O ano de 1991 foi muito especial. Star Trek celebrava seu vigésimo quinto aniversário, um dos mais marcantes em toda a história da franquia. Nos Estados Unidos, A Nova Geração havia superado a desconfiança do público sobre a viabilidade de reiniciar a saga na televisão com um elenco inteiramente novo e, àquela altura, atingia o auge da sua popularidade. Para marcar a ocasião, a Paramount também havia decidido lançar um sexto e derradeiro filme com a tripulação clássica, e Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida tinha estreia marcada para 13 de dezembro em solo americano, posteriormente antecipada para uma semana antes, 6 de dezembro. O mundo celebrava um marco na história do entretenimento, somado à comoção pela morte de seu criador, Gene Roddenberry, em 24 de outubro de 1991. No Brasil, não foi diferente.

Logotipo especial do 25º aniversário criado pela Paramount. (Crédito: StarfleetDesign)
O frenesi por aqui ganhou força com a reestreia da Série Clássica, assim como a chegada da primeira temporada de A Nova Geração, pela Rede Manchete, que a partir de junho daquele ano conseguiria bons resultados com as duas séries, sobretudo a antiga, que costumava assegurar o terceiro lugar em audiência nas tardes de segundas, quartas e sextas. O drama é que a rede de Adolpho Bloch naquele momento estava embriagada com o sucesso, dado o estouro da novela Pantanal, em 1990, que a colocava em primeiro lugar no horário nobre. O investimento em Star Trek estava em linha com essas recém-infladas ambições – não realistas (para dizer o mínimo), como o futuro em breve mostraria.
Isso não significa que não houve entusiasmo pela saga espacial por aqui. Pelo contrário; as exibições acalentaram os corações daqueles que sentiam falta da atração e inspiraram uma nova geração (sem trocadilho), ampliando o alcance do fandom de Jornada nas Estrelas no Brasil de forma considerável. E os fãs mais bem posicionados nas mais variadas indústrias fizeram valer o bom momento.
ENTRE REVISTAS E LIVROS
O jornalista Sérgio Figueiredo, bom e velho Figa dos tempos do Star Trek Fã-Clube do Brasil, de 1983, àquela altura trabalhava na Abril Jovem, divisão da editora responsável pela publicação de quadrinhos e revistas infantis. Surfando na onda dos 25 anos e da volta de Star Trek à televisão, emplacou a criação de uma revista mensal de quadrinhos da série, contendo histórias tanto inspiradas na Série Clássica quanto em A Nova Geração. A primeira edição saiu em novembro de 1991, às vésperas do lançamento do novo filme nos Estados Unidos (no Brasil, o longa só chegaria aos cinemas em 4 de março de 1992).

Anúncio de jornal da estreia de Jornada VI no Brasil. (Crédito: Wilson Maffetano)
Era mais uma valente tentativa de fazer decolar uma publicação de quadrinhos de Jornada em terras brasileiras. A primeira havia acontecido em 1971, ainda na esteira da exibição original da série, pela Ebal (Editora Brasil-América Ltda.). Em seu título Hiper, que teve 16 edições publicadas entre 1971 e 1973, 12 trouxeram Star Trek na capa, com histórias publicadas originalmente pela editora Gold Key, a primeira a obter uma licença da Paramount para desenvolver quadrinhos baseados na saga nos Estados Unidos, ainda em 1968.
A tentativa seguinte já viria pelas mãos da Editora Abril, em 1975, quando os direitos passaram à então gigante das bancas de revistas, com publicações que iam de Veja a Pato Donald. Foram ao todo seis edições trimestrais, mais uma vez com material produzido pela Gold Key (parte dele republicada das versões da Ebal), além de duas histórias inéditas feitas no Brasil, até dezembro de 1976. Em 1978, a editora ainda lançaria um almanaque de 196 páginas com mais sete histórias da Gold Key, e, em abril de 1980, traria a quadrinização de Jornada nas Estrelas: O Filme, originalmente produzida pela Marvel Comics, que deteve a licença por um breve período nos Estados Unidos quando da chegada da franquia aos cinemas.
Mais de uma década se passaria até que Figueiredo conseguisse convencer os executivos da Abril a retomar a brincadeira, por ocasião da volta da série – ou melhor, àquela altura, das séries – à televisão brasileira. E dobrando a aposta: além dos quadrinhos mensais, a editora traria um álbum de figurinhas de A Nova Geração, concebido originalmente pela italiana Panini, com 240 cromos autocolantes com cenas de alguns dos episódios da primeira temporada da série.

