Designers falam sobre recriar o passado

A campanha de divulgação de Enterprise pela imprensa está à toda. Agora chegou a vez do jornal Los Angeles Times escrever uma matéria especial sobre a série. O enfoque foi sobre o novo visual da série, e contém entrevistas com Herman Zimmerman (Designer de Produção), Robert Blackman (Designer de Figurino) e Michael Westmore (Supervisor de Maquiagem).

Zimmerman relata como quis dar um tom “utilitário” aos cenários, Blackman diz que fez os uniformes para não chamarem a atenção e Westmore afirma que será preciso recriar os alienígenas da Série Clássica. Confira o artigo traduzido, na íntegra, com direito a uma imagem inédita da nova ponte da Enterprise NX-01.

Dan Cray
do Los Angeles Times

A ponte da nave estelar Enterprise é como o bar em “Cheers”: tão familiar aos telespectadores quanto um quarto em suas próprias casas. É por isso que é um pouco desconsertante pisar no cenário em formato de rosquinha e delineado em aço que serve como o centro de comando em Enterprise, a última encarnação de Jornada da UPN.

Tirando de lado a cadeira do capitão e o leme de uma pessoa, leva apenas alguns momentos em meio ao amálgama de botões no estilo de um cockpit, chaves de liberação e controles de motor de B-17 para perceber que você não sabe mais onde está. O que é exatamente o que os projetistas da série querem.

Pela primeira vez desde o momento em que a série original foi exibida, em 1966, Jornada nas Estrelas está tentando parecer, transmitir e funcionar diferentemente de suas predecessoras. Enterprise, que estréia em 26 de setembro, se passa cem anos antes das viagens do capitão Kirk e 150 anos no futuro da Terra atual. Como resultado, não há Federação de Planetas, o infame transportador de matéria é usado meramente para carga e as diretrizes estritas do criador de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry, para o universo do franchise –que vão de um simples édito contra zíperes em roupas até um banimento de conflito entre personagens da Frota Estelar– não vão se aplicar.

“Essa é a reinvenção do franchise”, diz o designer de produção Herman Zimmerman, que projeta naves e cenários de Jornada nas Estrelas desde que A Nova Geração estreou, em 1987.

Já que Enterprise se concentra nos esforços iniciais da humanidade para explorar a galáxia, a meta visual da série é alcançar uma aparência utilitária não diferente de uma versão futurista da atual Estação Espacial Internacional. Logo, a nova Enterprise de Zimmerman mistura um disco modesco com naceles dos motores, mas elimina a costumeira seção entre os dois pedaços.

Seus designs de set são igualmente reduzidos, produzindo o tipo de ambiente apertado que um engenheiro da TRW dos anos 60 morreria para ter: suportes estruturais metálicos visíveis, pisos de aço e muitos botões em estilo de calculadora, alavancas e chaves. É também mais cheia, com baixos e estreitos corredores, escadas de acesso de aço e passagens curvas similares a escotilhas em vez de portas.

“Tudo é manual para os atores nesta série”, diz Zimmerman. “As alavancas, chaves, botões e travas, todas as coisas que você costumava ver em painéis de toque em caixas pretas em Jornada nas Estrelas, nós estamos agora fazendo mecanicamente. Não é espaçoso ou luxuoso como as outras séries de Jornada. Em vez disso, é uma tentativa de fabricar o futuro mais realisticamente, baseado em aeronaves e espaçonaves que [pesquisadores] estão desenvolvendo agora.”

É por isso que o cenário da sala de transporte tem o tamanho de um closet, menor que a câmara de descontaminação próxima. A ponte é geralmente livre de cores brilhantes, com exceção dos numerosos monitores de tela plana que ficam nas estações de ciência e tática (como um tributo ao sr. Spock, uma das estações da ponte possui um evidente visor no estilo do que o Vulcano costumava espiar na série original).

“Junto com todo o metal, você encontrará muito couro e plástico, apenas toques suficientes para evitar que fique estéril”, diz Zimmerman. “Há também cor nos gráficos das telas, então nunca será uma imagem cansativa.”

Enterprise agrada a visão com 16 cenários permanentes, mas Zimmerman está mais orgulhoso da engenharia, que paga tributo ao motor de dobra horizontal visto pela primeira vez em “Jornada nas Estrelas – O Filme”, de 1979.

Inspirado pelo ambiente apertado e industrial que ele experimentou durante a visita a um submarino nuclear no último outono, Zimmerman montou a capsula oval do motor do teto e a cobriu com painéis de acesso, trilhos, escadas e (claro) mais botões. O set resultante é tão detalhado que luzes de emergência delineiam o chão e fita amarela de segurança avisa convidados a evitar as beiradas.

