Em 1991, com muito atraso, o conceito de televisão por assinatura chegava ao Brasil. Mal sabiam naquela época os trekkers tupiniquins que ali estava sua tábua de salvação para a carência monstruosa de episódios inéditos que assolou a comunidade durante praticamente uma década. A percepção não foi imediata.
Nos Estados Unidos, onde se originou, a ideia começou simplesmente como “TV a cabo” – a iniciativa de criar cabeamento para levar sinal de qualidade de emissoras abertas ou transmissões comunitárias a lugares onde a transmissão por ondas de rádio não era efetiva, como em regiões muito montanhosas.
Mais adiante, com a evolução das telecomunicações por satélite e a difusão dessas redes de cabos por vários cantos do país, dois eventos dariam origem a um novo mercado de televisão. O primeiro ocorreria em 1972, quando foi ao ar o primeiro programa do canal Home Box Office, ou HBO. Era o primeiro canal por assinatura, empreendimento do grupo Time-Life (junção dos proprietários das gigantescas revistas americanas Time e Life), mais tarde Time-Warner, com a fusão do conglomerado com o estúdio de cinema dos irmãos Warner, a partir de 1990. Distribuído via satélite e em sistemas de cabos, ele rapidamente se tornou o serviço de TV paga que crescia mais rápido nos Estados Unidos.

Evolução dos logos da HBO de 1972 aos tempos atuais. (Crédito: Logopedia)
O outro grande evento se daria em 1980, quando uma pequena estação independente de televisão, operando em frequência UHF, decidiu se transformar em um canal com 24 horas de notícias, pago e transmitido por satélite ou por cabo. Era a Cable News Network, que atualmente todo mundo conhece apenas como CNN.

O logo da CNN é o mesmo desde 1980; mudou só a cor, de preto para vermelho. (Crédito: Logopedia)
A partir desse ponto, o mercado de TV por assinatura se expandiu explosivamente nos Estados Unidos e, em meados da década de 1980, já respondia por 30% da audiência total das (então) três grandes redes de televisão americanas, NBC, ABC e CBS. Essa transformação, por sinal, impactaria a própria produção de Star Trek nos Estados Unidos, conforme a competição aumentava – tanto com a criação de novas redes abertas (como a Fox, em 1986, e a WB e a UPN, essa última da própria Paramount, em 1995) como com a rápida expansão das TVs por assinatura. Nesse mercado de canais pagos, em 1992 chegava nos EUA o Sci-Fi Channel (hoje Syfy), que se tornaria um grande expoente no campo da ficção científica televisiva. Iniciativas como a do Sci-Fi mostravam que havia muito espaço para produtos de nicho, que não tinham audiência suficiente para sobreviver na TV aberta, mas contavam com um público fiel, disposto a pagar por sua programação favorita.

A evolução do logo do antigo Sci-Fi Channel, hoje Syfy. (Crédito: logos-world.net)
O que nos leva de volta a 1991. Não foi por falta de tentar que a TV por assinatura demorou tanto para chegar aqui. Ao longo da década de 1970, já havia movimentos para tentar regulamentar o processo e trazer a tecnologia para cá. Mas isso sempre esbarrou no lobby que cercava os grandes conglomerados de comunicação, não desejosos de ter mais competição (isso para não falar no regime militar, que desejava manter controle estrito sobre o que era veiculado de forma massiva para a população brasileira).
Somente no final do mandato de José Sarney (primeiro presidente civil após o fim da ditadura, mas ainda levado ao cargo pelo voto indireto no Congresso, como vice de Tancredo Neves, falecido antes de tomar posse), em dezembro de 1989, o governo iniciaria a regulamentação do serviço de TV por assinatura, com as concessões estabelecidas em 1991, durante a gestão de Fernando Collor de Mello.
Como não seria muito difícil de prever, em se tratando de Brasil, a regulamentação não levou a grande diversificação no controle dos meios de comunicação. As principais empresas de TV a cabo a se formarem naquele período eram a dupla NET e Multicanal (ambas ligadas ao grupo Globo, por décadas já a força hegemônica na TV aberta) e a TVA (controlada pelo Grupo Abril, de Roberto Civita, que havia perdido nos anos 1980 a concorrência pelas concessões que contemplariam a Manchete e o SBT após a extinção da TV Tupi). Essas eram as empresas operadoras do sistema, que, por um bom tempo, seriam responsáveis por distribuir os sinais de TVs por assinatura no país. A Sky, que faria o mesmo serviço não por cabo, mas por satélite, surgiria um pouco depois, em 1996, também ligada ao grupo Globo? E quanto aos canais que essas operadoras iam distribuir? Eles eram fornecidos pelas programadoras, e aí tínhamos duas grandes: a própria TVA (hoje Vivo TV) e a Globosat (que você naturalmente pode adivinhar de quem era).
A TVA foi a primeira a entrar no jogo, ao comprar a Super Canal (empresa de 1989 que inaugurou o ramo de TV paga no Brasil), iniciando suas operações em 15 de setembro de 1991, com cinco canais: Showtime (filmes) ESPN (esportes), CNN (notícias), TNT (filmes e séries) e The Superstation (independente). Em 1993, entrou o Cartoon Network; em 1994 o Showtime foi substituído pelo HBO; e em 1995 entraram Discovery Channel, Fox e Eurochannel.

Logo original da TVA (Crédito: recriação em alta definição do ChatGPT, com base na versão original em baixa resolução).
Já a Globosat abriu seus trabalhos em 10 de novembro de 1991, trazendo quatro canais nacionais: Telecine, Top Sport, GNT (focado em jornalismo e documentários) e Multishow, de variedades. Em 1994, o TopSport seria rebatizado SporTV. Em 1995, chegou o Shoptime (focado em compras), e uma nova versão do Telecine, fruto de uma joint-venture com Paramount, Universal, MGM e Fox, para bater o HBO, ligado à Warner e presente no pacote da TVA.

