Argumento sem inspiração sepulta projeto e entrega fim melancólico a temporada
Sinopse
Data estelar: desconhecida
A Enterprise usa uma manobra de viagem no tempo para retornar ao ano de 1968 e estudar a Terra em um momento crítico de sua história quando a nave é interceptada por um feixe de transporte que viajou por cerca de mil anos-luz. Ao captarem o sinal, um homem se materializa na sala de transporte com um gato no colo. Ele se apresenta como Gary Seven e diz que é um humano do século 20 enviado por uma civilização alienígena em uma missão para proteger a Terra. Kirk não sabe se ele diz a verdade ou não e decide detê-lo. Mas ele logo escapa e se transporta para a superfície.
Ao se instalar em um escritório, ele ativa um computador avançado e tenta descobrir o paradeiro de dois agentes enviados à Terra para sabotar um míssil americano e interromper uma escalada do lançamento de armas nucleares ao espaço. Caso eles não apareçam, Gary Seven terá de assumir a missão deles.
Kirk e Spock descem ao planeta disfarçados para procurar o misterioso viajante, enquanto no escritório ele é encontrado por Roberta Lincoln, uma secretária contratada pelos antigos agentes. Gary Seven demora um pouco para se dar conta de quem ela é, mas então se apresenta como um agente da CIA e a recruta para ajudá-lo enquanto ele assume a missão secreta de seus colegas desaparecidos.
Nisso, Kirk e Spock chegam ao escritório. Enquanto Lincoln os atrasa e chama a polícia, Gary Seven escapa para uma sala adjacente e abre um cofre, revelando um portal. Ao atravessá-lo, ele e sua gatinha Isis vão parar na base McKinley, de onde os EUA pretendem lançar um foguete com uma ogiva nuclear ao espaço. Kirk encontra uma planta da base quando os policiais chegam. Ele pede um transporte de emergência para si e para Spock, mas os policiais são transportados juntos para a Enterprise, mas rapidamente devolvidos à Terra.
Faltam 50 minutos para o lançamento, e Gary Seven se desloca para a plataforma de lançamento para sabotar o foguete. Kirk e Spock vão atrás dele, mas são detidos por um guarda da base. Seven começa a trabalhar no foguete e é localizado por Scotty remotamente, que o leva de volta à Enterprise com o transporte, mas ele desaparece em seguida. É Roberta Lincoln, no escritório, que descobriu o cofre com o portal e inadvertidamente transportou Seven para lá. Ele a convence de que precisa voltar e completar sua missão. Nisso, o foguete é lançado.
Monitorando-o do escritório, ele tenta assumir o controle dele remotamente por meio da sabotagem parcial que chegou a fazer. Desconfiada, Roberta tenta ligar mais uma vez para a polícia, mas, com a ajuda de Isis, Gary Seven a impede. Com o computador, ele muda o foguete de curso. O controle da missão tenta autodestruí-lo, sem sucesso, e agora ele pode atingir a Eurásia. Com a situação monitorada pela Enterprise, Scott tenta contatar Kirk. Spock consegue pegar o comunicador, e os dois são transportados de volta ao escritório.
Lá, Roberta consegue render Gary Seven com um golpe na cabeça. Ele implora que ela acredite nele. Kirk e Spock chegam e o vulcano tenta usar o computador para detonar a ogiva antes do impacto. Gary Seven pede para ajudar. Ainda em dúvida sobre se pode confiar nele, Kirk concorda. Seven impede a catástrofe, e o início de uma guerra nuclear.
Seven faz seu relatório da missão, enquanto Kirk e Spock se despedem dele, destacando que a falha do foguete se deu de acordo com os registros históricos e que levou a um controle mais rígido sobre armas nucleares.
Comentários
Começando pelo final, Assignment: Earth é um episódio que poderíamos classificar como esquizofrênico, dada a sua distância não apenas conceitual, mas também prática em relação ao espírito de Jornada nas Estrelas. Concebido como piloto para uma nova série idealizada por Gene Roddenberry, centrada em um viajante do tempo chamado Gary Seven, o segmento apresenta diversos problemas em suas duas premissas, fracassando em ambas as intenções.
Ao tentar usar a estrutura da Série Clássica como pano de fundo, a ideia concebida por Roddenberry e Art Wallace desfigura o episódio como parte da série original sem conseguir oferecer uma história ou personagens suficientemente interessantes para prender a atenção da audiência nem mesmo por esse breve momento, muito menos para sustentar uma nova série como era a pretensão aqui. 
Logo em seu início, o episódio já tropeça ao colocar a Enterprise em uma missão de “pesquisa histórica” no passado. Trata-se de um argumento claramente criado para justificar a presença da nave e de Gary Seven juntos em 1969, período em que a nova série seria ambientada.
Surge então a primeira inconsistência: uma rápida visita a episódios como “The Naked Time”, “Tomorrow Is Yesterday” e “The City on the Edge of Forever” mostra que até aquele momento viagens no tempo não eram triviais dentro da mitologia da Série Clássica. Pelo contrário, eram sempre acidentais e acompanhadas de sérios problemas, logo não é crível que em tão pouco tempo tais dificuldades tenham sido resolvidas e que a Frota Estelar tenha incorporado esse tipo de missão de forma tão banal como o episódio sugere. 