As nove edições dos quadrinhos lançados pela Abril em 1991-1992. (Crédito: Fernando Penteriche)


Até no álbum de figurinhas só tinha reprise do primeiro ano… (Crédito: Luciano Marzocca)
Entusiasmo similar veio do professor Pierluigi Piazzi, que em 1984 fundara a Editora Aleph. Por alguns anos, ela ficou conhecida por publicar livros paradidáticos, focados principalmente em informática. Mas, em outubro de 1991, Pier, como era chamado pelos amigos e alunos, iria aonde nenhum editor jamais estivera, anunciando o lançamento do primeiro romance de Star Trek publicado no Brasil.

Folha de S.Paulo reporta o lançamento do primeiro livro de Star Trek da Aleph. (Crédito: Arquivo Folha/Reprodução)
Portal do Tempo (no original, Yesterday’s Son, de A.C. Crispin, publicado pela Pocket Books nos Estados Unidos em 1983, curiosamente uma continuação de um episódio jamais exibido pela Manchete, “All Our Yesterdays”, da terceira temporada da Série Clássica) daria início à Coleção Star Trek, que teria rápida sequência com o lançamento do segundo volume, a romantização de “Encounter at Farpoint”, em dezembro daquele ano, seguido por Efeito Entropia (de Vonda McIntyre) e a romantização de Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida, programada para sair junto com a estreia do filme no país.
E aí, esfriou.
Um ano depois de desencadear todo esse frenesi, a Rede Manchete, em sérios apuros financeiros, desistiu de Star Trek. A Nova Geração deixou a grade de programação em junho, e a Série Clássica partiu em outubro de 1992, depois de uma breve estadia num horário mortal para a série, às nove da manhã.
Sem a televisão como motor para manter o interesse de um público mais amplo, a revista em quadrinhos da Abril – então só operando com tiragens gigantescas, o que ensejava expectativas de vendas idem – morreu em julho de 1992, após nove edições.
“Foi lançada no auge de A Nova Geração, que fazia sucesso nos Estados Unidos. O filme Jornada VI era esperado. Notícias de A Nova Geração espalhavam-se pelo mundo. Li os originais, negociei com o alto comando da Abril e tive autorização para lançar. Mas foi um fracasso de vendas”, sumarizou Sérgio Figueiredo em entrevista ao livro O Império dos Gibis: A Incrível História dos Quadrinhos da Editora Abril, publicado em 2019 pela Editora Heroica.
Os romances, pela Aleph, por sua vez, não viviam a situação da Abril, com a necessidade de vender quantidades na casa de dezena de milhar todos os meses, e seguiram sendo publicados, com o interesse alimentado por uma base de leitores fiel e uma organização cada vez maior dos fãs – aqueles que jamais, em momento algum, abandonaram Jornada nas Estrelas.