Logotipo da Globosat em 1991. (Crédito: Logopedia)
Eis que, em 10 de maio de 1996, a sorte finalmente sorriria para os trekkers brasileiros, com o lançamento, entre os canais Globosat, do USA Network, uma parceria entre Universal Studios e Paramount Pictures. Se no começo não pareceu a sorte sorrindo, foi pelo menos uma piscadinha.
SÁBADOS SAFADOS
Criado em 1977 nos EUA, o USA Network começou com outro nome, Madison Square Garden Sports Network, e seu objetivo inicial era transmitir programação esportiva diretamente do famoso ginásio de Nova York. O nome USA só entrou em cena em 1980, e o canal em si trocaria de mãos algumas vezes entre empresas do mesmo grupo (nos anos 1980 a Paramount era uma empresa da Gulf + Western, que por sua vez era dona do Madison Square Guarden), ganhando um perfil mais ligado a filmes e séries. Em 1992, o Sci-Fi Channel seria lançado nos EUA como um canal irmão do USA.
A versão do canal para os países da América Latina falantes de espanhol chegaria em 1994, dois anos antes do Brasil. Em sua estreia por aqui pelas operadoras NET e Multicanal, em maio de 1996, ele vinha com a bagagem de já estar disponível em 17 milhões de lares nos EUA. E com uma proposta que Alberto Pecegueira, então diretor-geral da programadora Globosat, apelidava de “dois em um”. De domingo a sexta, o foco seria na marca USA, com séries policiais (como diversas encarnações de Lei e Ordem), sitcoms (como a popular Frasier), desenhos animados (como Duckman), filmes (combinando os catálogos da Paramount e da Universal) e programas de entretenimento (como o famosíssimo Entertainment Tonight). Aos sábados, a programação seria dedicada ao conteúdo do Sci-Fi Channel.

Evolução do logotipo do USA Network. No Brasil, o canal em 2004 foi rebatizado Universal Channel. (Crédito: Reprodução)
Não existia hipótese de se lançar uma programação dedicada à ficção científica e não incluir Star Trek no pacote, e por isso o USA nacional nem tentou. Desde o começo, os Sábados de Sci-Fi, como foram batizados pelo canal, incluíram tanto Jornada nas Estrelas em sua versão clássica como A Nova Geração. Mas, para desespero e agonia dos fãs, novamente apenas com os mesmos episódios já dublados das duas primeiras temporadas clássicas e da primeira de A Nova Geração, repetidos à exaustão. Não demorou tanto para que os mais frustrados rebatizassem o segmento como “Sábado Safado” (um dos maiores promotores do apelido na época foi Sérgio Figueiredo, assinando a coluna Penduricalhos, na revista Sci-Fi News).
Em 8 de junho de 1997, pouco mais de um ano após a estreia do canal, o Jornal do Brasil publicava cartas de dois desses espectadores insatisfeitos. “Venho lamentar a atitude do canal USA, da NET, que apresenta pela terceira vez consecutiva os episódios do primeiro ano da série Star Trek: The Next Generation”, escreveu Eduardo Fonseca, de Belo Horizonte. “Para meu desgosto, na semana que antecedeu a reprise do último episódio do primeiro ano da série, o USA mudou as chamadas, mostrando cenas dos episódios dos anos seguintes, dando sinais de que iria exibi-los.”
Fernando Terranova Lima, do Rio de Janeiro, também desceu a lenha. “É um absurdo a falta de consideração do canal USA (NET), que apresenta sempre os mesmos episódios da série Jornada nas Estrelas. Por que não passar os episódios ainda inéditos? Há muitos fãs ávidos por assistir às seis temporadas de A Nova Geração. Nesse ponto, a TV por assinatura está deixando muito a desejar e mantendo o mesmo padrão da Rede Globo: consideração zero com o telespectador de séries.”
O jornal foi buscar a resposta da diretora do USA, Débora Hirsch, em que ela alegou que é um procedimento normal repetir a temporada de um seriado.
Convenhamos, isso é verdade. Mesmo quando estamos falando da primeira exibição de uma nova série em seu exibidor de origem, a programação é salpicada de reprises para preencher as 52 semanas do ano com uma quantidade de episódios de uma temporada que corresponde aproximadamente à metade desse número. Mas ali o USA estava herdando uma frustração que já vinha de outros carnavais… Desde 1991, com a Manchete, e depois com a Record, os fãs estavam vendo os mesmos 52 episódios da Série Clássica e 26 de A Nova Geração. Quem viveu sabe a angústia que era estar nesse aparentemente infinito loop temporal.
A boa notícia: ele tinha data para terminar. Em sua resposta, Hirsch também traria um alento: o USA já havia adquirido os direitos de exibição da segunda temporada de A Nova Geração. “Esses capítulos são inéditos no Brasil e ainda precisam ser dublados. Daqui a três ou quatro meses os episódios da segunda temporada estarão prontos para ir ao ar no USA.”

