Jeri Ryan impressionou o público ao se juntar ao elenco de Star Trek: Voyager na quarta temporada da série, em 1997, com uma personagem que rapidamente se mostrou muito mais do que meramente uma figura atraente para o público masculino. Como uma humana tornada borg reconvertida a humana, Sete de Nove se tornou uma figura icônica da cultura pop, o que culminaria com seu inevitável retorno ao papel, décadas depois, em Star Trek: Picard.
E ainda ficou um gostinho de quero mais. Terminamos a terceira e última temporada com a apresentação de Sete como a capitão da nova Enterprise, e a promessa de novas aventuras — que ainda não vieram. Mas isso não impede que Ryan se junte em grande estilo às comemorações dos 60 anos de Star Trek, que tiveram destaque na segunda edição do Italian Global Series, festival de cinema e TV promovido nas cidades litorâneas de Riccione e Rimini, na Itália, entre os dias 3 e 11 de julho.
No dia 8, quarta-feira, houve um painel celebratório do sexagésimo aniversário, com a participação de Ryan, além do escritor Nicholas Meyer e de três membros do elenco de Star Trek: Strange New Worlds, Anson Mount, Rebecca Romijn e Celia Rose Gooding. A apresentação contou também com uma pré-estreia do primeiro episódio da quarta temporada da série, que chega ao serviço de streaming Paramount+ em 23 de julho.
Por ocasião do evento, o Trek Brasilis teve oportunidade de se juntar a um grupo de jornalistas para uma entrevista com Jeri Ryan, em que ela fala de diversos assuntos, desde seu primeiro dia como Sete de Nove nos sets de Voyager até a perspectiva de voltar ao papel em uma possível nova série concebida por Terry Matalas, que foi o showrunner na terceira temporada de Picard — a decisão cabe à nova gestão da Paramount, mas Ryan vive em Star Trek pelo mote “nunca diga nunca”.
Entre as revelações, a atriz fala qual foi a cena que a convenceu de que Sete poderia ser uma personagem extraordinária — e a dita cuja nem chegou a ser filmada, fez parte só da audição para o papel. “Nós acabamos nunca gravando, mas foi, até hoje, uma das cenas mais bonitas que eu já vi, antes ou depois, para qualquer projeto, e foi uma cena, eu acho que era entre a Sete e Chakotay, mas era a Sete tendo sua primeira, tipo, lembrança de rir, basicamente, e eu consegui fazer, porque meu filho tinha dois anos na época, e eu era capaz de me basear na experiência dele, porque ele era um bebê, e ele, sabe, surpreendeu-se rindo pela primeira vez, tipo, ele riu, e, tipo, pulou, e dessa cena, eu vi o potencial dessa personagem”, contou.
Confira a seguir, em vídeo ou em texto, a íntegra da entrevista.
Você teve oportunidade de voltar à personagem da Sete, depois de tantos anos, em Star Trek: Picard. E lá nós tivemos muitas versões da Sete em rápida sucessão. Você foi uma patrulheira de Fenris no começo, e depois uma primeira oficial da Frota Estelar e finalmente capitão da Enterprise. Há uma favorita entre todas essas versões da personagem para você? E você teve algum input em alguma delas?
Eu não tive muito input nisso. Eu não tinha necessidade de ter muito input nisso. Eu acho que eu poderia ter se eu tivesse sentido algo a respeito com força. Mas eu realmente tive sorte com o jeito que os escritores desenvolveram ela e tudo que eles fizeram com ela. Quer dizer, ser a capitão da Enterprise é incrível. Isso é bem legal. Em termos de figurino, a roupa de patrulheira de Fenris foi a melhor. Eu tenho que ser honesta. Isso foi bem legal. A coisa com os coldres para as armas, a jaqueta de couro, isso foi ótimo. Foi bom estar com roupas normais.
Como essa experiência de estar nessa franquia por tanto tempo, voltando e voltando, mudou sua perspectiva sobre a indústria inteira?
Não sei se mudou minha perspectiva sobre a indústria, mas me tornou muito consciente de como isso foi um presente. E o quão único esse presente é, poder fazer isso. Porque revisitar a mesma personagem 20 anos depois é bem incomum. É incrível. E essa franquia ainda sendo celebrada 60 anos depois é uma insanidade. Então é um prazer fazer parte disso.
Por 60 anos, Star Trek nos mostrou um futuro melhor. Qual é a lição mais importante que a humanidade precisa aprender de Star Trek em 2026?
Ah, cara. Eu acho que precisamos, mais do que nunca, precisamos pegar de Star Trek que precisamos aprender a abraçar, e não apenas abraçar, mas celebrar, nossas diferenças. E parar de ter medo de cada um, parar de ter medo de qualquer coisa diferente. E isso é o que Star Trek sempre fez tão belamente por 60 anos. Ela manteve um espelho para a sociedade, nos mostrou o que fazemos bem e o que não fazemos, e o que poderíamos alcançar se fizéssemos o certo. E se parássemos de ter medo das diferenças e aprendêssemos a abraçar e celebrá-las. E eu acho que, mais do que nunca, precisamos pegar essa mensagem de Star Trek.
