ESPECIAL 60 ANOS | EPÍLOGO: Os proprietários e as empresas mudam, Star Trek fica

Logo da Skydance. (Crédito: Skydance)

Como já dizia o capitão Kirk, “as pessoas podem ficar muito assustadas com mudanças”. A recente aquisição da Paramount Global pela Skydance, seguida pela fusão com a gigante Warner, cria muita apreensão entre os fãs pelo futuro de Star Trek. Mas se tem algo que a saga já ensinou é que os proprietários passam, mas ela fica. Foi assim desde o começo. Quer ver?

Hoje a propriedade intelectual sobre Jornada nas Estrelas pertence aos CBS Studios, que, como o nome sugere, tiveram origem com a rede norte-americana CBS, que começou no rádio e depois passou à televisão. Quando Gene Roddenberry convenceu a Desilu Productions, empresa fundada por Lucille Ball e seu então marido Desi Arnaz em 1950, a encampar Star Trek, a primeira porta em que eles foram bater foi a da rede CBS, que ouviu a proposta da série com algum interesse, mas o recusou, pois já estava desenvolvendo paralelamente Perdidos no Espaço com Irwin Allen. Então a primeira relação da CBS com a criação de Gene Roddenberry foi oferecer a ela um retumbante sinal vermelho. Eventualmente, quem toparia bancar um piloto (e depois mais um) foi a concorrente NBC, que financiou a empreitada junto à Desilu – que queria desistir da coisa toda antes mesmo de começar.

Lucille Ball e seu então marido Desi Arnaz, os fundadores da Desilu. (Crédito: Reprodução)

A primeira pessoa a salvar Star Trek foi ninguém menos que Lucille Ball, a proprietária da Desilu. O conselho de diretores recomendou o engavetamento do projeto, diante do potencial prejuízo (a NBC pagaria uma cota fixa pelos episódios, mas nenhum dos pilotos havia conseguido se manter dentro do orçamento pré-determinado, e havia desconfiança de que o mesmo aconteceria com os episódios regulares, o que de fato se confirmaria). Mas Lucy, como era conhecida desde os tempos da série de sucesso I Love Lucy, estava determinada a prosseguir, acreditando que Star Trek, bem como Missão: Impossível, outra produção que estava apenas em vias de se iniciar na Desilu, poderiam trazer reconhecimento, prestígio e, no fim das contas, dinheiro ao estúdio.

Logo da Desilu. (Crédito: Reprodução)

E assim a série chegou às telas americanas em 8 de setembro de 1966, pela NBC, onde permaneceria pelas três temporadas seguintes. Em cada uma delas, a NBC ameaçou cancelar o programa. Ao fim do terceiro ano, de fato cumpriu a ameaça. Mas antes disso a Desilu já havia tido seu encontro fatal com os boletos. Endividada, acabou vendida ao magnata industrial Charles Bluhdorn, proprietário do conglomerado Gulf+Western, em meio à segunda temporada de Star Trek, em 1968, logo depois de ter comprado o estúdio vizinho à Desilu – a histórica Paramount Pictures. As duas então foram fundidas com a literal derrubada do muro que as dividia, e a franquia, que até então era apenas uma série lutando contra o declínio de audiência e a ameaça de cancelamento, trocaria de dono.

Paramount, uma companhia da Gulf+Western. (Crédito: Paramount)

A primeira coisa que a Paramount fez ao se apropriar de Star Trek foi apertar ainda mais o torniquete para impedir os transbordos orçamentários da série. A segunda foi querer se livrar do programa deficitário na primeira ocasião – o que viria ao final do terceiro ano, com a NBC desistindo de renovar o contrato por mais uma temporada e abortando a missão de cinco anos da USS Enterprise. E a terceira foi descobrir que ela tinha uma mina de ouro nas mãos. Com a venda dos episódios em syndication, uma distribuição secundária para estações locais de televisão, a Paramount começou a faturar alto, concretizando a visão original de Lucille Ball, a quem faltou o fôlego financeiro para cumprir a travessia entre a promessa e o sucesso. Com as reprises em horários melhores que sextas-feiras, 22h, a popularidade da série explodiu. E claro que a NBC se arrependeu também de sua escolha.

Reconstruir os cenários para trazer a atração de volta em sua forma original seria proibitivamente caro, mas a rede televisiva queria seu pedaço da ação no sucesso de Star Trek e comprou, em 1973, uma versão animada do programa, a ser produzida pelo estúdio Filmation, com supervisão de Gene Roddenberry e produção associada de Dorothy Fontana. Com roteiros adultos e histórias desafiadoras, a nova produção foi colocada na faixa de programação dos demais desenhos animados, às manhãs de sábado, onde, mais uma vez, teve dificuldade em encontrar sua audiência. A NBC demonstrava terrível dificuldade em aprender com os próprios erros. Embora fosse agraciada com um histórico Emmy, a Série Animada acabou cancelada após a segunda temporada, em 1974.

