DSC 2×05: Saints of Imperfection

Viagem ao “mundo invertido” promove a ressurreição do doutor Culber

Sinopse

A Discovery prossegue em sua perseguição à nave auxiliar que Spock teria usado para fugir da Base Estelar 5. Após tentativas de comunicação fracassadas, um torpedo detonado próximo ao veículo consegue desabilitá-lo, e ele é trazido a bordo. Em seu interior, contudo, quem emerge é Philippa Georgiou.

Pike está intrigado com a visita da ex-capitão da Frota Estelar (sem saber que se trata de sua contraparte do universo do Espelho) e ela revela que agora faz parte da Seção 31, ordenada a apreender Spock pelos múltiplos assassinatos cometidos. Quando o capitão entra em seu gabinete, há um holograma de comunicação de Leland, o chefe da Seção 31. Ele instrui a Discovery a fornecer todos os dados disponíveis para a caçada a Spock, e informa que um oficial de ligação os encontrará em breve para isso.

Michael está duplamente perturbada: não só pela recente perda de sua amiga, a alferes Tilly, mas pela presença traumática de Georgiou, a imperatriz que ela ajudou a trazer para este universo. As coisas ficam ainda piores quando ela descobre quem é o oficial de ligação recém-chegado: Ash Tyler. Pike percebe o estado alterado da oficial de ciências e pede que ela revele a verdade sobre Tyler e Georgiou. Ela diz que se trata de conversa mais longa, que ela promete travar com ele num momento mais oportuno.

Enquanto isso, Stamets trabalha freneticamente na esperança de resgatar Tilly. Ele acredita que ela não foi desintegrada, e sim teletransportada, pelo casulo, de modo que agora estaria na rede micelial. O tenente-comandante então elabora um plano de resgate: a Discovery faria um “meio salto”, ficando parte dentro da rede micelial, parte no espaço-tempo convencional. Ele acredita que é possível cruzar em segurança a fronteira entre os dois mundos no cubo de esporos da engenharia.

Pike concorda em seguir com o plano, e Michael diz que não deixará Stamets ir sozinho à rede micelial. Os dois se colocam no cubo de esporos durante o salto e a Discovery fica presa entre dois mundos, como uma “aparadora de porta”.

Stamets e Michael partem atrás de Tilly, mas o tempo é curto — o micélio residente começa imediatamente a atacar o casco da nave, ameaçando desintegrá-lo em cerca de uma hora. Os dois detectam os sinais vitais da alferes, que está enfrentando seus próprios problemas. Em choque, ela é informada de que foi trazida por “May”, um dos seres fúngicos pertencente à espécie dos jahSepp, para ajudar a caçar um “monstro” que está devastando seu ecossistema.

Tilly se arma com um rifle feiser tipo 3, que se torna disponível assim que a Discovery faz seu “meio salto”, e parte numa caçada ao “monstro”, após “May” prometer que ela será levada de volta à nave depois que a missão estiver cumprida.

Stamets e Burnham encontram Tilly armada e, após algum momento de tensão, a alferes explica a “missão” que fez May trazê-la à rede micelial. O quarteto então passa a ir atrás do “monstro”, que se revela na verdade… o doutor Culber!

Aparentemente, Stamets involuntariamente transferiu a “mente” de Culber para a rede micelial no momento de sua morte, uma vez que ele mesmo estava entre os dois mundos quando Voq/Tyler assassinou o doutor. A partir da energia bruta que chegou à rede micelial, os jahSepp reconstruíram Culber com matéria de seu próprio plano existencial. Mas a presença do doutor instigava o micélio a consumi-lo, e para evitar isso o doutor recobriu seu corpo em casca de árvore (material tóxico para os jahSepp). Daí a noção de que ele seria um “monstro”.

Enquanto o mal entendido precisa ser desfeito, a Discovery está em sérios apuros, lentamente “afundando” na rede micelial. A tripulação precisa ficar toda no lado do espaço normal, para não correr o risco de ser retorcida violentamente, como aconteceu à tripulação da USS Glenn no acidente ocorrido no ano passado com aquela nave. Tyler percebe o problema e ativa sua insígnia-comunicador, para surpresa de Pike, pedindo ajuda a Leland, que prontamente revela a presença de uma nave próxima à Discovery, ocultada por algum tipo de projeção holográfica de camuflagem.

O capitão da Discovery está chocado, mas as circunstâncias não permitem que ele recuse a ajuda da nave da Seção 31, que usa sofisticados dispositivos de ancoragem de raio trator para impedir a submersão na rede micelial. Mas o tempo urge.

