PIC 1×02: Maps and Legends

Doença incurável de Picard o impele para possível última jornada nas estrelas

Sinopse

Marte. Estaleiros Utopia Planitia. 14 anos atrás. Ano: 2385. Feriado do Dia do Primeiro Contato. O sintético F8 desativa os escudos defletores de Utopia Planitia.  Os trabalhadores tentam detê-lo, mas são mortos por ele um a um. Os estaleiros são atacados por naves pilotadas por sintéticos. F8 se mata com um disparo na cabeça.

No Château, na França, Picard, Laris e Zhaban analisam imagens da explosão que matou Dahj, mas nem ela nem os assassinos aparecem. Laris acredita que a operação pode ter sido do Zhat Vash, um mítico grupo secreto romulano, que tem em seu cerne um profundo ódio, medo e desprezo por sintéticos e qualquer inteligência artificial.

Laris e Picard se teletransportam no apartamento de Dahj. Laris consegue descobrir, analisando o assistente digital de Dahj, que as mensagens de sua irmã gêmea foram enviadas de fora da Terra.

No Cubo Borg, Soji e Narek passaram a noite juntos. Soji refere-se ao cubo como O Artefato, perdido, separado da Coletividade, vulnerável, cujos donos agora são os romulanos, que lucram com a exploração da tecnologia borg. No Château Picard, o Dr. Moritz Benayoun, antigo médico de Picard na Stargazer, faz uma visita ao almirante, trazendo más notícias: Picard está com uma doença incurável e já pode estar apresentando sintomas.

Picard vai à sede da Frota Estelar, em São Francisco, e informa a almirante Kirsten sobre Bruce Maddox, Dahj e os assassinos romulanos. Ele diz que quer retornar à Frota Estelar e precisa de uma nave para uma única missão: encontrar Maddox e a androide que pode ter partes do Data. Com palavras duras, a almirante nega o pedido.

No Instituto de Pesquisa do Artefato Borg, a Dra. Soji conhece a recém-chegada médica trill, Dra. Naashala. Soji faz parte do Projeto de Reabilitação Borg. Enquanto trabalha com uma médica romulana na remoção de implantes borgs de um paciente, Narek a observa. Soji acalma o paciente falando a língua alienígena dele.

A Dra. Agnes Jurati visita Picard no Château, levando todas as informações que conseguiu obter nos pertences que Bruce Maddox deixou no Instituto Daystrom. Ela também informa que pesquisou sobre Dahj e acredita que tudo sobre a vida da jovem foi inventado de uma vez, há cerca de três anos. Antes disso, não há registro da existência dela.

Picard chama Raffi pelo comunicador/insígnia, pedindo uma nave. Depois, vai até a casa de Raffi, que mora isolada num local afastado.

A almirante Kirsten entra em contato com a comodoro Oh e relata o que ouviu de Picard sobre Maddox e sobre espiões romulanos anti-sintéticos operando na Terra.  Oh manda chamar a tenente Rizzo, uma espiã romulana disfarçada de humana, dá-lhe uma advertência por sua equipe ter destruído “a coisa” antes de poderem interrogá-la e ordena que ela cuide da outra oportunidade pessoalmente. Rizzo, por meio holográfico, conversa com Narek sobre Soji. Pergunta se ele já descobriu onde está o ninho das outras “abominações”. E ameaça: se ele não descobrir nada da “máquina”, ela será obrigada a usar outros meios, o que poderá “consumir” os dois.

Comentários

O segundo capítulo é bem diferente do primeiro, principalmente no tom, menos emocional. Se o primeiro episódio serviu para apresentar o protagonista, com o foco no processo de sua decisão de sair da inércia e voltar à ativa – com uma boa dose de fan service –, o segundo já mostra Picard pondo em marcha seu plano de ação. Enquanto o primeiro foi mais emocional, este já entra nas tramas em que Picard está se envolvendo.

O episódio traz muita informação, mas também muitas perguntas, que deverão ser respondidas ao longo da temporada. Em flashback, vemos como os sintéticos rebelados atacaram Utopia Planitia, em Marte, 14 anos antes. O sintético F8 parecia agir sob comando remoto, pois seus olhos giraram pouco antes de ele sabotar as defesas do planeta (lembrando o modo como a cibernética Airiam era controlada pela IA, em Star Trek: Discovery). Quem estaria por trás do ataque a Marte, controlando os sintéticos?