É verdade que a Série Clássica frequentemente torceu seu próprio cânone, termo que à época nem se aplicava a uma produção tão jovem. Ainda assim, mesmo quando tais liberdades fossem tomadas, o resultado final costumava justificar os meios. Infelizmente, aqui isso não acontece e o segmento oferece uma trama frágil, que até começa como uma aventura intrigante com Gary Seven interceptado pela Enterprise mas rapidamente se transforma em uma narrativa superficial e vazia.
Entre seus vários problemas em nenhum momento o episódio alcança sucesso em convencer o espectador de que a Terra corre um perigo tão imediato que exige uma ação radical para sua solução. O problema proposto — o lançamento de uma estação espacial orbital armada — embora tenha potencial para gerar uma crise geopolítica, entre as potencias não parece um desastre imediato principalmente por que segundo o argumento da historia, outras potencias já teriam feito isso, sendo o fictício lançamento uma resposta, e não uma provocação. Grave? Sem duvida. Capaz de gerar um cataclismo imediato ? Discutível.
A tensão na verdade surge apenas em função da ação desastrada do próprio “superagente secreto espacial”. Essa premissa de interferência do futuro (no caso, Kirk e Spock) que deveria ser evitada mas acaba gerando os “eventos históricos” conhecidos e documentados seria explorada em outras ocasiões dentro da franquia e em séries de ficção científica em geral sempre com dificuldade de soar convincente.
Se a premissa poderia ser recuperada o mesmo não se pode dizer da condução do episódio. Longas sequências monótonas recheadas de diálogos expositivos e pouco imaginativos tentam explicar não apenas a trama mas também o contexto em que ela se desenvolve.
Destaca-se o extenso diálogo entre Gary Seven e seu computador temperamental, seguido pela interação com sua futura assistente, Roberta Lincoln (Teri Ann Garr). A cena é demasiadamente longa mesmo para os padrões da época e deselegantemente expositiva. Além disso falha completamente em suas tentativas de humor transformando Roberta, uma personagem com potencial em um alívio cômico que se torna respetivo ao longo do segmento, e consequentemente tornando as piadas desinteressantes.
Essa tentativa frustrada de humor contribui ainda mais a comprometer a percepção de um clima de tensão e perigo imediato, que seria essencial para o funcionamento do episódio. Tomadas longas como a interminável caminhada de Kirk e Spock até o apartamento onde se desenrola a “ação” apenas para testemunhar Seven desaparecer antes que pudessem capturá-lo, os longos diálogos de Seven com o B5 e Roberta. 
A história é tão mal amarrada que Gary Seven chega a lembrar um agente do Controle. Os diálogos sugerem que ele não tem ideia do que seriam os agentes 201 e 347. Além disso, é estranho que esses agentes tenham morrido em um acidente de carro a caminho do lançamento do míssil, quando poderiam simplesmente ter usado o dispositivo disponível no apartamento, como o próprio Seven, evitando o acidente.
Na prática, a trama envolvendo os protagonistas da eventual nova série se resume a isso. A partir daí, os eventos na plataforma de lançamento e de volta ao apartamento tornam-se protocolares e ainda menos interessantes. Não por acaso, pouco se fala de Kirk, Spock ou de qualquer outro membro da tripulação, já que sua participação é meramente decorativa, sem relevância real para a história.
Em resumo temos uma historia pouco inspirada, dialogos desinteressantes, personagens sub utilizados, um trabalho de direção pouco inspirado de Marc Daniels, certamente limitada pelas limitaçoes de orçamento, uma vez que esse segmento, apesar pretender funcionar como um piloto de serie, o que geramente costuma exigir um orçamento maior, contava com o mesmo dinheiro de um segmento normal da serie, premissa que certamente contribuiu para o resultado final.
E esse resultado é uma narrativa sem inspiração, um mistério desinteressante e uma montagem excessivamente apoiada em imagens reais do lançamento do foguete Saturn V e das missões Apollo 4 e 6, usadas de forma repetitiva e que tornam o ritmo ainda mais lento. Um enorme desperdício de tempo e recursos em um material totalmente esquecível — tão esquecível quanto a aparição final do alter ego da gata de Gary Seven.
Avaliação




Citações
“What do you make of the cat, Mister Spock?”
“Quite a lovely animal, Captain. I find myself strangely drawn to it.”
(O que o senhor acha do gato, Sr. Spock?)
(Um animal adorável, Capitão. Sinto-me estranhamente atraído por ele.)
Kirk e Spock
“You’re right, Isis. It is primitive. It’s incredible that people can exist like this.”
(Você tem razão, Isis. É primitivo. É incrível que as pessoas possam existir assim.)
Gary Seven
“Mister Seven, I want to believe you. I do. I know this world needs help. That’s why some of my generation are kind of crazy and rebels, you know. We wonder if we’re going to be alive when we’re thirty.”
