TOS 2×25: Bread and Circuses

Segmento ambíguo ancorado em teoria improvável

Sinopse

Data Estelar: 4040.7

Numa patrulha de rotina, a Enterprise encontra os destroços da S.S. Beagle, uma nave de reconhecimento que desaparecida seis anos antes. A Beagle era uma nave comandada pelo Capitão R.M. Merrik e possuía tripulação de 47 pessoas. Merrik era um velho conhecido de Kirk, da academia. Quando Spock projeta o caminho dos destroços durante o tempo, descobre uma civilização Romana moderna no planeta IV do sistema 892. A Enterprise então intercepta uma transmissão de televisão mostrando uma luta, um gladiador matando “o último dos bárbaros” segundo a narração, que na verdade era um dos tripulantes da Beagle, William B. Harrison.

Depois de se tele-transportarem ao planeta, Kirk, Spock e McCoy são confrontados por um grupo de escravos fugitivos. O grupo de descida é capturado e levado até o líder dos escravos, Septimus, um ex-Senador que agora é um fiel adorador do “Sol”. Apesar do escravo Flavius querer matar o trio da Enterprise, Septimus os aceita como amigos e oferece a eles uma agradável hospitalidade. A extrema semelhança da civilização do sistema 892 com a dos Romanos da Terra aparentemente é uma coincidência, segundo Kirk, demonstrando a validade da Lei de Hodgekin de Desenvolvimento Planetário Paralelo.

Quando Kirk questiona os escravos sobre um homem chamado Merrik, ele descobre que o líder e primeiro cidadão do império é chamado de Merricus. Quando Kirk e seus amigos expressam o interesse de capturar Merricus, Flavius Maximus o escravo que foi gladiador, se oferece para acompanhá-los. Mas, o grupo é capturado por forças legionárias e colocados na prisão. Kirk questiona Flavius sobre a instituição da escravidão no planeta e descobre que os levantes contra o sistema praticamente cessaram após os escravos receberem alguns direitos como assistência médica e pensão do estado. Kirk, Spock e McCoy tentam fugir quando os guardas estão escoltando-os para falar com Merricus, mas este antecipa a intenção do trio, desarmando-os e levando-os até seus aposentos para uma conversa.

Merricus de fato é Merrik, e este diz a Kirk que foi até àquele planeta para obter Iridium para fazer reparos na Beagle, que havia se danificado por causa de um meteoro. No planeta, Merrik conheceu o Primeiro Cônsul Claudius Marcus. Ele também decidiu que não poderia informar sobre a cultura do planeta para a Federação sem contaminá-la. Merrik concordou em ficar, mas acabou por condenar à morte seus tripulantes que não se adaptaram, enviando-os para a Arena para lutar. O Cônsul ordena a Kirk que transporte a tripulação da Enterprise para o planeta, poucos de cada vez.

Em vez disso, Kirk alerta Scotty dando “condição verde” como código de que havia e que estava com problemas. Por causa da falta de cooperação de Kirk, Merrik envia McCoy e Spock para lutar na Arena contra os gladiadores Achilles e o recapturado Flavius. Durante a luta, Spock incapacita seus oponentes, salvando a vida de McCoy. Ambos são reenviados para a prisão, enquanto Kirk é entretido por Drusilla, a escrava pessoal do Proconsul, antes de sua execução.

Na Enterprise, Scotty se prepara para cortar a força do planeta inteiro enquanto Kirk está para ser executado ao vivo pela televisão Romana. Antes que a execução possa se concretizar, Flavius intervem e salva Kirk, mas é morto por tiros de metralhadora antes que Scotty consiga cortar a força. Kirk então vai tentar libertar Spock e McCoy da prisão, mas eles são cercados por guardas, Merrik e o Proconsul.