O grupo ultrassecreto romulano Zhat Vash, que odeia qualquer tipo de inteligência artificial, está operando na Terra. Pelo diálogo entre Rizzo e Oh, Parece ter sido uma equipe do Zhat Vash, liderada por Rizzo, que matou Dahj. A tenente Rizzo é uma romulana disfarçada de humana, trabalhando dentro da Frota Estelar, com a cooperação da comodoro Oh. Rizzo é irmã de Narek, outro espião romulano que opera no Artefato borg. A missão de Narek é obter de Soji a informação de onde estaria o “ninho” das outras “abominações”. Haveria uma “fábrica” de androides iguais a Dahj e Soji? Maddox seria o construtor? Com que propósito?

É revelado que Laris e Zhaban perteceram à Tal Shiar, polícia secreta romulana, mas ainda não se explicou como o casal foi parar no Château Picard. [A HQ Star Trek: Picard – Countdown esclarece este ponto. Embora não seja considerada parte do cânone da franquia, vale a pena ler os três volumes dos quadrinhos – que também trazem a personagem Raffi Musiker – como complemento à série.]

Os romulanos apresentam um aspecto interessante: são, ao mesmo tempo, os vilões e as vítimas por quem Picard arriscou a sua carreira e sua reputação. Ainda não se sabe exatamente quais são os reais objetivos dos espiões romulanos, mas o segredo e a desconfiança, como foi dito e mostrado no episódio, são parte integrante da cultura desses alienígenas.

Histórias de espionagem envolvendo romulanos fazem parte da tradição de Star Trek. Para citar apenas alguns exemplos: no episódio “The Enterprise Incident”, da Série Clássica, o capitão Kirk se disfarça de romulano para entrar na nave dos adversários e roubar o dispositivo de camuflagem; em “Face of the Enemy”, de A Nova Geração, a conselheira Troi também se passa por romulana numa missão secreta; até Data e Picard são alterados para se parecerem com romulanos, no episódio duplo “Unification”. Assim, não surpreende encontrar uma personagem como Narissa Rizzo, romulana disfarçada de tenente humana da Frota Estelar.

Embora sejam antigos inimigos da Federação, os romulanos também têm uma tortuosa história de cooperação com os federados. Ao final do filme Nêmesis – para citar como exemplo a última vez em que aparecem antes de Star Trek: Picard –, é uma nave romulana que vem em socorro da Enterprise.

Quanto aos borgs, em Picard não são os mesmos vistos em A Nova Geração. “Os borgs que conhecemos e amamos, aqueles de ‘resistir é inútil’, ainda estão em algum lugar, mas não são os borgs que vemos nesta série”, disse o produtor executivo Michael Chabon, em entrevista ao programa Ready Room. Os borgs que vemos na série são os remanescentes de um cubo borg destruído, que tiveram seus implantes removidos, voltando, em certa medida, a ser o que eram antes da assimilação, à espécie a que pertencem. São borgs desconectados da Coletividade Borg, e o cubo, agora sob controle dos romulanos, é um centro de pesquisa aberto a cientistas de toda a galáxia.

A exigência de mostrar borgs diferentes foi de Patrick Stewart. Segundo ele, Picard já tinha concluído seu arco narrativo com eles. Assim, é interessante vê-los retratados sob outro ponto de vista, como vítimas – o que eles são, de fato. Afinal, ninguém se tornou borg por vontade própria, mas foi assimilado contra a vontade. Soji, quando acalma o paciente na língua dele, demonstra empatia não por um borg, mas pela vítima que um dia se tornou borg – assim como Sete de Nove e Hugh, personagens ex-borgs que vão aparecer nos capítulos seguintes.

As tramas envolvendo sintéticos, espionagem romulana e borgs, embora complexas e muito instigantes, acabaram de certo modo eclipsando a jornada pessoal de Picard, especialmente após o diagnóstico da doença incurável em estágio avançado. Esse fato – mais triste ainda à luz da decisão de Picard, no primeiro episódio, de finalmente voltar à vida após tantos anos de reclusão –, em vez de desanimá-lo, tem o efeito contrário: diante da iminência da morte, sua ação torna-se urgente. Quando o médico pergunta se ele realmente quer voltar ao espaço, agora que ele sabe que o fim pode estar próximo, ele responde: “Mais do que nunca, agora que sei”.

