicas de respiração khionianas.
A competição de debates acontece no Pavilhão Uhura, sob a batuta do Doutor. Vários cadetes participam até que o embate central ocorre entre Caleb Mir e Jay-Den Kraag. Caleb apresenta uma argumentação baseada em jurisprudência e históricos da Federação, defendendo que a Federação deve salvar os klingons independentemente de sua vontade. Jay-Den responde com uma outra abordagem, questionando a imposição de soluções externas. O confronto se torna pessoal, levando o Doutor a encerrar a discussão.
Após o debate, a comandante Thok procura Jay-Den. Abandonando sua postura rígida, ela assume o papel de anciã klingon e explica que o pai de Jay-Den não errou o disparo por raiva, mas por honra. Ao destruir o sinalizador e deixá-lo em Krios I, ele não o abandonou, mas o libertou para encontrar seu próprio caminho como klingon. Inspirado, Jay-Den retorna ao debate final usando o pingente de seu irmão. Ele propõe uma solução klingon para a crise: a Federação deve encenar uma derrota simbólica, permitindo que os klingons “conquistem” Faan Alfa, preservando sua honra.
A Athena segue para Faan Alfa. No local, a Frota Estelar encena um confronto com a frota klingon. Vance declara formalmente as naves klingons como inimigas, reforços chegam e, após uma breve demonstração de força, a Frota “se rende”, permitindo que os klingons tomem posse do planeta. O general Wochok informa a Jay-Den que seus pais estão vivos e seguros no novo mundo klingon. Em reconhecimento, ele entrega ao jovem um arco klingon cerimonial, honrando sua contribuição para o futuro do povo.
De volta à Academia, Jay-Den divide uma refeição tradicional klingon com Caleb, que revela ter consertado o antigo sinalizador de recrutamento que Jay-Den guardava. Os dois fazem as pazes.
Comentários
“Vox in Excelso” marca um ponto de virada importante para Starfleet Academy, não exatamente por ser o mais fluido ou o mais bem resolvido até aqui, mas por ser o primeiro que realmente se organiza e é elaborado em torno de um personagem específico. A série finalmente entrega algo que se aproxima de um “episódio padrão” de Star Trek. Aqui, a narrativa se organiza em torno de uma crise da semana, de uma questão superimportante, a diáspora klingon, mas ao mesmo tempo discute questões íntimas, tem coisas orientadas a personagens, permitindo que o episódio avance personagens e construa mundo ao mesmo tempo.
A busca por equilíbrio tem sido a principal missão da série até aqui, e mais uma vez é bem-sucedida. Enquanto Nahla Ake e o núcleo adulto lidam com consequências políticas e éticas mais amplas, o foco emocional do episódio recai sobre um dos nossos cadetes, deslocando o centro da narrativa sem nunca incomodar a audiência. Não é tão raro, quando proposto esse tipo de segmento, desequilibrar o episódio, fazendo com que fiquemos entediados nas narrativas mais pessoais, torcendo para que ele volte logo para as grandes questões da galáxia.
Isso cobra seu preço no ritmo. O episódio sofre nesse sentido, alternando momentos de grande densidade dramática com cenas de muita exposição ou muitas cenas repetitivas sobre os dramas pessoais de Jay-Den. Há trechos que respiram bem, permitindo que a gente pegue bem o contexto, mas outros são redundantes e lentos. O resultado é um episódio interessante, ambicioso, mas um pouco áspero no ritmo.
Hoje em dia, o streaming oferece formatos mais livres para as séries. Vários seriados variam, na mesma temporada, a minutagem dos seus episódios, às vezes com variações bem significativas, dando a cada segmento o tempo que ele pede. Academy, além de não fazer isso, opta até o momento por uma padronização muito alta de minutagem. Com cada episódio orbitando uma hora, o que é uma escolha no mínimo curiosa, ainda mais se tratando de uma série que busca o público teen. Este episódio em particular teria se beneficiado de uns 10, 15 minutos a menos.
