DS9 2×17: Playing God

Show de tecnobaboseira e bom papel para Dax equilibram desempenho

Sinopse

Data estelar: Desconhecida

Um jovem trill, de nome Arjin, chega à estação para dar continuidade a seus treinamentos, visando uma futura união com um simbionte. Nessa parte de seus estudos, ele deve interagir com um instrutor trill (no caso, Jadzia Dax) já unido, que lhe oferecerá uma perspectiva sobre como é a vida de um trill unido.

Ao mesmo tempo, tal instrutor deve se assegurar de que o candidato poderá um dia ter a honra também de se unir a um simbionte. Arjin está muito nervoso e inseguro, pois o simbionte Dax (em hospedeiros anteriores, como Lela e Curzon) é famoso por eliminar sumariamente candidatos do programa de seleção. A própria Jadzia foi eliminada por Curzon Dax, porém retornou ao programa e, ironicamente, acabou ficando com o próprio simbionte Dax, após a morte de Curzon.

Arjin considera Jadzia um hospedeiro totalmente atípico, que gosta de luta-livre, jogos de azar e bebidas. Os dois acabam, por acidente, retornando de uma missão no Quadrante Gama com uma massa de protoplasma em uma das naceles do explorador. Tal massa é posta em um campo de contenção no laboratório de ciências para ser analisada no dia seguinte. Interagindo com Arjin, Jadzia descobre que ele não parece ter nenhuma aspiração como pessoa além de se unir a um simbionte. Ben Sisko aconselha que Dax não pode simplesmente “lavar as mãos” sobre a atitude de Arjin, pois isso não seria benéfico ao jovem trill.

Entretanto, quando Jadzia “aperta” Arjin sobre seus reais objetivos na vida, ele não reage bem e critica as atitudes dela como hospedeira, deixando-a sozinha no laboratório.

Uma praga de voles cardassianos (uma espécie do roedor) assola a estação e acaba por cortar o suprimento de força para o laboratório. Sem um campo de contenção, a tal “massa” começa a se expandir.

Jadzia descobre que tal “massa” é, na realidade, um “protouniverso”, contendo vida. Sisko decide que esse “protouniverso” deve ser devolvido “ao lugar a que ele pertence”, no Quadrante Gama. Jadzia se encontra com Arjin no bar do Quark, lhe conta como foi o seu próprio processo de seleção e como, após Curzon eliminá-la, ela ganhou uma força interior que nunca julgou existir, ingressou novamente no programa e conseguiu finalmente a união.

Arjin aceita a sinceridade dela e reconhece que, se ele quiser realmente se unir um dia, deve também encontrar o que é realmente importante para ele na vida. Devido às excelente habilidades de piloto de Arjin, Jadzia o convida para o arriscado transporte do “protouniverso” pela Fenda Espacial. Os dois embarcam na missão que, com sucesso, retorna o “protouniverso” ao local de origem. Jadzia vai se despedir de Arjin, que diz que agora “sabe o que tem de fazer”.

Comentários

Uma das mais absurdas e confusas tramas de sci-fi da série, o medonho “protouniverso”, e a fraca caracterização de Arjin (e a ainda pior atuação de Geoffrey Blake no papel) jogam por terra este segmento de Deep Space Nine. Existe, ainda, muito do que se gostar no episódio, como um bocado de humor de qualidade, em que podemos rir com os personagens e não dos personagens, e um bocado de caracterização para Jadzia. Infelizmente, a interminável sucessão de rescritas pelas quais o episódio passou se mostra claramente em um produto mal acabado e pouco profissional. Sem querer “bancar Deus” sobre o assunto, vamos aos detalhes.

A trama principal do episódio junta duas completas “famílias de clichês trekkers“. A primeira é aquela em que descobrimos uma “coisa desconhecida” (no nosso caso o “protouniverso”), que, depois, se mostra um perigo para a sobrevivência de “muita gente” (no presente caso, a estação e, provavelmente, uma significante porção da nossa galáxia), os personagens descobrem uma forma de lidar com a ameaça, destruindo tal “coisa”, a “coisa” acaba por se revelar mais uma “inocente e inteligente forma de vida” e, obviamente, os personagens não podem destruí-la e usam alguma solução alternativa para resolver tal ameaça.