E se alguém for assistir algo com a série, seja Voyager ou Picard, sci-fi ou não, você tem sugestões?
Uau! Não que eu tenha algo a ver com isso, mas eu acho que, devido à situação da IA agora, eu acho que Terminator e T2 seriam coisas muito boas para assistir agora. Eu acho que seria oportuno. Porque eu sinto que muitas pessoas talvez não tenham prestado atenção nisso. E eu acho que mais pessoas precisam ter ouvido como isso acabou para a humanidade.
Você é a rainha dos protestos, você esteve lá todos os dias durante a greve dos escritores. E você, eu acho, não é uma pessoa de meias palavras. Eu fui a um par de convenções, onde eu vi a sala ir, uau! Mas o que eu queria perguntar a você é que, nas últimas semanas, houve um anúncio de várias empresas encerrando o lançamento de mídias físicas. E, como está atualmente, Star Trek é uma dessas séries em que você tem que ter mídias físicas para ter tudo. E até agora isso está em questão, porque Starfleet Academy não tem lançamento de mídias físicas. Como alguém que trabalha nesse negócio, é sobre a preservação da sua arte. Eu me pergunto se você tinha algo que poderia dizer sobre esse tipo de medo, sobre se as mídias físicas continuarão vindo, porque eu não acho que isso foi nem falado quando as últimas greves estavam acontecendo. Isso é algo que você pode sentir que pode levado para as ruas novamente?
Eu não sei. Isso é, na verdade, eu não ouvi falar sobre isso, então você está me contando sobre isso. Eu não consigo imaginar, mas você está falando de mídias físicas, DVDs e coisas assim. Eu não consigo imaginar que isso vai desaparecer completamente, porque há muitos colecionadores, e esses estúdios são empresas de propriedade intelectual. Isso é principalmente o que eles são. E mais do que nunca, agora que todos os estúdios basicamente foram tomados por companhias de tecnologia, e não por criativos, é sobre dólares, e é sobre números. E se há dinheiro para ser feito lá, e eu acho que provavelmente sempre vai haver, apenas pelos colecionadores que querem ter coisas físicas em suas posse, eu não consigo imaginar que isso seria completamente destruído, mas eu não sei. Talvez você tenha mais informação do que eu, e talvez eu esteja errada. Espero que não esteja.
Se você pudesse contar mais um capítulo da história da Sete, o que você mais gostaria de explorar?
Oh, meu Deus. Eu acho que seria divertido vê-la como capitão por um tempo, porque só a vimos sentando na cadeira. Isso é tudo que vimos. Então eu acho que ver alguns dos seus desafios e sucessos como capitão da Enterprise é o que eu queria ver. E como ela gerencia a sua tripulação.
Bem, meio que saindo disso, nós sabemos que Terry Matalas estava trabalhando em uma série da Sete, e estava tentando empurrar isso para a Paramount. E agora nós temos um novo regime na Paramount. Você acha que há alguma chance de isso voltar? Você tem alguma esperança? Você gostaria de fazer isso?
Eu não sei. Quer dizer, eu faria qualquer coisa por Terry Matalas. Eu adoro ele. Ele é incrivelmente talentoso. E eu acho que todo ator que trabalhou com ele se sente assim. Mas sim, como disse, há um novo regime. Eu acho que há muitas perguntas sobre a franquia em geral com o novo regime. Eu não acho que alguém saiba o que vai acontecer. Mas se há uma coisa que eu aprendi com essa franquia, é “nunca diga nunca”, porque eu certamente pensei que tinha dito adeus a essa personagem muitos, muitos, muitos anos atrás. Então, quem sabe?
Você se lembra do seu primeiro dia de filmagem com essa personagem, quando você colocou o traje e veio para o set?
Sim. Porque estava com o traje completo de borg. E foi horrível. Esse traje de borg foi uma merda. Desculpe meu linguajar. Foi difícil. Sim. Não foi divertido. E eu me lembro do meu primeiro dia na ponte. Eu não acho que foi o meu primeiro dia de filmagem. Eu acho que nós estávamos fazendo as coisas do cubo borg primeiro. No meu primeiro dia na ponte, eu ainda estava com o traje completo de borg, com o laser no olho. E eu nunca estive no set da ponte antes. E eu não sei se você já teve que cobrir um olho, se você já usou um tapa-olho ou algo assim, mas você perde a percepção de profundidade quando tem um olho coberto. Então, sim, eu estou lá tentando parecer intimidante e ser essa borg poderosa e assustadora. E eu estou tropeçando nos degraus, porque eu não percebi que havia degraus na ponte. Foi só… De qualquer forma, sim, eu me lembro disso. Não é muito impressionante.