Fãs descem a lenha em reprises do USA, em cartas publicadas no Jornal do Brasil em 8 de junho de 1997. (Crédito: Reprodução/BN)
Coloque aí na lista de promessas parcialmente cumpridas. Os segmentos de fato haviam sido adquiridos, mas a diretora havia sido otimista demais no prazo, e os episódios do segundo ano só chegariam em maio de 1998. Antes disso, contudo, uma rede de TV aberta faria uma última e valente tentativa de fazer Jornada nas Estrelas se firmar como atração em sua programação.
O TERCEIRO VEM ANTES DO SEGUNDO
Lembrando os bons tempos em que Deep Space Nine, em 1994, entregou uma boa audiência aos domingos, e contemplando o sucesso colossal que A Nova Geração fazia nos Estados Unidos, a direção da Rede Record quis dar mais uma chance à franquia, com um investimento importante: a aquisição de mais uma temporada inédita para exibição em TV aberta.
O cardápio, contudo, era vasto, e a emissora queria a bala de prata – o tiro certeiro. Quem consultar? Naturalmente, os fãs, então os únicos que pareciam entender esse misterioso fascínio de Jornada nas Estrelas. Luiz Navarro, presidente da Frota Estelar Brasil, recém-saído de seu auge midiático com a espetacular vinda de George Takei ao Brasil (que lhe valera uma promoção interna a “almirante”), foi um dos ouvidos pela rede e sugeriu que uma boa aposta seria pular direto para o terceiro ano de A Nova Geração, momento em que a série pareceu realmente decolar nos EUA, com clássicos como “Sins of the Father” e “Yesterday’s Enterprise”.
Sob o comando de Michael Piller, aquela temporada terminaria com o lendário episódio “The Best of Both Worlds”, que fez história na televisão ao criar, em 1990, um cliffhanger entre temporadas em que o próprio capitão da Enterprise, Jean-Luc Picard, parecia ter sido irremediavelmente perdido para os inimigos mais temíveis da Federação, os borgs. Navarro sabia do apelo da trama pois havia visto em primeira mão a reação de grupos seletos de fãs nas convenções da Frota Estelar, que seguiam exibindo para públicos superiores a 700 pessoas episódios até então inéditos no país.

Logo da Rede Record em 1997. (Crédito: Record/Reprodução)
A Frota Estelar também organizou uma campanha de “cartas” para pressionar a Record. Naquela época, cartas de papel já estavam dando lugar aos mais práticos fac-similes, ou, simplesmente, faxes – aparelhos que, por meio de uma transmissão via linha telefônica, geravam uma cópia de um documento no dispositivo de envio para um de destino. O e-mail até já existia, mas era ainda pouco disseminado e, por ser totalmente eletrônico, não tinha o mesmo impacto que um envio de fax, uma carta de papel ou mesmo um telefonema. A pressão aparentemente impressionou a Record, que decidiu então bancar a aposta.
A partir de agosto de 1997, a rede voltaria a exibir nacionalmente, aos sábados, às 20h40, A Nova Geração, agora com seu inédito e celebrado terceiro ano. Era o “sábado safado” sendo convertido em algo menos pernicioso, em plena TV aberta. E, como uma espécie de esquenta, a rede decidiu, a partir de 15 de fevereiro de 1997, trazer praticamente no mesmo horário (21h) os episódios da Série Clássica, talvez como um aperitivo, na esperança de criar uma cultura entre os trekkers de sintonizar no canal todos os sábados, antes de servir o prato principal.

Anúncio da volta de A Nova Geração à Record. (Crédito: Reprodução)
Uma consulta aos relatórios do Ibope (desta vez índices nacionais, não diretamente comparáveis com os da Grande São Paulo) feita pelo Trek Brasilis no AEL (Arquivo Edgard Leurenoth), curado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), indica que a estratégia não foi exatamente um espetáculo. Com 2 a 3 pontos (o equivalente a 2% a 3% dos televisores), essa nova largada da Série Clássica parecia até um pouco pior que as anteriores – até porque já havia, embora modesta, a concorrência da TV por assinatura, que exibia esses mesmos episódios via USA Network e com alguns requintes, como qualidade superior de imagem (afinal, o conteúdo para muitos chegava por cabo, não pelo ar) e o uso do recurso SAP (que oferecia uma trilha de áudio alternativa com o original em inglês, uma novidade indisponível na TV aberta).
Contudo, esse quadro mudaria com a estreia dos fantásticos e inéditos episódios do terceiro ano de A Nova Geração, certo? A Record fez o que pôde para tornar isso realidade. Além do esquenta com a Série Clássica, a emissora também comprou alguns conteúdos do exterior e montou um programa especial sobre Jornada nas Estrelas, a ser exibido uma semana antes de “Evolution”, o primeiro episódio do terceiro ano.
Essa produção nacional com enxertos de conteúdo externo foi ao ar em 16 de agosto de 1997, com apresentação de Luiz Navarro e Tania Correa, profissional da própria Record – que, como o “almirante”, se vestiu a caráter com um uniforme da série. O programa também teve participações de outros luminares do fandom trekker nacional, como Sérgio Figueiredo (o Figa, do pioneiro Star Trek Fan-Club do Brasil e da Abril Jovem) e Roosevelt Garcia (especialista em séries de TV, consagrado então pelo fanzine ENPE – E no Próximo Episódio), além de roteiro de Paulo Gustavo Pereira, jornalista de entretenimento e consultor da CIC Video. Mais cedo naquele mesmo dia, pasme, havia ocorrido em São Paulo mais uma convenção da Frota Estelar. O fã-clube estava com tudo.