Como aplicado neste episódio, devido à fraca execução, tal conceito elimina qualquer suspense, pois sabemos, inicialmente, ponto a ponto, o que vai acontecer, um verdadeiro exercício de paciência para os espectadores. Outro grande problema é o excesso de “tecnobaboseira” (que faz o infame e pior uso possível dessa virtual praga dos roteiros de Jornada, serviço de ajudar a levar a trama ponto a ponto), o que chega a ser nauseante e tolo. Infinitas questões abundam desta trama, tais como, por que diabos o simples fato de retornar o “protouniverso” para “onde ele pertence” (sendo lá onde isso for) o fará parar de se expandir?

(O conceito do “protouniverso”, em si, é interessante, porém é algo “tão grande” que não poderia ser usado em um episódio, a menos que muito esforço fosse posto sobre ele. Tomem, por exemplo, o fato de Sisko decidir, em uma hora, sobre o destino de um universo inteiro com essencialmente nenhuma informação sobre o funcionamento intrínseco dele. Simplesmente mal escrito.)

A segunda família de clichês é aquela em que dois personagens entram em alguma espécie de “conflito” (no nosso caso, Arjin e Jadzia) e, ao seu final, após viverem juntos algumas cenas de “ação” e “suspense” (obviamente para satisfazer alguma espécie de quota no episódio em questão), colocam suas “diferenças” de lado com extrema facilidade. Arjin tem uma caracterização muito fraca, muito transparente, não faz a audiência simpatizar com ele e também tem pouco valor de entretenimento para o público, um virtual zumbi.

Vamos aos pontos de humor que funcionaram: Sisko inicialmente “mandando” que O’Brien ponha os fêiseres em tonteio, pois ele queria os voles vivos e, depois, (após um dos infames roedores cardassianos cortar um cabo de força no laboratório) ele manda O’Brien colocar os fêiseres para matar os roedores e diz (como na canção): “…no more mister nice guy“; Quark sendo afetado pelo desruptor sônico de O’Brien foi um barato (e o desgosto de Kira por Quark também estava presente com efeito); a forma como Arjin (e a audiência) confundem o instrutor de luta-livre de Jadzia com um amante dela é brilhante (e com uma sutileza raramente encontrada em nosso típico “humor trekker“), com direito a uma estonteante Terry Farrell “molhadinha e de toalhinha” e o seu recado de despedida ao seu (a ser descoberto mais tarde) instrutor: “Foi divertido. FOI BRUTAL, mas foi divertido”; Bashir mandando a O’Brien a “solução que funcionou em Hamlim” foi também excelente; O’Brien falando com gul Evek (personagem que seria visto novamente em “The Maquis“, a seguir, nesta mesma segunda temporada) pelo subespaço; e, por último, Quark tentando animar Arjin com a sua própria história de desgraça existencial.

(A cena dos “traseiros falantes” não foi ruim, mas não está no mesmo nível das citadas acima.)

Jadzia recebe uma quantidade mais do que saudável de caracterização: revisitamos os seus jogos de tongo com os ferengis (como introduzido em “Rules Of Acquisition“), descobrimos que ela pratica luta-livre (o que é interessante, visto os eventos em “Blood Oath“, mais tarde, nesta mesma segunda temporada), lembramos o seu hobby de colecionar compositores obscuros (como introduzido no ridículo “Melora“), descobrimos que ela tem familiaridade com a cultura klingon (ver mais em “Blood Oath“), etc.

Um pequeno problema aqui foi “reduzir” um bocado as habilidades de pilotagem de Jadzia para fazer o episódio funcionar. Apesar de não ser relacionado especificamente com Jadzia, o fato de o simbionte Dax ser o “terror dos iniciados trill” é uma ideia muito interessante. Ainda mais interessante é o fato de que foi Curzon quem eliminou Jadzia do programa e que ela é que acabou com o simbionte Dax.

(Na realidade, ainda existe um elemento adicional de história entre Curzon e Jadzia que seria revelado em “Facets”, da terceira temporada.)

