TOS 1×05: The Enemy Within

Teletransporte divide Kirk em duas metades e abre debate filosófico

Sinopse

Data Estelar: 1672.1.

A Enterprise está em órbita do planeta Alfa 177, onde um grupo de descida está explorando a superfície. Um dos membros da equipe, o técnico Fisher, cai de um barranco e sofre uma contusão. Ao ser transportado de volta à nave, um mineral amarelado que impregnou sua roupa causou um defeito no transporte. Embora Scotty não tenha observado nenhum problema com o equipamento, quando Kirk volta à nave, o transporte faz com que ele seja duplicado.

Logo depois um animal é transportado e também se separa em dois: uma das cópias é dócil e a outra, agressiva. Ao que tudo indica, o mesmo aconteceu com Kirk. Enquanto uma das cópias é honrada e de boa índole, a outra é diabólica e sem escrúpulos. Solta pela nave, a cópia má de Kirk realiza atos de violência injustificada, chegando até a ponto de tentar estuprar a ordenança Janice Rand.

Enquanto isso, o transporte continuava a dividir objetos em dois, forçando o restante do grupo de descida a permanecer na superfície do planeta. O anoitecer no acampamento era morte certa para os tripulantes, uma vez que a temperatura iria bem abaixo do nível de congelamento da água – condição que a equipe não estava equipada para enfrentar.

Conforme o tempo passa, o Kirk benévolo vai se enfraquecendo, perdendo sua capacidade de tomar decisões, enquanto seu contraparte malévolo está morrendo. Nenhum deles pode sobreviver sem a outra metade. O tempo está se esgotando, não só para o capitão, como também para a equipe na superfície.

Scotty efetua os reparos no transporte, mas não há tempo para testá-lo. McCoy teme porque o animal que havia sido antes dividido foi colocado no equipamento e, embora tenha sido convertido em um só, morreu. Kirk aceita os riscos e entra no transporte com seu contraparte, retornando à Enterprise inteiro e vivo. O grupo de descida é rapidamente trazido a bordo, antes de morrer por hipotermia aguda.

Comentários

“The Enemy Within” utiliza mais uma vez um artifício fantasioso – a capacidade de o transporte gerar duas cópias de Kirk, uma com seu lado bom e outra com seu lado ruim – para explorar a dualidade existente dentro de cada ser humano.

O mecanismo da divisão, apesar de pouco verossímil, oferece um potencial dramático incrível, que é muito bem aproveitado ao longo da história. E o que é mais curioso, essa dualidade pode não ser apenas um artifício para confrontar o capitão Kirk consigo mesmo. O segredo pode estar nos dois hemisférios do cérebro.

É sabido que, nos estágios iniciais de desenvolvimento de um embrião humano, se um dos hemisférios do cérebro é perdido, o outro é capaz de fazer “jornada dupla” e se encarregar de todas as tarefas. Essa capacidade extraordinária nos faz refletir se não há “backups” de pelo menos alguns dos sistemas do cérebro nos dois hemisférios – incluindo a consciência.

É geralmente aceito que nossos processos conscientes normalmente são dados por atividade cerebral do lado esquerdo. E se há, de fato, uma “outra” consciência submersa no lado direito? Poderia ela, de algum modo, ser ativada e tomar conta da consciência esquerda, dando vazão a uma outra personalidade?

Essa discussão é obviamente extremamente teórica e filosófica (se alguém quiser se aventurar mais no assunto, uma leitura recomendada é A Metafísica de Jornada nas Estrelas, do filósofo Richard Hanley), mas é quase ou tão interessante quanto o conflito entre os dois lados de Kirk mostrado nesse episódio.

Claro que nem tudo são flores em “The Enemy Within”. Alguns elementos ficaram fora do contexto para o século 23, mesmo levando em conta que é uma série dos anos 1960. Um dos instrumentos de McCoy, com o qual ele cura Fisher, não passa de um borrifador, daqueles que se usa para molhar plantas! Outro desses anacronismos ocorre quando Spock faz uma visita a Kirk em seu alojamento. O vulcano BATE na porta (toc, toc, toc)!

Também é especialmente embaraçosa (para não dizer engraçada) a cena em que Spock e Scotty estão imobilizando o cão com uma hipospray. Não convence nem um pouco que o engenheiro esteja segurando uma fera bravia enquanto Spock aplica a injeção. É hilário.

Tirando Kirk, que obviamente recebe um excelente tratamento para seu personagem (em uma belíssima atuação de Shatner como os dois capitães), Spock e McCoy também são bastante beneficiados. Eles pela primeira vez assumem o papel de antagonistas diretos, situação que tornaria o relacionamento dos dois tão interessante ao longo da série.

Aqui, Spock relata sua experiência com a dualidade (sua herança mestiça), justificando que o intelecto é capaz de conciliar as duas, dando uma chance a Kirk de sobreviver ao transporte. Já McCoy indica que ainda seria muito cedo para antecipar os riscos que o capitão estaria correndo ao ser reunido por meio do equipamento que já havia matado o animal.

Naturalmente (e como acabaria ocorrendo na maioria das vezes ao longo da série), Spock acaba vencendo a discussão, por uma razão muito simples. Kirk precisava ser salvo para o próximo episódio, assim como o grupo de descida na superfície do planeta, que contou com a participação de Sulu.

Aliás, o piloto da Enterprise cumpre uma função engraçada neste episódio: apesar de aparecer em várias ocasiões e ter várias falas, mesmo assim ele não tem importância alguma para o enredo.