Como bom oficial da Frota que é, primeiro ele tenta obter uma nave por meios legais. Sua entrada na Frota Estelar, imagens holográfica de duas naves estelares no teto do saguão, tudo acompanhado pela trilha sonora com o tema clássico de Jornada nas Estrelas, é um momento de emoção para os fãs.

Diante da negativa da almirante Clancy –  em uma das melhores e mais fortes cenas do episódio, ainda que tenham pesado a mão na rispidez do diálogo, que inclui até um palavrão –, Picard não desiste. Ele agora está numa luta pessoal contra o relógio, pois quer voltar ao espaço para realizar sua provável última missão. Não é à toa que a imagem dele se reflete num relógio, pouco antes de ele abrir a gaveta e pegar seu antigo comunicador da Frota Estelar, olhar para as estrelas e chamar Raffi, pedindo uma nave. E, de novo, a trilha sonora, que remete tanto à flauta do episódio “The Inner Light” quanto ao tema clássico de Alexander Courage, confere um tom emocionante à cena.

Um tema central que parece permear esse capítulo é a falta de empatia pelo outro. Primeiro, existe a questão levantada no episódio “The Measure a Man”, em que Maddox queria construir uma série de androides para fazer todo tipo de serviço sujo e perigoso. Isso não seria escravidão? Ao que parece, foi exatamente o que Maddox acabou fazendo. Os sintéticos de Marte são tratados com descaso por alguns dos humanos. São chamados de “gente de plástico” por um, enquanto outro diz que “nem são gente”.

Da mesma forma, ex-borgs são tratados pelos romulanos com total falta de empatia, como se não fossem gente. O paciente que tem seus implantes removidos é chamado de Anônimo, o que incomoda Soji, que trabalha na recuperação dessas pessoas. Por outro lado, a almirante Clancy tenta justificar a decisão de suspender o resgate de milhões de romulanos, 14 anos antes, alegando autoproteção diante da possibilidade de esfacelamento da Federação Unida de Planetas. É um argumento utilizado por muitos, na vida real, ainda hoje: há circunstâncias em que milhões de vidas humanas são dispensáveis, se um “objetivo maior” estiver em jogo.

“O Armagedom que está chegando nos dias de hoje parece ser, tristemente, nossa incapacidade de ver com olhos de empatia”, disse o produtor Akiva Goldsman. “Estamos tão obcecados com as diferenças entre as pessoas, ou tão focados no outro como ameaça, que a empatia desapareceu. É como se alguém tivesse desligado um interruptor, culturalmente falando”. Segundo ele, o que a série Picard está tentando fazer, seguindo a tradição de comentário social em Star Trek, é mostrar como os borgs e outras populações nesta temporada são marginalizados e tentar vê-los com outros olhos, não como inimigos ameaçadores, mas como pessoas com quem temos coisas em comum. O produtor define Picard como um drama de ficção científica. Até agora, com os dilemas apresentados, com os bons diálogos, ótimas atuações, produção caprichada e bom ritmo, tem se mostrado um drama de excelente qualidade.

Avaliação

Citações

“Is everything Romulans do a secret?”
“Ooh, I’m not at liberty to divulge that.”
“Is your name actually Narek?”
“One of them.”
“So, is there anything you can tell me about yourself?”
“Yes. I’m a very private person.”

(“Tudo o que um romulano faz é segredo?”
“Não tenho autorização para confirmar.”
“Seu nome é mesmo Narek?”
“É um deles.”
“Tem alguma coisa que possa me contar sobre você?”
“Sim. Sou uma pessoa muito reservada.”)
Narek e Soji

“The Romulans were our enemies, and we tried to help them for as long as we could, but even before the synthetics attacked Mars, fourteen species within the Federation said ‘cut the Romulans loose, or we’ll pull out’. It was a choice between allowing the Federation to implode, or letting the Romulans go.”
“The Federation does nor get to decide if a species lives or dies.”
“Yes, we do. We absolutely do. Thousands of other species depend upon us for unity, for cohesion. We didn’t have enough ships left. We had to make choices, but the great captain Picard didn’t like his orders.”
“I was standing up for the Federation, for what it represents! For what it should still represent!”
“How dare you lecture me!”

