GRANDES JORNADAS | Seis episódios de Star Trek que falam sobre nazismo

Episódios de hoje…
“Patterns of Force” (“Padrões de Força”; TOS 2×21, 1968)
Onde assistir: DVD/Blu-ray
“The Killing Game” e “The Killing Game, Part II”
(“O Jogo Mortal, Parte I” e “O Jogo Mortal, Parte II”; VOY 4×18 e 19, 1998)
Onde assistir: Paramount+, PlutoTV*
“Stormfront” e “Stormfront, Part II”
(“Tempestade Temporal, Parte I” e “Tempestade Temporal, Parte II”; ENT 4×1 e 2, 2004)
Onde assistir: Paramount+
“Duet” (“Dueto”; DS9 1×18, 1993)
Onde assistir: PlutoTV*

* Somente dublado

Quando a série original de Star Trek fez sua estreia na TV americana em 1966, a queda do regime nazista na Alemanha tinha pouco mais de 20 anos. Apesar de relativamente recente, Gene Roddenberry e sua equipe não deixaram de fazer um comentário sobre esse período. Muitos anos mais tarde, as demais séries deste universo também abordariam o tema, que foi ficando cada vez mais distante no tempo, mas nem tão longe da realidade, com o recrudescimento de governo autoritários ao redor do mundo. 

“Patterns of Force” (“Padrões de Força”; TOS, 2×21, 1968) é a história que mais diretamente trata do nazismo. O regime tem uma espécie de reedição em um planeta distante por conta da ação de um historiador da própria Frota Estelar. A Enterprise é chamada para tentar encontrar o professor John Gill, que foi enviado como observador a Ekos, e acaba surpreendida por um ataque a bomba, com uso de uma tecnologia que os ekosianos não deveriam ter. A partir daí Kirk e sua equipe já temem que Gill tenha violado a primeira diretriz e interferido com o desenvolvimento de Ekos. 

Mas as surpresas só estavam começando. Não só Gill interferiu, como achou uma boa ideia se inspirar no desenvolvimentismo dos nazistas para impulsionar o progresso em Ekos. Quem poderia imaginar que isso daria errado? Kirk e Spock acabam presos por soldados com roupas iguais às dos antigos nazistas da Terra. Na cela, eles descobrem que até a perseguição a um grupo étnico específico foi copiada pelos nazistas de Ekos. No caso deles, o ódio é dirigido a habitantes do planeta Zeon. A dupla da Enterprise acaba entrando em contato com a resistência local e informada de que o führer do planeta, que aparentemente é o próprio Gill, iria fazer um grande discurso, o que seria uma oportunidade para abordá-lo. 

O capitão Kirk após ser chicoteado por nazistas no planeta Ekos em “Patterns of Force”.

Eles conseguem achar o historiador, que está sob efeito de sedativos, e descobrem que Gill optou por modelar a sociedade de Ekos usando os nazistas como exemplo porque o planeta se encontrava em caos social, uma situação comparável à da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. O regime teve sucesso na recuperação econômica, mas Kirk se surpreende com a inocência de Gill ao achar que poderia implantar um nazismo “higienizado” em Ekos. O regime acabou tomado por um tal Melakon, que se aproveitou do governo autoritário para incentivar a xenofobia e a perseguição, deixando o professor Gill como uma figura decorativa. 

Antes de morrer após levar tiros de Melakon, o historiador reconhece que não deveria ter interferido e que a primeira diretriz estava certa desde o início. Star Trek dá o recado: se algo parece nazismo e se comporta como nazismo, provavelmente vai acabar como o próprio mesmo. 

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Em Voyager, temos mais um exemplo de que brincar de nazismo não dá certo nunca. Em “The Killing Game” e “The Killing Game, Part II” (“O Jogo Mortal, Parte I” e “O Jogo Mortal, Parte I”; VOY 4×18 e 19, 1998), a nave capitaneada por Janeway é capturada pelos hirogens, alguns dos vilões mais assustadores da série e que guardam algumas similaridades com os nazistas. Eles se definem como uma raça caçadora, que vê todos os outros povos como presas inferiores. Dominando a nave, os hirogens querem experimentar com a tecnologia do holodeck. Eles forçam parte da tripulação a fazer modificações que expandem os limites dos simuladores para que ocupem um pedaço maior da nave. Outros oficiais da Frota recebem um implante que suprime sua própria identidade para que, dentro do holodeck, eles possam desempenhar papéis nas simulações achando que aquilo tudo é realidade mesmo. 