Para manter com a simplicidade, Enterprise tem uma sala de torpedo com tubos de torpedo funcionais expostos. Quando um tripulante gira um mecanismo, um torpedo sai do chão e vai ao sistema de disparo, e então desaparece no tubo de lançamento. Uma baía de shuttlepods de dois níveis possui um braço magnético que supostamente ergue as naves para dentro e para fora da nave por um conjunto de portas da baía. A enfermaria circular da nave parece com uma sala de pronto-socorro e usa camas autênticas de hospital. Então tem o refeitório da tripulação, onde são proibidas toalhas de mesa sobre as nove mesas de metal –embora o capitão da nave, Jonathan Archer (interpretado por Scott Bakula) irá fazer questão de usar toalhas em seu refeitório particular.

“Simples não significa deselegante”, diz Zimmerman. “Há uma certa beleza em ver buracos e suportes.”

Os fãs de longa data de Jornada certamente notarão algumas grandes mudanças no figurino. Pela primeira vez no franchise, os personagens vestirão jeans, camisetas e bonés de beisebol que contêm o número de registro da Enterprise, à la bonés da marinha. Eles também trocarão de roupas na frente das câmeras, revelando a roupa de baixo azul padrão da Frota Estelar enquanto vestem o uniforme. Para caminhadas espaciais, a tripulação terá versões cor de cobre das roupas de astronauta da Nasa. Outro inédito em Jornada: os uniformes de gala têm –gasp!– paletós e gravatas. Os uniformes pretos familiares foram substituídos por um azul meio roxo, em macacões com bolsos e zíperes bem visíveis. Enquanto uma fina listra horizontal continuará a tradição de Jornada ao indicar a posição pela cor (o capitão Archer terá uma faixa dourada em concordância com a túnica dourada do capitão Kirk), essas faixas serão sutis e muitas vezes escondidas por baixo de um casaco cinza que os membros usarão sobre o uniforme quando fora da nave.

“Os uniformes tem essa aparência utilitária e são muito mais identificáveis por nós”, diz o designer de figurinos Robert Blackman. “O que estou fazendo é ter a certeza de que uma vez que você compreenda a imagem original, você volte ao rosto. Não é sobre o que eles estão vestindo –isso é parte do contexto, mas realmente é sobre o que está saindo das bocas deles e o que está acontecendo em suas faces.”

O supervisor de maquiagem Michael Westmore opera sob uma filosofia similar, com uma pressão adicional: o desafio de fazer com que as raças alienígenas mantenham uma aparência consistente com a da série original, e que ainda assim sejam atuais o suficiente para satisfazer a audiência de hoje.

“Não estamos tentando voltar e recriar 1965, porque tecnicamente nós já fomos além do que as pessoas estavam fazendo lá”, diz Westmore. “Se eu tirasse séries de 1965 e dissesse, ‘Essa é a aparência’, eu seria praticamente atirado pelos ares. Hoje a maquiagem precisa ser afiada o suficiente e desafiadora o suficiente para que o olho do telespectador fique interessado nela.”

Isso significa que os humanos de pele escura que se passaram por Klingons durante a série original darão lugar à aparência modificada (testas enrugadas, cabelos longos e dentes afiados) que Westmore introduziu em 1979. Outros alienígenas favoritos também podem sofrer modificações.

“Se tivermos de fazer as mulheres [verdes] de Órion, as faremos diferentemente”, diz Westmore. “Qualquer coisa da série original será literalmente desenhada e atualizada com a aparência atual. Em 1965 você tinha maquiagem de pancake com base em água, de modo que a parte difícil era manter o material sem que ele saísse. Hoje temos cores que ficam melhor e lápis de ar. Também usamos adesivos de silicone para colar as coisa. Lá eles usavam cola. Todos esses produtos e adesivos nos permitem fazer coisas que eles não podiam em 1965.”

É por isso que Westmore está ansioso pela oportunidade de revisitar velhos amigos alienígenas. “Eu penso sobre alienígenas como os Tellaritas –os velhos que pareciam usar máscaras de Halloween com um trabalho de cabelo bem cru que era usado para disfarçar bordas”, diz. “Se os refiséssemos hoje, seria a ponto de eles terem olhos. Então eu faria uma variação no rosto para suavizar os traços e as perucas custariam US$ 3 mil em vez de US$ 50.”

“Esse é o sopro de ar fresco em todos nós”, diz Zimmerman com seu trabalho na retro-Enterprise. “De um modo, estamos fazendo Jornada tudo de novo, e, espero, vamos fazer melhor.”

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