A internet chegou tarde no Brasil – mas não atrasada quanto a TV a cabo. Para os acadêmicos de São Paulo e do Rio de Janeiro, aconteceu em 1988, em conexões com instituições de pesquisa estrangeiras por meio de uma precursora da internet chamada Bitnet. Passou boa parte dos anos 1990 restrita a universidades e centros de pesquisa, com algumas poucas iniciativas isoladas de expansão até a fundação do Comitê Gestor da Internet no Brasil, em 1995. A partir daí, a estrutura decola: o primeiro indexador brasileiro, chamado Cadê?, surge nesse ano, bem como os primeiros sites. O UOL (Universo Online), primeiro grande portal, é fundado em 1996, atuando também como provedor de acesso.

Página do site Cadê, criado em 1995, um equivalente dos gringos Yahoo! e Altavista. (Crédito: Reprodução)
Os trekkers estavam mais que prontos para a revolução. Àquela altura, os mais propensos ao uso precoce de novas tecnologias já estavam acostumados à ideia de computadores interconectados agindo como terminais de um servidor, por meio dos BBS (Bulletin Board Systems). A maior e mais famosa a surgir no país foi criada por Aleksandar Mandic, em 1990. Na Mandic BBS, usuários conectados por meio de um modem plugado à linha telefônica podiam ter acesso a textos, trocar mensagens entre si, fazer download e upload de arquivos. Mais tarde, a Mandic se tornaria uma das pioneiras provedoras de acesso à internet.
A partir de 1996, o crescimento seria explosivo no Brasil. Dali a um ano, já eram quase 2 milhões de usuários, e pela primeira vez a declaração do imposto de renda era entregue pela internet (um sintoma amargo da maturidade da rede). Os fãs começaram a migrar em massa para a World Wide Web, onde podiam encontrar uma quantidade sem precedentes de informações e imagens, ainda que limitadas pela lentidão das conexões da época (algo como 30 Kbytes por segundo era um espetáculo então).
O Organia, de Minas Gerais, foi um dos grupos pioneiros. Criado por Alan Bernini, Fabiano Guilherme de Souza e José Guilherme Wasner Machado, o fã-clube estabeleceu-se online em 1996, com um site que logo se tornou referência. Outros fã-clubes se seguiram, mas em geral focados em aspectos mais institucionais, menos em notícias. A Federação da Frota Estelar de São Paulo (FFESP), fundada em 1998, foi um desses clubes que tentaram usar a rede para crescer.
“Pensei em usar a internet para encontrar gente que gostasse de Jornada. E a coisa acabou crescendo, já que pessoas encontravam o fã-clube em sites de busca e espalhavam a notícia boca a boca”, contou o bancário e “almirante” Wilton Mendonça, fundador do grupo, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em 2001. “Antes da rede, eu tinha até de pagar para conseguir informações sobre a série com outros fã-clubes. Agora, somos 600 ‘tripulantes’ trocando ideias”, completou.

Wilton Mendonça, fundador da FFESP, em 2016. (Crédito: Reprodução)
Mendonça acabaria descobrindo que encontrar os fãs online não era tão fácil quanto reuni-los num mesmo lugar, e os eventos da FFESP nunca ganhariam a tração da sua rival “paga”, a Frota Estelar Brasil. A realidade estava se transformando rapidamente no fandom.
Comunidades inteiras começavam a se desenvolver no ambiente virtual, com interação diária, nas chamadas listas de discussão — uma ferramenta da internet que permitia a um grupo de pessoas com interesses em comum a troca de mensagens entre todos os membros do grupo via e-mail. A primeira delas com grande destaque entre os trekkers foi a Trek-BR, que reuniu mais de cem pessoas de vários estados do Brasil.
No ano seguinte foi criada outra lista, essa bem mais movimentada (e palco de algumas polêmicas). Era a Lista da Frota Estelar Brasil. Ligada ao famoso fã-clube, chegou a ter mais de 400 membros, sendo muitos não sócios da entidade. O fluxo de mensagens era enorme, com cerca de 300 por dia. Seu moderador era Edson Santos, codinome Zullu.