Janeway e Tuvok em simulação da França ocupada em “The Killing Game”.

A maior parte do episódio usa um cenário da Segunda Guerra Mundial, na França ocupada pelos alemães. Os hirogens fazem os papéis de oficiais nazistas e Janeway e sua equipe se dividem entre membros da Resistência e soldados aliados. A ideia do líder dos aliens, Karr, é que seu povo aprenda a estudar as presas, seus hábitos, para aprimorar suas habilidades de caça. Mas parte de seus comandados quer mais é matar os tripulantes da Voyager logo.

Claro que a equipe da nave não vai aceitar ser caçada sem revidar. Eles acabam desempenhando um papel de resistência tanto no holodeck quanto na realidade, e aos poucos conseguem se libertar do controle cerebral e lembrar quem realmente são. Karr revela a Janeway que seu objetivo final é concentrar os esforços de seu povo em reconstruir sua civilização. Em vez de ficarem espalhados pela galáxia caçando, os hirogen precisariam se unir, e o holodeck seria o meio de fazer isso, preservando o hábito das caçadas sem precisar dispersar seu povo. Mas um de seus comandados começa a gostar demais do papel de nazista e passa a sabotar os planos de cessar-fogo negociado por Karr e Janeway, se aliando aos soldados alemães holográficos. 

Hirogen vestido como oficial da SS em “The Killing Game, Part II”.

O caso se resolve com a ajuda de sabotagem e uma tropa de guerreiros klingons simulados. Imaginem se tivéssemos essa opção contra os nazistas reais?

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A série Enterprise também mergulha na história da Segunda Guerra Mundial quando o capitão Archer é levado ao passado, mas a uma linha do tempo alternativa, no episódio duplo “Storm Front” e “Storm Front, Part II” (“Tempestade Temporal, Parte I” e “Tempestade Temporal, Parte II”; ENT 4×1 e 2, 2004). Nessa realidade, os nazistas haviam chegado aos Estados Unidos e ganhado o reforço de alienígenas de olhos vermelhos, os na’kuhl, por conta das guerras temporais.  

A Casa Branca decorada com suásticas em “Storm Front”.

As cenas de bandeiras nazistas estendidas na fachada da Casa Branca e as imagens de Hitler nos EUA chocam e lembram um pouco a série O Homem do Castelo Alto (Prime e Netflix). Baseado no livro homônimo de Philip K. Dick, o seriado imagina uma história alternativa na qual os Aliados perderam a Segunda Guerra para os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Assim, parte dos EUA é dominada pelos alemães e parte pelos japoneses (e não há alienígenas envolvidos).

Em “Storm Front”, há uma explicação para o fato de Hitler ter conseguido conquistar o Reino Unido e os Estados Unidos: algum viajante do tempo havia matado Lênin antes da Revolução Bolchevique de 1917. Sem a União Soviética, o líder do Terceiro Reich havia concentrado esforços nas batalhas a oeste da Alemanha. Depois disso, chegam os na’kuhl e se aliam aos nazistas, com o objetivo de usá-los para construir um conduíte temporal para retornar ao século 29, de onde haviam vindo. 

O alienígena Vosk é um nazista na linha do tempo alternativa em “Storm Front, Part II”.

Archer se junta à Resistência americana – curiosamente integrada por ex-mafiosos – para derrotar os alienígenas, que a todo tempo lembram os alemães de que os humanos são uma raça inferior à deles. Que ironia, não?

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Em Deep Space Nine não temos uniformes da SS nem saudações com braço levantado, mas a série toca no assunto o tempo todo. Aqui são os cardassianos que fazem o papel de nazistas do espaço. Eles criam campos de trabalhos forçados para os bajorianos, ocupam seu planeta, tomam as mulheres como amantes à força e têm sua própria sociedade funcionando sob um governo militarista. 

No episódio duplo “Chain of Command” e “Chain of Command, Part II” (“Cadeia de Comando” e “Cadeia de Comando, Parte II”; TNG 6×10 e 11, 1992), ainda em A Nova Geração, aprendemos com gul Madred que Cardássia teve uma história recente de caos econômico, com boa parte da população sofrendo com a fome. A militarização e o expansionismo territorial foram os meios adotados para trazer conforto material aos cardassianos, de novo remetendo à situação da Alemanha do pós-Primeira Guerra. 

