TOS 1×04: The Enemy Within

Teletransporte divide o capitão Kirk em duas metades e abre debate filosófico. Leia agora a revisão do Trek Brasilis para “The Enemy Within”, de Jornada nas Estrelas: A Série Original.

Sinopse:

Data Estelar: 1672.1.

A Enterprise está em órbita do planeta Alfa 177, onde um grupo de descida está explorando a superfície. Um dos membros da equipe, o técnico Fisher, cai de um barranco e sofre uma contusão. Ao ser transportado de volta à nave, um mineral amarelado que impregnou sua roupa causou um defeito no transporte. Embora Scotty não tenha observado nenhum problema com o equipamento, quando Kirk volta à nave, o transporte faz com que ele seja duplicado.

Logo depois um animal é transportado e também se separa em dois: uma das cópias é dócil e a outra agressiva. Ao que tudo indica, o mesmo aconteceu com Kirk. Enquanto uma das cópias é honrada e de boa índole, a outra é diabólica e sem escrúpulos. Solta pela nave, a cópia má de Kirk realiza atos de violência injustificada, chegando até a ponto de tentar estuprar a ordenança Janice Rand.

Enquanto isso, o transporte continuava a dividir objetos em dois, forçando o restante do grupo de descida a permanecer na superfície do planeta. O anoitecer no acampamento era morte certa aos tripulantes, uma vez que a temperatura iria bem abaixo do nível de congelamento da água — condição que a equipe não estava equipada para enfrentar.

Conforme o tempo passa, o Kirk benévolo vai se enfraquecendo, perdendo sua capacidade de tomar decisões, enquanto seu contraparte malévolo está morrendo. Nenhum deles pode sobreviver sem a outra metade. O tempo está se esgotando, não só para o capitão, como também para a equipe na superfície.

Scotty efetua os reparos no transporte, mas não há tempo para testá-lo. McCoy teme porque o animal que havia sido antes dividido foi colocado no equipamento e, embora tenha sido convertido em um só, morreu. Kirk aceita os riscos e entra no transporte com seu contraparte, retornando à Enterprise inteiro e vivo. O grupo de descida é rapidamente trazido a bordo, antes de morrer por hipotermia aguda.

Comentários:

“The Enemy Within” utiliza mais uma vez um artifício fantasioso — a capacidade de o transporte gerar duas cópias de Kirk, uma com seu lado bom e outra com seu lado ruim — para explorar a dualidade existente dentro de cada ser humano.

O mecanismo da divisão, apesar de pouco verossímil, oferece um potencial dramático incrível, que é muito bem aproveitado ao longo da história. E o que é mais curioso, essa dualidade pode não ser apenas um artifício para confrontar o capitão Kirk com si mesmo. O segredo pode estar nos dois hemisférios do cérebro.

É sabido que, nos estágios iniciais de desenvolvimento de um embrião humano, se um dos hemisférios do cérebro é perdido, o outro é capaz de fazer “jornada dupla” e se encarregar de todas as tarefas. Essa capacidade extraordinária nos faz refletir se não há “backups” de todos os sistemas do cérebro nos dois hemisférios — incluindo a consciência.

É geralmente aceito que nossos processos conscientes normalmente são dados por atividade cerebral do lado esquerdo. E se há, de fato, uma “outra” consciência submersa no lado direito? Poderia ela, de algum modo, ser ativada e tomar conta da consciência esquerda, dando vazão a uma outra personalidade?

Essa discussão é obviamente extremamente teórica e filosófica (se alguém quiser se aventurar mais no assunto, uma leitura recomendada é “A Metafísica de Jornada nas Estrelas”, do filósofo Richard Hanley), mas é quase ou tão interessante quanto o conflito entre os dois lados de Kirk mostrado nesse episódio.

Claro que nem tudo são flores em “The Enemy Within”. Alguns elementos ficaram fora do contexto para o século 23, mesmo levando em conta que é uma série dos anos 60. Um dos instrumentos de McCoy, com o qual ele cura Fisher, não passa de um borrifador, daqueles que se usa para molhar plantas! Outro desses “provincianismos” ocorre quando Spock faz uma visita a Kirk em seu alojamento. O vulcano BATE na porta (toc, toc, toc)!

