ENT 1×21: Vox Sola

Finalmente: encontramos de verdade novas vidas e novas civilizações

Sinopse

Data estelar: Desconhecida

A Enterprise está recebendo a bordo um grupo de kreetassans para uma missão de primeiro contato, mas as coisas não estão indo bem. Há muita dificuldade de comunicação com os alienígenas e eles subitamente se sentem ofendidos com alguma coisa e decidem partir. Quando sua nave está se soltando, uma criatura desconhecida consegue entrar pela porta de atracação, sem que alguém na Enterprise perceba.

Archer está muito irritado com o fracasso, assim como Hoshi Sato. A oficial de comunicações se sente culpada pela falta de diálogo com os alienígenas e T’Pol parece apenas reforçar essa sensação. Tucker quer aliviar as coisas para o capitão e decide convidá-lo para acompanhar uma partida das finais do campeonato de polo aquático –o esporte favorito de Archer–, recém-transmitida pelos canais subespaciais.

Kreetassans

Enquanto os dois compartilham do jogo juntos, Reed, Mayweather e Hoshi estão jantando no refeitório, discutindo a possibilidade de irem acompanhar o filme da noite no auditório. Hoshi, ainda chateada pelos eventos, decide se recolher mais cedo, mas Reed aceita o convite, após Travis prometer que o filme seria bem explosivo.

Entretanto, o sistema de vídeo parece não estar funcionando bem. Da mesma maneira, o pessoal da engenharia detecta um problema no deque D e despacha um tripulante para resolvê-lo. Chegando ao compartimento de carga, o tripulante encontra a criatura, que logo o envolve, sem dar a chance de ele avisar seus colegas da engenharia do perigo. Quando outra oficial vai atrás dele, ela também é capturada, mas não sem antes conseguir transmitir um aviso ao capitão.

Criatura em Enterprise

De sobressalto, Archer e Tucker deixam o jogo para investigar o que está havendo, juntamente com Reed e outro oficial. Quando chegam lá, descobrem os dois tripulantes da engenharia presos e suspensos por uma rede de tentáculos. Um deles tenta avisar ao capitão para fugir, mas não com a rapidez suficiente e logo Archer, Tucker e o terceiro oficial também são capturados pela criatura. Apenas Reed consegue fugir, fechando a porta por sobre dois tentáculos e arrancando um pedaço de um deles.

O tecido é levado para análise na enfermaria. Phlox estuda a criatura e identifica nela uma complexa rede nervosa, indicando provavelmente alto nível de consciência. Hoshi imediatamente acredita que a solução para libertar os oficiais é se comunicando com a criatura, mas Reed aponta que levaria muito tempo para estabelecer um diálogo compreensível, tempo que eles não podem se dar ao luxo de perder. Alternativamente, o oficial de armamentos quer, de algum modo, tontear a criatura. Phlox aponta que ela é fotossensível e que um pulso bem modulado de luz poderia colocá-la para dormir. T’Pol ordena que Mayweather procure os kreetassans, na esperança de que eles saibam algo sobre a criatura e opta pela sugestão de Reed, que imediatamente trabalha no sistema que deveria imobilizá-la.

Phlox analisa pedaço de criatura

Quando posta em prática, a solução começa funcionando, mas logo o sofrimento pelo qual passa a criatura começa a ser transferido aos oficiais capturados. Phlox aponta que ela está estabelecendo elos neurais com os tripulantes. Prosseguir com aquela estratégia provavelmente mataria Archer e os outros antes mesmo de tontear a criatura. O procedimento é, então, interrompido e Hoshi deve agora buscar a opção alternativa — comunicar-se com a criatura.

Ela começa trabalhando nas vibrações do ser, mas não consegue traduzi-las. Como exibem padrões altamente matemáticos, ela pede a ajuda de T’Pol. Enquanto isso, Reed está preocupado com a segurança da nave. Com a autorização da primeiro-oficial, ele começa a desenvolver um campo de força experimental, o primeiro do tipo, para conter a criatura na área de carga. Ele quer fazer experimentos com o pedaço do ser mantido na enfermaria, para determinar a frequência de seu campo de força, mas Phlox o impede, pelo fato de o membro solto apresentar características de um ser inteligente e individual. Isso acaba atrasando um pouco o desenvolvimento do sistema de contenção.