Merrik, que havia roubado um comunicador sinaliza para que a Enterprise os tele-transporte; infelizmente, durante a transmissão da mensagem, Merrik é apunhalado pelo Proconsul, mas à tempo dele jogar o comunicador para Kirk, que juntamente com Spock e McCoy são transportados segundos antes da cela em que se localizavam ser cravejada por balas das metralhadoras dos guardas. A bordo da Enterprise, Uhura descobre que os escravos fugitivos na realidade não eram fies adoradores do “Sol”, mas adoradores do céu, céu de Deus.

Avaliação

Toda moeda tem dois lados. Esse ditado popular tem muito a ver com o resultado alcançado por esse segmento de Jornada nas Estrelas ao analisarmos todos os elementos postos aqui e como eles se interagem para criar uma história no mínimo pitoresca. Se isso funciona é que se pretende avaliar aqui.

Começando pelo copo meio cheio “Bread and Circuses” é um episódio cheio de nuances interessantes que contribuem com alguns elementos da mitologia da série e consequentemente da franquia. A ideia de um “serviço mercante” é um adendo bem-vindo formalizando a ideia de que não somente naves da Frota Estelar fazem missões em espaço profundo. A fala de Kirk dá a entender que a SS Beagle é uma nave civil. E mais uma vez somos lembrados dos possíveis perigos inerentes as viagens espaciais.

O que levanta a questão se a tripulação dessas naves também estaria submetida a primeira diretriz, elemento importante para o desenvolvimento desse enredo tanto que ela chega a ser “recitada” pelo trio logo após eles descerem ao planeta. Aqui a diretriz funciona com um elemento importante ao determinar de forma subjetiva alguns limites do episódio, muito embora por diversas vezes a Serie Clássica tenha “entortado” esse regulamento sempre que lhe foi conveniente. Mas aqui pelo menos a coisa vai bem.

Um dos elementos que ajuda a manter a atenção é que desde a primeira captura pelos escravos fugitivos até o momento final do segmento ele tem sucesso e causar tensão a respeito dos destinos dos personagens, algo que exige competência uma vez que sabemos de antemão que os três voltarão sãos e salvos a Enterprise ao final da missão. Grande parte desse êxito está no roteiro que habilmente constrói uma ambientação de perigo dada a impotência em que coloca a todos.

Mas para isso a participação de Logan Ramsey como Claudius é fundamental. Ramsey entrega uma atuação contida e discreta, mas jamais tímida. Sua calma e segurança constroem um personagem sagaz, inteligente e astuto e firme. Claudius entrega verossimilhança necessária a posição que seu papel precisa para que seja visto com um adversário perigoso.

William Smither (Merik) também tem bom desempenho aqui. O capitão da Beagle, embora não tenha a mesma tenacidade de Kirk, é retratado não como um vilão ou covarde, mas como uma pessoa que em determinado momento preferiu o caminho mais fácil ao se encantar pela forma de vida dos habitantes do planeta que encontrou. E não por acaso o Império Romano desperta curiosidade histórica e mesmo paixões em muitos e nem é preciso ir longe uma vez que tão fascínio inspirou a criação dos Romulanos, uma das raças mais queridas da franquia. É muito bem vindo que o segmento ofereça alguma redenção ao personagem ainda que em sua morte.

O texto ainda brinca com algumas curiosidades históricas como ao dar o nome do personagem de Ian Wolf de Septimus, nome de um imperador Romano (Lucius Septimius Severus) da mesma que Claudius Marcus parece ser uma referência a Marcus Claudius Marcellus, que foi consul e também imperador romano. Flavius também parece ser uma referência a Flavius Magnus Maximus, outro personagem histórico da Roma Antiga embora seu breve background pareça remeter a um perfil Similar a Spartacus. Enfim, apenas referencias que apresentam mais sabor as segmente para quem tem alguma curiosidade histórica, mas em nada relevante para o seu desenvolvimento.

Entre mais um dos bons momentos na história e a escolha de Gene Roddenberry de abordar ainda que de forma incidental o tema da fé e da crença religiosa, algo raro na Serie Clássica, mas sem dúvida um fator determinante na história da humanidade. Logo extirpar o tema totalmente do contexto da série seria no mínimo uma atitude equivocada e aqui o foco na filosofia do amor universal como mensagem principal parece uma aposta acertada e uma mensagem positiva a todos e que se alinha com os valores humanistas da franquia.