O episódio “Duet” (“Dueto”; DS9, 1×18, 1993) mergulha profundamente nos traumas causados pelo regime. Na história, um passageiro chega à estação informando precisar de tratamento médico, mas a doença que ele tem só poderia ter sido contraída em um acidente ocorrido num dos campos de trabalhos forçados instalados em Bajor por Cardássia. A major Kira fica achando que vai encontrar um bajoriano sobrevivente do campo Gallitep, que ela mesma ajudou a libertar. Mas ela encontra um cardassiano chamado Aamin Marritza. O doente alega ser um simples arquivista e nega ter trabalhado no campo. Kira não se convence, e o homem fica preso na estação enquanto a equipe da DS9 investiga suas origens. 

A princípio, a história que ele conta bate com os registros de Cardássia. Kira insiste na investigação e Marritza a acusa de buscar vingança. Pressionado, ele confessa ter estado no campo de Gallitep mas nega ter qualquer envolvimento com os maus-tratos aos bajorianos. A pergunta que se faz diante da aflição de Kira na busca de punição a Marritza é: até onde vai a responsabilidade de um simples burocrata quanto às atrocidades cometidas pelo regime cardassiano? 

O cardassiano Marritza lembra o horror do campo de concentração em “Duet”.

Essa foi a mesma questão abordada pela filósofa Hannah Arendt ao reportar o julgamento do alemão Adolf Eichmann, acusado de organizar a logística de transporte dos judeus a serviço do regime nazista com o objetivo de executar a chamada “solução final”: o extermínio. A história de sua captura e julgamento, contada no livro “Eichmann em Jerusalém”, é uma das inspirações para o roteiro de “Duet”. Não foi Eichmann o responsável por ordenar o extermínio dos judeus. Mas ele executou as ordens que o possibilitaram como parte do seu trabalho, buscando ser o mais eficiente possível, mas sem dar um tiro sequer nem atacando os judeus pessoalmente, somente por meio da burocracia. Daí vem o conceito da “banalidade do mal”: não é preciso ser um monstro assassino para cometer um dos piores crimes contra a humanidade de que se tem notícia. 

Marritza acaba sendo identificado pela equipe do comandante Sisko como gul Darhe’el, o cruel general cardassiano que chefiava Gallitep, por meio de uma foto antiga tirada no campo. Kira quer levá-lo a julgamento por todas as atrocidades cometidas contra seu povo. Marritza assume a identidade do general e fala com orgulho de todas as mortes que ele havia ordenado, enfurecendo Kira. 

Mas Odo descobre que aquilo era uma farsa. O cardassiano era somente um funcionário subalterno de Darhe’el que havia presenciado as barbaridades e nada fez para impedi-las. A culpa havia se tornado insuportável e ele achou que seria importante para Cardássia reconhecer a própria responsabilidade pelo massacre dos bajorianos, por meio de um julgamento de Darhe’el. Por isso, fez uma cirurgia plástica para se parecer com o militar e foi até a estação para ser preso. “Somos todos culpados”, diz Marritza. 

Kira o perdoa e se solidariza com o sentimento dele em relação à responsabilidade coletiva pelas atrocidades cardassianas, mas ele acaba assassinado em plena estação por um bajoriano. Mesmo não sendo o general, Marritza era um cardassiano. Existe culpa coletiva pelo genocídio cometido por um governo? 

Na vida real, no caso da Alemanha, isso foi – e ainda é – muito discutido. Até onde se pode responsabilizar pessoas comuns que não se levantaram contra o regime, até por medo de serem elas mesmas vitimadas pelos nazistas? Como explicar que, ao saber a verdade sobre os campos de extermínio, a maioria se manteve quieta? E que tipo de pena deve ser aplicada nesses casos? Kira se posiciona: cometer mais um assassinato para compensar por milhares de mortes é um erro. Condenar um homem pelos crimes de seus compatriotas é uma injustiça. 

 

Escrita pela jornalista Débora Mismetti, Grandes Jornadas é uma coluna semanal publicada às sextas-feiras no Trek Brasilis, destacando tematicamente segmentos de Star Trek e convidando a uma revisita desses episódios por um ponto de vista diferente.


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