Pior ainda é o papel a que se presta a ordenança Rand, um sinal claro do machismo existente nos anos 1960. Ela faz o estilo “mulher de malandro”, sendo atraída pelo Kirk malévolo, mesmo depois de ele atacá-la. Ainda mais grave, ela mostra total submissão, dizendo não querer prejudicar o capitão e quase decidindo por não falar nada do ocorrido.

Por fim, chegamos a um problema grave da premissa do episódio. Por que não enviar uma nave auxiliar ao planeta para resgatar o grupo de descida? A razão é simples: ainda não havia naves auxiliares no seriado até esse ponto. Os veículos só surgiriam em “The Galileo Seven”, na metade do primeiro ano. De qualquer modo, não é um problema gravíssimo. Algumas linhas de diálogo que explicassem que uma nave auxiliar não poderia descer resolveriam facilmente o conflito, de modo que é melhor fingirmos que esse diálogo existiu, mas fora da visão das câmeras.

“The Enemy Within” faz um bom uso de um recurso que se tornaria cada vez mais corriqueiro (e menos impactante) ao longo da série: o confronto de dois Kirks. Vimos duas cópias do capitão mais tarde em “What Are Little Girls Made Of?”, “Mirror, Mirror”, “Whom Gods Destroy” e no filme Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida, mas essa utilização pioneira do recurso foi sem dúvida a melhor delas e a mais proveitosa para o personagem. Um clássico.

Avaliação

Avaliação: 3.5 de 4.

Citações

“I am captain Kirk!!!”
(“Eu sou o capitão Kirk!!!”)
Kirk mau

“Any possibility of getting us back aboard before the skiing season opens down here?”
(“Alguma chance de nos levar a bordo antes que comece aqui a temporada de ski?”)
Sulu

“The impostor had some interesting qualities… wouldn’t you agree, yeoman?”
(“O impostor tinha algumas qualidades interessantes… não concorda, ordenança?”)
Spock

Trivia

  • Esta foi a primeira vez que DeForest Kelley usou o famoso bordão “It’s dead, Jim”, embora acabemos vendo McCoy falar “He’s dead, Jim” antes, com “The Man Trap”, filmado depois, mas exibido antes.

  • Primeira vez que Spock utiliza o toque neural vulcano. A sugestão foi de Leonard Nimoy, para manter a filosofia pacifista do personagem. No roteiro original, Spock nocauteava o Kirk malévolo com uma pancada na nuca, dada com a coronha do feiser.

  • O uniforme do capitão Kirk, na cena de abertura do episódio no planeta, estava sem a insígnia da Frota. Após ser transportado, a insígnia volta a aparecer, sem explicações maiores. A razão é simples: os uniformes eram lavados todos os dias, e para isso era necessário tirar a insígnia. Naquela ocasião, alguém esqueceu de costurá-la de volta no tecido, e já era tarde demais para refilmar as cenas. Nas filmagens ninguém reparou. O mesmo ocorreu com o tenente Farrell (Jim Goodwin), numa cena na ponte na parte final do episódio.

  • Na cena do confronto final entre os dois Kirks na ponte, vemos a tela da Enterprise em branco. Um descuido do diretor Leo Penn na hora de escolher os ângulos de filmagem da cena. Para aumentar o drama, na edição, imagens foram invertidas, e os arranhões no rosto dos dois Kirks trocam de lado ao longo da cena.

  • Edward Madden interpreta o tripulante Fisher neste episódio. O mesmo ator, com outro penteado, viveu um tripulante da Enterprise em “The Cage”.

  • Pela primeira vez a produção usa a túnica verde de Kirk em lugar do uniforme clássico. Ela foi criada justamente para diferenciar os dois Kirks deste episódio. Tenha em mente que “The Enemy Within” foi produzido antes, mas exibido depois de “Charlie X”, onde o público viu esse traje pela primeira vez.

  • Em razão principalmente da violência da cena em que o Kirk mau tenta estuprar a ordenança Rand, este episódio foi um dos poucos da primeira temporada a não ser reprisado pela NBC.

  • William Shatner usou uma estratégia radical para que Grace Lee Whitney entrasse no clima da cena em que os dois se confrontam na enfermaria. Deu uma bofetada nela. A performance resultante veio na primeira tomada.

  • A garrafa de conhaque sauriano que o Kirk mau pega na enfermaria é na verdade uma garrafa de whisky da George Dickel Distillery, no Tennessee (EUA).
  • O cenário da engenharia foi criado para este episódio, por Matt Jefferies. O fundo usa perspectiva forçada para dar a impressão de que a sala é maior.

  • Richard Matheson era conhecido tanto por seus roteiros como pelos livros. Ele é autor do livro Eu Sou a Lenda, adaptado várias vezes no cinema.

  • Na última versão do roteiro de Matheson para este episódio, outro tripulante genérico comandava o grupo de descida. Foi Roddenberry quem decidiu usar Sulu e expandir essas cenas.

  • Bob Justman, sempre contando os centavos, estava preocupado com o uso do cão nessas cenas. Cada vez que fosse preciso anestesiá-lo, custaria US$ 100.

Ficha Técnica

Escrito por Richard Matheson
Dirigido por Leo Penn

Exibido em 6 de outubro de 1966

Títulos em português: “O Inimigo Desconhecido” (AIC-SP), “O Inimigo Interior” (VTI-Rio)

Elenco

William Shatner como James T. Kirk
Leonard Nimoy como Spock
DeForest Kelley como Leonard H. McCoy
James Doohan como Montgomery Scott
Nichelle Nichols como Uhura
George Takei como Hikaru Sulu

Elenco convidado

Grace Lee Whitney como ordenança Rand
Jim Goodwin como tenente John Farrell
Edward Madden como técnico Fisher

Revisitando

Enquete

TS Poll - Loading poll ...

Episódio anterior | Próximo episódio