(“Os romulanos eram nossos inimigos, e tentamos ajudá-los o máximo que pudemos. Mas, antes mesmo de os sintéticos atacarem Marte, 14 espécies da Federação falaram: ‘Esqueçam os romulanos ou sairemos’. A escolha foi entre permitir a implosão da Federação ou esquecer os romulanos.”
“Não cabe à Federação decidir se uma espécie vive ou morre.”
“Cabe, sim. Com toda a certeza. Milhares de outras espécies dependem de nós para unidade, para coesão. Não tínhamos naves suficientes. Tivemos de fazer escolhas. Mas o grande capitão Picard não gostou das ordens.”
“Eu estava defendendo a Federação, o que ela representa! O que ainda deveria representar!”
“Como ousa me dar sermão?”)

Almirante Clancy e Picard

“You need a crew. Riker, Worf, LaForge.”
“No. I thought about it. And they would do it in a heartbeat, and that’s precisely why I cannot ask them. They would put themselves at risk out of loyalty to me and I do not want to have to go through that again.”

(Você precisa de uma tripulação. Riker, Worf, LaForge.”
“Não. Pensei nisso. E eles fariam sem pestanejar, e é justamente por isso que não posso pedir a eles. Eles se arriscariam por lealdade a mim e eu não quero passar por isso de novo.”)

Zhaban e Picard

Trivia

  • O ataque a Marte pelos sintéticos ocorreu no feriado do Dia do Primeiro Contato, que comemora o primeiro contato dos humanos com alienígenas – no caso, vulcanos, conforme visto no filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato.
  • O ataque a Marte também foi tema de Children of Mars, episódio do Short Treks.
  • O episódio confirma que o ataque a Marte ocorreu há 14 anos, em 2385. Isto significa que os eventos da série Picard ocorrem em 2399.
  • É a primeira vez que aparece um comodoro no século 24.
  • Quando Picard recebe o diagnóstico da doença fatal, ele menciona que o tinham alertado, há muito tempo, sobre possíveis problemas futuros. Ele se refere a eventos do último episódio de A Nova Geração, “All Good Things…”.
  • Agnes pega um livro de Isaac Asimov no Château Picard, “The Complete Robot”. É uma homenagem ao criador do cérebro positrônico na ficção.
  • A cena em que Picard visita Raffi Musiker foi filmada em Vasquez Rocks, locação próxima a Los Angeles usada em várias produções de Star Trek como paisagem alienígena. “Shore Leave” e “Arena”, da Série Clássica, e “Who Watches the Watchers”, de A Nova Geração, são apenas alguns de vários exemplos.

Ficha técnica

Escrito por Michael Chabon & Akiva Goldsman
Dirigido por Hanelle M. Culpepper
Exibido em 30/01/2020

Elenco

Patrick Stewart como Jean-Luc Picard
Alison Pill como Dra. Agnes Jurati
Isa Briones como Soji/Dahj
Michelle Hurd como Raffi Musiker
Harry Treadaway como Narek

Elenco convidado

David Paymer como Dr. Moritz Benayoun
Jamie McShane como Zhaban
Tamlyn Tomita como Comodoro Oh
Orla Brady como Laris
David Carzell como namorado de Dahj
Wendy Davis como Dra. Kabath
Chelsea Harris como Dra. Naáshala Junamadéstifee
Peyton List como Narissa Rizzo
Ann Magnuson como almirante Kirsten Clancy
Marti Matulis como supervisor do posto de controle
Alex Diehl como F8
Anthony R. Jones como Pincus
Chaka Desilva como o trabalhador grandão
Kate Fuglei como a trabalhadora reclamona
Paul Keeley como o trabalhador filosófico
Brit Manor como a trabalhadora durona
Harrison Grant como alferes
Jason Liles como Noiro
Meghan Louis como a voz do computador de Picard e de Planitia
Zachary James Rukavina como o borg Anônimo
Douglas Tait como o telarita

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