Também é especialmente embaraçosa (para não dizer engraçada) a cena em que Spock e Scotty estão imobilizando o cão com uma hipospray. Não convence nem um pouco que o engenheiro esteja segurando uma fera bravia enquanto Spock aplica a injeção. É hilário.

Tirando Kirk, que obviamente recebe um excelente tratamento para seu personagem (em uma belíssima atuação de Shatner como os dois capitães), Spock e McCoy também são bastante beneficiados. Eles pela primeira vez assumem o papel de antagonistas diretos, situação que tornaria o relacionamento dos dois tão interessante ao longo da série.

Aqui, Spock relata sua experiência com a dualidade (sua herança mestiça), justificando que o intelecto é capaz de conciliar as duas, dando uma chance a Kirk de sobreviver ao transporte. Já McCoy, ainda seria muito cedo para antecipar os riscos que o capitão estaria correndo ao ser reunido por meio do equipamento que já havia matado o animal.

Naturalmente (e como acabaria ocorrendo na maioria das vezes ao longo da série), Spock acaba vencendo a discussão, por uma razão muito simples. Kirk precisava ser salvo para o próximo episódio, assim como o grupo de descida na superfície do planeta, que contou com a participação de Sulu.

Aliás, o piloto da Enterprise cumpre uma função engraçada neste episódio: apesar de aparecer em várias ocasiões e ter várias falas, mesmo assim ele não tem importância nenhuma para o enredo.

Pior ainda é o papel a que se presta a ordenança Rand, um sinal claro do machismo existente nos anos 60. Ele faz o estilo “mulher de malandro”, sendo atraída pelo Kirk malévolo, mesmo depois de ele atacá-la. Ainda mais grave, ela mostra total submissão, dizendo não querer prejudicar o capitão e quase decidindo por não falar nada do ocorrido.

Por fim, chegamos a um problema grave da premissa do episódio. Por que não enviar uma nave auxiliar ao planeta para resgatar o grupo de descida? A razão é simples: ainda não havia naves auxiliares no seriado até esse ponto. Os veículos só surgiriam em “The Galileo Seven”, na metade do primeiro ano. De qualquer modo, não é um problema gravíssimo. Algumas linhas de diálogo que explicassem que uma nave auxiliar não poderia descer resolveriam facilmente o conflito, de modo que é melhor fingirmos que esse diálogo existiu, mas fora da visão das câmeras.

“The Enemy Within” faz um bom uso de um recurso que se tornaria cada vez mais corriqueiro (e menos impactante) ao longo da série. O confronto de dois Kirks. Vimos duas cópias do capitão mais tarde em “What Are Little Girls Made Of?”, “Mirror, Mirror”, “Whom Gods Destroy” e no filme “Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida”, mas essa utilização pioneira do recurso foi sem dúvida a melhor delas e a mais proveitosa para o personagem. Um clássico.

Citações:

Kirk mau – “I am captain Kirk!!!”
(“Eu sou o capitão Kirk!!!”)

Sulu – “Any possibility of getting us back aboard before the skiing season opens down here?”
(“Alguma chance de nos levar a bordo antes que comece aqui a temporada de ski?”)

McCoy – “Do you have a point, Spock?”
(“Você quer chegar a algum lugar, Spock?”)
Spock – “Yes, doctor. Always.”
(“Sim, doutor. Sempre.”)

Spock – “The impostor had some interesting qualities… wouldn’t you agree, yeoman?”
(“O impostor tinha algumas qualidades interessantes… não concorda, ordenança?”)

Trivia:

  • Primeira vez que McCoy usa o famoso bordão “It’s dead, Jim”.
  • Primeira vez que Spock utiliza o toque neural Vulcano. A sugestão foi de Leonard Nimoy, para manter a filosofia pacifista do personagem. No roteiro original, Spock nocauteava o Kirk malévolo com uma pancada na nuca, dada com a coronha do feiser.
  • Um blooper (erro de gravação) absurdo acontece quando vemos Kirk no planeta sem a insígnia em seu uniforme, no início do episódio. Após ser transportado, a insígnia volta a aparecer, sem explicações maiores. A razão é simples: para que os uniformes fossem lavados, era necessário tirar a insígnia. Naquela ocasião, alguém esqueceu de bordá-la de volta no tecido, e já era tarde demais para refilmar as cenas.
  • Outro blooper: as cenas de abertura com Kirk e Sulu no planeta foram invertidas. O cabelo dos dois está repartido para o lado contrário!
  • Os arranhões no rosto dos dois Kirks trocam de lado quando eles estão se confrontando na ponte.