A Coleção Star Trek da Editora Aleph, que durou até 1997. (Crédito: Fernando Penteriche)
A EXPLOSÃO DOS FÃ-CLUBES
Imagine só, Star Trek volta com toda pompa e circunstância à TV brasileira, passa um ano em exibição entre 1991 e 1992, com apenas 52 dos 79 episódios da Série Clássica, e os 26 episódios da primeira temporada de A Nova Geração. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a série do capitão Picard já chegava à sua sexta temporada, como sucesso absoluto de público e de crítica, e em janeiro do ano seguinte veria a chegada de uma nova derivada, Deep Space Nine. E aí até mesmo os episódios já exibidos desaparecem da vida dos brasileiros, sem qualquer perspectiva de que os novos chegassem ao país. O único recurso eram as locadoras e as fitas VHS da CIC Video, com alguns poucos episódios clássicos, a maior parte do primeiro ano de A Nova Geração e os filmes.
Peraí. Os videocassetes, já nos anos 1980, tinham outra função interessante: eles não só podiam exibir conteúdos em fita, mas gravá-los, diretamente da televisão. Àquela altura, muitos fãs tinham episódios gravados para rever em casa. E alguns, mais sortudos, conheciam pessoas que moravam nos Estados Unidos. E essas pessoas tinham videocassetes. E podiam mandar suas gravações para as terras tupiniquins pelo correio, que então poderiam disseminar os episódios fazendo novas cópias ou, o que seria ainda mais divertido, promovendo exibições em eventos para fãs.
Estava em andamento a tempestade perfeita para que os fã-clubes de Star Trek vissem um crescimento explosivo no começo dos anos 1990. Ao mesmo tempo em que havia um palpável aumento no interesse, graças ao experimento Manchete, havia uma demanda reprimida enorme por novos episódios, que só as reuniões de fãs poderiam aplacar.
O que veríamos a seguir seria a consolidação da Frota Estelar Brasileira e do Jetcom, respectivamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, como os dois grandes fã-clubes brasileiros, além de um movimento explosivo do surgimento de outros grupos espalhados pelo país, em rápida sucessão.
O fã-clube Federação dos Planetas Unidos nasce ainda em 1991, em Curitiba, no Paraná – de início ligado à Frota Estelar Brasileira, mais tarde atuando de forma independente. Fundado por Carlos Alberto Machado, Túlio Paes Leme, Alex Freitas e Alexandre Rodrigues de Souza, entre outros membros, ele rapidamente se expandiu, tornando-se um exemplo a ser seguido e promovendo muitos eventos culturais em seu estado. Houve no grupo uma preocupação com qualidade de suas apresentações e com a preservação de sua história e suas criações. Eles criaram os fanzines Mensagem Sub-Espacial e Zona Neutra.
Por sinal, por vezes os fanzines surgiam sem ligação direta com um fã-clube, embora se alimentasse das atividades deles, como foi o caso do notório Trekker Report, criado e editado em 1992 pelos irmãos Paulo e Fernando Maffia, além de Gilberto Camargo, André Guerra, Julio Aires Monte-Maia, Luiz Roberto Mundel e Ivo Luiz Heinz, entre outros.

Edição do fanzine Trekker Report. (Crédito: Reprodução)
“A ideia de fazer o Trekker Report, inicialmente, foi numa reunião de grupos que o fã-clube Frota Estelar Brasil fez, bem no comecinho dos anos 90, para algumas atividades. Nela conheci o Fernando Maffia, irmão do Paulo Maffia”, contou Camargo ao Trek Brasilis em 2016. “Foi uma época muito legal. A internet nem existia, e depois era para poucos, então sempre foi uma epopeia conseguir as informações. Nossas reuniões de grupo para editar os fanzines pareciam trabalhos para escola.”
E como o fanzine era montado? Simples até demais: “Era tesoura, papel, xerox e cola. Sem impressoras ou programas de editoração, a gente fazia a impressão em pequenas gráficas.” A procura era grande em convenções da Frota, “onde vendíamos parte considerável da tiragem”, diz o editor, “sendo que a distribuição na cidade era feita por mim e pelo meu amigo Jorge Cosmo. O trabalho era bom, tínhamos muitos pontos de venda, sendo que as bancas da Avenida Paulista recebiam nossos fanzines.”
O grupo também iniciou a publicação de um segundo fanzine, Starfleet, voltado para naves estelares. Depois ocorreu a fusão entre os dois, formando o Trekker Mix, que mais tarde se tornou o Star Mix. Já ao final de sua produção, as publicações começaram a ser turbinadas com material de parceria com outros fanzines, como o ENPE – E No Próximo Episódio, de Roosevelt Garcia e Leonardo Bussadori, e do Jetcom.
E por falar no Jetcom, sua fundadora, a jornalista Cristina Nastasi, por uma das grandes forças motrizes para essa explosão de fã-clubes. Atuando como uma espécie de Bjo Trimble brasileira, ela mantinha um catálogo de contatos de entusiastas espalhados pelo país e ajudava organizações locais a reuni-los, numa época em que a internet ainda dava seus primeiros passos de bebê pelo Brasil e a principal ferramenta propiciada por ela era o e-mail.