Tania Correa e Luiz Navarro explicam a ida à terceira temporada em especial exibido pela Record em 16 de agosto de 1997. (Crédito: Reprodução/Arquivo Carlos Amorim)
Em editorial na edição de outubro do fanzine Diário de Bordo, Navarro festejava a reinserção da série na TV aberta. “Você conseguiu! Toda vez que você assistir a Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, pela Rede Record de Televisão, aos sábados às 20h40, lembre-se de que você foi um dos responsáveis por esta atitude tomada pelo pessoal de programação da emissora.”
Ele prossegue citando um diretor de programação (provavelmente Eduardo Lafon, diretor da Record indicado nominalmente ao fim do texto), que teria dito que “nunca, em toda história recente da emissora, eles haviam recebido tantos faxes e cartas para pedir a exibição de um programa”. “Foram bobinas e mais bobinas de papel que o pessoal da secretaria era obrigado a colocar na máquina. Essa atitude, nunca antes tomada por fãs, foi decisiva para influenciar na grade de programação”, festeja.
Era mais marketing do que realidade. A Record já vinha com esse plano antes da campanha, colocando a Série Clássica na grade no mesmo horário desde fevereiro. Mas certamente a ação do fã-clube não atrapalhou e funcionou bem para valorizar a autoestima dos fãs. Navarro, por sinal, encerra aquele texto num tom mais sóbrio, sugerindo que os trekkers voltem a contatar a rede para agradecer a iniciativa e divulguem a série para os amigos, “pois parece que a Record só comprará os próximos anos de produção se Jornada mantiver de 3 a 4 pontos no Ibope”.
A ESTREIA DO TERCEIRO ANO
Tudo pronto. Em 23 de agosto de 1997, o primeiro episódio inédito de Star Trek a ser exibido pela televisão brasileira desde 1991 vai ao ar, pela Rede Record. A audiência nacional? Três pontos, segundo o Ibope. Um honesto e promissor terceiro lugar, empatado com a rival Manchete e perdendo apenas para Globo e SBT. Na segunda semana, 2 pontos, mas ainda um honroso terceiro lugar, desta vez num empate triplo com Manchete e Bandeirantes. Na terceira, audiência entre 2 e 3 pontos, com a queda para o quarto lugar. Na quarta semana, 2 pontos, quarto lugar. Na quinta, 2 a 3 pontos, quarto lugar. Em outubro, a audiência já oscilava entre 1 e 2 pontos, e a Record chegava a amargar o último lugar na ferrenha luta pela audiência.
O experimento, infelizmente, fracassara, e não havia quantidade de fax que pudesse mudar isso. O badalado “The Best of Both Worlds”, com seu cliffhanger eletrizante, nem foi exibido. Após “Transfigurations”, penúltimo episódio da temporada, voltaram com “Evolution”, o primeiro. Ao concluir as exibições a que tinha direito por contrato (salpicadas por dois episódios do segundo ano que acabaram entrando de gaiatos, em razão de uma crise no mundo da dublagem de que falaremos em seguida), a Record encerraria sua relação com Jornada nas Estrelas – ao menos com as séries.
Os filmes da saga, claro, eram outra história. E caberia à Record fazer a primeira exibição em TV aberta de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida, sexto e último longa com o elenco clássico. Mas isso só ocorreria em 20 de abril de 2000 (e não no dia 13, como originalmente anunciado), às 22h – um hiato de nove anos desde a exibição inaugural de Jornada V, pela Globo.

Resenha de Jornada VI publicada pelo Jornal do Brasil em 13 de abril de 2000; com uma mudança de última hora, o filme só iria ao ar no dia 20. (Crédito: Reprodução/BN)
O circuito pelo qual os filmes passavam, àquela altura, era mais longo. Depois do cinema, ele ia ao home video (inicialmente com VHS, mais tarde com o revolucionário DVD, de que falaremos oportunamente). Então, passava à TV fechada (por assinatura) e só então à TV aberta. Quando chegou à Record, Jornada VI já havia sido dublado e passado por todas as etapas anteriores, começando por uma exibição no Telecine, canal fechado da Globosat. Por sinal, esse foi um dos trabalhos de dublagem de Star Trek realizados entre 1997 e 1998 naqueles atribulados anos para o setor, na já famosa VTI-Rio.
DUBLAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO
“A Record adquiriu a terceira temporada de A Nova Geração e alguns especiais, para montar um programa especial. O canal USA adquiriu as segunda e terceira temporadas de A Nova Geração e a segunda e terceira temporadas da Clássica”, revelou Cristina Nastasi, então a principal consultora da distribuidora Network e da dubladora VTI para assuntos de Star Trek.
Esses trabalhos foram realizados simultaneamente, começando pelo que era prioritário, o segundo e o terceiro anos de A Nova Geração, respectivamente para USA e Record. Àquela altura, já fazia sete anos que a primeira temporada havia sido dublada, e a VTI tinha uma cultura interna de só trabalhar com profissionais contratados com carteira assinada, evitando os chamados “frilas”. Muitos dos dubladores que participaram do primeiro ano não estavam mais na casa quando chegou a hora de dar versão brasileira aos novos episódios. Um novo elenco, portanto, teve de ser escalado.
Os únicos que reprisaram seus papéis foram Marco Ribeiro (Geordi La Forge), Marly Ribeiro (Tasha Yar) e Leonel Abrantes (Miles O’Brien), sendo que Marco Ribeiro participa das duas novas temporadas e é trocado no andamento de ambas (evidenciando a gravação simultânea), substituído por Jorge Junior, que dublaria La Forge até a sexta temporada.
Apesar da mudança nas vozes, A Nova Geração no geral manteve o espírito do original. E a dublagem de duas temporadas praticamente de uma vez, e depois de outras subsequentes, permitiria que os dubladores fossem assimilando melhor o ritmo da série, aperfeiçoando sua interpretação.
Um grande destaque foi o versátil Márcio Simões (a segunda voz de Jack Bauer em 24 Horas e Samuel L. Jackson em vários filmes), dando (literalmente) um novo tom ao capitão Picard. Apesar da ausência de uma voz grave, ele compensou com uma impecável interpretação.

Márcio Simões, o novo Picard (qualquer semelhança capilar é mera coincidência). (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
Outro ponto de brilho foi o elenco feminino, com as vozes de Juraciara Diácovo (a voz da Scully de Arquivo-X), sempre competente como Beverly Crusher; Neli Amaral (a voz da atriz Linda Hunt em Silverado), com seu tom profundo como Guinan; Christiane Louise (a srta. Morello em Todo Mundo Odeia o Chris), em ótima participação como Deanna Troi, e Geysa Porto (a Vovó Pig em Peppa Pig, que depois dublaria a capitão Kathryn Janeway em Voyager), reproduzindo a implicante doutora Katherine Pulasky, a oficial médica-chefe na segunda temporada da série.
Uma voz que merece destaque por sua evolução ao longo dos episódios foi a de José Augusto Sendim (Nedd Stark em Game of Thrones e Darkseid nas animações da DC) como o primeiro oficial Will Riker. Há uma sensível melhora em sua interpretação; partindo de um começo hesitante, evoluiu para um domínio maior do personagem, constatado nas cenas em que o imediato se torna exigente em relação aos demais tripulantes. Eduardo “Duda” Ribeiro (a voz de Oliver Queen em Arrow) como Data é outro talento a ressaltar. Apesar da pouca experiência na época, demonstrou um grande domínio do personagem e correspondeu à importância dele na série. Paulo Vignollo (a voz do novo Jimmy Olsen de Lois & Clark e a primeira voz de Michael Kyle em Eu, a Patroa e as Crianças) consegue com talento reproduzir a jovialidade de Wesley.
Um raro degrau abaixo foi a escolha de José Santa-Cruz (a voz do Dino da Família Dinossauro) como Worf, em substituição ao ótimo trabalho de Guilherme Briggs no primeiro ano. Embora Santa-Cruz fosse um ator-dublador experiente, na profissão desde a década de 1970, ele não conseguiu “vestir” adequadamente o personagem. Faltou reproduzir a arrogância e a introspecção de Worf, sem mencionar a incômoda pronúncia do idioma klingon, frequentemente objeto de críticas dos fãs.