Ultrapassando isso, o foco em Jay-Den é um acerto conceitual. Ao estruturar o episódio como um estudo de personagem, a série finalmente demonstra maturidade para fazer aquilo que Star Trek sempre fez de melhor: usar seus personagens como lente para discutir questões culturais, éticas e civilizatórias mais amplas.
É através dele que o episódio dialoga com décadas de representações klingons na franquia, a maioria delas historicamente criticadas. Os klingons quase sempre foram tratados como uma raça unidimensional: honra versus desonra, força versus fraqueza, morrer com glória, aquela coisa toda que muitas vezes foi cansativa.
Aqui vemos uma discussão com uma lupa mais apurada sobre isso. Questiona-se a própria noção de honra klingon como verdade deles mesmo, se eles realmente são assim no seu âmago. Aqui, a honra parece muito mais uma performance. Algo que precisa ser performado para que a identidade klingon continue existindo. Não se trata de ser honrado, mas de parecer honrado. Até porque vemos, em 60 anos de franquia, um Império Klingon totalmente corrupto, cheio de maracutaias e mil esquemas, mas sempre performando honra. Academy nos mostra que muito da honra klingon é, na verdade, um sepulcro caiado.
Essa leitura é particularmente interessante porque não nega a tradição klingon, mas a recontextualiza. Em termos de construção de mundo, aprendemos que, após a Queima, os Klingons entraram em profunda decadência, o que faz todo sentido olhando para a história deles e do Império. Era de se esperar que, em uma crise galáctica, eles fossem os primeiros da fila a tomar decisões erradas e virar um povo à beira do apagamento. Porém, é preciso uma certa dose de coragem para contar essa história. Após a polêmica brutal de como os klingons foram retratados em Discovery, as produções dessa terceira era televisiva tomaram muito cuidado ao retomar essas histórias, e aqui retomaram com força, mas acertando em cheio no tratamento.
Jay-Den personifica tudo isso. Ele carrega o peso de uma herança com a qual não sabe lidar, o que ressoa muito com o público jovem. Apesar de nossos pais não serem guerreiros klingons que querem que sejamos guerreiros honrados, todos eles querem que sejamos alguma coisa, o que conversa diretamente com o drama de Darem no episódio passado. Ele não rejeita seus pais, ele não rejeita a cultura klingon, mas não sabe o que fazer com isso. O episódio acerta ao não transformar isso em um dilema simples ou resolvido ao fim do episódio.
A relação com Thok é central neste capítulo. Pela primeira vez, a personagem deixa de ser apenas aquela caricatura e tem sua melhor cena na série até agora. Thok entende a honra klingon como algo performático. Todo esse papo, essa nova consciência klingon, cria quase a imagem de uma civilização pós-klingon. Uma cultura consciente de que seus rituais são o que eles fazem para permanecer, não para ser. Os mitos, os deuses, a honra da boca para fora sustentam a realidade deles. Isso adiciona mais camadas aos klingons do que a franquia inteira, se bobear.
As sequências de debate funcionam muito bem e ajudam a fazer a exposição de toda a discussão klingon. Caleb acha que tem que levar os klingons para o planeta, faça chuva ou faça sol. Jay-Den acha que a decisão é dos klingons. Isso é século 32, mas também é século 21. O erro de muitos da Federação, neste caso Caleb, não está na intenção, não é imperalismo malvadão, mas a crença de que seus valores universais podem ser aplicados sem o menor debate sobre a civilização local, o que é curioso de se pensar, já que estamos falando da mesma Federação que tem a Primeira Diretriz. Esse é um debate que também permeia muito nossos próprios tempos e nossos próprios noticiários. Academy tem acertado demais quando se torna palco para discussões do nosso tempo.
Mesmo com os problemas de ritmo, o saldo é claramente positivo. Pode não ser um episódio perfeito, mas é certamente o mais denso até agora. Ele marca a primeira vez em que Starfleet Academy olha para dentro da mitologia da franquia com lupa. Não é um episódio confortável. Nem pretende ser. Porque ele conversa com o passado da franquia e não fica só jogando confete.