O grupo liderado por Stamets e Burnham tenta retornar à Discovery, cruzando a fronteira entre mundos dentro do cubo de esporos, mas aí vem a grande descoberta: Culber não pode atravessar. Seu corpo é feito de matéria da rede micelial, que se desfaz ao cruzar a divisa entre as realidades. Diante da pressa, ele está disposto a se sacrificar para salvar seus amigos, mas Tilly tem uma ideia de última hora: usar o casulo/teletransporte para reconstituir o corpo de Culber. “May” se compromete a fazer a tentativa (que só se viabiliza com a injeção de DNA original de Culber no casulo), mas com pesar — a iniciativa cortará a conexão entre as realidades fornecida pelo casulo e, com isso, romperá o elo entre Tilly e “May”. A alferes, contudo, promete que, de algum modo, o universo irá permitir que elas se reencontrem.

O grupo então cruza a fronteira entre realidades, retorna à Discovery, e conclui o “meio salto”, voltando totalmente ao espaço-tempo convencional. E então acompanham de forma angustiada o que acontecerá ao casulo na engenharia. Burnham e Stamets estão desesperançosos, mas ao final o casulo acaba se metamorfoseando em Culber — nu, renascido.

Enquanto Michael reflete sobre os últimos acontecimentos, Pike vai à nave da Seção 31, onde uma conversa com Leland é intermediada pela almirante Cornwell. De forma franca, ela sugere que Leland e Pike terão cooperar para encontrar Spock, que parece ser uma peça-chave no mistério dos sete sinais vermelhos, ao mesmo tempo que informa que o primeiro dos sinais deixou um sinal residual de táquions, o que pode indicar uma ligação com viagens no tempo. Com isso, o posto de Tyler na Discovery se torna permanente, para descontentamento de seu capitão.

Comentários

“Saints of Imperfection” não está entre as melhores coisas que Star Trek: Discovery já fez, mas realiza de forma competente, e ocasionalmente brilhante, a ressurreição do doutor Culber, um fato prenunciado desde a morte do personagem, na temporada anterior.

Além disso, o episódio fornece muitas respostas sobre como devemos imaginar a misteriosa rede micelial — conceito inspirado pela similaridade da vida real entre as maiores estruturas do cosmos e o padrão formado por micélios de fungos no subsolo de florestas. Com isso, também vêm mais pistas da inviabilidade tecnológica do motor de esporos a longo prazo. Mas não conte com uma aposentadoria excessivamente precoce do principal diferencial da USS Discovery.

O roteiro de Kirsten Beyer tem um mérito indiscutível: pela primeira vez vemos as tramas distintas de Discovery — Seção 31, a procura de Spock e a crise com “May” e a rede micelial — orquestradas como uma única história rica e entrelaçada. Se em Point of Light” as histórias todas pareciam desconjuntadas, quase como pedaços de episódios diferentes, e em An Obol for Charon vemos uma evolução estrutural, com uma trama A e uma trama B hierarquicamente bem definidas, aqui temos a perfeita combinação de todas as histórias num único “todo”, feito que não deve ser de modo algum subestimado.

O episódio também começa a desenhar de forma clara qual é a da Seção 31 no século 23. Nesse período, ela é aparentemente uma agência oficial ligada à Inteligência da Frota Estelar, amparada pelo Artigo 14, Seção 31, do Estatuto da Frota. A referência repetida aqui, por sinal, foi estabelecida em Enterprise, que retrata a Seção 31 como uma instituição clandestina — do mesmo modo que ela apareceria no século 24, em Deep Space Nine. Contudo, é ingênuo pensar que uma instituição passaria 200 anos na mesma condição, de forma que não exige muito da suspensão da descrença pensar que, durante o século 23, a Seção 31 é realmente parte oficial da estrutura da Frota Estelar. (Aliás, o próprio episódio que introduz a ideia em Enterprise“Affliction”, revela que a instituição clandestina seria exposta se Archer ficasse sabendo de sua existência, o que de fato acontece ao longo da história.)

Resta saber como será a evolução da Seção 31 de volta à clandestinidade em anos vindouros, mas certamente não é tema para agora.

E vamos e venhamos: independentemente do que você ache da Seção 31 ou de Discovery, Michelle Yeoh faz cada cena com a imperatriz Georgiou contar, especialmente na interação dela com Sonequa Martin-Green, como Michael Burnham. Que dupla interessante, um misto de antagonismo e confiança trepidante! Talvez seja um guilty pleasure, mas só vejo qualidades na presença de Yeoh como a Georgiou do espelho.

Anson Mount é outro que brilha incrivelmente neste episódio, apesar de não ser o ponto focal dele. Os momentos “capitão” dele são perfeitos, e Pike vai se mostrando uma figura fascinante, amável com sua tripulação, mas duro quando necessário. Basta ver os chegas-pra-lá que ele dá em Tyler e nas autoridades da Seção 31. Se nunca mais virmos o bom e velho capitão após a segunda temporada de Discovery, vai deixar saudade.