Juciara Diácovo (Beverly Crusher), José Augusto Sendim (Will Riker) e José Santa-Cruz (Worf). (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
Por sinal, pronúncia foi um problema dessas dublagens, que persistiria além das temporadas iniciais. Em mais de uma ocasião, algum dublador falou “clinton” em vez de klingon, e a direção deixou passar. Na época, a expressão virou sinônimo de “erro de dublagem” entre os fãs. Outros problemas envolveram a falta de cuidado com elenco recorrente. O personagem Q (John de Lancie), por exemplo, mudava de voz praticamente toda temporada.
Fora esses problemas de acabamento, no final tivemos um bom trabalho, mais uma vez com uma boa tradução de Claudia Chaves e Claudia Freitas, dupla do Jetcom, com adesão total à padronização de termos adotada para a série. E a qualidade deve ser ainda mais ressaltada por ter vindo num momento que culminaria numa greve capaz de afetar seriamente a indústria do entretenimento brasileira naquele 1997.
A GREVE DOS DUBLADORES
Um acordo coletivo assinado entre dubladores e empresas de dublagem em julho de 1996 previa o cumprimento de algumas medidas, como um limite de 20 cenas gravadas por hora e a proibição de dublagem de mais de um personagem em uma jornada de trabalho superior a uma hora. Além do desrespeito ao acordo, vários profissionais estavam tendo dificuldade para receber seus salários em dia. Isso, em contraste com cargas cada vez maiores, diante de uma demanda crescente por conta da expansão da TV por assinatura.
Entre 12 e 13 de março de 1997, os cerca de 170 dubladores do Rio de Janeiro fariam uma paralisação de 48 horas para reivindicar o cumprimento de pontos do acordo salarial. A “paradinha” não foi suficiente para sensibilizar os patrões. Em 28 de julho, os dubladores de São Paulo se reuniriam para discutir a possibilidade de greve, diante da improvável resolução amigável da contenda.
O movimento grevista ganharia corpo em 15 de setembro daquele ano, quando todos os aproximadamente 350 dubladores trabalhando no Brasil, distribuídos entre 17 empresas em São Paulo e 10 no Rio de Janeiro, decidiram cruzar os braços para valer. Isso com direito a protestos e passeatas.
A greve lembrou outro grande momento histórico, ocorrido quase 20 anos antes, em 1978, em pleno regime militar, quando os profissionais da dublagem decidiram se recusar a trabalhar por mudanças importantes no exercício da sua profissão. Naquela ocasião, uma greve de quatro meses se desenrolou, e por meio dela os profissionais conquistaram avanços importantes, como o pagamento por hora trabalhada e não mais por cena (loop), o que naturalmente trazia uma remuneração mais vantajosa e justa.
Duas décadas depois, os dubladores seguiam lutando por seus direitos. A tabela de pagamentos da época era de R$ 16 por hora (com carteira assinada) e R$ 22 por hora (como frila), sem atualização desde o Plano Real, instituído em 1994. Os dubladores queriam reajustes para R$ 65 e R$ 84, respectivamente. A Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo propôs um valor intermediário, R$ 30 e R$ 39. De início, não houve acordo.

Imagens de passeatas da histórica greve de dubladores de 1997. (Crédito: Dublapedia Brasil)
A paralisação durou cerca de três meses – o que era uma eternidade nesse mercado, em que episódios podem ser dublados apenas uns poucos dias antes de sua exibição agendada. Com menos de 20 dias de greve, programas já começavam a sair do ar nas TVs abertas. A novela mexicana Canavial de Paixões, então exibida pela CNT/Gazeta, foi um caso sui generis – quebraram os capítulos em duas metades e reduziram o tempo de exibição diário para que o material já dublado durasse mais tempo.
O caos foi se prolongando nas semanas seguintes, canais foram impedidos de estrear na TV a cabo por falta de material dublado, a chegada de novos programas foi adiada e as reprises, por um bom tempo, viraram tábua de salvação das grades de programação.
Nesse contexto, a estreia da terceira temporada de A Nova Geração na Record até que pagou um preço modesto. A primeira exibição, em 23 de agosto de 1997, foi antes da greve, embora perto de seu início, o que poderia ter tido um impacto devastador. Por sorte, a dublagem já estava relativamente avançada e, de quebra, a VTI estava também dublando em paralelo episódios da segunda temporada da série, por encomenda do USA. A responsável por entregar a ambos os canais o material encomendado era da distribuidora Network, de Victor Berbara, que suavizou a crise costurando um acordo para entregar dois episódios do segundo ano à Record.
Assim, a rede exibiu os três primeiros segmentos da terceira temporada (“Evolution”, “The Ensigns of Command” e “The Survivor”) e aí, para a surpresa do público especializado (mas provavelmente sem impacto para o espectador casual), lançou dois episódios da segunda temporada (“Elementary, Dear Data” e “The Outrageous Okona”), para então voltar com segmentos do terceiro ano (a partir de “Who Watches the Watchers?”). Esse respiro de duas semanas, somado ao adiantamento do processo de dublagem antes da greve, foi suficiente para que o resto da temporada pudesse ser exibido na TV aberta sem interrupções.
Quanto ao USA, ainda sem compromisso assumido com data oficial de lançamento e uma dependência ainda maior do trabalho da dublagem – afinal, o canal de TV pago havia encomendado não uma, mas duas temporadas de A Nova Geração, além dos episódios remanescentes da Série Clássica que ainda não tinham nova dublagem –, a escolha foi a cautela. Até para não precisar concorrer diretamente com a Record pela atenção dos fãs aos novos episódios e para poder estrear simultaneamente as novidades das duas séries, a direção do canal só foi realizar sua gloriosa estreia no Sábado Sci-Fi de 9 de maio de 1998 – quase um ano depois da promessa da diretora Hirsch no Jornal do Brasil.