Àquela altura, a Paramount pelo menos sabia que tinha um produto de muito sucesso, que não poderia deixar engavetado. Após tratativas iniciais para fazer um filme de cinema darem em nada, o estúdio decidiu bancar ele mesmo uma nova série de Star Trek, que acabaria conhecida como Phase II, para lançar sua própria rede de televisão, a PTS (Paramount Television Service), que teria sido uma competidora direta para as tradicionais NBC, CBS e ABC, não tivesse o estúdio refugado de última hora por questões financeiras. A PTS voltou para a gaveta, e o piloto da Phase II foi convertido em Jornada nas Estrelas: O Filme, que estourou nas bilheterias e deu origem a uma série de longa-metragens de grande sucesso com o elenco clássico, que foi até 1991.

Antes disso, a divisão de televisão da Paramount também queria entrar na dança e promoveu, de novo pagando do próprio bolso, a criação de uma nova série da saga, mais uma vez sob o comando direto de Gene Roddenberry. A Nova Geração estrearia em setembro de 1987, mais uma vez em um movimento ousado da companhia: primeira exibição em regime de syndication. Parecia uma loucura completa. Sem uma rede de televisão para financiar o programa, a Paramount cederia gratuitamente os novos episódios a emissoras interessadas, em troca de alguns minutos de tempo de publicidade durante a exibição. A audiência explodiu, bem como o valor dos comerciais, e o estúdio transfomaria Star Trek em uma máquina de fazer dinheiro. Perdurando por sete temporadas, a tripulação comandada por Jean-Luc Picard então passaria ao cinema, onde, entre 1994 e 2002, geraria outros quatro filmes, pegando de onde o elenco clássico havia parado.

Na televisão, Deep Space Nine seria lançada em 1993 no mesmo regime de syndication. E a série seguinte, Voyager, de 1995, permitiria desengavetar o velho sonho da Paramount de ter uma rede de televisão própria, com o lançamento da UPN (United Paramount Network). Produzindo séries e filmes simultaneamente e tomando vários estúdios da Paramount ao mesmo tempo, Rick Berman – sucessor de Gene Roddenberry no comando das produções a partir de A Nova Geração – se tornaria uma das figuras mais influentes e poderosas de Hollywood. Não por acaso essa segunda era de produção televisiva e cinematográfica unificada é rotineiramente chamada de Era Berman. Movida primariamente por Star Trek, a Paramount tinha um valor fabuloso em 1994, e o conglomerado de mídia Viacom pagou cada tostão que ela merecia ao comprá-la, numa operação de então colossais US$ 10 bilhões. Pertencente à empresa National Amusements, do bilionário Sumner Redstone, a Viacom tinha suas próprias origens em uma empresa que se desmembrou da CBS em 1971.  Em time que está ganhando não se mexe, e não houve impacto da aquisição sobre as produções de Star Trek. Mas um desgaste acabaria por vir. Em 1999, em mais um movimento de expansão, a Viacom compraria a própria CBS.

Paramount, uma companhia da Viacom. (Crédito: Paramount)

Ao produzir mais de 600 episódios distribuídos em 25 temporadas e quatro filmes de cinema num período de 18 anos, não é de surpreender que surgisse alguma erosão do interesse – o que foi chamado então de “fadiga de franquia”. Enterprise, a série criada para suceder Voyager e conduzir o primeiro experimento de Star Trek com uma prequela, acabaria prematuramente em 2005, após quatro temporadas. A UPN também não sobreviveria sem uma série de Jornada e teria ela mesmo seu fim em 2006, quando acabou fundida com a WB para formar a CW (mantendo o arranjo que até hoje perdura nos Estados Unidos com relação às redes de televisão, ao lado de CBS, NBC, ABC e FOX). 

O ano de 2005 também marcou uma decisão corporativa importante: a Viacom decidiu se desmembrar da CBS Corporation, passando ambas a serem independentes, embora ainda como propriedade da National Amusements, da família Redstone. A CBS ficou com o lado televisivo (incluindo a antiga Paramount Television) e os direitos sobre Star Trek. Já o estúdio de cinema, Paramount Pictures, ficou com a Viacom. A franquia passou a ser filha de pais separados e foi nesse momento que o mundo corporativo mais a impactou.