E claro que boa parte do episódio é “carregada” por Mary Wiseman, que revela a amplitude de seu talento como Tilly. Embora continuemos a rir com a alferes, sua situação aqui vai muito, muito além do alívio cômico, e a atriz não decepciona — com seu timing incrível, não perde a graça, nem deixa escapar o tamanho do trauma que envolveu o sequestro da personagem e seu envio a uma realidade alternativa. Uma apresentação muito realista, em meio a uma sequência altamente surreal.

Por falar nisso, que dizer dos efeitos visuais, fora o fato de que são absolutamente maravilhosos? Tanto a direção inspirada de David Barrett quanto o visual evocam a estranheza do “mundo invertido” de Stranger Things, reforçando a vibe que já vinha sendo dada a essa trama há dois episódios. Às vezes aqui o paralelo chega a ser literal; repare como a câmera vira de ponta-cabeça no momento em que vemos Tilly saindo do casulo!

A impressão que dá é que, em contraste com a temporada anterior, o objetivo agora é enfatizar toda a versatilidade de Star Trek, ainda mais potencializada pelos altíssimos valores de produção da série. Quer uma aventura clássica? New Eden. Quer algo à la Game of Thrones“Point of Light”. Stranger Things“Saints of Imperfection. E assim fica patente o valor de uma marca como Jornada, capaz de fazer tudo que as outras grandes séries pop fazem, e mais.

Para terminar, falemos do ponto ao mesmo tempo mais manjado e mais controverso do episódio: a ressurreição de Culber.

Bom, começando pelo aspecto emocional, acho que poucos discutiriam que todo o drama é muito bem executado. As atuações de Anthony Rapp e Wilson Cruz são comoventes, e os diálogos e ações, bem construídos. De apertar o coração é o momento de transição entre “tudo vai ficar bem” e “oh-oh!” quando o braço de Culber se desfaz ao cruzar a fronteira entre mundos. Discovery tem flertado perigosamente com o melodrama, mas ainda não cruzou a fronteira entre cenas emocionantes e novela mexicana. Aqui, em particular, tudo soa muito verdadeiro em termos emocionais, algo impressionante dado o aspecto fantástico dos eventos.

E que dizer, em termos narrativos, da ressurreição?

Cabe prefaciar dizendo que, do ponto de vista científico, nenhuma ressurreição é particularmente convincente — e, em nossa cultura, a de Spock nem é a mais conhecida ou reverenciada. Isso faz a gente se perguntar de cara se foi uma boa ou uma má ideia abraçar a noção? Há prós e contras dos dois lados. Ressuscitar Culber sacrifica o realismo e promove uma negação da morte, mas oferece incríveis possibilidades dramáticas para a volta desse personagem — certamente mudado pela experiência. Manter Culber morto transforma a ação feita na primeira temporada apenas para efeito de “choque” em mais um episódio da série “bury your gays”, mas mantém a possibilidade aberta de explorar o luto, um tema pouco abordado em Star Trek, por meio de Stamets.

No frigir dos ovos, as coisas se equilibram. Provavelmente quem gosta de uma série mais realista e sombria preferiria manter Culber morto, e quem prefere que o otimismo e o espírito “feel good” de Star Trek prevaleçam preferiria trazê-lo de volta.

Seja como for, tomando por base as regras internas do universo trekker, não há o que criticar. A rede micelial é, desde o início, um plano da realidade que se conecta ativamente com redes cerebrais (sempre foi preciso o sistema nervoso de um tardígrado espacial gigante e, mais tarde, de um humano modificado com DNA de tardígrado para uma interface bem-sucedida). Stamets de fato estava preso entre os dois mundos no momento da morte de Culber, e o vimos abraçado ao corpo do médico quando ele foi encontrado. É tão crível imaginar que os padrões neurais de Culber, na forma de energia, foram transportados inadvertidamente por Stamets para a rede micelial quanto supor que Spock, por telepatia, transferiu seus padrões neurais (ou “katra”, como queira) para a rede neuronal de McCoy, em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan.

Da mesma maneira, usar um casulo de teletransporte orgânico para converter sua colônia de células num corpo novo para Culber, usando seu DNA como base, é tão realista quanto qualquer maluquice já realizada com o teletransporte na história de Star Trek. Para não mencionar fabricar com um torpedo numa nebulosa um sistema planetário inteiro capaz de “contaminar” seletivamente organismos com um efeito regenerativo (Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock, estou falando com você). Aliás, caçando estudos científicos podemos argumentar que a ressurreição de Culber é até *mais* convincente que isso; há trabalhos científicos liderados pelo pioneiro do sequenciamento genético Craig Venter em que bactérias de uma espécie são convertidas em bactérias de outra espécie por um simples transplante de DNA. Por que não um transplante de DNA para transformar as células do casulo em células de Culber? (Claro que seria tecnicamente inviável transformar células de fungo transdimensional em um ser humano completo, mas Star Trek sempre foi de pegar conceitos científicos reais e empurrá-los além do ponto de quebra para efeitos dramáticos. Nada de novo no front.)