Ficha técnica:

Escrito por Richard Matheson
Direção de Leo Penn
Exibido em 06/10/1966
Produção: 05

Elenco:

William Shatner como James Tiberius Kirk
Leonard Nimoy como Spock
DeForest Kelley como Leonard H. McCoy
James Doohan como Montgomery Scott
Nichelle Nichols como Uhura
George Takei como Hikaru Sulu

Elenco convidado:

Grace Lee Whitney como ordenança Rand
Jim Goodwin como tenente John Farrell
Edward Madden como técnico Fisher

15 Comments on "TOS 1×04: The Enemy Within"

  1. Jorge Rodrigues | 3 de dezembro de 2008 at 9:54 pm |

    Não esqueceis a camisa verde transpassada, criada apra diferenciar os dois “Kirks”, e ótima para encolher a barriguinha.

  2. Gilberto Mesquita | 3 de dezembro de 2008 at 10:10 pm |

    Discordo um pouco quando diz que Sulu não tem nenhuma importância para a trama, é justamente na deseperada tentativa de resgata-lo da superficie do planrta, que eles tentam de qualquer forma recuperar o transporte e o Kirk, que assim que se recupera ordena o teletransporte da equipe em terra.

  3. Gostei muito da atuação de Bill Shatner neste episódio, acho que foi um marco para ator.

    Interpretar 02 personalidades distintas.
    O tirano e o pacifico.
    Até hoje em dia com tantas técnicas o oficinas teatrais que os atores dipôem é dificil efetuar tais papéis, imagine então na década de 60.

    Parabéns Shatner.

  4. Grande episódio. Até a casnastrice do Shatner ajudou na composição do personagem ” mau”.
    Mas sem desmerecer a produção de JORNADA, que fazia o impossivel com o rçamento que tinha, na maioria sempre havia algo por assim dizer ‘falho’ ou descaradamente falço. Vide o microfone que McKoy
    usa em CORTE MARCIAL, como supresspor de batimento cardiaco. Considero estas coisa parte do charme da produção e tentar acha-las nos episódios
    é divertido.

  5. Coincidentemente outro dia estava assistindo esse episódio, e realmente ele é muito bom!!!!

    Eu me questionava também, o porque de não usarem uma nave auxiliar… mas agora está explicado…

    Vou assistir novamente para reparar nesses erros de gravacões…hehehe

    Abraços a todos!

  6. Se vc quer ver um erro (que eu ri d+), vai no episódio do “dia das bruxas”, agora me falta o nome, aonde a tripulação da entreprise vai parar no lar de uma mulher q faz d tudo para o kirk ficar, no final ela é apenas um monstrinho…
    Pois bem… o final com o monstrinho, da pra ver claramente as linhas que daum movimento para o fantoche… trash msm. eheheh

  7. E aquelas bruxas que ficavam chamando “caaaptaooo kiirrrkk…” eu ri demais! 😛

  8. Adoro aquele poodle demoníaco de um chifre só! rsrsrs…Demais!!!!

  9. O episódio é CATSPAW e tem uma cena ridicula também com uma maquete de papelão pra fazer com que o gato ficasse gigante, hilário

  10. Da matéria:

    “É sabido que, nos estágios iniciais de desenvolvimento de um embrião humano, se um dos hemisférios do cérebro é perdido, o outro é capaz de fazer “jornada dupla” e se encarregar de todas as tarefas. Essa capacidade extraordinária nos faz refletir se não há “backups” de todos os sistemas do cérebro nos dois hemisférios — incluindo a consciência.”

    Sim, Salvador, há mais do que backups nos hemisférios cerebrais.