T'Pol e Hoshi trabalhando juntas na comunicação com a criatura

Na ponte, Mayweather finalmente é contatado pelos kreetassans. Eles dizem conhecer a criatura, que já a viram em um planeta próximo. Segundo os alienígenas, esse ser deve ter sido transportado no casco da nave deles, sem que eles soubessem. Mayweather pede as coordenadas para o planeta da criatura, mas os kreetassans só concordam depois que o oficial pede desculpas pelo mal entendido que havia ocorrido antes. Todo o problema havia surgido quando Tucker comeu alguma coisa — para os kreetassans, comer é uma atitude extremamente reservada, como praticar sexo.

De posse das coordenadas, Travis marca curso para o planeta. Enquanto isso, o tempo passa e os tripulantes capturados estão cada vez mais integrados com a criatura. Logo, será impossível separá-los, conclui Phlox. Reed conclui os trabalhos com seu campo de força, que se mostra importante para conter a criatura, enquanto Hoshi tenta seu melhor esforço para se comunicar com ela. Usando tons harmônicos que representam relações matemáticas, ela consegue transmitir ideias simples. A criatura passa coordenadas de latitude e longitude relativas a seu planeta natal e Hoshi comunica que a Enterprise irá levá-la para casa. Depois disso, a criatura liberta os oficiais.

Mayweather falando com Kreetassans

Um grupo de descida leva a criatura de volta a seu habitat, onde ela se integra a uma enorme rede semelhante a ela, que, segundo T’Pol, tem leituras de uma só criatura. Resta à Enterprise partir, seguindo para sua próxima missão.

Comentários

Uma coisa a audiência não poderá reclamar de “Vox Sola” — o episódio certamente representa tudo que os produtores prometeram, em termos da premissa original de Enterprise. Com uma trama básica que poderia facilmente descambar para um desastre, Fred Dekker consegue produzir um roteiro bastante interessante, que mais uma vez traz à tona algumas das qualidades mais marcantes da série.

Assim como em outros segmentos memoráveis do primeiro ano (como “Fight or Flight” e “Dear Doctor”), temos aqui uma boa amostra de como é a vida para um tripulante da Enterprise. Melhor até do que nos segmentos anteriores nesse aspecto, o episódio consegue desenvolver a rotina não só para os personagens principais, mas também para alguns dos tripulantes figurantes.

Title Card Vox Sola, Enterprise

Novas relações de camaradagem brotam aqui, como aquela entre Reed e Mayweather. Aliás, diga-se de passagem, já é o segundo episódio seguido em que os roteiristas fazem bom uso do piloto da nave. Ao que parece, lentamente, a equipe está encontrando a voz, o tom e o papel de Travis entre os sete principais personagens da série.

Reed continua com uma sólida e interessante caracterização. E é difícil não apreciar a personalidade literalmente explosiva do oficial. Suas atitudes extremamente incisivas favorecem a qualidade dos diálogos. Quando Dekker junta Reed e Phlox, outro personagem extremamente bem desenvolvido, para uma discussão ética, a combinação é excepcional. Tanto Dominic Keating como John Billingsley conseguem mostrar muito bem o valor e a importância de seus personagens na série.

Reed, Mayweather e Hoshi no refeitório

Na outra ponta da equação, Hoshi e T’Pol dão mais um passo para iniciar uma relação amistosa. Embora não rendam tão bem quanto o armeiro e o doutor da Enterprise, as duas mostram uma boa química juntas e o relacionamento parece fluir naturalmente. Ele foi beneficiado pelo tratamento adequado que T’Pol recebeu aqui, sem os exageros que têm marcado algumas de suas participações.

A cena que envolve Tucker, Archer e o polo aquático não faz muito pelos dois personagens, exceto confirmar a amizade que já conhecemos existir ali. Apesar disso, é reconfortante ver a dupla tomando cerveja e assistindo a uma competição esportiva (embora polo aquático não tenha sido uma escolha particularmente interessante para o esporte favorito do capitão). Mais uma vez, é a premissa da série se fazendo notar, em aspectos sutis.

Tucker e Archer assistindo polo aquático

De uma forma geral, esses relacionamentos a bordo respondem por uma das promessas dos produtores — desenvolver seus personagens o mais possível. Aqui, todos recebem um tempo decente de tela e situações importantes com que lidar. Ajudou também “trancafiar” Tucker, Archer e mais três “camisas vermelhas” na teia da criatura, permitindo que os demais pudessem brilhar.

