A primeira temporada de Star Trek: Starfleet Academy chegou ao fim com o episódio “Rubincon“, um desfecho que amarra as pontas soltas da trama inicial e coloca a própria Federação em julgamento, reforçando os ideais clássicos da franquia em meio a dilemas éticos contemporâneos.
Em entrevista exclusiva ao TrekMovie, os produtores executivos e showrunners Alex Kurtzman e Noga Landau revelaram que o final foi planejado desde o início, mas sofreu uma reformulação drástica semanas antes das filmagens:
Alex Kurtzman: Primeiro é que tudo o que acontece no final foi planejado desde o início. Dito isso, a maneira como fizemos mudou radicalmente cerca de duas semanas e meia antes de começarmos a filmar. Nós meio que descartamos nossa história e decidimos: começos são muito mais fáceis, certo? Porque com começos você levanta muitas questões, deixa muitos mistérios no ar e prende a atenção do público sem respondê-las. Mas eventualmente a conta chega e você tem que respondê-las. E sabíamos que havia muito a ser explorado em relação ao que havia sido estabelecido no episódio piloto e ao que obviamente havia sido desenvolvido ao longo da temporada.
Então, Noga e eu nos olhamos e dissemos: teremos nove episódios realmente ótimos e um que não vai ter um final tão bom, e precisamos consertar isso. Podemos continuar colocando curativos ou podemos arrancar o curativo de uma vez e dizer que precisamos reconstruir a base da história. E foi o que fizemos. Acabamos preparando um esboço. As primeiras cenas a serem filmadas eram as do julgamento, então as escrevemos primeiro e, na verdade, elas não mudaram muito em relação ao primeiro rascunho. O que é raro, mas simplesmente não havia tempo. Então, não houve surpresas em termos do que queríamos dizer, mas mudamos bastante a estrutura.

Qualquer instituição deveria ser capaz de resistir ao rigor do escrutínio. Deveria ser capaz de vencer o julgamento, inclusive a Federação. E é por isso que acreditamos tão fervorosamente na Federação e na Frota Estelar, a ponto de estarmos dispostos a levá-la a julgamento. E certamente isso já foi feito antes em iterações anteriores de Star Trek. Também acho que cada geração de Star Trek precisa ter algo a dizer ao mundo. E acho que, atualmente, vivemos em um mundo onde as pessoas abrem suas redes sociais várias vezes ao dia e são constantemente bombardeadas com informações sobre os mocinhos e os vilões, sem meio-termo ou nuances em qualquer discussão. Acho que foi muito importante lembrar ao nosso público, neste episódio final, que não há problema em simpatizar com Nus Braka. Não há problema em parar e entender de onde ele vem e por quê. Quais são as forças que o moldaram? Por que ele escolheu a brutalidade? Assim como não há problema em questionar as ações da Frota Estelar, em questionar a Federação. A diferença para nós, na narrativa, é que a Federação é capaz de resistir aos rigores de um julgamento. Ela consegue usar sua própria genialidade, a ciência e a empatia para vencer. Mas alguém com a mentalidade de Nus Braka não consegue.
A alegoria da separação de crianças (ecoando o piloto) e do muro de minas reforça lições atemporais típicas de Star Trek. Landau enfatizou que a série busca honrar a visão de Gene Roddenberry acima de tudo:
Acho que é uma alegoria universal, como toda boa série de Star Trek. Deve funcionar na época em que foi ao ar, mas funciona em qualquer época. E acho que a mensagem universal é: não separem as crianças de seus pais. Isso sempre funciona. Não deixem que um vilão leve a melhor e os prenda em uma parede, ou os persiga por motivos errados. Essas são lições atemporais. E é uma história atemporal que contamos na primeira temporada. Acho que as pessoas certamente vão assistir e dizer: “Ah, isso é sobre agora”, ou sobre 10 anos atrás, ou sobre 50 anos atrás. Tudo é relevante. Depende de como você interpreta o que está assistindo.
Ao ser questionada se havia alguma mensagem política intencional sendo transmitida, especialmente diante de interpretações que o público poderia fazer, Noga Landau destacou que, comparada a outras salas de roteiristas, Starfleet Academy é consideravelmente menos focada em agendas políticas explícitas:
O que mais nos preocupa é: estamos honrando a visão de Gene Roddenberry? Estamos honrando os 60 anos que nos antecederam? Estamos mostrando adequadamente o que a Frota Estelar faria, o que a Federação faria sob essas diversas circunstâncias? E se as pessoas se identificarem ou enxergarem conotações políticas atuais nas histórias que contamos, ótimo. Mas não precisam. Nós realmente nos esforçamos para garantir que, independentemente do que aconteça, estejamos sempre fiéis ao que Star Trek sempre representou e aos valores que surgiram décadas antes do momento atual.