Anúncio de exibição de Star Trek no Sábado Sci-Fi do USA. (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
VERSÃO BRASILEIRA ATÉ NO TÍTULO
Embora o USA Network fosse uma marca americana, com produções fornecidas pelos estúdios Paramount e Universal, a programação e todo o planejamento de marketing eram feitos no Brasil, em conjunto com a programadora Globosat. E a versão brasileira do canal se apropriou de uma moda prevalente sobretudo na Rede Globo: a de adaptar as aberturas das séries para o mercado brasileiro.
Isso aconteceu também com a Série Clássica e A Nova Geração. Pela primeira vez na história da franquia na televisão brasileira, após ouvirem a narração feita pelos capitães Kirk ou Picard, os espectadores não leriam Star Trek ou Star Trek: The Next Generation na tela, e sim Jornada nas Estrelas e Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Era uma intervenção mínima, mas muito contundente – e não de todo satisfatória. Não tanto pela escolha em si (até hoje muitos fãs preferem o nome em português ao em inglês; aqui no Trek Brasilis, usamos ambos indistintamente), mas pela qualidade do trabalho de adaptação. O corte do título original é feito pela sobreposição de um fundo preto com o novo letreiro, que, ao menos no caso da Série Clássica, sequer usa a fonte aplicada à versão original. O fundo estelar simplesmente sumia durante a apresentação do título.

O title card para exibição no Brasil: Jornada nas Estrelas. (E quem liga que é outra fonte?) (Crédito: Arquivo/Salvador Nogueira)
OK, era um preço pequeno a pagar por ter, finalmente, o programa original exibido por inteiro, com seus 79 segmentos. Nada de sofrer pelos “dez (ou nove) episódios perdidos” da era AIC-SP entre os anos 1970 e 1980, nem com os 27 “esquecidos” pela primeira era VTI-Rio, dublados para a Rede Manchete em 1991.
Ao preparar a redublagem desses episódios (3 do segundo ano e todos os 24 do terceiro), mais uma vez a dubladora teve de reescalar os papéis, uma vez que seu elenco já não contava mais com as vozes originais.
Para a nova voz do capitão Kirk, a VTI escolheu Marco Antonio Costa, dublador que, apesar de ter uma voz muito diferente da de Garcia Júnior, bem menos grave, fez um trabalho maravilhoso com o personagem, lembrando muito o jeito do jovem William Shatner no papel.

Marco Antonio Costa: médico, dublador e novo capitão Kirk da VTI (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
Entrevistado pelo Trek Brasilis para este relato, Costa contou que teve a opção de escolher entre Kirk e Riker (mais uma vez lembrando que tudo foi dublado mais ou menos ao mesmo tempo na VTI). Mesmo pesaroso por ter de calçar os grandes sapatos de Júnior, o dublador (que é médico e faz dublagens nas horas vagas) decidiu ir com o coração. “Substituir é ruim, mas eu gostava tanto da série e pensei, é a minha chance de deixar a minha voz numa série que curti muito no passado.”
A diretora de dublagem Celia Guimarães então o colocou para fazer um teste, uma cena curta com Kirk, para submeter à turma de assessoria do Jetcom, palavra ouvida em todas as decisões. “Ela disse, você pode fazer um teste aqui do Kirk, uma cena aqui pra eles verem se fica legal, uma cena com três ou quatro falas, tipo ‘Kirk para Enterprise’”, conta Costa. “Depois fui pra casa e o telefone tocou. Ela me disse, você vai fazer o Kirk, por eles está tudo bem.”