(Aliás, sobre os “camisas vermelhas”, é notável como os produtores estão resistindo em matar figurantes. Um bom sinal, depois de sete anos de tripulantes recicláveis em Voyager. Resta saber quando ocorrerá o “histórico evento” da morte do primeiro “camisa vermelha”.)

Tripulante (camisa vermelha) preso por criatura

Felizmente, a outra promessa da série — mostrar a infância da Frota Estelar e da exploração humana pelo cosmos — não foi esquecida e há muito dela no que vemos aqui. Só para citar um exemplo, o “histórico evento” da invenção do primeiro campo de força eletromagnético surge neste segmento, graças a Malcolm Reed.

Além disso, temos um primeiro contato mal sucedido, por mera inexperiência ou falta de entendimento. Embora vez por outra isso tenha surgido em Jornada, é algo que cai muito melhor na premissa de Enterprise do que em qualquer outra série.

Campo de força do Reed

Depois, a perspectiva de que tudo é novo e assustador para Archer e seus tripulantes. Certamente a criatura que vemos aqui é assustadora — pelo menos no roteiro. A execução das cenas, principalmente as que não envolvem CGI mas apenas os tripulantes presos em um monte de papel higiênico molhado, deixou um pouco a desejar. Quando Archer e cia. “sofrem as dores” da criatura, não pude evitar uma gargalhada involuntária.

Apesar disso, em termos conceituais, a coisa toda é bem interessante. Quem costuma reclamar da velha reciclagem dos “alienígenas da semana”, não pode reclamar do protagonista de “Vox Sola”. Principalmente quando ainda temos a chance de visitar o planeta natal dessa forma de vida e ver um panorama do que realmente pode ser uma criatura alienígena, em todos os sentidos do termo. Certamente, é o tipo de coisa que reforça a ideia de que é possível fazer exploração com novidades não só para os tripulantes da Enterprise, mas para a audiência também. Se houvesse um ícone para o conceito de “explorar novas vidas”, certamente seria algo parecido com o que vimos aqui — em grande parte proporcionado pela incrível ferramenta criativa que a CGI pode ser, quando bem utilizada.

Planeta da criatura em Vox Sola, Enterprise

O resultado é particularmente notável, tendo em vista a possibilidade enorme que esse episódio tinha de se tornar um daqueles no estilo “monstro da semana”. Os méritos vão todos para Rick Berman, Brannon Braga e Fred Dekker, que conseguiram bem se manter na fronteira entre o assustador e o interessante, sem descambar para o ridículo (com exceção dos já referidos problemas de execução).

Um exemplo dessa tênue linha é visto na forma como Hoshi Sato consegue se comunicar com a criatura. Em primeiro lugar, não chegamos a realmente obter um entendimento da linguagem ou do raciocínio do bicho. Nos contentamos apenas com mensagens e conceitos simples, o que faz com que a magia de encontrar uma forma de raciocinar totalmente alienígena se mantenha, mesmo com o estabelecimento do contato. Essa ideia é reforçada pelo uso interessante de comunicação por música, bem ao estilo de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

Hoshi se comunicando com a criatura

Sato aqui tem muito mais mérito e credibilidade do que em “Fight or Flight”, sua experiência anterior em salvar o dia para a Enterprise falando com alienígenas que ninguém entende. Naquela ocasião, os axanares e sua linguagem eram só mais uma na miríade de raças de Jornada. Aqui, encontramos uma forma de vida singular, e o desafio da comunicação com ela é tratado de maneira muito mais interessante e verossímil (claro, no fundo, tudo acontece muito rápido para ser real, mas o tratamento geral é bem concebido).

Apesar dessas qualidades, ainda assim o episódio não atinge o brilhantismo, por estar preso a um enredo que se desenrola majoritariamente numa área de carga (para variar, mal iluminada) e que não tem muita ação boa parte do tempo, com várias cenas de atores falando uns com os outros pendurados em um monte de gosma. Isso realmente não ajuda e, olhando desse ponto de vista, Roxann Dawson fez até um bom trabalho para não tornar o episódio excessivamente cansativo em termos visuais.