Um detalhe que intrigou muitos fãs no episódio final foi a participação do Doutor holográfico — interpretado por Robert Picardo — e como ele conseguiu compreender tão rapidamente a natureza das partículas envolvidas na ameaça do vilão. Noga Landau revelou que discutiu extensamente essa cena com Robert Picardo antes das filmagens, explorando exatamente o que se passava na “mente” do personagem — a frustração de ter a resposta na ponta da língua, mas não conseguir transmiti-la. Quanto à forma como o Doutor descobriu como estabilizar a perigosa partícula Ômega 47, Landau apontou uma conexão direta com o legado de Star Trek: Voyager:

O episódio de Voyager “The Omega Directive” (A Diretiva Ômega) influenciou muito o que fizemos no final da temporada, e como o Doutor fez parte dessa história viva, ele possui séculos de conhecimento e insights científicos sobre partículas ômega de maneiras que os outros membros da nossa tripulação não têm. É por isso que ele acabou descobrindo a resposta sobre os glúons antes de qualquer outra pessoa.
Desde o início de Starfleet Academy fica explícito que a USS Discovery não viria para resolver a crise, mesmo que Academy se conecta diretamente ao universo de Discovery. A nave e sua capitã são mencionadas em diálogos, mas nunca aparecem em cena, o que levantou debates sobre se essa ausência foi intencional ou se houve discussões internas sobre incluí-la, como explica Kurtzman:
Isso nunca foi uma opção para nós. Não queríamos fazer isso. As menções à nave Discovery têm a ver com o fato de estarmos vivendo na mesma linha do tempo. E se você está lidando com um problema tão grande quanto o que acontece no final do episódio 9, a questão de repente se torna: por que a Discovery, que tem a capacidade de atravessar a rede micelial e contornar essa situação, não pode simplesmente aparecer e salvar o dia? E a resposta é: porque não pode. Porque poderia detonar as minas. Então, se não a mencionássemos, seria estranho, porque qualquer um que estivesse rastreando a tecnologia disponível na linha do tempo de repente pensaria: “Espere, por que vocês simplesmente não fazem isso?”. Mas acho que teria sido provavelmente o final mais barato e insatisfatório do mundo se a Discovery aparecesse, porque aí nossos personagens não teriam que confiar em si mesmos para resolver o problema.
No episódio final, o arco de Caleb Mir chega a uma conclusão que parece fechar o ciclo iniciado no piloto. Questionada se a história pessoal de Caleb continuará sendo um foco central nas temporadas seguintes, Noga Landau respondeu que a segunda temporada amplia o olhar para o elenco como um todo, aprofundando as dinâmicas entre os cadetes e os instrutores.

Sim, a segunda temporada tem um foco maior no elenco. Mas também acho importante estabelecer uma conexão com um ponto anterior da história do Caleb na primeira temporada. Além disso, acho fundamental que o público veja um personagem percorrer a jornada que ele percorre, aprendendo que não há problema em amar a Frota Estelar e em se tornar parte dela. Muitos jovens têm sido bombardeados, durante anos, com mensagens que os levam a odiar certos grupos de pessoas, a desconfiar de certos grupos. Isso não é exclusivo desse público, mas é algo implacável para eles por causa das redes sociais. E acho que foi muito importante, na narrativa, mostrar como, na maioria das vezes, na experiência humana, quando você convive com as pessoas ou instituições que lhe disseram que você deve odiar, você começa a ter uma visão muito mais complexa de quem elas são. Você as vê como indivíduos. Você as vê como pessoas com as melhores intenções, que você pode questionar se precisar. E que, com o tempo, você pode até descobrir que seu lugar é com eles, com pessoas que lhe disseram que deveriam ser seus inimigos. E é isso que torna a Frota Estelar tão duradoura. Há um lugar para cada pessoa ou alienígena na galáxia dentro da Frota Estelar.
Sobre as diferenças entre as temporadas, Landau prometeu que a segunda investirá ainda mais no que funcionou bem na primeira, aprimorando os elementos mais fortes: episódios centrados nos personagens, dilemas éticos clássicos de Star Trek e explorações profundas dos cadetes e instrutores. Ela citou como exemplo o episódio 104, focado em Jay-Den e nos Klingons, que capturou bem o espírito da série e serviu de inspiração para dobrar a aposta nesse tipo de narrativa na temporada seguinte.