A diretora de dublagem Celia Guimarães também fez a voz da enfermeira Chapel. (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
O clima na passagem do bastão entre Júnior e Costa foi o melhor possível. “Quando chegaram os demais episódios, ele estava [trabalhando] na Disney. Não pôde fazer. Substituir é ruim. O personagem cria uma identidade com aquela voz. Os fãs iam ver… poxa, não é a mesma voz. Alguém tinha que fazer”, contou o dono da nova voz do capitão. “Ele já tinha me falado como era dublar… ‘ele [Shatner] dá umas pausas’, ele me falou.”
Em meio à dublagem dos primeiros episódios, também chegou para gravação a encomenda de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida. E assim Costa também pôde dar a voz a Kirk em um filme (era apenas a segunda vez que isso acontecia; a primeira foi com Emerson Camargo, primeiro dublador de Kirk na Série Clássica pela AIC, que voltaria para dublar o personagem no filme Jornada nas Estrelas: Generations, que curiosamente teve sua primeira dublagem antes de Jornada VI, para lançamento em VHS pela CIC Video, em 1995.
Spock também ganharia uma nova voz, a de Lauro Fabiano – e ele faria a dublagem de Jornada VI, e de um punhado de episódios do terceiro ano, antes de ser sacado da produção. Márcio Seixas, àquela altura lendário como a voz dos filmes da Disney e como o homem-morcego em Batman: The Animated Series, voltaria para mais uma vez dublar o vulcano mais famoso da galáxia, papel que ele havia feito nos primeiros 52 episódios da série para a VTI. Era um retorno mais que desejado.
SPOCK E A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
O veterano Lauro Fabiano causou imediata estranheza nos fãs, por sua voz rouca e pouca expressividade, num papel difícil como o de Spock. Em entrevista em 2022, ele revelou que não exatamente morria de amor por aquele trabalho. “Eu dublava e dirigia na VTI nesta época. Fui escalado para dublar o Spock. Eu não conhecia e não gostei da série. Me lembro de dublar vários episódios e dublei um filme.”
Foram exatamente seis os episódios com Fabiano, os três últimos do segundo ano (“The Ultimate Computer”, “The Omega Glory” e “Assignment: Earth”) e os três primeiros do terceiro (“Spectre of the Gun”, “Elaan of Troyius” e “The Enterprise Incident”), seguindo a ordem de produção da série, então adotada para o processo de dublagem e para a exibição. E aí a direção da Network/VTI decidiu sacá-lo para trazer Márcio Seixas de volta. O dublador contou ao Trek Brasilis, em 2001, sobre como tudo aconteceu, e é uma história saborosa, numa contenda motivada por… uma carteira de trabalho.
Seixas não gostava de ser registrado em carteira para fazer trabalhos específicos. Era um misto de nostalgia pelas palavras do pai, que sempre dizia que um bom profissional tinha poucos e longevos registros em sua carteira de trabalho, e uma escolha de carreira – algo que já havia trazido desconforto em 1991, quando ele chegou para fazer a voz do vulcano pela primeira vez.

Márcio Seixas, a voz de Spock na VTI. (Crédito: A Memória da Dublagem)
“Quando comecei a fazer o Spock, já achei chato ter que dar minha carteira de trabalho, porque por mim ela só teria a assinatura das rádios que eu trabalhei em BH, a rádio Jornal do Brasil, a Herbert Richers e só. Para mim já estava cheia demais a carteira”, contou. “Quando fui fazer Jornada, muito entusiasmado, não quis questionar muito o fato do [Victor] Berbara [dono da dubladora VTI-Rio] exigir que os dubladores fossem registrados em carteira. Tá bom, fui registrar, enfim, para efeito de fiscalização, e dublamos tudo [que havia sido pedido, os primeiros 52 episódios]. Acabou o seriado, não tive mais interesse em continuar trabalhando, deram baixa na minha carteira, foram sempre muito corretos – a VTI é sempre muito correta.”
Quando a redublagem dos episódios remanescentes foi encomendada, em 1997, Cristina Nastasi e o pessoal do Jetcom tinham uma ótima relação com Seixas e o queriam de volta na série. O dublador concordou, com uma condição: sem registro em carteira. “Victor Berbara me liga. ‘Márcio, no way’. Nunca vou me esquecer desse ‘no way’ dele. ‘No way, carteira assinada, você vai dublar o Spock e todos os trabalhos da casa durante o período que você estiver dublando o restante do seriado’. Eu falei, ‘não vou fazer’. Ele falou, ‘então você não vai fazer a série’. ‘Não tem problema, não faço a série’.”
Vida que segue. Um belo dia de meados de 1998, Márcio Seixas liga a TV, ouve Lauro Fabiano como a voz do Spock no USA. E decide telefonar para Berbara.
“Falei, ‘Dr. Victor, no sábado eu estava vendo Jornada nas Estrelas, e vi o Spock, eu…’, foi só o que consegui dizer, porque, a partir daí, ouvi quase 50 minutos de esporro”, diz Seixas. “Eu não dizia uma palavra. Ele estava apoplético no telefone. O culpado era eu, ele me deu todas as chances – estou repetindo o que ele falou para mim –, e que agora não adiantava eu vir chorar no ouvido dele. Depois de 50 minutos de ouvir esporro, o telefone do lado tocou, e ele disse assim, ‘olha, vamos desligar o telefone, que preciso trabalhar e não tenho tempo a perder, só para terminar nossa conversa, para você ter certeza do que estou falando, se o Lauro Fabiano morrer, nem assim você vai ser convidado para dublar o Spock. Tenha um bom dia, abraço’.”
Deprimido, Seixas ligou para Nastasi e contou o caso. Ela deu poucas esperanças. “Márcio, você conhece o dr. Victor, dificilmente ele vai reconsiderar essa posição.”
Exatos oito dias depois, toca o telefone na casa de Seixas. É Victor Berbara, tranquilo e sereno, como se nada houvesse.
“‘Oi, dr. Victor, tudo bem?’, ‘Vamos lá dublar o Spock?’”, o dublador conta, aos risos. “Não acreditei, falei: ‘Será que é trote? Não é possível’. ‘Está bem, dr. Victor, com muito prazer’. ‘Traga a carteira de trabalho, ok?’. ‘Tá, claro!’. Depois fui feito uma criança para lá, entreguei, e aí, ‘como vai o amigo?’. Ele não se lembrava daquele esporro.”
E assim Seixas se tornou o único dublador do elenco principal a retornar à série para completá-la. E chegou a travar contato com o USA para tentar convencê-los a solicitar a troca da voz dos seis episódios de Fabiano, que ele se disporia a gravar de graça. Mas a VTI não ia bancar o custo das gravações, e o USA não se motivou a solicitar a troca. Assim, os seis episódios ficaram com a voz de Fabiano.
Arredondando o elenco dessa bateria final de episódios da série e de Jornada VI, tivemos Leonel Abrantes (Ned Flanders em Os Simpsons), maravilhosamente implicante como McCoy; Mariangela Cantú (Brenda Johnson em Divisão Criminal) como Uhura, com mais um trabalho excelente; Carlos Seidl (Lionel Luthor em Smallville e seu Madruga em Chaves) como Scotty, usando um sotaque diferenciado; Sergio Stern (Quico no desenho Chaves), como Sulu, com uma voz grave; Mario Tupinambá (a voz carioca de Ben em Lost) como Chekov, com um sotaque russo divertidíssimo; e a diretora de dublagem Celia Guimarães fazendo jornada dupla como a enfermeira Chapel (essa só na série, já que no filme a personagem não aparece).