Considerando tudo isso, é difícil dizer que esta ressurreição em particular foi mal executada. Mas, claro, o real teste será o que vem depois disso. Se Culber e Stamets simplesmente voltarem à vida normal, como se nada houvesse, terá sido um grande desperdício. Mas, se souberem trabalhar o novo momento como um ponto de inflexão para os personagens, pode ser o começo de uma nova fase muito interessante da série para eles. A conferir.

Como crítica maior, fica o fato de que estão cozinhando demais o galo do Spock. Nada contra ele entrar mais adiante na temporada, mas se esse é o caso será que é uma boa escolha ficar martelando Spock episódio após episódio, numa trama que evolui em passo de tartaruga? Torçamos para que a espera esteja terminando e para que a criação de tanta expectativa não se converta em decepção.

Avaliação

Citações

Pike – “All personnel, this is Captain Pike. Starfleet… is a promise. I give my life for you; you give your life for me. And nobody gets left behind. Ensign Sylvia Tilly is out there, and she has every right to expect us. We keep our promises. Please report to your stations in designated safe zones in the starboard section. Good luck, and Godspeed to us all.” (“Todo o pessoal, aqui é o capitão Pike. A Frota Estelar… é uma promessa. Eu dou minha vida por você; você dá sua vida por mim. E ninguém fica para trás. A alferes Sylvia Tilly está lá fora e ela tem todo o direito de esperar por nós. Nós mantemos nossas promessas. Reportem-se a seus postos nas zonas seguras designadas na seção de estibordo. Boa sorte e iluminação para nós todos.”)

Pike – “Mr. Stamets, are you ready to execute this very bold, deeply insane plan of yours?” (“Sr. Stamets, está pronto para executar esse seu plano muito audaz e completamente insano?”)

Trivia

  • O título do episódio faz uma referência a uma citação do diretor Guillermo del Toro: “Monstros são os santos padroeiros da imperfeição”.
  • Repare que há muitas cenas em corredores da USS Discovery. São cenários que foram aprimorados, e estão mais longos.
  • Pike diz que a última vez que ouviu falar de Leland, ele estava lidando com crocodilos em Cestus III. Como sabemos, esse planeta seria atacado pelo réptil-humanoide Gorn em “Arena“, da Série Clássica.
  • O incidente a bordo da nave-irmã da Discovery, a USS Glenn NCC-1030, visto em “Context is for Kings” da primeira temporada, é citado aqui.
  • Para intimidar Leland, Georgiou ameaça revelar um segredo de uma missão conduzida por ele em Deneva, um planeta habitado que é afiliado da Federação, e que foi visto pela primeira vez em “Operation Annihilate“, da Série Clássica. Na HQ da IDW Star Trek: Discovery Annual (co-escrito pela autora deste episódio, Kirsten Beyer), Deneva foi onde Stamets começou a trabalhar em suas teorias da Rede Micelial, e onde conheceu o Dr. Culber.
  • O casco da USS Discovery é descrito como sendo de tritânio, assim como naves de Jornada dos séculos 22 e 24.
  • A nave da Seção 31 possui um sistema de camuflagem cuja tecnologia lembra bastante a usada na nave drone romulana no século 22, na trilogia “Babel One“, “United” e “The Aenar” da série Enterprise.
  • Aqui é revelado que Nhan é a nova chefe de segurança da USS Discovery. Ela é o terceiro personagem na função, após Ellen Landry e Ash Tyler.

Ficha Técnica

Escrito por Kirsten Beyer
Dirigido por David Barrett
Exibido em 14/02/2019
Produção: 205

Elenco

Sonequa Martin–Green como Michael Burnham
Doug Jones como Saru
Anthony Rapp como Paul Stamets
Mary Wiseman como Sylvia Tilly
Shazad Latif como Ash Tyler
Wilson Cruz como Dr. Hugh Culber
Anson Mount como Christopher Pike
Michelle Yeoh como Philippa Georgiou

Elenco convidado

Jayne Brook como Katrina Cornwell
Alan van Sprang como Leland
Rachael Ancheril como Nhan
Bahia Watson como May Ahearn
Hannah Cheesman como tenente-comandante Airiam
Emily Coutts como tenente Keyla Detmer
Patrick Kwok-Choon como tenente Gen Rhys
Oyin Oladejo como tenente Joann Owosekun
Ronnie Rowe Jr. como tenente R.A. Bryce
Julianne Grossman como computador da Discovery

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