Armando Santa Brígida, Cristina Nastasi e Sérgio Figueiredo em Belém, em 1996. (Crédito: Carlos Amorim)
Além disso, o Jetcom era bastante generoso com os conteúdos que tinha para exibir em seus eventos. Nastasi sempre procurou estimular a criação e o desenvolvimento de vários fã-clubes, ajudou diretamente na criação de alguns e participava ativamente de outros, Seus contatos com grupos mais isolados era constante e ela colaborava com textos para as publicações e com o envio de fitas VHS com episódios inéditos no Brasil, exibidos só no exterior, legendados pelo Jetcom, para exibições locais.
Um dos grupos criados diretamente com o auxílio de Nastasi foi o Estação Genesis, em Belém, surgido em 1993 sob a liderança de Marcelo Ferreira, que rapidamente se tornou um dos mais atuantes do país, realizando uma média de cinco eventos por ano e editando um fanzine: Diário da Estação. O grupo realizava eventos nacionais, contando com a presença de figuras importantes no cenário brasileiro, como a própria Nastasi e Sérgio Figueiredo. O grupo encerrou suas atividades em 2003, voltando, de forma esporádica, entre 2009 e 2011.

Danilo, Carlos Amorim, Cristina Nastasi, um representante da Editora Abril chamado Rogério, César Lima e Armando Santa Brígida, em um encontro da Estação Genesis em junho de 1996. (Crédito: Carlos Amorim)
Outro fã-clube que nasceu com o suporte da jornalista do Rio foi o Grupo Avançado, no Ceará, também extremamente atuante na década de 1990, encabeçado por Renato Ribeiro, Claudio Campos e outros. O grupo publicava um fanzine bimestral, o Relatório da Situação, e realizava exibições e eventos. Durou até 1998.
Em 1994, surgiria o principal grupo de Minas Gerais, o Organia Star Trek Fan Club, graças ao trio Alan Bernini, Fabiano Guilherme de Souza e José Guilherme Wasner Machado. Além de realizar eventos, a turma de Belo Horizonte foi uma desbravadora do novo território da internet, com um site que iniciou suas operações em 1996 e rapidamente se tornou uma das principais fontes de informação dos fãs não só de Minas, como do Brasil todo.

Em 1995, surgiria a Base Estelar Campinas. Em 1997, a USS Brazil, de Ralfo Furtado, grupo, ou “nave”, da International Federation of Trekkers (IFT), organização internacional de fãs. Em 1998, a Federação da Frota Estelar de São Paulo (FFESP). E muitos outros, dos mais variados tamanhos, também estavam pipocando pelo Brasil. Alguns exemplos: Solar 7 (de Santo André/SP), Star Trek Center (de Jundiaí/SP), Kobayashi Maru (de Porto Alegre/RS), Clube Estelar Star Trek (Belo Horizonte/MG)… são mais do que podemos contar e mencionar. Inicialmente mantidos via carta e telefone, depois via e-mail e web sites, os novos fã-clubes mantiveram grande interação entre si, formando uma grande rede de contatos. Isso possibilitou uma maior comunicação entre eles e uma colaboração de seus integrantes.
A VOLTA À TV (OU “A VINGANÇA DA RECORD”)
Em 1994, Star Trek voltaria à cena da televisão brasileira. E com uma surpresa: não com a Série Clássica, nem com A Nova Geração, mas com a então novíssima (estreada em janeiro de 1993 nos EUA) Deep Space Nine.
Desta vez foi a Rede Record a adquirir o produto, num pacotão que também incluiria as duas outras séries, e permitiria à emissora se vingar da Manchete, que meros três anos antes a empurrou para a quarta posição na audiência com as exibições de Jornada nas Estrelas.

Jornal do Brasil reporta a aquisição da Record em março de 1994. (Crédito: Reprodução)
Primeiro, contudo, o piloto de Deep Space Nine chegaria aos lares brasileiros por meio de uma fita VHS para locação, lançada pela CIC Video, em fevereiro de 1994. Como era típico para lançamentos de home video, o material viria legendado. Mas, com a aquisição da Record junto à distribuidora Network, de Victor Berbara, seria necessário dublar a primeira temporada da série, serviço que de novo recaiu sobre a empresa irmã VTI.