O relacionamento entre Ben e Jadzia cresceu um bocado nesta temporada e foi muito interessante ser Sisko, o antigo pupilo de Curzon, a apontar que Jadzia estaria prestando um grande desserviço a Arjin por não o confrontar sobre as suas inseguranças e mostrar que ser duro com ele, assim como Curzon foi com ela, seria necessário. Vimos, também, as dúvidas de Jadzia Dax sobre si mesma e, mesmo em vários diálogos com Arjin, ela se refere a Jadzia (antes de se unir) na terceira pessoa. Bem interessante.

A direção de David Livingston foi inventiva como sempre. Reparem na tomada pouco antes da cena dos “traseiros falantes”, em que a câmera é colocada dentro de um console no centro de operações e consegue focalizar Ben Sisko deixando o seu escritório. Também é interessante Jadzia entrando no escritório de Ben e retomando uma partida de xadrez com ele, que introduz o diálogo entre os dois, a melhor cena do episódio. Um óbvio calcanhar de Aquiles no trabalho do diretor, entretanto, foi a caracterização de Arjin.

Farrell teve a sua melhor atuação na série até aqui e soou bastante verdadeira na maioria dos pontos. Brooks esteve tão bem ou melhor e o resto do elenco regular mostrou a competência usual.

Geoffrey Blake prejudicou grosseiramente o episódio. Taylor, voltando ao papel do “chefe” klingon, visto inicialmente em “Melora“, e Poe foram hilários. Norris não comprometeu.

O diário de Sisko sobre os borgs, enquanto decidindo o destino do “protouniverso”, foi apropriado. O problema é que, além de a decisão ter sido tomada antes de o problema surgir, sair de tal diário e entrar na cena posterior com Jake foi um pouco esquizofrênico demais, para dizer o mínimo.

A conversa de Sisko e Jake sobre a namorada de Jake, uma garota do dabo já citada anteriormente na série, funcionou bem, até melhor do que a da semana passada, sobre Jake entrar ou não na Academia da Frota Estelar. Mas a gente só irá ver o tal “jantar em família” prometido por Ben em “The Abandoned”, da terceira temporada.

Playing God” teria sido muito melhor sem o nefasto uso do “protouniverso”. O humor em geral no episódio e a caracterização dada a Jadzia são bons, mas o produto final é extremamente mal acabado e confuso.

Avaliação

Citações

“Phasers on stun, Mr. O’Brien. I want those voles taken alive.”
(Fêiseres em tonteio, Sr. O’Brien. Quero esses voles vivos.)
Sisko

Serious? No. I just threw my whole life out a porthole. Nothing serious.”
(Sério? Não. Eu apenas joguei minha vida inteira pela janela. Nada sério.)
Arjin

Trivia

  • Foi construído, sob a supervisão do especialista em efeitos visuais Gary Hutzel, um modelo físico adicional para a parte do anel de atracação da estação, para ser utilizado nas cenas em que o “protouniverso” vai abrindo seu caminho através do casco exterior da estação.
  • Participação de Richard Poe como gul Evek (veremos mais sobre ele no episódio duplo “The Maquis”, mais à frente, nesta segunda temporada).

Ficha Técnica

História de Jim Trombetta
Roteiro de Jim Trombetta e Michael Piller
Dirigido por David Livingston

Exibido em 28 de março de 1994

Título em português: “Brincando de Deus”

Elenco

Avery Brooks como Benjamin Lafayette Sisko
René Auberjonois como Odo
Nana Visitor como Kira Nerys
Colm Meaney como Miles Edward O’Brien
Siddig El Fadil como Julian Subatoi Bashir
Armin Shimerman como Quark
Terry Farrell como Jadzia Dax
Cirroc Lofton como Jake Sisko

Elenco convidado

Geoffrey Blake como Arjin
Ron Taylor como o chefe Klingon
Richard Poe como gul Evek
Chris Nelson Norris como o homem alienígena
Majel Barrett como a voz do computador

Enquete

Edição de Muryllo Von Grol
Revisão de Nívea Doria

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