Avaliação




Citações
“Your father missed his shot to let you go. He saw you for who you are! A Klingon warrior. Whose passion for death is surpassed only by his passion for life. Now you must see yourself as he did, and as your brother did – a warrior not with weapons, but words.”
(Seu pai errou o tiro para deixar você partir. Ele viu você como você era! Um guerreiro klingon. Cuja paixão pela morte só é superada pela sua paixão pela vida. Agora você deve se ver a si mesmo, como ele viu e como seu irmão viu – um guerreiro não com armas, mas palavras.)
Lura Thok para Jay-den Kraag
“There’s been a tragedy. Don’t compound it with ignorance.”
(Houve uma tragédia. Não agravem isso com ignorância.)
Doutor
“I would have dishonored my people to spare them. Now… we have nothing left but tradition.”
(Eu teria desonrado minha gente ao poupá-los. Agora… não nos sobrou nada exceto nossas tradições.)
General Obel Wochak para Nahla Ake
Trivia
- Este é o décimo nono episódio de Star Trek com título derivado do latim. Ele pode ser traduzido como “uma voz nas alturas”, e é o terceiro da franquia com a palavra vox no título. Os outros dois são “Võx”, de Picard, e “Vox Sola”, de Enterprise.
- “Vox In Excelso” começa com a fonte klingon misturada com o título “A CBS Studios Production” no início do episódio. Apresenta duas palavras em klingon, “much” e “malja‘”, que significam “apresentação” (ou “apresentar”, “atuar”) e “negócios”.
- A capitão Ake grava um “discurso de chanceler” em vez do tradicional diário da capitão.
- O Doutor (Robert Picardo) supervisiona a competição de debate Aaron Satie, batizada em homenagem ao pai de Norah Satie do episódio “The Drumhead” de A Nova Geração. Ele também cita o famoso discurso de Satie “Com o primeiro elo…”, originalmente recitado por Jean-Luc Picard no mesmo episódio, embora aqui com o corte de algumas palavras.
- A primeira vez de Caleb no pódio inclui uma menção ao frequentemente referido sistema estelar Sigma Draconis, citado, visitado no episódio “Spock’s Brain”, da Série Clássica.
- Qo’noS e outros planetas controlados pelos klingons ficaram inabitáveis após a Queima, devido a explosões em refinarias de dilítio, deixando bilhões de mortos e apenas oito casas klingons intactas.
- De acordo com uma notícia da Federation News Report (FNN, que ainda existe), uma “delegação de Ni’Var se reúne com uma delegação hirogen antes da Cúpula do Quadrante Delta”.
- Taurus VII era o destino da nave de carga pesada klingon que caiu transportando as oito casas klingon. Presume-se que esteja no mesmo sistema que Taurus II, onde a nave Galileo caiu em “The Galileo Seven”, da Série Clássica.
- Jay-Den Kraag cresceu na região selvagem de Krios I, um mundo colonial próximo à fronteira da Federação que os klingons haviam subjugado no século 24, como visto em “The Mind’s Eye”, de A Nova Geração.
- Dois dos possíveis tópicos de debate sugeridos pelo Doutor são o novo governo em Betazed, conforme estabelecido em “Beta Test”, e o impacto geopolítico da Corrente Esmeralda, conforme visto na terceira temporada de Discovery.
- Embora nunca tenham sido diretamente ligados, descobrimos aqui que o Tratado de Paz de Orgânia, estabelecido pelo episódio “Errand of Mercy”, da Série Clássica, foi substituído pelos Acordos de Khitomer, de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida.
- A família Kraag realiza o ritual de morte klingon com gritos, estabelecido pela primeira vez em “Heart of Glory”, de A Nova Geração.
- O episódio mostra a decisão de Jay-Den de não se tornar um guerreiro klingon tradicional, o que causa inquietação entre seus pais e sua mãe, enquanto seu irmão o encoraja a seguir esse caminho. Cientistas, médicos e advogados eram conhecidos por não terem uma boa reputação na sociedade klingon devido ao domínio da casta guerreira, como visto em “Judgment” e “Divergence”, de Enterprise, e “Suspicions”, de A Nova Geração.