(Senhor Seven, eu quero acreditar no senhor. Quero mesmo. Eu sei que este mundo precisa de ajuda. É por isso que alguns da minha geração são meio loucos e rebeldes, sabe? A gente se pergunta se ainda estaremos vivos aos trinta.)
Roberta
Trivia
- “Assignment: Earth” foi originalmente concebido como um episódio piloto para uma série derivada de Star Trek: A Série Clássica. A série nunca chegou a ser produzida, mas Gary Seven posteriormente apareceu em diversas histórias em outras mídias derivadas.
- ”Assignment: Earth” finalmente virou série em em quadrinhos no ano de 2008 quando a IDW Publishing produziu uma minissérie em quadrinhos inspirada na ideia original da série. Star Trek: Assignment: Earth é uma minissérie em quadrinhos de cinco edições que narra as aventuras de Gary Seven e Roberta Lincoln e se trata de uma sequencia direta dos eventos do episódio de TV homônimo.
- O escritório de Gary Seven fica na East 68th Street, mesma rua de Nova Iorque onde moravam os personagens da série da Desilu I Love Lucy.
- O computador de Gary seven usa partes reaproveitadas do M5, visto em “Ultimate Computer”.
- O centro de lançamento de foguetes usa vídeos da NASA com material gravado na área externa do estúdio da Paramount. As imagens são do lançamento do foguete Saturn V usado no programa Apollo para levar humanos à Lua e foi lançado 13 vezes do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Nesse episódio são usadas imagens do lançamento da Apollo 4.
- Em 1967, um ano antes da exibição do episódio, foi aprovado e assinado e aprovado pela Assembleia Geral da ONU o Tratado do Espaço Exterior que estabelece, entre outras itens, que os estados não devem colocar armas nucleares ou outras armas de destruição em massa em órbita ou em corpos celestes, nem estacioná-las no espaço exterior de qualquer outra forma. Como a notícia do tratado ocorreu muito já próximo da produção do episódio, a equipe de produção optou por manter o roteiro tal qual foi escrito.
- O ator cotado para protagonista para a desejada nova serie tem um portfólio extenso, onde constam trabalhos para teatro, cinema e TV, incluindo participação em series e tele filmes. Robert Lansing é provavelmente mais conhecido por seu papel como o Brigadeiro-General Frank Savage na primeira temporada da produção de Quinn Martin, 12 O’Clock High, série dramática de televisão sobre pilotos de bombardeiros americanos durante a Segunda Guerra Mundial que foi ao ar na rede de televisão ABC de 1964 a 1967. Lansing morreu aos 66 anos vitima de câncer de pulmão.
- Teri Ann Garr (11 de dezembro de 1944 – 29 de outubro de 2024) já estava escalada como protagonista caso a nova serie fosse aprovada. A atriz seguiu carreira e teve papeis em filmes importantes como Young Frankenstein (1974), Close Encounters of the Third Kind (1977), One From the Hearth (1982) e After Hours (1985). Em 1982 foi indicada ao Oscar de melhor atriz (coadjuvante/secundária) por seu papel em Tootsie. Teri sofria de esclerose múltipla e faleceu devido a complicações da doença em 29 de outubro de 2024, aos 79 anos.
- Spock cita alguns possíveis eventos históricos críticos na data em que o segmento se estabelece: “Haverá um assassinato importante hoje, um golpe de Estado igualmente perigoso na Ásia e, o que pode ser crucial, o lançamento de uma plataforma orbital de ogivas nucleares pelos Estados Unidos, em resposta a um lançamento semelhante por outras potências.” Seis dias depois após a exibição do episódio, em 4 de abril de 1968, de Martin Luther King Jr foi assassinado, no mesmo dia do lançamento do foguete Saturno V da missão Apollo 6.
- “Watcher”, da segunda temporada de Picard remete diretamente a esse segmento. Nele somos apresentadas a “Observadora”, uma “Supervisora” do mesmo grupo a que Gary Seven pertencia. No segmento, quando a Observadora diz o nome Picard, ela bate no ombro e eles são levados por uma nuvem de fumaça azul quadrada, muito semelhante ao método de viagem empregado por Gary Seven.
- Ainda na segunda temporada de Star Trek: Picard, é estabelecido que Wesley Crusher também se tornou um Supervisor, e o personagem seria visto novamente em Star Trek: Prodigy na mesma capacidade.
Ficha Técnica
História de Gene Roddenberry e Art Wallace
Roteiro de Art Wallace
Dirigido por Marc Daniels
Exibido em 9 de Março de 1968
Título em português: “Missão: Terra” (AIC-SP), “Missão:Terra” (VTI-Rio)
Elenco
William Shatner como James Tiberius Kirk
Leonard Nimoy como Spock
DeForest Kelley como Leonard H. McCoy
James Doohan como Montgomery Scott
Walter Koenig como Pavel Andreievich Chekov
Nichelle Nichols como Uhura
George Takei como Hikaru Sulu
Elenco convidado
Robert Lansing como Gary Seven
Teri Ann Garr como Roberta Lincoln
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Edição de Carlos Henrique B Santos e Salvador Nogueira
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