Encontro de integrantes da Lista da Frota Estelar Brasil durante uma convenção em 1999, no Anhembi. (Crédito: Marli Helena Cocco)
Nos Estados Unidos, as coisas estavam mais avançadas. A primeira pegada oficial de Star Trek na web foi o site StarTrek.com, registrado em 1994 e usado naquele ano para promover o lançamento de Jornada nas Estrelas: Generations. A mesma plataforma, no ano seguinte, também começou a reunir conteúdo sobre a então novíssima série, Voyager, e em 1996 a Paramount decidiu que havia dinheiro para ser feito com aquela nova plataforma e reformatou o site como Star Trek: Continuum, com acesso exclusivo para membros da Microsoft Network, pelo endereço startrek.msn.com. A coisa de “fechar” o conteúdo para assinantes não deu muito certo, e o estúdio decidiu migrá-lo de volta ao endereço original em 1998, reformulado como StarTrek.com, onde perdura até hoje (com vários percalços e interrupções pelas décadas seguintes).

Logo do site fechado oficial, Star Trek Continuum, na MSN. (Crédito: Reprodução)

Diagramação da primeira versão aberta do StarTrek.com, após 1998. (Crédito: Reprodução)
Em paralelo, começaram a surgir sites de fãs dedicados especificamente a cobrir as notícias da franquia. TrekWeb, fundado pelo americano Steve Krutzler em 1996, e TrekToday, criado pelo holandês Christian Höhne Sparborth em 1999, foram dois dos que se destacaram naquele período.
Salvador Nogueira era então um jovem estudante de jornalismo prestes a conseguir seu primeiro emprego no jornal Folha de S.Paulo quando decidiu criar uma versão brasileira desses sites, focado em notícias de Jornada nas Estrelas. Em 24 de setembro de 1999, nascia o Trek Brasilis. Após alguns percalços, que incluíram cerca de três meses sem atualização, a página foi descoberta por outro jornalista, Fernando Penteriche, que entrou em contato e se ofereceu para ajudar. Dali em diante o site decolou. No ritmo da internet, rapidamente assumiu o posto como a principal fonte de informação do trekker brasileiro.