- Thok descreve a família de seu pai como uma linhagem de “jem’hadar libertados”, nossa primeira pista sobre o destino pós-série da raça guerreira introduzida em Deep Space Nine.
- As naves da Federação que encontram a Athena em Faan Alfa incluem a USS Horizon, a USS Capricorn, a USS Crimson, a USS Lexington e a USS Riker — certamente batizada em homenagem ao primeiro oficial da Enterprise de A Nova Geração, William T. Riker.
- A chegada da frota klingon sobre Faan Alfa é acompanhada pelo tema klingon composto por Jerry Goldsmith para Jornada nas Estrelas: O Filme.
- As naves da frota klingon incluem três modelos do século 25 do game Star Trek Online: a M’Chla refit (β) (uma versão renovada da M’Chla), a classe QeHpu’ (β) e a classe Ketha. Naves originais do jogo já haviam aparecido anteriormente e sido canonizadas em Picard.
- Ake diz que a nebulosa Val já foi uma estrela, tornando-a um remanescente de supernova, como a verdadeira nebulosa do Véu (Veil Nebula).
- O Clube Bajor “Templo Celestial” se reúne todos os domingos. Todos são bem-vindos.
- Os cadetes são chamados duas vezes de “zigotos” ou óvulos fertilizados.
- Jay-Den não é pacifista e é uma espécie de vegetariano. Ele não come carne (mesmo replicada) que não tenha morrido em uma luta justa.
- Quando o pai de Kraag leva um arco para Thar, ele diz: “Cuidado com os klingons que trazem presentes”, uma referência ao momento em que McCoy diz “cuidado com romulanos que trazem presentes”, em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, que por sua vez era uma referência a “cuidado com gregos que trazem presentes”, do clássico poema épico Eneida, de Virgílio.
- A mensagem completa do transmissor de recrutamento (do reitor digital de alunos interpretado por Stephen Colbert): “Após 120 anos, estamos recrutando novamente. Na Academia da Frota Estelar, é hora de trilhar seu próprio caminho. Liderando missões diplomáticas, prestando assistência médica. Se você está procurando por nós, nós estamos procurando por você, na Academia da Frota Estelar.”
- Jay-Den Kraag menciona amar poesia klingon, mas já ouvimos falar sobre essa poesia antes. Worf falou sobre isso em dois episódios de A Nova Geração: “The Dauphin” e “Up the Long Ladder”.
Ficha Técnica
Escrito por Gaia Violo & Eric Anthony Glover
Dirigido por Doug Aarniokoski
Exibido em 29 de janeiro de 2026
Título em português: “Vox In Excelso”
Elenco
Holly Hunter como Nahla Ake
Sandro Rosta como Caleb Mir
Karim Diané como Jay-Den Kraag
Kerrice Brooks como SAM
George Hawkins como Darem Reymi
Bella Shepard como Genesis Lythe
Oded Fehr como Charles Vance
Gina Yashere como Lura Thok
Brit Marling como computador da Athena
Stephen Colbert como reitor digital dos estudantes
Robert Picardo como Doutor
Elenco convidado
David Keeley como Obel Wochak
Rebecca Quin como Mackenzie Ya
Ken Barnett como Hayden Thriss
Martin Roach como Dreko
Dorothy Atabong como L’vanna
Tremaine Nelson como Thar
Sean Jones como Enok
Nicole Dickinson como Comotrid Atlee
Michael Brown como Thelonious Dandrid
Avaah Blackwell como Haile
Joseph Chiu como Weldu
Joseph Messina como Holloway
Layina Chand como Kohli
Kieron River como cadete
Arthur Ortiz como repórter da FNN
Rekha Shankar como DOT
TB ao Vivo
Enquete
Citações, Trivia, Ficha Técnica, Elenco e Elenco Convidado por Maria Lucia Rácz
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