    Até hoje me lembro de matérias médico-científicas da revista Seleções-Reader’s Digest sobre casos de pessoas – adultos e crianças – que sofriam de dores de cabeça e problemas de integridade cerebral.

    A única solução manobrada pelos médicos foi retirar totalmente o hemisfério do cérebro causador dos problemas/riscos.

    Os resultados foram surpreendentes, pois o hemisfério remanescente assumiu todas as funções do que foi retirado, sem deixar lacuna nenhuma nos pacientes que estão vivendo uma vida absoluta e plenamente normal.

    Corpo humano-maravilhosa máquina.

  11. Na minha infância eu tinha verdadeiro encanto por séries como Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo Mar, Túnel do Tempo e, claro, Jornada nas Estrelas.
    Cresci sempre com boas lembranças e acreditando que todas essas obras eram realmente marcantes e eternas. Foi com o mesmo interesse que, com o advento da tv a cabo, comecei a acompanhar esses seriados novamente e descobri o motivo que Star Trek é tão reverenciada e nobre exemplo de obra antiga que fica para a posteridade, arregimentando fãs e estudiosos, nos fazendo refletir que boas histórias são atemporais.
    Desta forma, quando revisitamos os seriados de ficção da décadas de 60 já citados, descobrimos que eles só serviram para fomentar a guerra fria entre EUA e U. Soviética e histórias bobas de monstros e bonecos falantes que queriam destruir a Terra, demonstrando que o olhar não estava para o horizonte. Descobrir que não existia magia e nem inteligência nesses seriados me fez valorizar ainda mais Star Trek. Só uma pequena e tímida ressalva a fazer para Túnel do tempo.
    Episódios como Inimigo Interior se mostraram tão eficazes que até hoje nos deparamos com histórias que nos reportam ao tema, isso demonstra a criatividade que pontuou a série até o final da segunda temporada. Salve Capitão Kirk. Ele não é canastrão.

  12. A mágica de ST nunca foi o efeito especial, foi a treatralidade da coisa, como nos livros, a narrativa nos transporta para aquela realidade. Nos faz sonhar, personagens carismáticos e como lembrado tem o sabor de infância de muitos de nós.
    Por isso. TOS é imbatível, insubstituível e maravilhoso.
    Achar que se pode substituir TOS é porque talves, nunca tenha gostado mesmo da série, eu a adoro, divirto-me quando a reencontro, é um entreterimento quase lúdico, maravilhoso.

  13. Acho que o mais unteressante deste episódio é que o escritor foi o Richard Metheson, um dos maiores ficicionistas a trabalhar para a televisao/cinema até hoje. Com o talento dele poderia até ter tido uma estória melhor mas mostra que haviam bons escritores contratados por Roddenberry.

  14. Richard Matheson era genial, escrevia muito bem.A historia foi até bem concebida para ser exibida no holloween, mas foi muito cortada e adaptada para o orçamento pequeno. Concordo que a ‘magica’ de Jornada nas Estrela nunca foram os efeitos especiais. Mas tem coisas nos efeitos que mesmo para a época e os já ditos muita vezes ‘poucos recursos’ que eram muito TOSCOS. Por vezes beirava o desleixo e a falta de criatividade. Isto se incorporou a magia da serie e hoje vemos como CULT. Adoro a serie e sempre assistirei de novo quando puder.

  15. Eu gostei muito deste episódio também. O Shatner fez muito bem os dois papéis (o bom e o mau). Eu assisto aos episódios em DVD no som original, com legendas, pois assim dá para “ouvir” o personagem melhor e tb “sentir” as suas reações, e neste episódio o Shatner convenceu.
    Vendo o McCoy suando aquele spray tipo “Veja” foi assustador… eu olhei aquilo e fiquei pensando… ãhhh ? E também fiquei me perguntando a razão de não usar uma nave auxiliar, mas o Salvador explicou o por quê. Valeu !
    Sobre o transporte dividir uma pessoa em 2, eu acho possível sim, primeiro porque é ficção e neste terreno tudo que for para ajudar no roteiro é válido… segundo porque em TNG temos um episódio memorável onde encontram o Scoty preso no coletor de um transporte, por vários anos… este episódio foi demais… um dia o Salvador vai chegar nele e teremos uma bela sinopse.

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