Trek Brasilis em três momentos: 1999 (acima, à esquerda), 2000 (abaixo, à esquerda) e 2001-2002, no formato que perdurou até 2007. (Crédito: Trek Brasilis)
DIVISOR DE ÁGUAS
Informar-se sobre o que acontecia no mundo de Star Trek não era nada fácil antes da rede mundial de computadores. Para isso, fã-clubes e fanzines forneciam um serviço essencial. Baseados em contatos privilegiados no exterior e acesso difícil a revistas importadas, podiam tentar traduzir para cá as novidades, mas disseminá-las num ritmo ainda modesto, comparado ao imediatismo que viria mais tarde. Não era fácil ser rápido, nem atingir grande público.
Quem chegou mais perto de resolver a equação sem a internet foi o fã-clube Frota Estelar Brasil. Em abril de 1995, o grupo criaria a Trekline, mais tarde rebatizada Frotaline. Funcionava assim: o fã ligava para um número de telefone e ouvia uma gravação, em geral uma nota trazendo alguma novidade da franquia ou algum aviso mais urgente do clube, como a realização de uma convenção.
Foi um uso criativo e inovador de um serviço terceirizado de secretária eletrônica, usado por pessoas e empresas para receber seus recados sem precisar dispor de uma linha de telefone dedicada a isso (hoje linhas telefônicas dão em árvore, mas naquela época eram de difícil e caríssima aquisição). “O que a Frota fez foi ‘inverter a polaridade’, utilizando o serviço de um modo muito criativo: em vez de o fã ligar e deixar recado, ele ligava para ouvir a ‘saudação’, que era alterada todos os dias com notícias sobre o mundo trekker”, conta Susana Alexandria, que chegou a gravar muitas notas para o serviço a partir de 1998, antes de se revezar com Marcos Kleine na função e, por fim, passar a bola a Silvia Reis, que levaria a Frotaline até 2002, quando foi descontinuada. Era brilhante, era cativante, mas, àquela altura, era obsoleta.
A verdade é que, depois do frenesi visto durante toda a década de 1990, não só pelo crescimento exponencial de Star Trek no exterior como também pela falta de acesso a informações e episódios no Brasil, a bolha dos fã-clubes começou a estourar. Entre 1998 e 1999, vários deles encerraram suas atividades, cada um por seus motivos, mas todos sob o mesmo pano de fundo – sua existência já não parecia mais imprescindível.
O Jetcom, no Rio, encerrou suas atividades em 1998; o Grupo Avançado, no Ceará, em 1999. O Estação Genesis, do Pará, e o Organia, de Minas Gerais, em 2003. Em alguns locais, o movimento ganhou uma sobrevida com grupos saudosos das antigas reuniões, como foi o caso da Reunião Trekker, série de eventos mensais promovidos por Luiz Castanheira, no Rio de Janeiro, em parte para suplantar a falta dos encontros do Jetcom, em parte para mais rapidamente atualizar os fãs com relação aos avanços da franquia nos Estados Unidos. Entre 1998 e 2003, foram exibidos mais de 160 episódios – mas eles também pareciam cada vez menos ser um motivo bom o suficiente para reunir muitos fãs num mesmo lugar – algo que também estava sendo sentido na Frota Estelar Brasil, o maior de todos os fã-clubes. Ela ainda tentaria se reinventar mais uma vez, a fim de resgatar seus melhores dias, enquanto a TV a cabo e o advento do DVD iriam fechando cada vez mais a brecha entre os trekkers brasileiros e suas séries favoritas.
QUATRO HORAS, QUATRO SÉRIES
Em que pese a fama inicial de “safados”, os Sábados de Sci-Fi no USA Network produziram um ótimo resultado para o canal da Globosat a partir de 1998, com a estreia de episódios inéditos de A Nova Geração, além dos remanescentes da Série Clássica. Natural então que a direção optasse por expandir sua aposta na franquia, aumentando sua pegada na programação, ao lado de outras séries de ficção científica de destaque, como Seaquest DSV, Terra: Conflito Final (esta baseada em uma premissa de Gene Roddenberry), Sliders, Além da Imaginação (clássica) e Quinta Dimensão (nova versão).

Imagem promocional de Terra: Conflito Final. (Crédito: Roddenberry Entertainment)
Em setembro de 2000, o USA anuncia a chegada de novos episódios de A Nova Geração, referentes às temporadas quatro e cinco daquela série, além da aquisição da primeira (já exibida anos antes pela Record) e segunda temporadas de Deep Space Nine (agora com seu nome original, dispensando o estranho A Nova Missão) e a estreia de Voyager, também com as duas primeiras temporadas. A partir de 7 de outubro de 2000, os Sábados de Sci-Fi seriam ocupados das 15h às 19h com as diversas séries de Jornada nas Estrelas em episódios inéditos. E, em 2001, o canal encomendaria mais três temporadas, a sexta de A Nova Geração e as terceiras de Deep Space Nine e Voyager, que iriam ao ar a partir de abril daquele ano. Era uma avalanche sobre os trekkers – e boas notícias para os exibidores. Em setembro, para comemorar os 35 anos da franquia, o USA promoveu um Star Trek Weekend, maratona que assegurou ao canal a liderança de audiência em seu segmento na TV a cabo.