A participação de Shatner no segmento é eficiente. Kirk entrega a competência necessária ao seu papel de capitão e demonstra sagacidade em momentos quando percebe que a única saída para sua situação é um encontro com Merik, que ele provoca “desafiando” um chefe da guarda, ou quando tenta dissimular seu temor em relação ao destino de Spock e McCoy na arena. É claro que mais uma vez é criado alguma forma de o nobre capitão colocar mais uma conquista no seu currículo, ainda que não seja exatamente uma conquista e que a situação oferecida faz algum sentido dado o contexto apresentado a respeito da Roma antiga e suas tradições.

Mas em termos de elenco e regular aqui mais uma vez Nimoy e Kelley se destacam. Ao longo de todo segmento existe a tensão latente entre ambos oferece ótimos momentos de diversão graças a disputa entre ambos e a constante implicância de McCoy com o Vulcano. A preocupação de Spock com o médico na arena é perceptível e a cena subsequente entre os dois na cela é umas das mais antológicas da série e praticamente uma radiografia do personagem Vulcano. Essa passagem pode acabar abafada por estar inserida entre dois momentos de Kirk que acabam levando o momento para um contexto mais engraçado, mas sem dúvida é um momento importante desses dois personagens que vale a pena ser revisitado com atenção.

Scotty e Uhura tem bons momentos também. Aqui o engenheiro chefe da Enterprise tem a oportunidade de mostrar sua capacidade também como oficial comandante. Pode-se colocar um “se não” ao timing dos eventos muito bem sincronizados para permitir a figa de Kirk e Cia, quase um Deux – ex machina disfarçado, mas que felizmente funciona dentro da cadencia apresentada.

E Uhura é a responsável pelo momento de revelação da trama. Algo que talvez passasse desapercebido para alguns. Para esses essa revelação torna uma revisita ao segmento ainda mais interessante. Além disso a cena oferece um pouco do lado profissional da tenente, algo sempre bem vindo para os personagens secundários.

“Bread and Circuses” também uma reflexão sobre a liberdade e a manipulação das massas através do entretenimento através da TV (e atualmente das mídias sociais) e da temas que são bastante profundos e ainda relevantes e da voraz competição por audiência entre as TVs e seu vale tudo pela liderança entre os canais. Tal critica muito pertinente naquela época, tendo em vista que foi tal conceito que acabou por tirar a Série Clássica do ar, ainda é muito mais pertinente nos dias atuais.

Para além da trama esse enredo é capaz de sugerir diversas discussões antropológicas interessantes, como a já citada influência da TV, a menção ao fato de que com algumas “reformas sociais” foi possível suprimir revoltas como as que contribuíram para que o império romano caísse na Terra (A revolta liderada por Spartacus foi basicamente uma revolta de escravos que causou sérios problemas ao império até ser contida e derrotada por Crasso) e a forma como a propaganda e algumas medidas populistas podem (em tese) conceder alguma longevidade a regimes ditatórios com mais eficiência do que o uso da força. Claro que tudo são teorias fictícias, mas que oferecem uma boa possibilidade de debate.

Há também um bom trabalho da produção aqui, começando pelo trabalho de direção de Ralph Senensky que equilibra bem as cenas a bordo da Enterprise, as externas e o material que representa o mundo “alienígena”, embora não tão alienígena assim, se beneficia muito dos adereços de outras produções da Paramount.

Mas nem tudo são flores e aí vem o copo meio vazio infelizmente. Embora o segmento apresente diversas boas ideias o enredo é fortemente apoiado na famigerada e inverossímil “teoria do desenvolvimento paralelo dos mundos”. Embora esse postulado exista para baratear a série usando sempre essa desculpa para apresentar alienígenas com aparência e cultura humanas deveriam existir limites que aqui foram claramente ultrapassados não só pelo fato de as chances de haver um planeta exatamente igual à Terra levando em conta a vastidão do Universo serem virtualmente inexistentes essa impossibilidade é amplificada ao sugerir a possibilidade se uma “segunda” cultura Romana nesse improvável planeta.