Tucker e Archer presos por criatura

Mas os valores de produção mais altos do segmento estão com os espetaculares efeitos especiais de computador e a trilha sonora. O uso da orquestração aqui dá um tom bastante interessante, especialmente nas cenas que envolvem a criatura. Temos a predominância de violinos, um evento raro nas trilhas da série e uma bela mudança de ares trazida pelo músico Paul Baillargeon.

No final das contas, “Vox Sola” não se trata de um episódio pelo qual as pessoas vão se apaixonar perdidamente. Mas, certamente, é um sopro de vida e inovação no franchise, o que, por si só, é uma boa notícia.

Avaliação

Citações

“Well, this is one for the books: briefest first contact.”
(Bem, essa é uma para os livros: primeiro contato mais rápido.)
Tucker

“Are you staying for the movie tonight?”
“What’s playing?”
“‘Wages of Fear’. Classic French film.”
“No, you’ll like it. Things blow up.”
“Humm. Sounds fun.”
(Você vai ficar para o filme hoje à noite?)
(O que vai passar?)
(‘O Salário do Medo’. Filme clássico francês.)
Reed acena negativamente
(Não, você vai gostar. Coisas explodem.)
(Humm. Parece legal.)
Mayweather e Reed

“If you want information to help you construct your force field, you’ll acquire it under my supervision.”
“I’m sure I don’t have to remind you, doctor. I am the ranking officer.”
“Not in my sickbay.”
(Se você quer informação para ajudá-lo a construir seu campo de força, você irá obtê-la sob minha supervisão.)
(Estou certo de que não tenho de lembrá-lo, doutor. Eu sou o oficial mais graduado.)
(Não na minha enfermaria.)
Phlox e Reed

“When Zefram Cochrane talked about new life and new civilizations, do you think this is what he meant?”
(Quando Zefram Cochrane falou de novas vidas e novas civilizações, você acha que é isso que ele tinha em mente?)
Tucker

Trivia

  • A saga de Vaughn Armstrong em Enterprise segue. Ele acumula mais um papel na série, além de já ter feito o almirante Forrest e um capitão klingon. Em “Vox Sola”, ele faz seu 11º personagem em Jornada nas Estrelas.
  • Joseph Will interpretou Kelis, em “Muse” e um segurança, em “Workforce, Part II“, ambos de Voyager.
  • Em uma convenção, Dominic Keating revelou que Scott Bakula e Connor Trinneer ficaram pendurados por horas, durante vários dias, em uma “coisa gosmenta branca” enquanto o episódio era filmado.
  • Quem apreciou o esforço da dupla foi a diretora Roxann Dawson. “Eu realmente preciso tirar o chapéu para Scott e Connor, que passaram dias suspensos por cabos cobertos em gosma sem uma única reclamação. Eles foram capazes, de algum modo, de manter seu senso de humor sob essas circunstâncias extremas”, disse.
  • Foi complicado dirigir o episódio, disse Dawson. “Esse episódio foi difícil, desafiador e… bem, em momentos cheguei a pensar que era quase impossível. Tínhamos de criar um organismo alienígena que cresce e toma conta da área de carga, agarrando alguns dos tripulantes em sua teia. Como você cria essa criatura, torna-a crível e a faz assustadora?”
  • Malcolm Reed inventa o primeiro campo de força de energia, um feito em que a Frota Estelar da Terra já trabalhava há cinco anos, sem sucesso.
  • O episódio originalmente se chamava “Vox Solis” (“voz do Sol”, em latim), mas foi trocado de última hora para “Vox Sola” (“voz solitária”), que, diga-se de passagem, faz muito mais sentido.

Ficha Técnica

História de Rick Berman & Brannon Braga & Fred Dekker
Roteiro de Fred Dekker
Dirigido por Roxann Dawson

Exibido em 1 de maio de 2002

Títulos em português: “Vox Sola”

Elenco

Scott Bakula como Jonathan Archer
Jolene Blalock como T’Pol
John Billingsley como Phlox
Anthony Montgomery como Travis Mayweather
Connor Trinneer como Charlie ‘Trip’ Tucker III
Dominic Keating como Malcolm Reed
Linda Park como Hoshi Sato

Elenco convidado

Vaughn Armstrong como capitão kreetassan
Joseph Will como Michael Rostov
Renee Goldsberry como Kelly

Enquete

Edição de Mariana Gamberger
Revisão de Nívea Doria

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