O escritor e diretor Nicholas Meyer fez parte da equipe de roteiristas e chegou a escrever um episódio de Star Trek: Discovery, mas, ao fim, pediu para não ter seu crédito na versão final. Essa foi uma das revelações que ele fez em entrevista exclusiva ao Trek Brasilis, durante sua passagem pela Itália para participar da segunda edição do festival Italian Global Series, que realizou uma celebração dos 60 anos de Star Trek e teve uma pré-estreia da quarta temporada de Strange New Worlds, com as presenças de Anson Mount, Rebecca Romijn e Celia Rose Gooding.
Quando Bryan Fuller foi recrutado para cocriar e ser o showrunner da série que se tornaria Discovery, ele trouxe Meyer para fazer parte da equipe e escrever o segundo episódio da série – algo que ele de fato fez, embora tenha acabado por ficar sem créditos. Agora o escritor explica o que deu errado em sua curta passagem pelo estafe da série.
“Quanto a Star Trek, meus melhores trabalhos – os filmes II, IV e VI – aconteceram quando ninguém estava realmente prestando atenção em mim. Eu trabalhava meio que por conta própria”, diz Meyer. “E, de repente, vi-me em um mundo – ou numa cozinha, se preferir, numa cucina – onde havia cozinheiros demais. E eu vivia esbarrando em gente que dizia: ‘Você não pode fazer isso, não pode fazer aquilo’. Eu respondia: ‘Não estou nem aí para isso. Não é assim que eu trabalho. Não me digam o que posso ou não fazer’. Eu não era uma pessoa fácil de se trabalhar em equipe, porque não queria ceder – com ou sem razão. E é bem possível que eu estivesse errado. Mas é simplesmente o meu jeito.”
Meyer conta que pediu para ter seu nome tirado do episódio e com isso o afastaram da equipe. Mas o episódio malfadado em nada dissipa o brilho das grandes contribuições que ele deu a Star Trek, como diretor e roteirista de Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan (1982) e Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida (1991), além de ter contribuído com o roteiro de Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa (1986). Na entrevista ao TB, ele fala de seu trabalho nesses três filmes, o que torna Star Trek especial, sua relação com Gene Roddenberry e sua sensação de que ainda há muito mais histórias a contar nesse universo ficcional que completa oficialmente 60 anos em 2026.
Leia a seguir, ou assista em vídeo, à entrevista.
Estamos celebrando 60 anos de Star Trek, e você esteve envolvido em grandes sucessos da franquia – sucessos bem diferentes entre si. Embora façam parte da mesma série, você fez um filme de batalha naval, depois uma aventura cômica e, em seguida, um suspense político. Foi essa versatilidade que o atraiu em Star Trek? E isso também seria parte da razão pela qual a franquia perdura há tanto tempo?
Bem, arrisco dizer que a versatilidade da série contribui para a sua popularidade. Sei muitas coisas, mas nem sempre compreendo tudo; portanto, isso é uma suposição. Mas acho que… bem, eu não queria me repetir. Escrevi sete romances de Sherlock Holmes, e nenhum deles é igual ao outro. Não quero ficar me repetindo. Assim, acredito que os três filmes de Star Trek que escrevi – ou nos quais trabalhei na maior parte do roteiro: o II, o IV e o VI – me ofereceram oportunidades distintas de criação. Em A Ira de Khan, eu estava realmente descobrindo como a franquia funcionava e qual era a sua essência. Ao pegar aqueles cinco roteiros anteriores e fundi-los em um roteiro próprio, com meus próprios diálogos, descobri do que o filme tratava. O filme fala sobre amizade. Fala sobre a velhice. Fala sobre um ódio implacável. E fala sobre a morte. E eu desenvolvi a história em torno desses temas.
Já Star Trek IV foi quase como um remake do meu outro filme, Um Século em 43 Minutos (Time After Time). A cidade é a mesma, inclusive; a diferença é que, em vez de o viajante no tempo vir do passado, ele vem do futuro. O modelo, conforme me explicaram, era uma espécie de caça ao tesouro – não sei se você conhece esse termo. Eles precisam encontrar tal coisa para conseguir aquilo e realizar determinada tarefa. Era uma história de “peixe fora d’água”. Eu já havia explorado isso em Um Século em 43 Minutos. Na verdade, cheguei a aproveitar em Star Trek IV elementos que havia cortado de Um Século em 43 Minutos, pois ali eles se encaixavam bem. Funcionaram melhor no quarto filme do que no outro – o que, aliás, foi o motivo de eu tê-los cortado do outro filme.