Pelo menos em Patterns of Force havia a desculpa da contaminação cultural. Aqui nem isso. Tal pressuposto exige uma dose massiva de suspensão de descrença do espectador para que o segmento funcione, algo que pode ser um exercício impossível para muitos.

Enfim, dependendo de onde se olhe “Bread and Circuses” pode ser tanto uma boa hora de entretenimento quanto uma decepção se pensarmos na teoria inverossímil na qual se baseia. De toda forma o segmente merece o benefício da dúvida por ao menos oferecer possibilidades tanto de diversão quanto de reflexão.

Citações

“It is one of our most important laws that none of us may interfere with the affairs of others.”
(“Uma de nossas leis mais importantes é que nenhum de nos pode interferir com os assuntos de outros.”)
Kirk

“Once, just once, I’d like to be able to land someplace and say, “Behold, I am the Archangel Gabriel.”
(“Uma vez que, apenas uma vez, eu gostaria de poder descer em algum lugar e dizer, “Observem, eu sou o Arcanjo Gabriel”.)
McCoy

“You’re a Roman, Kirk, or you should have been.”
Você é um romano, Kirk, ou deveria ser.”
Claudius

“I’m trying to thank you, you pointed-ear hobgoblin!”
(“Eu estou tentando agradecer-lhe, seu duende de orelhas pontudas.”)
McCoy

Trivia

  • Os trajes e adereços usados aqui foram reaproveitados de épicos produzidos pela  Paramount, como Cleópatra.
  • A palavra sol em inglês (sun) tem semelhança com a palavra filho (son), o que causa a falta de entendimento sobre a origem da religião dos “rebeldes”. Tal situação é esclarecida apenas quando Uhura explica esta questão de linguística.
  • Spock declara que a número de mortos na Segunda Guerra Mundial teria sido de 21 milhões, quando na verdade, os mortos chegaram a 60 milhões. Quanto a fictícia Terceira Guerra mundial, Spock diz ter havido 37 milhões de mortos. Em Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, Riker diz que 600 milhões teriam morrido no conflito.
  • Bartell LaRue, que anuncia os jogos na TV, é dono da voz do Guardião da Eternidade em The City on the Edge of Forever”.
  • Ian Wolfe (4 de novembro de 1896 – 23 de janeiro de 1992; 95 anos), que interpretou Septimus, voltaria a serie no episódio da terceira temporada All Our Yesterdays como Sr. Atoz.
  • Este é o único episódio de TOS em que é explicitamente declarado que os nativos planetários estão falando em inglês
  • Além das referências de na Série Clássica nos episódios Miri“, “Bread and Circuses“, “Patterns of Force“e “The Omega Glory” a Lei de Desenvolvimento Planetário Paralelo de Hodgkin seria novamente mencionada em “Strange New World”, episodio da primeira temporada de Enterprise.

Ficha Técnica

História de Gene Roddenberry & Gene L. Coon
Dirigido por Ralph Senensky

Exibido em 15 de março de 1968 

Título em português: “Pão e Circo” (AIC-SP), “Pão e Circo” (VTI-Rio)

Elenco

William Shatner como James Tiberius Kirk
Leonard Nimoy 
como Spock
DeForest Kelley 
como Leonard H. McCoy

James Doohan como Montgomery Scott
Walter Koenig como Pavel Andreievich Chekov
Nichelle Nichols como Uhura
George Takei como Hikaru Sulu

Elenco convidado

William Smithers como Capt. R.M. Merik
Logan Ramsey como Claudius Marcus
Lois Jewell como Drusilla
Rhodes Reason como Flavius
Ian Wolfe como Septimus

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Edição de  Carlos H B Santos

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