QUE NOVA MISSÃO?
Embora tivesse adquirido, de uma vez só, todos os episódios já dublados das séries anteriores, a Record decidiu estrear a nova atração primeiro, para ter um impacto maior de marketing. Para o título, a emissora queria algo menos cifrado que o original e ao mesmo tempo remetesse à nova geração sem citar A Nova Geração. Daí nasceu Jornada nas Estrelas: A Nova Missão, aprovado pela Network.
Deu certo. Exibida aos domingos, às 19h, a série de ficção científica funcionava bem como contraprogramação aos típicos programas dominicais de auditório ou transmissões de futebol que povoam, desde quase sempre, a televisão brasileira. A estreia se deu em 17 de abril de 1994, com a primeira parte de “Emissary”, o piloto da série, e teve boa audiência. Consultas aos relatórios do Ibope da época, feitas pelo Trek Brasilis no AEL (Arquivo Edgard Leurenoth) e curado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), revelam que rotineiramente a série fazia 3 ou 4 pontos de audiência (3% a 4% dos televisores), às vezes chegando a 5, e era então um dos programas de maior audiência da Record, como revelado pela Folha de S.Paulo em reportagem de 5 de junho daquele ano. Quatro pontos equivaliam, na época, a cerca de 160 mil televisores ligados, só em São Paulo.

Logo criado pela Record para Deep Space Nine. (Crédito: Tréquer/Reprodução)
Um dia ruim para a série foi o 17 de julho, quando Benjamin Sisko e sua tripulação tiveram que duelar na Record pela atenção do público brasileiro enquanto Bandeirantes e Globo transmitiam a final da Copa do Mundo de futebol, em que o Brasil se sagrou tetracampeão, nos Estados Unidos. Naquele dia, o Ibope marcou menos de um ponto. No mais, um desempenho sólido. Star Trek estava de volta.

DS9 é destaque no Jornal do Brasil no lançamento. (Crédito: Reprodução)
A DUBLAGEM DE DS9
Mais uma vez Cristina Nastasi e o Jetcom participaram da tradução da série junto à VTI. “Fomos contatados bem ‘em cima’ da data de estreia agendada pela Record”, conta a jornalista. “Tivemos que correr com a tradução do piloto. As gravações do piloto foram na segunda, terça e quarta-feira, com a estreia marcada para o domingo seguinte.” Episódios subsequentes seriam dublados de forma praticamente simultânea a sua exibição na TV, e a tradução ficou a cargo de Georges Ribeiro.
Escolhas importantes teriam de ser feitas logo no início e no geral, apesar do tempo escasso, foram bem feitas. Para o nome da estação Deep Space 9, a dublagem optou por uma simplificação, indo com Estação 9. Talvez “Deep Space Nove” fizesse mais sentido, em linha com a escolha geral de não traduzir nomes de naves, mas traduzir números, mas Estação 9 não comprometeu.
A opção por “fenda espacial” para o wormhole, de novo, oferece uma simplificação razoável, que torna a história mais compreensível para a audiência. Por outro lado, a dublagem perdeu a chance de ser a primeira a popularizar a tradução que os cientistas de fato usam para descrever esse fenômeno astronômico hipotético, “buraco de minhoca”. O termo só ganharia os botecos do Brasil e do mundo definitivamente com o filme Interestelar, de Christopher Nolan, em 2014.
As naves runabouts viraram exploradores, numa escolha muito feliz, tanto do ponto de vista da tradução como da sonoridade e do número de sílabas. E com a synthale, algo como cerveja sintética, não teve jeito e, para fazer caber, foram com a simplificação: “cerveja”. A única real decepção, quase incompreensível, foi a dobra espacial, consagrada desde os anos 1960, que sumiu. Ribeiro optou por manter o inglês, warp, quando falam dos motores das naves estelares.
Apesar da pressa, dos deslizes e das inevitáveis escolhas de estilo (que, por definição, não têm como agradar a todos), a dublagem ficou muito boa, com uma escolha muito feliz do elenco e uma direção cuidadosa de Francisco José (a primeira voz de Dean Stockwell na série Contratempos). Um exemplo de excelência é a performance de Guilherme Briggs e Orlando Drummond como Quark e Odo – ambos deram uma “aula” de desempenho e desenvoltura juntos nas eternas e divertidas picuinhas entre os personagens.