Mariangela Cantú (Uhura) e Carlos Seidl (Scotty). (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)

Carlos Stern (Sulu) e Marcos Tupinambá (Chekov). (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)
As vozes de narração do longa são de Gutemberg Barros (Julius em Todo Mundo Odeia o Chris) e Edmo Luis, e o elenco de apoio, também muito bem escolhido, conta com Christiane Louise (professora Morello em Todo Mundo Odeia o Chris) como Valeris; Julio Cezar (Indiana Jones nos filmes) como Gorkon; Márcio Simões (Picard) como Chang; Carlos Carvalho como Sarek; e Sheila Dorfman (Lorelay em Tal Mãe, Tal Filha) como Martia.
Um aspecto notável e marcante das dublagens da VTI, pelo lado negativo, é a limitação nas escolhas de elenco. Com os trabalhos restritos praticamente só a funcionários registrados em carteira, as vozes se repetiam de novo e de novo nas produções, o que fica evidente com Márcio Simões, então já como Picard, fazer também a voz do general Chang em Jornada VI. Isso se tornaria ainda mais evidente nos anos seguintes, com a consolidação do USA Network como a casa de Jornada nas Estrelas no Brasil.
STAR TREK ENCONTRA SEU LUGAR
O ambiente da TV aberta brasileira nos anos 1980 e 1990 não representava um desafio fácil para produções de ficção científica. Era uma época em que o gênero ainda não tinha o alcance e popularidade que viria a ter mais tarde, e as poucas produções existentes tinham dificuldade em se firmar. Com efeito, Jornada nas Estrelas estava abrindo caminho para elas nos Estados Unidos, com A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager, lançadas por lá respectivamente em 1987, 1993 e 1995. No Brasil, era ainda mais desafiador. Isso ajuda a explicar as várias tentativas malogradas de fazer essas séries decolarem para valer por aqui, começando com a Manchete em 1991 e passando pela Record entre 1994 e 1998. Jornada parecia ter uma audiência quase estável, mas gradualmente declinante, e fazia pouca diferença para o número de aparelhos ligados se o episódio exibido fosse inédito ou não. Nesse contexto, era inviável que uma rede de TV aberta voltasse a investir para valer na franquia.
A Bandeirantes até voltou a fazer uma breve tentativa de ao menos capitalizar em cima dos velhos episódios em 1999, no programa matutino É o Bicho, que trazia a Série Clássica a partir das 11h. A exibição foi iniciada em 5 de julho, e na primeira semana o programa teve uma participação de Aldo Novak, antigo membro da Frota Estelar Brasil, àquela altura realizando voo solo com outros eventos e iniciativas de fã-clubes.
Seria mais um esforço fadado ao fracasso. Não só o horário era péssimo, como os episódios sofriam cortes para caber numa janela de exibição de 55 minutos, para acomodar um programa religioso que entrava nos cinco minutos finais daquela hora. A série seria exibida até outubro daquele ano e depois seria trocada por desenhos e sitcoms.

Folha de S.Paulo reporta chegada de episódios inéditos de Star Trek no canal USA em 1998. (Crédito: Folha/Reprodução)
Na TV a cabo, contudo, as coisas evoluíam maravilhosamente. Diferentemente da TV aberta, em que a programação precisava apelar a um público amplo e diverso, nos canais fechados havia mais espaço para atrações de nicho, e os trekkers estavam mais do que felizes de pagar pela assinatura para ter, finalmente, suas séries favoritas na televisão, em temporadas inéditas, com versões dubladas em português e som original via tecla SAP.
Em março de 1998, anunciando a iminente chegada do segundo ano inédito de A Nova Geração, seguido pelo terceiro (já dublado para a Record) e os últimos 27 episódios da Série Clássica, o diretor do USA, Luiz Fernando Morao, esbanjava otimismo. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele declarou: “Pretendemos exibir todas as produções derivadas de Jornada que ainda são inéditas por aqui. No ano que vem, devemos lançar o quarto ano da Nova Geração e os anos posteriores.”
Havia razão para confiança, porque o mesmo projeto já estava dando muito certo logo ali, na Argentina. Por lá, los hermanos assistiriam em rápida sucessão às quatro versões live-action até então existentes de Viaje a las Estrellas (o nome de Star Trek adotado nos países hispanófonos), La Serie Original, La Nueva Generación, Deep Space Nine e Voyager, no canal fechado Uniseries, começando também em 1998, mas avançando mais depressa que por aqui, e concluindo a exibição completa das quatro atrações em 2003.

Star Trek na Argentina andou um passinho à frente do Brasil nos anos 1990-2000. (Crédito: Startrek.com)
O USA Network, por aqui, provavelmente tinha a mesma ambição, mas os prazos prometidos pelos executivos, como sempre, estavam um pouco descalibrados. Ainda assim, pela primeira vez, os fãs encontraram um canal de televisão (ainda que por assinatura) disposto a fazer de Star Trek de fato uma de suas marcas registradas.
Naturalmente, essa expansão na disponibilidade de conteúdo acabaria por esvaziar o gigantismo das convenções de fãs, uma vez que ninguém mais precisava caçar episódios inéditos em fitas VHS gravadas do exterior ou comparecer a eventos para poder vê-los. A partir daquele momento, tudo chegaria direto em casa, via cabo ou satélite, e informações fresquinhas sobre tudo que acontecia com Jornada nas Estrelas nos Estados Unidos já não dependiam mais de fanzines para chegar ao público local, em razão da expansão crescente da internet. Em 24 de setembro de 1999, surgiria um site que aproximaria como nunca antes os fãs brasileiros de tudo que estava rolando no universo trekker. Nascia o Trek Brasilis.
Continua…
Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.
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