Quanto a Star Trek VI, a ideia era fazer um suspense político. Aquilo foi realmente uma reflexão. E devo fazer uma pausa para dizer: toda arte – qualquer tipo de arte: música, pintura, dança, não importa – é produto da época em que foi criada. Mozart não soa apenas como Mozart; ele soa como a música da Europa Central do final do século 18. Renoir não tem apenas o estilo de Renoir; ele reflete o Impressionismo francês do final do século 19. E Star Trek também reflete a época em que esses diferentes filmes foram produzidos.
Star Trek VI foi feito no chamado fim da Guerra Fria, quando pensávamos – sabe, quando Francis Fukuyama, de Harvard, disse que o futuro já estava definido. Bem, acontece que ele não sabia tanto assim. Porque talvez estejamos em uma situação pior agora – que é justamente o que Kirk diz no final do sexto filme. Ele diz… bem, Fukuyama afirmou que havíamos chegado ao fim da história. E Kirk diz: “Não acho que tenhamos chegado ao fim da história ainda”. Portanto, na minha visão, todos esses filmes são reflexos… e toda arte é, no fundo, uma história de “recortar e colar”. Você constrói algo novo a partir do que veio antes. O primeiro homem que colocou a mão na parede de uma caverna – o primeiro artista –, tudo isso deriva daquela marca de mão. A Odisseia é uma sequência feita por um fã da Ilíada. A Eneida é uma sequência feita por um fã da Odisseia, e assim por diante.
Assim, construímos com base no que veio antes – seja para melhor ou para pior –, mas somos inevitavelmente um produto da época em que trabalhamos. Quando Star Trek VI foi escrito, a União Soviética estava entrando em colapso. Batizamos nosso Chanceler Klingon de Gorkon porque era o mais próximo que conseguíamos chegar de Gorbachev. E, de fato, nosso filme previu o golpe soviético. Nós o filmamos antes que isso acontecesse. Estávamos na sala de edição quando o Sr. Gorbachev desapareceu, e ninguém sabia se ele estava vivo ou morto.
O estúdio entrou em polvorosa. “Com que rapidez conseguimos levar isso aos cinemas?” E, aliás, os conspiradores eram exatamente iguais aos conspiradores na Rússia: pessoas que não queriam que a Guerra Fria terminasse, que preferiam o status quo ao desconhecido – “a terra desconhecida”, o futuro. As pessoas podiam sentir pavor disso. Eu sinto pavor disso.
É, acho que hoje em dia é uma situação muito tensa, né? Porque não sabemos para onde estamos indo…
Não sabemos para onde nosso presidente está indo. Na verdade, acho que nem ele sabe para onde está indo. Então, estamos todos presos no ônibus.
É, ele está levando o mundo inteiro numa viagem para lugar nenhum. Sei lá. Vamos ver. Bom, vamos falar de Star Trek de novo, porque vi entrevistas recentes suas dizendo que você não se lembrava de ter tido muita interação com Gene Roddenberry. Mas, depois de ler alguns documentos – documentos antigos –, você viu que, na verdade, teve alguns conflitos com ele. Fico imaginando: como você vê o cara hoje? Qual é a sua percepção dele como criador, como pessoa criativa?
Não há dúvida de que Gene Roddenberry deu vida a esse fenômeno e que estava muito à frente de seu tempo em sua visão – sua visão otimista, sua visão igualitária. Tudo isso é notável. Tenho uma espécie de teoria histórica de “Moisés e Josué”: a de que existem dois estágios. O primeiro estágio é o messiânico, no qual Gene Roddenberry cria algo que não existia antes. Seja lá de onde ele tenha tirado a ideia – do nada, por assim dizer –, ele a tornou realidade. Mas, uma vez que a coisa ganha vida, ele não possui necessariamente as habilidades de gestão – a “segunda geração”. Moisés é um profeta.
Moisés tem um caráter messiânico. Mas Moisés não chega a atravessar o rio Jordão. Deus lhe agradece, entrega-lhe o “relógio de ouro”, e diz: “Josué… Josué vai assumir daqui para a frente”. E Josué não é um profeta. Josué é um general. Josué envia espiões à terra de Canaã. Josué é um homem de ação, um realizador. Ele não tem um perfil messiânico. E acho que Gene era uma figura de natureza messiânica.
E a criação de Star Trek – que é dele, ou em grande parte dele – é uma criação de cunho messiânico. Se ele estava bem preparado, seja temperamental ou intelectualmente, para levar o projeto adiante… isso é uma questão em aberto. E, obviamente, minha memória falhou quando me perguntaram se eu havia interagido com ele. Eu disse: “Bom, eu o conheci, mas não acredito que tenha havido algo além disso”, porque ele não estava envolvido em A Ira de Khan. Mais tarde, porém, quando me mostraram correspondências e memorandos trocados entre mim e Gene Roddenberry – depois que ele leu meu roteiro, que ele detestou… detestou. E acho que ele sempre detestou tudo o que fiz com Star Trek.