Elenco de dublagem da primeira temporada de Deep Space Nine na VTI: Orlando Drummond (Odo); Selma Lopes (Kira), Guilherme Briggs (Quark), Francisco José (diretor de dublagem), Sylvia Sallusti (Jadzia) e Leonel Abrantes (O’Brien). (Crédito: Carlos Amorim)

Paulo Flores

Luiz Sergio Vieira
Outro destaque foi o talentoso e carismático Paulo Flores (a voz do sr. Richfield da Família Dinossauro), reproduzindo muito bem o jeito descontraído e as “duras” do comandante Benjamin Sisko em seus (nem sempre disciplinados) tripulantes. A curiosidade fica no fato de Flores já ter dublado o ator Avery Brooks antes, na série que o lançou ao estrelato, Um Homem Chamado Falcão (no original, A Man Called Hawk), exibida pela Rede Globo.
Não podemos esquecer o talento de Sylvia Sallusti (a voz da personagem-título em Buffy – A Caça-Vampiros) como Jadzia Dax, as sempre boas interpretações de Selma Lopes como a major Kira e de Nizo Neto (filho de Chico Anysio e intérprete do personagem seu Ptolomeu da Escolinha do Professor Raimundo) como Julian Bashir, com sua sempre jovial e descontraída voz. Leonel Abrantes (a voz do locutor do desenho do Freakazoid), com sua voz nasal, lembra muito o sotaque irlandês do ator Colm Meaney (O’Brien) e Luiz Sergio Vieira, como Jake Sisko, traz uma boa interpretação, com destaque no episódio piloto.

Nizo Neto, seu Ptolomeu e doutor Bashir!
MAIS (VELHAS) JORNADAS
Como previsto e prometido, a Record passaria também, a partir de 1º de agosto de 1994, a reprisar os episódios da Série Clássica que já haviam sido exibidos na Manchete (apenas 52 dos 79), deixando os 27 restantes sem dublagem. Eram os “episódios perdidos” da nova era das versões brasileiras. A eles se seguiram as exibições da primeira temporada de A Nova Geração, de novo apenas os que já tinham dublagem. A emissora evidentemente não estava decepcionada, mas não a ponto de encomendar novas temporadas e dublagens – ao menos, não ainda.
No início de 1995, a Série Clássica preencheria os fins de tarde da Record em revezamento com as séries produzidas por Irwin Allen (Viagem ao Fundo do Mar, Terra de Gigantes e Túnel do Tempo), na sessão Tarde Maior. No segundo semestre daquele ano, a programação da Tarde Maior sofreria mudanças, iniciando às 13h e apresentando filmes, comédias, tokusatsus, animações e fechando com a Série Clássica. Os fãs que acompanharam esta fase hão de se lembrar que a Record, desde 1989 propriedade do bispo Edir Macedo, líder da denominação evangélica Igreja Universal do Reino de Deus, interrompia sem cerimônia os episódios às 18h para exibir a Oração das Seis. Depois voltava o episódio, de onde parou, como se nada tivesse acontecido.

Logo de Jornada nas Estrelas na Record, em 1994. (Crédito: USS Venture/Reprodução)

Logo de A Nova Geração feito pela Record em 1994. (Crédito: USS Venture/Reprodução)
As reprises infinitas, naturalmente, desgastavam os fãs, e ao mesmo tempo motivavam os fã-clubes a realizar cada vez mais e maiores eventos – ponto em que começava a se formar massa crítica para a realização de convenções internacionais, com a presença de astros das séries trazidos dos Estados Unidos. Curiosamente, a primeira visita de um ator ao Brasil por conta de Star Trek teve muito pouco a ver com os fãs.
AS GERAÇÕES COLIDEM
Enquanto o Brasil patinava com os mesmos episódios de sempre, a locomotiva que Star Trek se tornou para a Paramount Pictures não dava sinal de parar. No Brasil, apenas a primeira temporada de A Nova Geração havia chegado ao público, de forma repetitiva e exaustiva. Nos Estados Unidos, em 1994, a série concluía sete temporadas de sucesso e estava pronta para dar o salto ao cinema, promovendo o histórico encontro dos capitães James T. Kirk e Jean-Luc Picard.
A ideia, por lá, era passar o bastão de uma geração à seguinte, elevando o elenco da série ao cinema a partir da estreia, em 18 de novembro de 1994. Por aqui, o desafio era explicar como o espectador casual poderia assistir a um filme no cinema que se passa após sete temporadas de uma série de enorme sucesso das quais ele só viu a primeira.