O Trek Brasilis, àquela altura, já começava a descobrir a dor e a delícia de cobrir nacionalmente o universo trekker. Além de reportar sobre eventos realizados por todos os fã-clubes (pagos ou não), o site conseguia informações de bastidores sobre, por exemplo, o andamento das novas dublagens, iniciadas em junho daquele ano. Ao publicar que havia problemas com o início das gravações de Voyager na VTI-Rio (que chegaram a ser brevemente interrompidas e traziam algumas vezes o personagem Tuvok chamado de “Tívok” pelos dubladores – o que de fato se confirmou e segue preservado na dublagem dos primeiros episódios da série até hoje), o site atraiu a ira de alguns dos antigos membros do Jetcom. Cristina Nastasi, que em 1989 havia encontrado seu espaço para modernizar e qualificar a dublagem de Star Trek ao promover uma crítica à VTI num jornal, agora experimentava a posição menos confortável de ser vidraça.
Talvez houvesse, sim, excesso de zelo, por parte do TB. Nogueira, àquela altura já jornalista de ciência da Folha de S.Paulo, queria aplicar o “Padrão Folha de jornalismo” à cobertura trekker – o que nem sempre assentava bem com quem fosse incomodado pelas apurações. Por outro lado, Nogueira e Nastasi conversaram, a situação eventualmente foi apaziguada, e em 16 de outubro o Trek Brasilis publicava uma nota indicando a boa recepção pelo público da nova dublagem. Foi a primeira das encrencas que o “Padrão Folha” traria. Mas não a última. (Você pode consultar o arquivo completo de publicações do TB, desde setembro de 2000, no nosso Arquivo, possivelmente o acervo mais extenso de registro ininterrupto do fandom brasileiro).

O núcleo São Paulo/Campinas da equipe do Trek Brasilis em 19 de abril de 2003: Fernando Penteriche, Luiz Felipe do Vale Tavares e Fernando Odo Rodrigues (à esq.); Mariana Pedroso (hoje Gamberger), Salvador Nogueira e Leandro Magalhães (centro); Penteriche e Daniel Sasaki (à dir.). (Crédito: Arquivo Salvador Nogueira)

A turma toda reunida; juntaram-se aos já mencionados César Lima e Fátima Iamarino. (Crédito: Arquivo Fernando Penteriche)
Para além da conquista da confiança do público, o profissionalismo também traria dividendos na promoção de Star Trek no Brasil. Em 26 de outubro de 2000, o Trek Brasilis anunciaria um acordo com o USA Network para veicular os trailers nacionais dos episódios inéditos. Àquela altura, o site também começava a se notabilizar por entrevistas nacionais e internacionais, como as feitas com George Takei (o eterno capitão Sulu) e Ricardo Juarez (dublador de Tom Paris), ambas conduzidas naquele ano. No ano seguinte, o TB teria a oportunidade de entrevistar figuras como os designers Andrew Probert e Rick Sternbach (respectivamente os criadores da Enterprise-D e da Voyager), o showrunner Michael Piller (cocriador de Deep Space Nine e Voyager) e o dublador Márcio Seixas (Spock). Em 2002, falaria com o roteirista Andre Bormanis e com o ator Robert Duncan McNeill (Tom Paris), e receberia, em maio daquele ano, o Ex-Astris-Scientia Award – o único site não primariamente em inglês destacado pela premiação. Tudo para aproximar o fenômeno trekker do Brasil e promovê-lo cada vez mais por aqui.
PEQUENAS MUDANÇAS
A contratação das temporadas por “prestações”, às vezes com grandes intervalos entre elas, inevitavelmente leva a trocas de vozes. Para o quarto e quinto anos de A Nova Geração não foi diferente. Jorge Junior, que já havia assumido o papel de La Forge no fim das duas temporadas anteriores, voltou agora em tempo integral para interpretar o engenheiro-chefe da Enterprise-D, papel que manteria até a sexta temporada. Wesley, por sua vez, não teria mais a voz de Paulo Vignolo, e sim a de Nizo Neto. Mas o resto da tripulação foi mantido, criando grande coesão com as duas temporadas imediatamente precedentes.

Jorge Junior
Quanto a Deep Space Nine, a série também sofreu alterações com relação à primeira temporada, dublada no longínquo ano de 1994 pela Record. Para o segundo e terceiro anos, Selma Lopes seria substituída por Nádia Carvalho como Kira Nerys, Guilherme Briggs daria lugar a Márcio Simões como Quark, e Silvia Sallusty seria substituída por Guilene Conde como Jadzia Dax.