A Paramount Pictures decidiu exercer a licença que tinha para produzir filmes da saga e tentou revitalizar o interesse com a contratação do diretor e produtor J.J. Abrams para lançar o que acabaria sendo uma trilogia de longa-metragens, entre 2009 e 2016. Esse “reboot soft” voltou aos personagens originais, mas ambientado em uma linha do tempo alternativa. Nesse período, o lado televisivo ficou dormente, até a decisão da CBS de investir em uma nova produção de Star Trek para alavancar seu novo serviço de streaming, o CBS All Access.

Discovery inaugurou a terceira era televisiva, hoje também chamada de Era Kurtzman, coordenada pelo produtor Alex Kurtzman. Ele nunca chegou a ter o poder e o alcance de seu predecessor Rick Berman, mas manteve as engrenagens girando por dez anos.

Sob Kurtzman, a franquia no streaming se expandiu de forma notável: Discovery foi seguida por Picard, Strange New Worlds, Lower Decks, Prodigy e, mais recentemente, Starfleet Academy. Em determinado momento, havia cinco séries ativas simultaneamente, um patamar inédito na história da franquia.

Em meio a tudo isso, em 2019, Viacom e CBS decidem se refundir e voltar a ser uma só empresa, primeiro batizada de ViacomCBS, depois de Paramount Global, a partir de 2022. A ideia era criar sinergias entre ambas e valorizá-las para uma futura aquisição por algum peixe corporativo maior. É nesse movimento que o CBS All Access se torna Paramount+, uma marca mais forte internacionalmente e com legado maior. E a compra vem.

Logo da Skydance. (Crédito: Skydance)

Em 2025, a Skydance Media, produtora de David Ellison, filho do bilionário Larry Ellison, dono da gigante da informática Oracle, compra a Paramount Global por US$ 8 bilhões (repare que o valor é menor do que o pago pela Viacom pela Paramount em 1999, mesmo após décadas de inflação e o fato de que agora o que estava sendo comprado era o pacote completo, a junção de Viacom e CBS). A nova Paramount Skydance então se move para comprar a Warner, o que acontece em 2026. O que tudo isso significa para Star Trek?

CBS e Viacom; separadas em 2005, reunidas em 2019. (Crédito: CBS e Viacom)

Ao mesmo tempo, muita coisa e nada. Começando pelo lado “muita coisa”, há uma nova equipe de gestão para pensar estrategicamente todas as propriedades da empresa combinada e trabalhar com elas para gerar o lucro que justifique essa aquisição de US$ 8 bilhões (sem falar na inimaginavelmente maior compra da Warner, de US$ 111 bilhões). Isso coincide com um momento de definição com relação a Alex Kurtzman, cujo contrato para desenvolver Star Trek expira neste ano. Será estendido? Será encerrado? O silêncio, nesse caso, parece apontar para a segunda opção. Mas novas temporadas produzidas por Kurtzman (as últimas de Starfleet Academy e Strange New Worlds) chegarão só em 2027, mantendo-o como uma figura importante na saga no mínimo até lá.

Antes mesmo da aquisição pela Skydance, a Paramount também já ensaiava um retorno da franquia aos cinemas (a bem da verdade, é algo que tentam desde 2016, mas jamais encontraram um projeto que encontrasse a confiança dos executivos). Caberá à nova gestão decidir também o que fazer com isso, enquanto se ocupam também de outros peixes bem maiores que vêm do lado da Warner, como o universo DC e Harry Potter.

David Ellison, falando aos acionistas, já deixou claro que Star Trek permanecia como uma prioridade estratégica – mas com uma visão diferente do que havia sido feito nos anos anteriores. O que isso quer dizer? Por enquanto, nada.

Novo logo da Paramount, combinando elementos da Skydance. (Crédito: Paramount Skydance)

E aí entramos no lado “nada” da coisa. Uma viagem pelo lado corporativo das produções de Star Trek revela o que há de perene e o que há de passageiro em tudo isso. Aquisições, fusões, vendas, desmembramentos… Esse vai e vem corporativo, que faz a CBS recusar a série e, décadas depois, ser dona de toda a franquia, não se confunde com o espírito criativo de Star Trek, que emerge, sim, dos dólares e das estratégias desses vários entes da indústria do entretenimento, mas parece ter uma vida própria e que, após 60 anos, resistiu bravamente ao teste do tempo. Não sabemos qual será o próximo mentor criativo de Star Trek, nem qual será a próxima grande produção. Mas sabemos que ela virá, e isso continuará a acontecer enquanto a criação de Gene Roddenberry tiver relevância e ressonância perante a sociedade. Algo que parece muito distante de desaparecer. As últimas seis décadas foram apenas o começo. Como sempre foi o caso, o espaço seguirá sendo a fronteira final.

Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.

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