Não tem mistério. É A Nova Geração. No cinema. Pronto. (Crédito: UIP/Paramount)
A UIP, empresa responsável pela distribuição do filme por essas bandas, não se preocupou muito com essa questão. Quando o fã-clube Frota Estelar Brasil (já de grife nova, depois de usar por algum tempo o nome Brasileira) propôs realizar uma pré-estreia, a companhia deu de ombros. E, de forma mais surpreendente, ao trazer o ator Brent Spiner (Data) ao país para promover o filme, praticamente o escondeu no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, não promovendo qualquer aparição pública. Spiner ficou restrito ao circuito de entrevistas com jornalistas, falando pessoalmente com os veículos cariocas e, por telefone, com os paulistas. (Vamos combinar que, para isso, poderia ele ter ficado em Los Angeles, e todas as entrevistas seriam por telefone, sem todos os custos da viagem. Realmente inexplicável.)
Cristina Nastasi e a turma do Jetcom, mais antenados e calhando de estarem na cidade certa na hora certa, conseguiram conhecer Spiner pessoalmente. Mas esse foi praticamente o único contato que o ator teve com fãs nessa curta estadia no Brasil, em março de 1995. O filme estrearia em 7 de abril, e a UIP acho que resolveria todos os problemas batizando o filme como Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Os espectadores que lutassem para entender a relação entre o filme e a série, como se diferenciavam, se era remake, se era continuação…

Cristina Nastasi e fãs do Jetcom encontram Brent Spiner, “escondido” no Copacabana Palace, no Rio. (Crédito: Arquivo/Carlos Amorim)

Brent Spiner dá entrevista ao Jornal do Brasil em março de 1992. (Crédito: Reprodução)
Em contraste com isso, a CIC Video caprichou quando chegou a hora de lançar o filme em VHS. Além de restituir o título original, agora Jornada nas Estrelas: Generations, a empresa pela primeira vez com a franquia lançaria um filme não só em cópias legendadas, mas também em versão dublada.
Para esse trabalho, a CIC contratou o estúdio paulista Álamo (o mesmo que, duas décadas atrás, havia feito a primeira dublagem da Série Animada). Por uma sugestão do jornalista Paulo Gustavo Pereira, Emerson Camargo teve uma última oportunidade para voltar ao personagem de Kirk, em seu “canto do cisne”, reprisando o papel que inaugurara na dublagem original da série pela AIC-SP. A ele se juntaram Jonas Mello (Picard), Nair Silva (Guinan), Leonardo Camillo (Harriman), Carlos Campanille (Riker), Antonio Moreno (Worf), Luiz Laffey (Data), Maralise Tartarine (Lursa), Alessandra Araújo (B’Etor), com tradução de Jussara Simões. Mais tarde, uma segunda dublagem do filme seria feita para exibição na TV, sob a responsabilidade da VTI.