E acho que há também todas aquelas coisas nas quais ele não deu a palavra final.
Bem, sim, a liderança estava sendo… o bastão estava sendo passado para outra geração. Eu não era o messias, eu era Josué; eu era o homem da execução, aquele que faz as coisas acontecerem. E cada um recria tudo à sua própria imagem. Veja, por exemplo, a Missa Católica. As palavras da Missa Católica são praticamente as mesmas. Temos o Dies Irae, o Agnus Dei, o Ressurrecto, e assim por diante.
É a música que as diferencia. A Missa da Coroação de Mozart e o Réquiem de Verdi são obras totalmente distintas, mas a letra é a mesma. Star Trek é mais ou menos assim: pessoas diferentes trazem sua própria música para o que essas palavras realmente representam em um sentido mais amplo. Você tem a Enterprise, tem a tripulação. O que você pode fazer de diferente? O que pode fazer que combine com a essência deles? Outra forma de dizer isso é: o formato da garrafa é o mesmo. O que muda é a safra, o conteúdo que você coloca dentro dela. E, nesse sentido, eu era muito diferente de Gene. Não é difícil entender a reação dele ao ter que passar o bastão para outra pessoa.
Depois de tantos anos, você retornou a Star Trek para trabalhar em Discovery, integrando a equipe de roteiristas. Mas isso não durou muito, certo? Foi um período conturbado, embora não saibamos exatamente como foi conturbado. Então, queria saber: quais são suas lembranças disso? O que aconteceu lá?
Bem, não sou especialista em como séries de televisão… Eu participei da sala de roteiro quando criamos Medici: Mestres de Florença, pois fui cocriador daquela série. Quanto a Star Trek, meus melhores trabalhos – os filmes II, IV e VI – aconteceram quando ninguém estava realmente prestando atenção em mim. Eu trabalhava meio que por conta própria. E, de repente, vi-me em um mundo – ou numa cozinha, se preferir, numa cucina – onde havia cozinheiros demais. E eu vivia esbarrando em gente que dizia: “Você não pode fazer isso, não pode fazer aquilo”. Eu respondia: “Não estou nem aí para isso. Não é assim que eu trabalho. Não me digam o que posso ou não fazer”. Eu não era uma pessoa fácil de se trabalhar em equipe, porque não queria ceder – com ou sem razão. E é bem possível que eu estivesse errado. Mas é simplesmente o meu jeito.
Entendo. Então isso não durou muito, porque… e eu precisava te perguntar isso: houve um momento em que você ia escrever o segundo episódio.
Eu o escrevi.
É, mas não consta o seu crédito. Você pediu para tirarem o seu nome?
Sim, o episódio foi tão reescrito que já não parecia algo que eu tivesse escrito. Não acho que eu tenha um ego enorme. Acho que, por temperamento, sou uma pessoa até modesta. Mas uma coisa eu sei: eu tenho meio que a minha marca – seja ela qual for, sabe? Pode ser uma marca pequena, mas é minha. É algo com a cara do Nicholas Meyer. E deveria trazer as minhas características. Quando li o segundo episódio finalizado, pensei: “Não posso colocar meu nome nisso. Não soa como algo meu. Não reflete em nada a minha sensibilidade; em nada mesmo”.
E pensei: “Como posso fazer isso diplomaticamente?”. Então disse: “Olha, preciso pedir que retirem meu nome, porque…” – e eu nunca critiquei o trabalho. Nunca disse uma palavra contra ele. A única coisa que eu dizia era: “Eu não escrevi isso”. Então, acho inadequado ter meu nome nele. Eles perguntaram: “Sério?”. E eu respondi: “Sim”. Já não era algo com a cara do Nicholas Meyer. Então tiraram meu nome e me afastaram de Star Trek.
Bom, depois de 60 anos, 13 filmes e cerca de mil episódios… Na sua opinião, Star Trek ainda tem fôlego? Você acha que ainda há caminhos a explorar com Star Trek?
O espaço é bem vasto.
É, verdade. E não chegamos ao fim da história, certo?
Então, primeiro: não chegamos ao fim da história. E outra coisa – não posso falar pelas novas séries, pois não as acompanho muito –, a premissa de Star Trek, a premissa central, pelo que entendo, é que povos, espécies, sexos, gêneros, raças e cores diferentes – pessoas diferentes – podem se unir com boa vontade para realizar um propósito nobre. E, nesse sentido, o único limite para as situações ou exemplos desse ideal que você pode retratar é a imaginação dos roteiristas.
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