É uma oportunidade estranha a de explorar uma personagem durante um tempo tão longo. Então, o que mudou da personagem… Você estava falando do traje. Por exemplo, você se sentiria confortável vestindo aquele traje de novo? Ou faria mudanças?
Eu assumo que você está falando do traje colante. É disso que você está falando? Ou o traje de borg completo? Do que estamos falando?
Eu acho que foi o que você já disse, o que foi um pouco incômodo para entrar.
Sim. Bem, eles eram… Nenhum deles era confortável, mas… O traje borg era o que era. Era, você sabe, foi aquele que cortou a minha artéria carótida, pressionou a minha artéria carótida se eu virasse a cabeça, e então eu curvei o pescoço e foi tudo bem. O traje colante era o que era. Era um produto do seu tempo. Eu acho. Eu não acho que eu estaria entrando nisso agora. Mas, você sabe, isso foi nos anos 1990, era um tempo muito diferente. E a razão por que eu estava ok com ele então foi por causa do jeito que a personagem foi escrita, porque era tão o oposto do que a aparência física da personagem era, porque era a antítese completa disso. Essa justaposição fez sentido, fez sentido, pelo menos um pouco. Mas sim, não, eu não estaria vestindo assim.
Em termos de sua carreira em Star Trek, há algo que você deseja que você não fosse perguntada tanto, ou algo que você deseja que fosse perguntado mais?
Essa é uma boa pergunta. Não mesmo. Não mesmo. Honestamente. Há poucas coisas que eu não fui perguntada sobre durante tantos anos dessa personagem, apesar de você ter me feito algumas perguntas que são muito únicas. Não, eu não acho que há alguma coisa que eu me ressinta de ser perguntada, ou odeie ser perguntada, ou deseje ser perguntada menos, porque é tudo parte da personagem e parte do seu legado, durante este enorme tempo. Ela foi um presente como atriz, e há tantos aspectos que, sim, não acho que há algo que eu mudaria sobre isso.
Quando olhamos de volta à introdução de Sete como personagem, e sei que o Brannon [Braga, criador da personagem] falou sobre isso também, seria fácil pensar que havia, havia a audiência, e vamos introduzir esta bela nova personagem, e então, oh uau, nós realmente criamos esta incrível personagem que anos, duas décadas depois, ainda, talvez três décadas depois, ainda ressoa. Mas para você, lá no começo, quão rapidamente você soube que a Sete faria uma diferença nesta franquia, e que Sete faria uma diferença no mundo mais amplo?
Eu não sabia que a personagem seria abraçada, mas eu sabia, eu vi o potencial para o que a personagem era na cena de audição, porque quando a audição originalmente chegou, eu recusei algumas vezes, eu não tinha interesse, e eu não era uma fã do sci-fi naquela época, então eu não sabia muito sobre Star Trek, tudo que eu sabia, eu tinha visto alguns episódios da primeira, da série original, crescendo, e eu sabia que Star Trek tinha uma reputação para os atores sendo marcados e não realmente sendo capazes de se separar para outros projetos, e foi tão cedo na minha carreira, eu não tinha muito interesse em fazer isso, e então, a diretora de elenco chamou meu agente e disse, escute, ela realmente precisa olhar isso, eu acho que vai ser muito especial, então eu li as cenas, eram duas cenas, a primeira era aquela, você sabe, infame, Harry, oh, você deseja copular, tire suas roupas, blá, blá, blá, aquela, que eu sempre odiei, muito óbvia, é muito fácil, o que seja.
A segunda cena, nós acabamos nunca gravando, mas foi, até hoje, é uma das cenas mais bonitas que eu já vi antes ou depois, para qualquer projeto, e foi uma cena, eu acho que era entre a Sete e Chakotay, mas era a Sete tendo sua primeira, tipo, lembrança de rir, basicamente, e eu consegui fazer, porque meu filho tinha dois anos na época, e eu era capaz de me basear na experiência dele, porque ele era um bebê, e ele, sabe, surpreendeu-se rindo pela primeira vez, tipo, ele riu, e, tipo, pulou, e dessa cena, eu vi o potencial dessa personagem, o que podia ser, e, então, eu sabia que, eu sabia que… Eles eram muito francos na Paramount e na UPN, sobre o que isso seria, eles viam essa como a chance de levar Star Trek para o mainstream, eram muito abertos sobre isso, então eu sabia disso, eu não tinha ilusões sobre isso, e eles tiveram sucesso, mas eu também sabia que, enquanto isso era o que recebia a atenção, que, uma vez que as pessoas vissem o que essa personagem faz, presumindo que eu não estragasse tudo, eu acho que eles apreciariam isso, pelo que ela foi, além do que a personagem parecia. Então, o fato de que, você sabe, 20 e tantos anos depois, ainda estamos aqui falando sobre ela, é um presente, e que eu consegui continuar a interpretando por tantos anos, é incrível.
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