Voltando a se chamar Generations na capa (e Gerações na dublagem), este foi o primeiro filme a ser dublado especialmente para o lançamento em VHS. (Crédito: Enjoei/Reprodução)
CAPITÃO SULU
Ao longo da primeira metade da década de 1990, a Frota Estelar Brasil foi escalando suas operações, ampliando o alcance de seus eventos e boletins, além do fanzine Diário de Bordo. Em dezembro de 1994, as convenções do clube passaram a ocupar o antigo Cine Comodoro, na Av. São João, em São Paulo, enorme sala de cinema com capacidade para mil pessoas. Foram quatro eventos por lá, um deles uma estreia semiclandestina de Generations; uma vez que a UIP não autorizou a realização de uma pré-estreia (em contraste com o que havia acontecido em 1992 com Jornada VI, quando o clube teve autorização para fazer a exibição), o alto comando da Frota conseguiu emprestado um rolo de filme de outra sala de cinema para exibir pela manhã, antes das sessões.
Os dois eventos seguintes saltariam para o Auditório Economista Celso Furtado, o maior do Palácio das Convenções do Anhembi, com capacidade para 2.500 lugares. Àquela altura, era grande demais. E aí o clube deu um passo atrás, para dar dois à frente. Estabeleceu-se no Auditório Elis Regina, também no Anhembi (para 800 pessoas), que acabou se tornando o principal palco das convenções da Frota, com 26 convenções realizadas ao longo dos anos, e o Celso Furtado seria reservado a ambições maiores – quem sabe internacionais?
Para continuar crescendo, seus principais líderes, Luiz Navarro (trocando o sobrenome Ambrósio por um nome artístico), Aldo Novak (esse 100% nome artístico) e Amaury Simoni (esse se chama assim mesmo), decidiram ir aos Estados Unidos para fazer “primeiro contato”. Estiveram numa convenção americana em Orlando, na Flórida, em 1994, e em outra em Pasadena, na Califórnia, em novembro de 1995. Essa segunda viagem foi na verdade uma comitiva, com 25 pessoas – era um esforço para que o Brasil notasse e fosse notado pelos astros de Star Trek. Deu certo, contatos foram trocados, e então começaram as (difíceis) negociações para que o ator George Takei, àquela altura já capitão Hikaru Sulu, da USS Excelsior (conforme Jornada VI), viesse ao país para um evento com os fãs.
E tudo que não havia acontecido com Brent Spiner foi feito com Takei. A Frota Estelar Brasil promoveu com enorme sucesso a vinda do ator, que realizou coletiva de imprensa, falou a vários jornais e revistas e apareceu no prestigiado programa de entrevistas Jô Soares Onze e Meia, do SBT, por ocasião de sua passagem pelo país. A cada passo, o fã-clube promovia publicamente a agenda do ator, permitindo o encontro com fãs por onde passava.

George Takei entrevistado por Jô Soares no SBT. (Crédito: Amaury Simoni)
O evento em si, realizado no Auditório Economista Celso Furtado do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, no dia 28 de setembro de 1996, foi a maior convenção dedicada a Jornada nas Estrelas já feita no Brasil – antes ou depois. Navarro assumiu os riscos e viu um típico caso de Campo dos Sonhos: “construa e eles virão”. Com a convenção marcada e Takei confirmado, patrocinadores e apoiadores começaram a surgir. Um dos que fizeram ondas por lá foi a locadora 2001 Vídeo, que fechou exclusividade para a venda da mais recente novidade da CIC Video para o mercado de VHS: a venda direta de filmes ao consumidor, em vez de mera locação, “pelo preço de um CD”, como repetia o crítico de cinema Rubens Ewald Filho numa vinheta gravada para promover o projeto.
A CIC havia começado a lançar filmes para venda em 1995, e em 1996 foi convencida pelo jornalista Paulo Gustavo Pereira a lançar os seis filmes de Star Trek nesse formato mais econômico, com caixas de papelão. A 2001 ficaria responsável pelas vendas e montaria um stand no evento. As vendas foram tão avassaladoras que a loja teve de mandar um funcionário para fora no meio da convenção para ir buscar mais fitas.

Auditório Economista Celso Furtado quase lotado para receber George Takei. (Crédito: Amaury Simoni)

Takei se dirige aos fãs no Palácio das Convenções do Anhembi em 1996. (Crédito: Miguel Nascimento)

Amaury Simoni, Aldo Novak e Luiz Navarro, o “grande trio” da Frota Estelar Brasil nos anos 1990, com George Takei. (Crédito: Amaury Simoni)
Com o andar inferior lotado e o mezanino bem ocupado, a Convenção do Capitão Sulu reuniu mais de 2.000 fãs. Nada parecido voltaria a acontecer nas décadas seguintes. Além da presença inédita de um astro do seriado original, o evento contou com a exibição de três episódios – todos eles inéditos no Brasil. Mas a onda do fandom uma hora iria arrebentar na costa da televisão brasileira… e não tardaria.
Continua…
Carlos Amorim é advogado e pesquisador de dublagem e entretenimento, podendo ser encontrado nas redes sociais no Cinetvnews Virtual. Colaborou Salvador Nogueira.
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