Nádia Carvalho

Guilene Conde
Em entrevista ao canal do grupo Carioca Trekker no YouTube, Márcio Simões falou sobre como foi acumular as vozes de Picard e Quark. “Eu já tinha feito o Patrick [Stewart] em outros filmes. A primeira temporada foi dublada na VTI, eu fazia uma pontinha ou outra. Trocou o elenco inteiro da série. Não lembro por quê. Pediram um teste. Eu fiz um teste e ganhei. Foi um presentão fazer o Picard. Eu acompanhava a Série Clássica com a dublagem antiga, assistia na minha adolescência, que depois foi redublada na própria VTI. Adorava o Spock, Kirk, Sulu, adorava todo mundo. Eu também dirigi alguns episódios da [dublagem de] Voyager e Deep Space Nine.”
Como todos, Simões elogia o papel dos tradutores trekkers na facilitação do trabalho. “Sabiam da série, sabiam os termos… falando dos klingons. Ficava mais fácil para a gente dublar.”
Um aspecto curioso é que Simões fez Picard e Quark simultaneamente, pois as temporadas de A Nova Geração e Deep Space Nine estavam em dublagem ao mesmo tempo na VTI. “Não acontecia de o Picard contracenar com o Quark, mas acontecia de a gente dublar no mesmo dia, estar fazendo uma série, estar fazendo uma outra, e aí sair de um estúdio e ir para um outro e fazer um outro personagem.”
Simões também revelou que quase fez um terceiro personagem principal na franquia, anos depois, quando foi chamado para teste na voz de Scott Bakula, como o capitão Archer, de Enterprise. “Eu já dublava ele [Bakula]. Eu pensei, eu já dublo o Picard e o Quark, se bem que o Quark era um tipo, um desenho animado. Como eu vou fazer um capitão de uma outra série de Star Trek? Impossível. Não dá.” De fato, quando a hora de dublar Enterprise chegou, Dário de Castro ficou com o papel.
AS VOZES DE VOYAGER
Sob a direção de dublagem do experiente Júlio Chaves, a VTI teria o desafio de escalar mais uma tripulação completa de uma série de Star Trek com a chegada de Voyager ao canal USA.
O estúdio, mesmo com o elenco reduzido (uma das marcas menos meritórias da VTI), conseguiu escalar algumas vozes excepcionais, embora pecando por algumas repetições de vozes (meio inevitáveis pela política de contratação da empresa).

Geisa Vidal Porto
Felizmente, o saldo da dublagem foi muito bom, destacando a bela voz de Geisa Vidal Porto, que poupou o público brasileiro da rouca e áspera voz de Kate Mulgrew. Júlio Chaves encarnou com perfeição o mais difícil personagem da série, o ranzinza e egocêntrico Doutor Holográfico e Ricardo Juarez fez um Tom Paris com uma voz bem diferente da sua e mais próxima do original. B’Elanna teve duas vozes: de início Andrea Morucci, que precisou se afastar, e Christiane Louise, na minha opinião a melhor entre as duas.