Quanto ao futuro de vilões, com Paul Giamatti (Nus Braka) fora da segunda temporada, Landau esclareceu que o antagonismo não virá de uma única figura carismática, mas de um dilema impossível — algo mais alinhado ao estilo clássico de Star Trek, onde o conflito surge de escolhas morais complexas enfrentadas pela Frota Estelar como instituição.
Sobre o final da segunda temporada (ainda sem data para estreia), Landau confirmou que será um “final em aberto”, com um gancho claro para uma possível terceira temporada. Landau expressou esperança de que haja muitas temporadas pela frente, já que há ainda muito material e histórias a explorar:
Honestamente, é porque ouvimos o que a nossa história queria ser e seguimos essa linha. Escrevemos de uma forma que pareceu orgânica e natural. E espero que possamos continuar produzindo muitas outras temporadas de Starfleet Academy, porque temos muito mais história para contar.
Star Trek aguarda decisões da nova era Paramount-Skydance
Quando a Skydance assumiu o controle da Paramount, trouxe consigo uma reestruturação imediata que incluiu a reformulação do desenvolvimento das franquias do estúdio. Pela primeira vez em mais de uma década, nenhuma série de Star Trek está em produção ativa ou com encomenda confirmada para novas temporadas, criando um hiato que deixa fãs em alerta.
O cenário se complicou um pouco mais com o anúncio recente de que a Paramount concordou com a aquisição da Warner Bros. Uma operação de grande escala que, se concluída, resultará na fusão dos serviços de streaming Paramount+ (plataforma exclusiva de Star Trek na TV) e HBO Max (atual Max). Apesar de a nova liderança da Paramount reiterar publicamente o valor estratégico de Star Trek para o portfólio da empresa, o processo de integração corporativa deixa muitas perguntas sem resposta.
Perguntado pelo TrekMovie quanto ao futuro da série Starfleet Academy e da franquia, Kurtzman confirmou ter um plano de quatro anos para a série e disse que conversas com a nova liderança da Paramount Skydance estão em andamento.
Seu contrato com a CBS Studios e a Paramount expira em 2026, o que torna o momento ainda mais crítico. Ele havia antecipado em janeiro que iniciaria essas conversas logo após concluir a direção do episódio final da segunda temporada de Starfleet Academy, meta que agora foi alcançada, mas observou que a situação é ainda extremamente complexa:
O que posso dizer, honestamente, é que não se trata apenas do que a Skydance quer para a série de TV de Star Trek. A Skydance também acabou de comprar a Warner Brothers. Então, há uma quantidade inacreditável [risos] — tipo, é uma quantidade quase inconcebível de coisas organizacionais para decidir, certo? Eles estão no meio disso — não é como tentar beber água de uma mangueira de incêndio, provavelmente são dez mil mangueiras. E, como resultado desse enorme período de transição, tudo está acontecendo mais lentamente. E isso não é exclusivo de Star Trek. É algo generalizado. Ao mesmo tempo, eles estão se movendo o mais rápido que podem e devem, porque querem ser cautelosos e metódicos.
Apesar das dificuldades, Kurtzman manteve um tom positivo e realista:
Sim, conversei com eles sobre o futuro de Star Trek. Sim, só recebemos apoio. Sim, houve séries específicas que foram discutidas. E veremos. Estou realmente no início das conversas com eles agora. Então, hesito em dizer qualquer coisa, porque ainda não tenho nada para relatar. Mas posso dizer que as conversas estão acontecendo.
Questionado sobre o que queria dizer com “séries específicas” em discussão, ele esclareceu que isso inclui tanto “novas séries” quanto “as séries que já temos”.
A quinta e última temporada de Strange New Worlds estão com suas filmagens concluídas, e os produtores aguardam aprovação para Star Trek: Year One, um spin-off que narraria o primeiro ano da USS Enterprise sob o comando de James T. Kirk (Paul Wesley), com sets preservados para facilitar uma eventual produção. Em relação a novas séries, temos como destaque para a comédia live-action co-escrita por Tawny Newsome e Justin Simien, com roteiros já finalizados no final do ano passado e à espera de sinal verde, assim com a terceira temporada de Starfleet Academy.
No fim das contas, o destino de Star Trek na televisão está sendo traçado nos bastidores da nova Paramount Skydance, em um contexto de fusões corporativas, reestruturações e integração de ativos da Warner Bros. Discovery. O caminho pode levar à expansão com novas séries, à renovação de projetos atuais ou até a uma pausa estratégica enquanto a empresa redefine prioridades. O futuro do comando de Kurtzman e sua equipe segue indefinidos, e o desfecho dependerá das decisões que emergirem dessa fase de redefinição.
A primeira temporada de Starfleet Academy está disponível no Paramount+
Fonte: TrekMovie
[redes]
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