José Augusto Sendim, Christiane Louise e Ricardo Juarez. (Crédito: Arquivo Carlos Amorim)
O primeiro oficial Chakotay foi dublado por José Augusto Sendim (segunda voz de Will Riker em A Nova Geração). Em entrevista ao Trek Brasilis, ele contou como foi dublar Riker e Chakotay. “No caso do Riker, me chamaram para fazer um teste. Eu não fazia a mínima ideia do que era. Normalmente é assim, ninguém faz ideia de para quem vai fazer teste. Quando cheguei no estúdio estava o doutor Victor Berbara, e era o Riker. Eu vi como ele falava, tinha uma voz forte. Era um comandante. Eu dublei lá uma coisa, parece que gostaram e eu ganhei o teste. No caso do Chakotay que foi muito tempo depois, também me chamaram pra fazer um teste. Como o Chakotay era mais leve, eu dei uma amenizada na voz para ficar bem diferente do que eu fazia no Riker. São duas pessoas diferentes, características diferentes. Duas interpretações diferentes. Foi muito bom fazer os dois.”
Em que pese a boa interpretação de Sendim, e o esforço para diferenciar os dois personagens, ficou evidente a limitação de elenco do estúdio. Individualmente, os dois trabalhos são excelentes. No contexto mais amplo da franquia, cria-se um ruído de identificação. Felizmente, a exemplo de Picard e Quark, Riker e Chakotay jamais se encontraram.
Sendim já conhecia Star Trek antes desses dois papéis. “Eu era fã de Star Trek na época. Só tinha assistido à Série Clássica. Eu era fanzaço mesmo e, quando me convidaram para fazer teste e descobri que era A Nova Geração, eu fiquei ressabiado, porque era uma novidade em cima de uma série que a gente gosta.”
Sendim recorda alguns fatos marcantes durante as sessões de dublagem das séries: “Coisas que me marcaram foram duas: eu e o Márcio Simões colocávamos as folhas dos scripts como um varal e a gente ia gravando direto sem ver o filme, porque a gente já estava tão acostumado com os personagens que a gente já estava vivendo o que eles estavam passando lá. Era uma coisa muito legal. Era a interpretação do momento. Lógico que, se a gente errava, a gente voltava. Era uma brincadeira muito legal. Viver aquele momento, viver aquelas cenas. Outro momento foi quando gravava Voyager, aquele personagem intergaláctico e deus, o Q. Ele entrou e estava bagunçando. Acho que bagunçou em todas. Ele colocou a Enterprise de A Nova Geração perto da Voyager e a gente não sabia como ia fazer, porque eu gravava o Riker e o Chakotay [ele se refere a “Deathwish”, da segunda temporada de Voyager, em que Q traz Riker brevemente a bordo da nave]. Como é que a gente vai fazer? Mas aí os deuses da dublagem deram um jeito e os dois não se encontraram e não conversaram entre si. Aí neste episódio coloquei o Riker mais forte e o Chakotay muito mais suave, para ver se diferenciava, e parece que colou. Essas foram as situações mais interessantes e que ficaram marcadas até hoje.”
O alferes Kim foi dublado por Duda Ribeiro, demonstrando a versatilidade do ator, que ressaltou a jovialidade do personagem. Na segunda temporada, ele seria substituído por Paulo Vignolo (primeira voz de Michael Kyle em Eu, a Patroa e as Crianças, e segunda voz de Wesley Crusher em A Nova Geração). Tuvok foi dublado por Jorge Lucas (Mulder em Arquivo-X; Lex em Smallville) com uma voz bem empostada. Neelix foi dublado por um ótimo Mario Jorge (a voz de Eddie Murphy e John Travolta em vários filmes) e Kes foi dublada pela sempre competente Priscila Amorim (Mulher-Maravilha nas animações da DC Comics). Houve uma substituição em apenas dois episódios (um na segunda e outro na terceira temporadas) por Izabella Bicalho.

Jorge Lucas

Mario Jorge

Priscila Amorim
A direção de dublagem se mostrou desatenta com várias pronúncias (como havia sido reportado pelo Trek Brasilis antes da estreia), principalmente as relacionadas ao personagem Tuvok. Outro fato curioso que ocorreu na dublagem do piloto da série, “Caretaker”, foi a presença de Quark (Armin Shimerman), não foi dublado por sua voz em Deep Space Nine, mas por Mauro Horta, com Márcio Simões fazendo o namorado de Janeway, que aparece pouquíssimos minutos na trama.
Um dos ouvidos por Cristina Nastasi na escolha dos elencos foi Carlos Amorim, admirador e estudioso da dublagem brasileira, além de velho conhecido dela desde os primórdios do Estação Genesis, em Belém. Ele sugeriu o uso de Guilene Conde para Jadzia Dax e Júlio Chaves para o Doutor, e ambos acabaram mesmo sendo os escolhidos para os papéis.

Julio Chaves
Acabou que o ano 2000 foi uma avalanche de episódios inéditos, e os fãs pela primeira vez podiam se esbaldar com informações fresquinhas de suas séries favoritas, transmitidas de hemisfério a hemisfério pela internet. Isso se tornaria ainda mais contundente com a chegada dos DVDs, promovendo uma revolução no mercado de home video e deixando no chinelo a era do VHS.
Continua…
Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.
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